Des Contos: Ozon – Parte 8

desc-ozonc08

O Piloto segura um garfo na mão direita, erguido diante de seu nariz. Sobre o talher, uma massa acinzentada que cheira algumas vezes antes de finalmente juntar coragem para levar à boca. A expressão confusa mantém-se inalterada do olfato ao paladar.

PILOTO: Isso deveria ter o gosto do quê?
HEITOR: De algo que não estraga depois de dois séculos…
PILOTO: Você pretendia passar vinte anos comendo isso?
HEITOR: Eu não sei mais o que eu pretendia vindo pra cá… Mas, comida sem gosto é o menor dos nossos problemas.
PILOTO: Encontrou o elevador de manutenção?

Heitor, do lado oposto da mesa, analisa três plantas locais ao mesmo tempo. Parece sobrepô-los erraticamente, rabiscando símbolos sobre tudo remotamente parecido com um fosso de elevador. Uma das plantas começa a chamar mais e mais sua atenção, eventualmente ficando por cima das outras.

PILOTO: Então?
HEITOR: Essa planta aqui… essa não bate com as outras. Em duas parece que o elevador está logo após o setor de comunicação, mas nessa tem um depósito no mesmo lugar.
PILOTO: Então parece que a maioria decidiu. Vamos?
HEITOR: Não gosto de fazer as coisas assim… temos que entender os mapas antes de sair daqui. E muito mais que isso… você ainda não me convenceu dessa história de desligar o sistema.
PILOTO: Você não viu? Quer que o que aconteceu com o pobre coitado do Ibarra aconteça com a gente?
HEITOR: Até onde eu sei ele encontrou um estoque de plutônio e morreu contaminado. Você também viu como ele não estava bem da cabeça!
PILOTO: Naquele formato, Heitor? Tem alguma coisa mexendo com o Sistema Geral e não parece ser nossa amiga!
HEITOR: Eu não sei e você também não tem como saber!
PILOTO: ELA ME DISSE! A YARA NÃO MENTIRIA PARA MIM!

O Piloto bate com os dois punhos na mesa. Está visivelmente alterado, olhos e veias da testa saltados. Heitor recua instintivamente, expressão surpresa. O Piloto bufa mais algumas vezes, olhos travados nos de Heitor. Lentamente vai cedendo em sua raiva aparente até um estado de desconforto. Esfrega uma das mãos por sobre o rosto, forçando as pálpebras fechadas. A mesma mão se levanta, espalmada, como se pedisse trégua. Ao finalmente levantar a cabeça para retomar contato visual com Heitor, percebe que seu rosto não é o ponto focal de seu companheiro.

HEITOR: Está… está piscando.

No peito do piloto, mesmo por debaixo do tecido de sua roupa, uma luz azulada pulsa gentilmente. Ele puxa o colarinho de sua camiseta, que estica até expor a parte superior de seu peito. No local, o mesmo metal escuro visto dentro de sua caixa torácica parecia brotar por baixo da pele através de fios parecidos com veias. Das pontas dessas formações surgia a iluminação.

HEITOR: Você está bem?
PILOTO: Estou ótimo… na verdade, eu nunca me senti tão bem fisicamente.

Heitor cutuca a própria têmpora duas vezes, olhar inquisidor.

PILOTO: Não sei de onde veio essa raiva. Mas já passou… estou pensando de forma muito clara, para dizer a verdade.
HEITOR: Então me responda: como vamos sobreviver aqui sem o Sistema Geral funcionando?
PILOTO: Aquela foi uma pane total, só precisamos desligar a Dalila. O resto vai funcionar.
HEITOR: Dalila?
PILOTO: Hã?
HEITOR: Você disse Dalila. Só precisamos desligar a Dalila.
PILOTO: Não, eu quis dizer o Sistema Geral.
HEITOR: Mas disse Dalila. Como em Dalila, filha do Ibarra.
PILOTO: Eu sei o que eu disse! Você vai me ajudar ou não?
HEITOR: Com uma condição: Se o suporte a vida parar de funcionar, nós religamos.
PILOTO: Feito.

Os dois se preparam. Vestem os trajes mesmo com o sistema de suporte ligado; Heitor pega uma lanterna de alta potência e duas baterias reservas, já o Piloto parece mais interessado em se armar, pegando um rifle de pulso e uma barra de ferro cristalizado. Os dois saem do Cofre, o andróide militar recrutado mais cedo ainda estava de prontidão do outro lado da porta.

HEITOR: Modo escol…
PILOTO: Não! Dispensado!
HEITOR: Por quê?
PILOTO: Ele vai chamar atenção indesejada. Vamos…
HEITOR: Mas…

O Piloto acelera o passo, Heitor segue. O caminho até o elevador de manutenção desejado não dura mais do que dez minutos, mesmo com os passos desajeitados dos trajes. O Piloto entra rapidamente na cabine, e apressa Heitor para fazer o mesmo. O botão apertado é o do setor C-9.

HEITOR: Yara… Yara não era a sua namorada em Eeva?
PILOTO: Era?
HEITOR: Modo de dizer.
PILOTO: Sim.
HEITOR: E quando ela falou com você sobre o que aconteceu aqui?
PILOTO: É complicado.
HEITOR: Ahaz… não me leve a mal… mas você não pode estar tendo alucinações? Você ainda não explicou o que disse sobre a Tempestade. Não está fazendo muito sentido…
PILOTO: Chega de tatear! Você acha que estou maluco?
HEITOR: Não! Não… longe disso… Mas você tem que entender o meu lado. Você parece saber de algo que eu não sei. E não está falando.
PILOTO: Como eu disse, é complicado. Eu SEI que estou fazendo algo para o bem de todos, mas não sei explicar exatamente o porquê.
HEITOR: O Cosmo falou com você?
PILOTO: Pode-se colocar assim.

Heitor tenta esconder a dúvida que se manifesta em seu rosto afundando a cabeça dentro do capacete. O silêncio dos dois faz os sons dos freios magnéticos do elevador ficarem cada vez mais definidos. Um tranco sinaliza a chegada ao destino. No visor acima das portas, o sinal da pressurização da sala à frente finalmente se acende. O Piloto parece digitar alguma coisa em seu painel frontal do traje.

As portas se abrem. Do outro lado, um andróide militar parecido com os que protegeram Heitor durante sua visita à Fábrica. Vários pedaços do metal escuro remendando o que pareciam ser avarias de batalha. A primeira coisa que Heitor nota é uma marca na placa frontal da cabeça do andróide, um arranhado peculiar que também lhe é familiar.

HEITOR: Cicatriz?

O Piloto ergue a cabeça, surpreso. O andróide militar emite os mesmos pontos de luz azulada que agora fazem parte de seu corpo. Contanto, não há tempo de considerar nada após o autômato exibir um pesado rifle de pulso diferencial, apontando-o diretamente para Heitor.

PILOTO: O que está…

Um flash de luz distrai o Piloto. Só consegue ouvir o som de polímeros estilhaçando. Assim que abre os olhos, vê fumaça saindo da altura do peito de Heitor, que logo começa a gritar desesperadamente. O Piloto ergue seu rifle e dispara imediatamente na direção do andróide agressor. O disparo desarma o militar, que recua para fora da visão do Piloto. Heitor desaba no chão do elevador. O Piloto aperta o botão de fechar as portas e ajoelha-se em frente ao seu colega ferido.

Heitor tem um furo na altura do coração. O traje, derretido no local, permite apenas visão parcial da extensão dos danos. Heitor parece desacordado. O Piloto vai até o painel do elevador desesperadamente, direcionando-o até a área de habitação, onde fica a equipe médica. O botão se acende, mas nada de movimento.

No visor do Piloto, a leitura dos sinais vitais de Heitor decai rapidamente. O Piloto se desespera, batendo no painel e berrando palavras desconexas. Os sinais de vida cessam. Ele se volta até o companheiro desfalecido. Heitor estava morto.

PILOTO: O QUE VOCÊ FEZ COM ELE? VOCÊ IA NOS PROTEGER! Você… prometeu…

O Piloto começa a arrancar seu traje. Terminado o processo, pega o rifle que derrubara no chão e mira nas portas. Três tiros são suficientes para derreter área suficiente para seu corpo passar. E é isso que ele faz. Com a arma apontada e a barra de ferro cristalizado presa no cinto, posiciona-se no corredor à frente do elevador, expressão furiosa e luzes pulsando do peito.

O andróide militar ainda está à vista, corpo parcialmente coberto por um grande container metálico. Faíscas podem ser vistas escapando por trás de sua silhueta, como se estivesse consertando o dano sofrido. O Piloto dispara mais um salvo de três pulsos, explodindo o container e arremessando o andróide alguns metros para frente. Com passos duros e determinados, ele se aproxima do robô caído, que por sua vez tenta se arrastar para longe, pernas extremamente avariadas.

O Piloto chega a menos de um metro de seu alvo. O som do rifle carregando-se de energia sobrepõe o craquelar de circuitos e cabos entrando em curto no andróide militar.

PILOTO: Por quê?
ANDRÓIDE MILITAR: O huuu… mano… zzznap… instinto… rrrr…
PILOTO: TRAIDOR! Ela vai nos salvar! Não era para isso acontecer!
ANDRÓIDE MILITAR: Zzzz… ooooordens… rrr… dela…
PILOTO: MENTIRA!

O Piloto mira bem na cabeça do andróide. Mas antes de apertar o gatilho, outro flash o distrai. Seguido por uma dor paralisante. Há agora um vazio fumegante onde era seu ombro direito. O pânico causado pela dor borra sua visão e enfraquece suas pernas. Caído no chão, ao lado do andróide que pretendia eliminar, consegue ver apenas vultos de seres metálicos travando uma batalha. Ágeis, saltam e correm velozmente por cima de seu corpo.

Com o corpo praticamente imóvel pelo choque da dor lancinante, consegue ver apenas um deles em detalhe: o que para ao seu lado e olha para o chão. Seu corpo também está coberto de placas metálicas escuras, mas com algo diferente… as luzes que emanam por sua estrutura são verdes. E pela forma como ele aponta o rifle em sua direção, não parece ser amigável. O andróide das luzes esverdeadas hesita por um tempo, o suficiente para ser abatido pelo fogo cruzado.

O Piloto só consegue ver a pilha de metal inutilizado desabando sobre seu corpo antes de finalmente perder a consciência.

Continua na parte 9

Para dizer que está feliz por todo mundo morrer e a história finalmente acabar, para começar a admitir que eu tinha um plano desde o começo, ou mesmo para falar que “nem leu, parte 8”: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas:

Comentários (2)

  • Perfeito, Somir.
    continuo, passivamente, acompanhando a história.
    Manda mais e para de enrolar. Esse negócio de usar Ozon para escapar dos castigos de furada de postagem não vão pra frente.

  • eu estava achando que o Heitor seria o herói da história…não esperava que ele morresse. Para mim o piloto não morreu não, vai ser levado pelos androides médicos outra vez e conseguirá escapar de novo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: