Dia: 2 de Abril de 2011

Primeiro BBB, agora CARAS? O desfavor morreu...Analisamos três casos que escancaram como o Brasil ainda não tem estrutura para lidar com a idéia de liberdade de expressão.

Ricardo Gama, blogueiro carioca, sofreu uma tentativa de execução (que falhou por muito pouco) curiosamente após bater pesado em grandes autoridades no Rio de Janeiro.

Jair Bolsonaro, deputado reaça, repetiu seu veeeelho discurso preconceituoso na TV e gerou uma grande reação nacional, muito por causa da tentativa de Preta Gil ganhar mais alguns minutos de fama.

Cibele Dorsa, subcelebridade genérica, teve sua carta de suicídio enviada para a revista Caras censurada de forma bisonha pela justiça tupiniquim. Sim… revista Caras.

Desfavores da semana.

SOMIR

Como Sally escreve pelos cotovelos e mandou ver mais páginas do que o combinado (surpresa, surpresa…), não vou ficar descrevendo os casos de forma aprofundada, ficaria repetitivo. Vou aproveitar a coluna e falar um pouco mais sobre liberdade de expressão.

O plano inicial era falar sobre o assunto na coluna sobre o Bolsonaro mesmo, mas eu conheço nosso público fã de BBB e não quis deixar o texto confuso. Afinal, apesar de querer que o deputado carioca (supresa, surpresa…) seja punido pela lei, discordo dela por princípio.

Liberdade de expressão real é aquela que não agrada ninguém. E não digo isso porque quero ver todo mundo irritado, não agradar ninguém é o mais próximo de justiça que podemos alcançar numa situação dessas. Agradar a todos é efetivamente impossível.

Sim, esse tipo de impunidade traria à tona da sociedades pessoas que fariam o Bolsonaro parecer um “intelectualzinho de esquerda”. Mas ao mesmo tempo, faria com que os extremistas dessem a cara à tapa sem qualquer chance de fazerem o papel de vítimas de uma sociedade castradora. A liberdade de criar, por exemplo, uma sociedade neonazista com reuniões abertas e periódicas, também pintaria um alvo sobre as cabeças dos participantes.

Quer falar o que quer? Direito seu. Não quer sofrer as consequências? Boa sorte. O Estado não abandonaria os impopulares, mas não tem dessa de garantir a integridade física de todo mundo o tempo todo. Liberdade de expressão TOTAL também é liberdade de colher o que plantou.

Os americanos, por mais odiados que sejam aqui na América Vira-Latina, tem excelentes exemplos de como essa liberdade beirando a inconsequência pode funcionar para moderar o impacto dos extremistas. Talvez você já tenha ouvido falar da Westboro Baptist Church, mas eu vou situar mesmo assim: Como o próprio nome diz, é uma igreja mantida basicamente por uma família que ficou famosa pelas suas manifestações de extremo mau-gosto nos funerais dos soldados americanos. Eles não vão lá para reclamar da política imperialista ianque, eles vão protestar contra a queda dos valores cristãos no país. Para eles, os soldados morrem porque os EUA apóiam a homossexualidade. Nossos reaças cristãos são fichinha perto deles.

As famílias dos soldados ficaram furiosas e exigiram que eles parassem com os protestos. Não adiantou… A lei lá garante esse direito para os manifestantes. O que parece um efeito negativo da aplicação da liberdade de expressão total acabou minando de vez a pouca simpatia que os malucos tinham. A Westboro é odiada até mesmo pelas outras igrejas que pregam contra os homossexuais. O efeito que eles causam é justamente o oposto, vários ativistas já declararam que a família insana foi uma das melhores coisas a acontecer para o movimento dos direitos dos gays.

Processo parecido foi o da Ku-Klux-Klan, que de tanto professar e praticar seu ódio contra os negros, acabou dando munição para a revolução social que culminou no fim da segregação racial institucionalizada nos EUA. A KKK (Diboa?) podia e ainda pode dizer tudo o que quiser, mas está relegada como movimento extremista e sinônimo de vilania na maior parte do mundo. Eles acabam jogando contra o que pregam.

Claro que os EUA não se tornaram uma nação sem problemas por causa dessa liberdade, mas o resultado na balança entre vantagens e desvantagens corrobora com a idéia de que liberdade de expressão total é um caminho pra lá de viável.

Abrir a porta para a mensagem sem filtro abre a porta para a rejeição sem filtro. O mau-exemplo tem um poder que não pode ser ignorado; a auto-regulação social idem.

Aqui no Brasil o Estado tem o péssimo hábito de interferir nessas questões. Péssimo não por que o objetivo das leis seja maligno, mas pela aplicação desastrada e frequentemente tão preconceituosa quanto o que dispõe a combater.

Um deputado constrói a carreira sendo preconceituoso e só sofre alguma consequência quando encontra pelo caminho uma subcelebridade doida por atenção. Vivemos num país onde a ÚNICA forma de tentar vencer a impunidade de ricos e poderosos é enfiar os holofotes da mídia em sua cara por muito tempo. Se ninguém vai ter chance de aparecer e ficar famoso, o preconceito passa incólume.

Uma outra subcelebridade (quem se importa?) faz o papel RIDÍCULO de mandar sua carta de suicídio para uma revista de “pornografia da ostentação”, e como se não fosse horrível o suficiente, o ex-namorado dela (curiosamente RICO PRA CARALHO) consegue fazer com que a Justiça desta República das Bananas esfregue sal nas feridas da ditadura militar recente censurando seu nome (Doda Miranda: Processa Nós!) na carta publicada.

Um blogueiro (Ricardo Gama) recebe vários tiros depois de várias e várias postagens sobre os desmandos, ingerências e falcatruas de autoridades cariocas, tais quais o Governador Sérgio Cabral e o Prefeito Eduardo Paes. Com toda a pinta de queima de arquivo, o caso passou por baixo dos radares da grande mídia. Sally precisou me contar sobre o ocorrido. O caso é seriíssimo e o nosso Estado, tão participativo quando alguém rico ou famoso precisa de uma mãozinha, está assoviando e disfarçando até que o assunto esfrie.

Se é para intervir, que intervenha em prol de quem realmente precisa ter sua liberdade de expressão assegurada. Não para agradar a porra da Preta Gil (O Bolsonaro tinha que ter se fodido MUITO antes disso…) ou o babaca do Doda Miranda. Porque se for para fazer essa merda e deixar o povo à mercê de quem “pode mais”, é mais negócio liberar tudo de uma vez e criar uma cultura que valorize mais quem enfia o dedo na cara de quem não gosta e fala tudo o que pensa. Não dá para mandar matar todo mundo…

Para dizer que sua mente primitiva não consegue acomodar o conceito de seguir leis e discordar delas, para dizer que ainda está confuso(a) com a postagem de ontem, ou mesmo para dizer que só não me mandam matar para não desperdiçar balas: somir@desfavor.com

SALLY

Temos muitos desfavores nesta semana, mas todos tem um ponto em comum: liberdade de expressão. Somos um bebê engatinhando nesse quesito! Após anos de uma ditadura militar que restringiu nossa liberdade de expressão, somos como um passarinho que passou anos na gaiola e ainda tem dificuldades em voar. Vez por outra faz merda, para mais ou para menos.

O primeiro caso que queria comentar é o do blogueiro carioca RICARDO GAMA, conhecido por escrever um blog onde apresenta denúncias sobre diversos políticos, com mais foco no então Governador Sergio Cabral e o então Prefeito Eduardo Paes. Ele realmente se dedica à causa, viu? Tanto fez que acabou levando uns tiros. Sim, no plural. Vários tiros. Dois deles na cabeça. E SOBREVIVEU. Em uma entrevista para um jornal carioca ele confirmou que foi um atentado deliberado contra sua vida por vingaça e disse que tem certeza que foi por causa do blog que escreve. Nós blogueiros do Rio de Janeiro fizemos uma passeata pela liberdade de expressão no local onde ele foi baleado. Ricardo diz que não vai suspender o blog, mas o clima é de medo. Isso é liberdade de expressão? Devo apagar meus textos do Plantão Hell de Janeiro sobre o Complexo do Alemão ou devo começar a andar com escolta? Matar blogueiro é sacanagem.

Ricardo tem certeza sobre QUEM ele irritou, mas não tem certeza de que o assunto será investigado com imparcialidade pela polícia. Ele está com medo. É que quando falam que no Brasil existe liberdade de expressão, a gente acredita, porque é mais agradável acreditar nisso do que em coronelismo. Mas acontece uma coisa dessas e a verdade é esfregada na nossa cara. Ao que parece, pelo que foi narrado, foi uma tentativa truculenta de execução em um local público sem ao menos aquela clássica preocupação de fazer parecer que foi um assalto. Para quem conhece o Rio, vejam que desaforo: ele estava parado entre as Ruas Santa Clara e Barata Ribeiro, em Copacabana (muito movimentadas) quando ouviu alguém chamando seu nome de dentro de um carro. Virou para olhar e levou tiros. Sua reação após ser baleado? Segundo testemunhas gritou “É queima de arquivo!”. Detalhe: ele levou os tiros 11h da manhã.

Espero de coração que, mesmo que não se viva em um país com liberdade de expressão, não vire moda matar blogueiros (*lembrando das coisas que falei sobre Eduardo Paes e Sergio Cabral). Alguém sabe quanto custa um colete a prova de balas? Quem quiser conhecer um pouco mais sobre Ricardo Gama, eu recomendo. Pessoa séria, comprometida e ética: http://ricardo-gama.blogspot.com/. Desfavor repudia com todas as suas forças perseguição a blogueiros. Em breve estaremos lançando mais uma coluna do Desfavor: “Mata Eu!”.

Daí vem outra polêmica envolvendo liberdade de expressão: Cibele Dorsa, uma atriz/modelo/subcelebridade/nobody, que apenas ganhou fama por ter sido casada com Doda Miranda em um passado distante, decidiu que ia se suicidar. Ok, feio se matar, mas é direito dela. Daí decidiu que seria bacana se suicidar pulando da mesma janela na qual seu namorado Gilberto Scarpa (sobrinho do Chiquinho Scarpa, podia ser mais trash?) teria se suicidado semanas antes. Ok, uma merda namorar o sobrinho do Chiquinho Scarpa e o cara ainda se matar quando está namorando com você. Tá ruim o quadro? Calma que piora. Antes de se matar ela escreveu uma daquelas cartinhas de suicídio contando o que estava sentindo e tal. Vamos brincar de vestibular: Para quem Cibele Dorsa deixou esta cartinha?

a) Para sua filha
b) Para sua mãe
c) Para seu pai
d) Para seu ex
e) Nda

A resposta é nda. Ela mandou esta cartinha PARA A REVISTA CARAS. Para a FUCKIN´REVISTA CARAS! É muita vontade de ser subcelebridade! É o desejo de ser capa da Caras levado às últimas conseqüências! Tá ruim o quadro? Calma que piora mais. Ao saber de sua carta suicida lavando roupa suja endereçada à revista Caras, seu ex e pai do seu filho, Doda Miranda se desesperou. Para quem não sabe, ele é casado com uma das mulheres mais ricas do mundo, Athina Onassis, que por sinal, depois do casamento mudou seu nome para Athina Onassis de Miranda (esse cara deve ser foda para fazer alguém renunciar a seu Onassis!), este escândalo não pegaria bem na alta sociedade. O que ele fez? Recorreu à justiça para tentar impedir que a Caras publique a carta suicida de Cibele. Diz ele que quer preservar a filha (ele que pense bem onde enfia espermatozóides) mas a verdade é que a carta tem acusações muito pesadas contra ele.

O resultado dessa briga judicial foi risível. Ficou decidido que a Caras não poderia publicar O NOME de Doda Miranda. E esta decisão saiu tarde da noite, quando a revista já havia sido rodada. Conclusão: foi para as bancas com uma TARJA PRETA onde estava escrito o nome de Doda, no melhor estilo ditadura militar. Qual é a eficiência disso, alguém me explica? A manchete da capa se refere às mensagens que ela entregou à Caras para divulgar “aos filhos, à família e a (tarja preta)”. Todo mundo sabe QUEM É tarja preta! Mas que coisa sem propósito!

Quer dizer, blogueiro leva tiro no coco em plena luz do dia na rua mais movimentada de Copacabana por falar o que pensa mas não pode citar o nome de Doda na revista Caras? Não pode contar o que Cibele queria dizer a seu respeito? A mulher é ridícula de mandar uma carta de suicídio para a Caras, mas porra, a Caras não pode publicar? Se Doda fosse pobre, será que a decisão teria sido esta? Eu não vejo pobre ter sua imagem tratada com tanto cuidado não. Eu vejo policial levantando a cabeça de pessoas que estão sendo presas, muitas vezes injustamente, para a imprensa fotografar. Depois, quando o infeliz é inocentado no julgamento ninguém vai lá tirar foto e dizer que foi engano e que ele é um “cidadão de bem”.

E para fechar nosso papo sobre liberdade de expressão, Bolsonaro, sempre ele, fez mais uma declaração infeliz que foi objeto de texto do Somir. Para quem já disse que o grande erro da ditadura militar foi ter torturado e não matado, não causa espanto. O bacana foi ele tentando remendar o que disse “Achei que estavam falando sobre gays”, porque tá tudo ok se desrespeitar gay, né? O povo e a imprensa em vez de se ater ao tremendo desfavor que é o Bolsonaro e suas declarações miraram sua artilharia na histeria da Preta Gil e fizeram disso um grande caso de racismo! Putaquepariucaralho.

Sem querer ser escrota (mentira, eu tenho o maior prazer em ser uma escrota full time), aproveita e junta um pouquinho dessa indignação e canaliza para uma questão mais profunda: VOTARAM NELE, ele não está ali de favor. Uma parcela significativa da população se identifica com ele. Estamos em um país onde VOTAM NO BOLSONARO. Ele cumpre sua SEXTA legislatura na Câmara dos Deputados, tá? Que tal se indignar COM ISSO?

Ele já falou tantas frases escrotas, tantas barbaridades, que sinceramente não sei qual foi o espanto. Ele é isso aí mesmo, um ser humano desprezível que em minha opinião tem uma forte tendência a homossexualidade mal elaborada. Tem que ser punido. E tem material de sobra para isso. Já chamou uma deputada do PT de vagabunda, defendeu abertamente a tortura para obter confissão de criminosos, declarou ser a favor de dar surras em crianças e adolescentes que tenham tendências homossexuais e por aí segue. Qual é a surpresa da declaração que ele deu para Preta Gil? Minha surpresa vai ser se ele for punido, porque por seis legislaturas ele vem falando merda sem parar.

Mais: nem um escroto de marca maior como o Bolsonaro me faz dar razão à Preta Gil. Qualquer um que esculhambe ela merece um pouco da minha admiração.

Resumo da semana: para Bolsonaro tem liberdade de expressão, para Ricardo Gama tem tiro à luz do dia e para Cibele Dorsa tem carta censurada. Brasil, um país de tolos.

Para dizer que Galeão é o caralho, você vai embora A NADO, para dizer que deseja muito que o filho do Bolsonaro se declare gay e apareça vestido de Carmen Miranda assim quem sabe ele entende que não é uma questão de criação ou caráter ou ainda para dizer que você também acha que destratar a Preta Gil deveria ser recompensado e não punido: sally@desfavor.com