Um mago sem destino. (9)

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Desfavor Convidado: Um mago sem destino

Capítulo 4 – Cafa Samaghi Parte 2

Já perdido, Raul continuou andando naquele ambiente inóspito, sem nunca chegar ao seu destino. Naquele mundo não havia animais, vegetação e nenhum outro ser humano que ele pudesse ver. Havia apenas um pequeno caminho prateado no meio de diversos lagos e uma simples casa ao longe que, aparentemente, sempre se distanciava por mais que Raul andasse. Ele tentou beber da água de um dos lagos, mas além de não matar a sede, ela era gelada e muito difícil de engolir. Ao fundo dos lagos, imagens apareciam mostrando cenários e pessoas, provavelmente reflexos de diversos locais do mundo originário de Raul. Algumas dessas imagens prendiam a atenção do rapaz, outras eram motivo de aflição e horror. Em duas ocasiões distintas ele viu demônios sendo gerados espontaneamente diante dos lagos, mas nenhuma pessoa efetivamente conseguia ultrapassar a barreira do espelho, já que eram sempre distraídas por algum motivo e os demônios se desfaziam em cinzas.

Mesmo faminto e sedento, Raul continuou andando e perdeu a noção de tempo. Estava perdendo as esperanças, quando finalmente percebeu que a casa ao fim do caminho se aproximava. Passo a passo a casa foi crescendo e já ocupava boa parte da visão dele:

_É maior do que parecia lá de longe! – disse para si mesmo, surpreso pela imensidão da casa, que agora mais parecia um muro divisor de fronteiras com uma porta no meio.

Quando chegou na porta, Raul se apoiou no batente e recuperou o fôlego. Sem sequer cogitar na possibilidade de voltar pelo mesmo caminho de onde veio, ele bateu. Sem obter resposta, ele bateu de novo. Na terceira tentativa a porta se abriu, mas o outro lado estava escuro demais para ele ver. Porém, uma voz veio lá de dentro:

“Jovem neófito, eis que chegaste ao Umbral da Porta. É hora de uma importante decisão, se passar deste ponto não terá mais volta e se voltar, nunca mais poderá voltar aqui novamente. Esse que vos fala é o Guardião do Umbral, aquele que te tentou tantas vezes antes e que irá te tentar tantas vezes mais. A porta está aberta, venha me encarar se tiver coragem”.

Mesmo assustado, Raul ultrapassou o Umbral da porta e do outro lado viu apenas uma escadaria. Em cada degrau havia uma pequena placa dourada com um número e um nome, sendo que a primeira placa estava escrito “1 – aprendiz”. Conforme ia subindo os degraus, ele foi lendo o que estava escrito em cada uma: “2 – companheiro, 3 – mestre, 4 – mestre secreto, 5 – mestre perfeito, 6 – secretário íntimo, 7 – mestre irlandês, 8 – mestre em Israel, 9 – mestre eleito dos nove, 10 – mestre eleito dos quinze, 11 – sublime cavaleiro eleito, 12 – grão-mestre arquiteto, 13 – cavaleiro real arco, 14 – grande eleito, 15 – cavaleiro do oriente, 16 – príncipe de Jerusalém, 17 – cavaleiro do ocidenete e do oriente, 18 – cavaleiro rosa-cruz, 19 – grande pontífice, 20 – mestre ad vitam, 21 – cavaleiro prussiano, 22 – príncipe do Líbano, 23 – chefe do tabernáculo, 24 – príncipe do tabernáculo, 25 – cavaleiro da serpente de bronze, 26 – escocês trinitário, 27 – grande comendador do templo, 28 – cavaleiro do sol, 29 – grande escocês de Santo André, 30 – cavaleiro kadosh, 31 – grande juiz comendador, 32 – sublime cavaleiro do real segredo e 33 – soberano grande inspetor geral”.

A escadaria terminava em seu trigésimo terceiro degrau, mas olhando para baixo, Raul tinha a impressão de ver milhares de degraus.

_A perspectiva é algo impressionante, não é mesmo. – veio uma voz às costas de Raul, que pulou de susto. _ Desculpe-me. – disse o dono da voz, após Raul se virar e ver que havia se assustado por causa de um velho. _Siga-me, vamos tomar um chá. – convidou o ancião.

Raul acompanhou o velho até a um grande salão, onde outros dois senhores estavam jogando xadrez:

_Viram, eu disse que ele não ia se assustar com a voz patética que você faz. “Eu sou o Guardião do Umbral, oooohhh” – disse um dos jogadores.

_Somir, eu faço isso para manter as aparências, não podemos abandonar as velhas simbologias. – respondeu o outro jogador.

_Ei vocês dois, parem de ficar reclamando e venham recepcionar nosso convidado. – disse o terceiro, que acompanhava Raul.

Claramente contrariados, os outros dois se levantaram e vieram cumprimentar Raul:

_Estes são Somir e Chester, eu sou mais conhecido como Velho MacFadden. – apresentou o velho que havia acompanhado Raul. _Creio que deve ter muitos perguntas, rapaz.

_Sim.

_Pois veio ao lugar errado. – disse o velho que foi apresentado como Somir.

_Somir, seja mais educado. – disse o que foi apresentado como Chester.

_Esses jovens chegam aqui sem serem convidados e querem recepção de gala, façam-me o favor.

_Não ligue para ele meu rapaz, o Somir anda meio esclerosado.

_Esclerosado é você, seu velho babão.

_Eu não sou esclerosado, bate na madeira. – disse Chester, batendo três vezes em uma mesa de madeira. _E vá lá atender que estão batendo na porta.

_Mas foi você que acabou de….

_Não discuta comigo e vá atender essa maldita porta.

Irritado, Somir foi abrir uma porta que havia ao fundo do salão e lá estava Paulo, de punho erguido, pronto para bater.

_Dessa vez você deu sorte Chester, tem outro insolente aqui querendo entrar.

_Pode deixar.

_Vocês acham que isso aqui é o quê? Um hotel?

_Somir, porque você não vai cuidar daquele seu diário virtual… – interveio MacFadden.

_É um blog, eu já falei isso mil vezes.

_Que seja, vai lá postar alguma bobagem que ninguém vai ler mesmo.

_São informações valiosas, de extrema importância e eu tenho leitores no mundo inteiro se querem saber.

_Claro, claro, agora vai.

Mesmo reclamando, Somir seguiu o conselho e se sentou na frente de um computador que estava próximo à mesa de xadrez.

_Pronto, agora podemos conversar e não se preocupe com o vaso, rapaz. – disse Chester.

_Que vaso? – respondeu Raul.

_Ele está confundindo de novo, o Chester não é mais o mesmo desde o dia em que teve que se vestir de mulher para aquele maldito Hacker. – gritou Somir, sem parar de teclar.

_Aquilo sim que era mago de verdade, parava projéteis no ar e se contorcia como ninguém.

_Mesmo assim morreu por causa de uma máquina, patético.

_Pela última vez, parem com isso. – disse MacFadden, ficando vermelho de raiva.

Nesse momento Paulo já estava ao lado de Raul e disse:

_Eu avisei que esse caras eram pirados.

_Como chegou até aqui?

_Existem duas maneiras de se chegar ao mundo dos espelhos, uma delas é fazendo é fazendo o experimento que te ensinei….

_E a outra?

_Bem, destruindo um demônio do espelho. No meu caso foi fácil, já que ele estava em sua forma de estátua.

Sabendo dessa informação, Raul agarrou o pescoço de Paulo:

_Você me fez passar por tudo aquilo e ainda destruiu o meu demônio?

_Calma, se tentar fazer o experimento de novo, garanto que ele estará lá. Demônios nunca morrem…

_Seu desgraçado.

Raul teve que ser contido pelos três velhos para que não continuasse estrangulando Paulo e com muito custo acabou se acalmando.

_Ah esses jovens e seus hormônios à flor da pele. Agora peça desculpas ao seu amiguinho. – disse Chester para Raul.

_Mas… – retrucou Raul.

_Peça desculpas ou vou até aí te dar uma bengalada.

_Ok, ok. Paulo, me desculpa.

_Desculpas aceitas.

_Tudo fica bem quando acaba bem. – Sorriu Chester.

_Muito bem seus moleques, agora meu nível de adrenalina está alto o suficiente para me causar um infarto.

_Somir, a única coisa que pode te matar atualmente é a quantidade de cigarros que você fuma por dia.

_Falando nisso, aonde estão meus cigarros?

_Outro dia desses passou por aqui um bruxo inglês pedindo cigarros e eu dei os seus para ele.

_Desgraçado…

Dessa vez foi Somir quem tentou estrangular Chester.

_Ele parecia realmente estar precisando de um cigarro. – justificou Chester.

_Acho melhor nos sentarmos, isso vai levar a noite inteira.

Continua…

Chester Chenson

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Comentários (4)

  • Chester batendo na madeira…supersticioso, esse cabra! Esses graus vistos pelo Raul lembra os graus da Maçonaria.
    Essa historia promete. Tá ficando ainda mais interessante. Cade os demais personagens com os nomes dos Impopulares?

  • pergunta besta: ele tirou a roupa e entrou pelo espelho. Então ele estava andando pelado nesta outra realidade? E tomando chá só os personagens mesmo, né.

    • sim, ele estava nu nesta outra realidade…. mais respostas no próximo texto (que será o fim da 1 temporada)….

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