Ele disse, ela disse: Caro trabalho.

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O mercado de trabalho está repleto de oportunidades. Não para todos, mas com certeza elas existem. Imaginando uma situação ideal onde uma pessoa pode escolher entre dois tipos de ocupação bem distintas no que tange a qualificação e a remuneração, Sally e Somir discordam sobre a opção mais vantajosa. Os impopulares estão contratados para essa tarefa.

Tema de hoje: O que é preferível, um trabalho qualificado que paga pouco ou um popular que pague mais?

SOMIR

Até por questão de coerência, não vou me desviar do caminho mercenário: Trabalho que paga mais, por mais banal que seja. E eu quero chamar atenção para a palavra mais importante do enunciado desta coluna: “Preferível”. Não é uma sentença definitiva ou uma solução perfeita, é um juízo de valor abrangente… e acima de tudo, temporal.

E só para deixar claro: Escrevo pelo ponto de vista que vou escrever pelo o que entendo ser o tipo de leitor habitual do desfavor. É no-brainer para o brasileiro médio, para o bem ou para o mal. Pois bem…

Se você não tem uma resposta automática para a questão de hoje, grandes chances de você ser do tipo que seria mais feliz ganhando mais. Claro, esse tipo de materialismo não é visto como algo muito nobre, e isso é compreensível principalmente se você vem de uma criação mais educada: Gênios abnegados e artistas revolucionários passam muito mais perto de serem ídolos de quem aprendeu valorizar um padrão de excelência humana mais… erudito. E se a questão do texto de hoje sequer parece realista para você, posso apostar que você tem uma base cultural mais extensa.

O emergente ostentador é visto como brega e alienado. O pobre prodígio intelectual e/ou artístico por sua vez parece bem mais digno e heróico; oras, ele sofre por nós! É natural que gente oriunda de um ambiente mais estimulante do ponto de vista educacional nutra essa simpatia por esses e tantos outros mártires da evolução social e cultural humana.

A questão é que essa é uma visão romantizada e relativamente superficial das coisas. Boa parte da população mundial acha o máximo que alguém se vanglorie por ganhar dinheiro fácil, até porque essa considerável parcela de pessoas vive num mundo onde idealismo faz tudo menos colocar comida na mesa. Esse povo todo precisa enxergar o caminho entre sua condição precária e o sucesso da forma mais clara e direta possível: Não há tempo a perder.

Essa distorção de valores não pode ser analisada do topo de um pedestal, como se modos de vida com baixa exigência de qualificações fossem migalhas que deixamos para os menos afortunados; como se dignidade fosse condição análoga à formação ou berço. Há de se considerar algo muito mais básico na nossa existência: A relação entre custo e benefício.

Muito se engana quem acha que todo sacrifício rende frutos. A maior prova disso está nos bilhões de miseráveis que se sacrificam todos os dias neste planeta. Não é só o sacrifício, é a recompensa. Trabalhos mais qualificados nem sempre significam satisfação pessoal mais elevada. Na verdade, com poucas exceções nos campos científicos e artísticos, tende muito mais a ser mais encheção de saco do que qualquer outra coisa.

Trabalhos mais complexos exigem mais esforço mental, oferecem mais pressão, estressam mais, misturam-se mais à sua vida fora do trabalho… É mais responsabilidade! Não é fácil te substituir e por muitas vezes colocam pepinos com consequências sérias nas suas mãos (e na sua bunda se você falhar). E são raras as pessoas que tiram disso satisfação pessoal genuína e abundante o bastante para encarar uma baixa recompensa financeira.

Em tese é lindo, na prática… Na prática a ideia de remuneração por trabalho é a escapatória que a humanidade encontrou para preencher vagas. Tudo bem que é limitante se pautar apenas por dinheiro, mas preferir um salário ou lucros polpudos não significa fixação por dinheiro. É com esse dinheiro que se vive a vida, e de preferência é com esse dinheiro que a pessoa se desloca dessa corrida diária pelo sustento e pode se concentrar em fazer o que gosta.

Querer trabalhar em algo mais simples e ganhar mais dinheiro pode ser um meio de passar mais tempo com gente querida, dedicar-se à saúde, ao aprendizado… Por mais que a nossa sociedade insista em dizer o contrário, há vida fora do trabalho. Percebam que estou falando de recompensas num sentido muito mais amplo que só dinheiro. Dinheiro é um meio, não um fim.

Mas como não é realista deixar todo mundo escolher um trabalho simples e lucrativo para se dedicar a outras coisas, propagandeia-se a ideia de que o dinheiro é tudo para os mais pobres e de que a qualificação é sublime para os mais abastados. Assim, tudo continua funcionando: Tem gente para ocupar todas as variações entre qualificação e remuneração no espectro de trabalhos possíveis.

Fazer o que gosta é fazer o que te recompensa. A mais óbvia é que vem precedida por cifrões; não é a única, mas para muita gente nesse mundo é a mais tangível. Quanta gente não se qualifica para exercer profissões que não gosta? Boa sorte decidindo sua vida aos 17 anos de idade! Pode ser muito mais difícil do que parece encontrar uma vocação que seja a recompensa em si. E mesmo assim, ela pode depender demais de você ter dinheiro para se manter para ser agradável de verdade.

Na dúvida, fique com a recompensa que pode ser trocada por outras recompensas. Essa é a função do dinheiro! Moeda de troca. A não ser que você tenha GRANDES indícios que vai ser mais feliz trabalhando para o que é mais qualificado, pode dar exatamente no mesmo atender telefone ou fazer balancetes semestrais para a qualidade de vida no trabalho. Um não te estimula, o outro te sufoca.

Só que um acaba com o fim do expediente. O outro dorme com você. E se nesse caso do texto o trabalho mais besta paga mais, ainda tem essa diferença no final do mês. A ideia de que trabalho mais qualificado é sempre uma ideia melhor é uma construção social para manter pessoas ocupando essas vagas. Assim como o sonho do dinheiro fácil é uma das correntes que aprisionam pessoas mais pobres onde elas estão.

Preferencial é fazer a escolha com a melhor/maior recompensa. E é mais difícil do que parece tirar o sucesso financeiro do topo dessa lista.

Para dizer que as entrelinhas me entregam, para reclamar que eu tenho Enveja de empregos chatos e complicados, ou mesmo para dizer que eu não estou convidado para passar lá na sua comunidade hippie: somir@desfavor.com

SALLY

A questão começa com “o que é preferível (…)”, ou seja, pressupõe que a pessoa tenha uma ESCOLHA a fazer. Quem precisa de dinheiro não tem escolha. Quem tem conta vencendo para pagar e não tem como não tem escolha. Por isso, foco no que está sendo proposto: SE a pessoa tem escolha, o que é preferível: um trabalho qualificado que pague pouco ou um trabalho popular que pague mais?

Essa realidade eu conheço bem. Acho que não existe outra profissão cuja evasão seja tão grande como no direito. Vejo advogado largando tudo para trabalhar em várias áreas que exigem menos qualificação. Talvez um somatório da canalhice do meio com o excesso de mão de obra, que faz com que muito advogado receba salário menor do que vendedora de loja de shopping ou até mesmo que muita empregada doméstica.

Ainda assim, existindo a escolha, eu acho preferível um trabalho qualificado que pague pouco, porque eu ainda sou romântica e tenho a esperança de que se você fizer o seu, bem feito, mais cedo ou mais tarde alguém que está vendo vai te abrir uma porta. Respeito totalmente quem discorda de mim, porque na prática, já vi numerosos casos de profissionais brilhantes cujas portas não se abriram a tempo por outros motivos bem distantes de competência e que hoje dirigem táxi, porque paga melhor. Mas eu gosto de acreditar que se a pessoa tiver disponibilidade de tempo para esperar, a oportunidade aparece, mesmo que demore. Se é verdade ou não, são outros quinhentos.

Mas, ainda que não apareça a tal oportunidade… talvez seja melhor viver com menos mas executando um trabalho que faça a diferença no mundo, para o qual a pessoa estudou e se preparou, que lhe dá prazer. Nem tudo é salário, nem tudo é dinheiro. Não estou mandando ninguém passar fome nem viver na precariedade, atentem para isso, é apenas uma escolha de viver ganhando menos e não de viver na miséria. Um trabalho popular que pague mais pode ser fonte de uma enorme infelicidade que, com o perdão do clichê, o dinheiro não vai comprar.

E não se trata apenas de realização pessoal, tem também o status social. Conheço muito advogado que ganha merda, ou melhor, meia merda, mas continua na profissão só para poder se dizer advogado. Se fosse vendedor de uma loja de roupas ganharia o dobro, o triplo. Mas o brasileiro médio tende a não respeitar os trabalhos mais populares, aqueles que independem de diploma.

Em outros países mais civilizados, qualquer trabalho é trabalho e qualquer trabalho é digno e minimamente remunerado. Conheço advogado que saiu do Brasil para limpar privada nos EUA porque ganha quase dez vezes mais. Lá é digno TRABALHAR, e não TRABALHAR DE ___ (complete com uma profissão universitária). Infelizmente essa não é a realidade brasileira, logo, em função do preconceito e da desvalorização que a pessoa vai enfrentar, acho melhor ficar no trabalho qualificado que pague menos, pois seu valor social será maior e isso abre portas (ou ao menos não as fecha), por menos louvável que seja. As coisa são como elas são, não como a gente gostaria que elas fossem.

Quem está acostumado a prestar trabalho qualificado pode cair para o trabalho popular a qualquer momento, porque lhe sobram requisitos. Mas quem migrou para o trabalho popular vai encontrar muita dificuldade em retomar espaço no mundo do trabalho qualificado. Não digo que seja um caminho sem volta, mas é uma volta bastante difícil de realizar. Mais um motivo para pensar mil vezes antes de fazê-lo. Isso sem contar que, dependendo do trabalho qualificado, algum tempo fora da prática te inviabiliza uma volta com a mesma precisão técnica de antes. Afastamento, ainda que temporário, pode acarretar uma queda na qualidade do profissional.

Se o dinheiro era tão importante, não seria o caso de se perguntar porque a pessoa escolheu uma profissão mal remunerada quando fez faculdade? Eu sei, eu sei, uma série de fatores podem ser utilizados em defesa dos vestibulandos: a pouca idade com a qual são obrigados a escolher uma carreira, as variações do mercado em poucos anos e a dificuldade em passar para determinados cursos universitários podem ter consequências desastrosas nos salários. Mas porra, se a pessoa tem verdadeiro amor à profissão, apenas fatos muito graves como risco de morte ou risco de despejo te fazem engolir o sapo que é ter estudado pra caralho para ocupar uma posição para a qual isso não era nem de longe necessário. Ser obrigado a desistir por motivos de força maior é uma coisa, querer desistir para ter uns trocados a mais no final do mês é outra, muito mais reprovável. É se vender por muito pouco. É vender anos de estudo por muito pouco.

Não é só o dia a dia profissional que se perde ao fazer esta troca de um trabalho qualificado para outro mais… popular. É a rede de convívio também. Quem antes convivia com um determinado grupo, terá que se adaptar do dia para a noite a conviver com outro. Sem querer ser elitista, mas em boa parte do Brasil a grande linha social que divide as classes está na formação universitária. E infelizmente as classes mais baixas brasileiras (ao contrário de outros países), são mais ignóbeis, toscas e sem cultura (porém creio eu que mais educados e mais respeitosos, por incrível que pareça). É um baque, não tem como não ser. E é um baque que empobrece quem faz essa escolha, já que perde o pouco desafio mental que tinha ao dialogar com pessoas mais instruídas. Você se mistura, você retrocede, mesmo fazendo um esforço enorme para que isso não aconteça.

Como diz Rogério Skylab, em sua sensacional música “Chico Xavier é viado, Roberto Carlos tem perna de pau”: a verdade é puta, a verdade estupra. Quem se nivela por baixo tende a se transformar lentamente naquela sua nova realidade. Dificilmente um ser humano estuda e se aprimora por prazer pessoal. A regra é que só o faça por necessidade, pois em termos gerais, ninguém é muito exigente consigo mesmo. O auto perdão é um traço marcante do brasileiro médio.

Assim, se não houver necessidade social de se aprimorar, surge a acomodação intelectual e quando a pessoa menos espera ela está lendo “Cinquenta tons de cinza”, Paulo Coelho e Dan Brown e achando que são livros. Ou então ouvindo Latino, Anita e Naldo e achando que é música. Ou pior ainda, assistindo Zorra Total e seu filhote, Porta dos fundos, e achando que é humor. Melhor não, melhor ganhar um pouco menos no final do mês.

Para se surpreender em como eu consegui ser mais escrota-elitista do que o Somir, para dizer que o ideal mesmo é casar com uma pessoa rica ou ainda para dizer que todo castigo para quem insiste em continuar morando no Brasil é pouco: sally@desfavor.com

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Comentários (23)

  • O texto da Sally caiu como 1 luva na minha vida. Eu, bobona, de família pobre, sai do Ensino Médio querendo logo entrar na faculdade, ser rica e ter a vida que qualquer ser humano merece: casa, roupa boa, comida da mesa. Logo, influenciada por sonhos de uma mãe sem diploma e a indecisão da adolescência, optei por iniciar um curso de Administração em Comércio Internacional numa conceituada faculdade particular de São Paulo (como bolsista é claro). Mas aquele curso não me representava, eu não gostava das pautas, do ambiente (classe média elitista e insuportável paulistana), eu não gostava do curso e notei isso logo no primeiro mês de aula. Talvez se eu tivesse tido as mesmas oportunidades dos meus colegas em aproveitar a infraestrutura da universidade eu teria gostado mais, mas ao contrário deles eu tinha que trabalhar à noite pra pagar aluguel e comprar comida.
    Depois de 1 semestre de sofrimento tentando aprender contas de matemática sem nenhuma base pois estudei em escola pública, resolvi jogar a toalha e dizer chega ao status.
    Ganhei bolsa num bom curso pré vestibular pra tentar um curso numa universidade pública. De uma turma com 90 alunos apenas 1 colega me apoiou, os outros vieram com um discurso lixo de “se eu que fiz uma boa escola não consegui passar, imagine você que fez pública, esse vestibular é muito difícil…”
    Fiz 6 meses de cursinho e ainda não tinha descoberto o que eu queria estudar/trabalhar pelo resto da minha vida. No último dia da inscrição do vestibular, resolvi prestar uma coisa que eu sempre gostei mas que é mal vista na sociedade: Humanidades.
    Fiz as 71838373 do vestibular e passei e não me arrependo de nada. Claro que para eu ter um salário minimamente razoável na minha área eu tenho que fazer Mestrado, logo estarei estudando ainda enquanto meus ex-colegas da Administração já estarão formados. Mas nada melhor do que fazer o que a gente gosta, o que nos completa, o que sentimos que ajuda a sociedade de alguma forma, algo que fazemos bem. Eu poderia ganhar rios de dinheiro em outra profissão, mas iria trabalhar todo dia infeliz e com cara de bunda.
    Hoje, enquanto ainda estudo, meus colegas estão trabalhando em bancos pra ganhar 4 mil reais, sendo que pagam 2 mil de mensalidade, mas né? Eles trabalham de social, bonitões, têm status…
    Vai entender…

    • Correção: você NÃO estaria ganhando rios de dinheiro em outra profissão, ninguém ganha rios de dinheiro trabalhando. É uma ILUSÃO que seus colegas devem ter repetido para você. Você também estaria mal paga em outras carreiras consideradas “promissoras”. Vai por mim. Você fez a escolha certa.

  • Oi Sally, não consegui entender bem o texto do Somir hihi, mas o seu caiu como uma luva. Eu sou formada em Direito e tudo o que vc falou sobre nossa área é verdade.

    Num momento da minha vida decidi trabalhar com outras coisas: fui vendedora em shopping, trabalhei com yôga e numa livraria. Meu salário nesses locais foi mais alto do que trabalhando com Direito, contudo, é o que vc disse, o nível intelectual vai lá pra baixo e depois quando se decidi voltar para a área de formação, demora para acompanhar. Eu agora decidi estudar para concursos e estou bem assim. Acredito que há grandes chances de trabalhar na minha área de formação e ganhar muito bem, mas sei também que nos concursos de técnico a grande maioria são pessoas que não tem faculdade e aí já sei com quem vou conviver.

    Agora, falando de trabalho (acho que foi o Somir que enfatizou essa parte), eu não quero ser workaholic e tem muitos cargos públicos que fazem você viver assim, não tem mamata. Então eu ainda fico dividida se concorro a vagas de analista ou de técnico. Bom, se você quiser entender melhor, eu escrevi um pouco sobre isso aqui http://brechodameninazen.blogspot.com.br/2013/07/fabricio-bittencourt-equilibrio.html

    É bem verdade também o que vc disse sobre acomodação intelectual, divisão das classes por formação universitária, maior valor pelo conhecimento/status da profissão e não pelo trabalho…

    Ah, eu publiquei seu texto no meu blog tá? =) Eu já vi em alguns comentários que vc não gosta muito, mas se for para ensinar algo às pessoas, vale a pena, né? =) Eu postei a fonte também.

    • Pode publicar o texto sim! Eu não gosto quando publicam e assinam com outro nome, como se a autora do blog fosse a autora do texto, dando os créditos não tem problema algum!

      Boa sorte nos seus estudos, gente como você merece sucesso na sua profissão!

    • Olha, é uma coisa que eu concordo também em minha profissão, e concordo mto com a Sally no texto dela: comodismo intelectual NAO ROLA! Acho indigno ficar preso numa federal por 4~5 anos + passar bons anos na pós graduação pra ter cargo de vendedor de shopping ou atendente de call center! Bahh! Prefiro um trab que ganhe pouco mas que me valorize conquanto profissional e que eu seja feliz/realizado no que estou fazendo do que ganhar muito fazendo o que odeio…

  • Muito bom, Sally.
    Mesmo porque ninguém merece ler Paulo Coelho, 50 tons de cinza…e ver todos os dias novela da grobo…blergh!!!
    Estudar sempre, fazer o que se gosta, ganhar dinheiro com isso: digamos que isso não nos coloca muito longe da tal “felicidade” – ou algum assemelhado.
    Desculpa, viu Somir, mas ganhar um dinheiro bem razoável pertencendo à elite intelectual…não tem credicard que pague!

    • Sem desafios intelectuais acabamos sofrendo um empobrecimento mental a longo prazo, nenhum dinheiro no mundo vale isso!

  • Não sou muito de fazer isso, mas hj vou concordar com os dois.

    Até um certo patamar de salário é melhor trabalhar com algo que possa te dar um futuro melhor. Explico: trabalhar de adestrador, vendedor de loja, faxineiro ou mecânico te leva até um ponto. Exceto se vc for o Cesar Millan, o vendedor filho do dono na Brooksfield ou a faxineira do “Sua casa é limpa?”, vc tem um teto relativamente baixo, que vc atinge com rapidez. Profissões que exigem mais cérebro e formação costumam começar com valores bem mais baixos que esse teto, mas podem te levar (com um pouco de esforço e competência) a salários maiores que esses limitadores iniciais.

    Então, é melhor ser estagiário de escritório de advocacia ou de banco do que ser faxineira, não pelo salário inicial, mas pela possibilidade de salários futuros + experiências + contatos + desenvolvimento pessoal + blablabla.

    Até aí eu concordo com a Sally.

    O ponto é que depois de determinado patamar (o “viver confortavelmente”), o melhor é fazer porra nenhuma mesmo. Primeiro porque nas profissões “cerebrais” tem aborrecimento pra cacete. É sempre a declaração de “meritocracia” enquanto vc vê o filho do diretor, a amante do superintendente ou o amigo de classe do gerente virando alguma coisa e vc lá… trabalhando que nem o cão, ou ter que fazer algo que vc sabe que não é o melhor. Segundo porque “trabalhar que nem cachorro” não só não te garante avançar na profissão como tb te tira anos de vida, saúde e felicidade.

    Não sou romântica. Não acho que sem um estômago BEM forte vc consiga chegar muito alto em qualquer profissão que seja. Então que seja mais fácil e livre meu tempo para fazer o que eu gosto. Trabalhar MUITO, não ter tempo para curtir sua casa / relacionamento / filhos enquanto outros ganham dinheiro e reconhecimento em cima disso é masoquismo…

    Se alguém souber de profissões fáceis que paguem bem, tô aceitando. rs

    • Também estou querendo uma profissão que você possa subir apenas com competência, sem ter que pisar na cabeça dos outros. Se alguém souber me avisa também.

  • Sally, antes de iniciar a leitura do teu texto eu já estava pensando em falar “concordo com o Somir, afinal, meu diploma não tem me valido muita coisa, tem muita empregada doméstica ganhando mais do que eu!” Mas durante a leitura me dei conta que seria muita hipocrisia minha, porque também mantenho a ilusão (ou não) de que com estudo, esforço, dedicação, se consegue unir trabalho com qualidade e bom salário (ao menos razoável).
    E até mesmo quando penso em trocar de área, primeiramente penso em uma nova qualificação, para então sim trocar. To ferrada, vou ser explorada forever.

    Lembrando de uma música do Gentili na qual consta a seguinte frase: “e na verdade sou uma puta bem vadia, permitam que me fodam em troca de uma mixaria”
    cuen cuen cuen cuen :'(

    • Passei por essa situação no início do ano…
      Trabalhava num emprego que não precisava de tanta qualificação, mas que pagava relativamente bem. Fui demitida e tinha a opção de voltar à uma posição semelhante, numa outra empresa…. só que já trabalhava com isso há 6 anos, odiava, ficava doente por trabalhar com algo escroto e num ambiente que não suportava.
      Resultado: entrei de cabeça no mercado da minha formação, ganhando pouco, sendo explorada, mas feliz. E não pretendo parar, tenho fé que futuramente, com muito trabalho retomarei ao meu patamar financeiro anterior. Eu sei que vou.

      Adendo: eu curto Porta dos Fundos.

  • Esse dilema, na prática, é mais complicado. Na verdade, para ganhar mais dinheiro com um trabalho menos qualificado é preciso muito tino comercial, sobrecarga de trabalho ou desonestidade. Ter dinheiro custa caro. Você vai ter os pepinos que o Somir falou ou então vai ter que ralar feito um burro de carga, lidar com gente complicada (políticos, agiotas, traficantes, pastores da IURD, etc.). Ou vocês podem exemplificar trabalhos pop bem remunerados e sem dor de cabeça?

    • Ser advogado dá muita dor de cabeça (prazos, responsabilidade, muitas horas de trabalho) e pode pagar menos do que ser vendedor de loja em shopping. Vender roupa também tem seu lado cansativo, mas certamente não tanto. Os profissionais qualificados estão muito mal remunerados, a ponto de sub-empregos pagarem melhor.

      • Advogado: você lida com o estigma negativo que a população tem com a sua profissão, perde horas de lazer para se atualizar, e perde muito mais tempo para cobrar seus honorários, porque o povo acha que depois que você “ganhou” a ação o seu trabalho não merece pagamento. Além do já citado pela Sally.

        • Sem contar que enquanto outras profissões lidam com momentos felizes da vida das pessoas o advogado lida sempre com conflitos, com pessoas putas, estressadas que estão muito contrariadas por ter que estar gastando aquele dinheiro. Fora o fato do advogado ter que pagar mais de 600 reais por ano para a OAB para poder exercer sua profissão…

          • É muita sacanagem com a classe.
            Sinto por não terem me contado tudo sobre a profissão antes de eu decidir entrar nessa furada! :(

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