A cidade dos mortos.

Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para desfavor@desfavor.com.
O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e não publicá-los. Sally promete interceder por vocês.

Desfavor Convidado: A cidade dos mortos

Quando soube de um vilarejo aonde não havia crianças e que o número de mortos era maior que o número de vivos, não tive dúvidas de que deveria conhecer o lugar de qualquer maneira. Porém, chegar a La Ciénega não foi tão fácil quanto imaginei. Localizado na província de Santa Elena, o vilarejo fica escondido no meio das montanhas e poucas pessoas sabem como chegar até lá. Além disso, a cidade é habitada por cerca de dez pessoas, o que dificulta ainda mais sua localização. Por sorte, as histórias macabras que rondam La Ciénega refrescam a memória de pessoas que moram na província, o que me ajudou a encontrar um parente de um morador da cidade fantasma.

Raul Monterrey é filho de Gomes e Rosa, que até hoje ainda moram no vilarejo e se dispôs a me ajudar a localizar a pequena cidade. Foram alguns quilômetros de estrada de terra, além de horas e horas caminhando em trilhas estreitas, mas finalmente chegamos a La Ciénega. Minha primeira impressão sobre aquele lugar foi péssima, pois vários objetos estavam nas ruas, como se as pessoas ali tivessem fugido de uma hora para outra. Munido apenas de câmera fotográfica, gravador de voz e mochila com alguns mantimentos, atravessei sozinho uma estranha cerca que serve de fronteira do local. Raul não me acompanhou, dizendo que tinha permissão de entrar na cidade apenas no “Dia de los Muertos”, data que aproveitava para visitar a família.

Desbravei uma pequena colina, tirando fotos de tudo o que via. A maior parte das coisas deixadas para trás eram versões rústicas de objetos pessoas, como tesouras, roupas e até mesmo um triciclo de criança, enferrujado pelo tempo. Alguns postes com lampiões mostravam que em alguma época, aqueles eram pontos de grande movimentação, mas que agora estavam vazios, apenas com a presença do barulho do vento. Ao final da colina, finalmente pude ver a cidade, que na verdade era um amontoado de casebres que mal conseguiam ficar em pé. Com tanto tempo abandonada, a cidade não estava resistindo às intempéries da natureza, o que completava o ar melancólico da história local.

No caminho, Raul havia me explicado que o expurgo da cidade ocorreu por causa de uma grande seca que durou sete anos. Mesmo assim, alguns residentes mais antigos se recusaram a sair da cidade, sendo que seus pais estavam entre esses teimosos anciões. Uma de minhas missões ali era encontrá-los para ter uma palestra e quem sabe entender como aquelas pessoas viviam em local tão inóspito.

Caminhei até a primeira casa e bati na porta. A casa inteira chacoalhou, ficando em pé apenas por milagre. Mais cuidadoso com a frágil estrutura, dei outra batida, mas ninguém atendeu. Dei a volta na casa e uma cortina esvoaçante acusou uma janela aberta, da qual me aproximei. Do lado de dentro se via um quarto, já tomado pelo pó e por teias de aranha, mas visivelmente de uma menina, já que sua antiga dona havia abandonado ali algumas bonecas feitas de pano. Tirei uma foto de mais aquela memória de uma cidade morta e voltei para a rua central.

Mais à frente, havia um homem parado na varanda de outra casa, talvez curioso em ver o que estava causando tanto estardalhaço na vizinhança. Após alguns momentos me olhando com desconfiança, ele acenou. Respondi a saudação e atravessei a rua, indo em sua direção. Com um sorriso no rosto, ele me recebeu com a mão estendida, indicando o interior da casa. Entrei e aguardei o anfitrião em uma pequena sala, enquanto do outro lado uma velha senhora balançava em uma cadeira de balanço enquanto fazia crochê. Ao lado dela, havia um pequeno rádio de pilhas, que tocava as músicas populares da região. Deduzindo o óbvio, assim que o homem entrou na casa, perguntei:

_Vocês são Gomes e Rosa Monterrey?

Tive dois sorrisos radiantes como resposta e me sentei em uma cadeira trazida por Gomes.

_Quer beber alguma coisa? – perguntou ele em espanhol.

_Água, por favor.

Ele seguiu para outro cômodo e aguardei. A senhora continuava seu crochê, aparentemente um cachecol para criança. Interessado naquele trabalho manual, já que não havia visto nenhum pequenino na cidade, perguntei:

_Para quem é esse cachecol?

Calmamente, ela parou o ponto e me respondeu:

_É para meu netinho Ramirez, você o viu por aí?

_Infelizmente não, minha senhora, mas conheci seu filho Raul.

_É mesmo? Há quanto tempo não o vejo.

_Sim, foi ele quem me guiou até aqui. Pena não ter entrado na cidade comigo, dizendo que viria para a festa do Dia dos Mortos.

_É mesmo uma pena, o Dia dos Mortos ainda está tão longe. É o único dia permitido que as pessoas andem por aqui sem ter medo do ceifador.

_Ceifador?

Nesse momento o homem retornou com três copos de água, deu um para a senhora, pegou um para ele e deu o último para mim. Eles não beberam da água, mas eu tomei um gole e ela estava com gosto de velha. Mesmo assim, me esforcei para tomar tudo e devolvi o copo para Gomes:

_Obrigado pela água. – agradeci.

Ele fitou o copo, interessado nas marcas que meus lábios haviam feito na borda. Depois pegou o copo dele e o da senhora, que continuavam cheios.

_Qual o motivo de sua visita? – perguntou Gomes, enquanto colocava os copos em cima de uma mesinha.

_Me interessei pela história dessa cidade e vim ver com meus próprios olhos as histórias que contam sobre esse lugar. Apesar de muitas pessoas terem fugido, vocês continuaram aqui, porquê?

Gomes pegou outra cadeira e se sentou ao lado da senhora, olhando suas mãos que haviam voltado a fazer o crochê:

_Nós construímos essa casa com nossas próprias mãos, tivemos nossos filhos aqui e vimos eles crescerem nesse lugar. Nós velhos somos como árvores, fincamos nossas raízes em nossas histórias. Acho que por isso decidimos ficar, além do mais, nosso tempo está se passando e o mundo lá fora não tem mais lugar para pessoas como nós.

Seus olhos ficaram marejados, acompanhando o vai e vem das mãos da senhora. Fiquei calado, respeitando aquele momento único, em que dois idoso se perdiam em suas próprias memórias, cada um à sua maneira. Discretamente, retirei minha câmera fotográfica e fiz um registro daquele momento. Ao ver como o retrato havia ficado, notei que a vista da janela atrás da senhora dava para um antigo cemitério. Me levantei e pedi licença para ir conhecer o campo santo:

_Só não fique lá por muito tempo, pois ainda hoje nossos mortos sofrem com as dores do passado. – recomendou Gomes.

Alheio a todo aquele misticismo, sai da casa. Minha presença ali havia chamado mais a atenção do que eu imaginava e eu senti diversos pares de olhos me acompanhando durante minha caminhada até os túmulos. Porém, os únicos que se aproximaram de mim foram alguns cães vira-latas, que me cheiraram e foram embora sem grande interesse na minha pessoa. O campo santo era separado apenas por uma pequena porteira, que rangeu ao ser aberta por mim. Os túmulos eram tantos, que se tornava praticamente impossível não pisar em cima dos enterrados. Envergonhado com aquela falta de decoro que estava cometendo com os mortos, segui cemitério adentro, evitando danificar os túmulos o máximo possível.

Todas as cruzes eram iguais, com tinta branca e uma mão de cal por cima. Grande parte dos túmulos eram de pequeno tamanho, compatíveis para crianças. Me agachei diante de um dos túmulos e li uma breve inscrição: “Anita Gutierrez, sorriso radiante que nunca será esquecido – 2009 – 2012”. De repente, senti uma presença atrás de mim e me virei. Um homem alto, todo vestido de preto, me olhava com penetrantes olhos pretos:

_Posso ajudá-lo? perguntou.

Me levantei, limpei a poeira dos joelhos e abanei a cabeça:

_Me desculpe, estava apenas olhando. Muitas crianças morreram aqui, não é mesmo?

O Homem de preto olhou para a cruz que eu estava vendo e respondeu:

_Sim, a grande seca foi implacável para os pequeninos.

Então o homem não disse mais nada e ficou olhando para o horizonte, perdido em pensamentos e após alguns instantes, falou:

_Essa é uma cidade morta, rapaz. Em 10 anos, no máximo, não haverá mais ninguém vivo por aqui. Se eu fosse você, não ficaria perdendo meu tempo com este lugar.

O homem de preto se virou e andou até a porteira, dizendo sem olhar para trás:

_A vida corre muito depressa para ficar se preocupando com a morte, por isso, vá aproveitá-la e esqueça essas pessoas que moram aqui.

Ele passou a porteira e se distanciou, entrando em uma casa toda pintada de preta, com uma pequena placa indicando que ali era a funerária local. Tirei uma foto da fachada e ajeitei as coisas na mochila, pensando em acatar o conselho do homem, mas alguma coisa me chamou a atenção. O sol estava se pondo e poderia ser uma ilusão de ótica, mas eu tinha certeza que uma mão estava se colocando para fora de um dos túmulos. Preocupado, pensando que alguém poderia ter sido enterrado vivo, corri na direção da mão e chegando mais perto, percebi que ela era translúcida. Meu coração disparou, mas mesmo assim fiquei ali, observando através daquela mão que tentava se libertar de sua prisão de terra. Conforme a iluminação do dia ia diminuindo, outras mãos foram aparecendo, só então corri para fora do cemitério, mas ainda olhando em sua direção. Algumas das mãos estavam conseguindo encontrar apoio e forçavam-se para fora, deixando alguns bustos à vista. Assustado com a situação, corri para a casa mais próxima, mas a porta estava fechada e por mais que eu tentasse arrombá-la, parecia feita de aço, bem diferente de sua aparência pútrida. Tentei outras casa e o mesmo aconteceu, então corri até a casa de Rosa e Gomes.

Ao chegar lá, a porta também estava fechada e comecei a gritar, pedindo ajuda, mas ninguém respondeu. Além da noite, um nevoeiro se aproximava da cidade e a visão do horizonte já começava a ficar difícil. Então segui até a colina, na esperança de tentar sair da cidade antes que o nevoeiro se adensasse, mas incrivelmente acabei me perdendo. Mesmo que a cidade possuísse poucas ruas, parecia que eu estava dando voltas, vendo sempre as mesmas casa, por mais que andasse em linha reta. Olhei ao meu redor e o nevoeiro havia baixado, era impossível ver mais que alguns metros ao meu redor. Nesse momento comecei a ouvir barulhos, como se fossem passos, que quebravam galhos e vinham de diversas direções impossíveis de serem identificadas. Sem ter para onde ir, fui tateando até encontrar as paredes de uma casa e a contornei, chegando na porta da frente, aonde me sentei com a intenção de esperar a noite passar sem ser incomodado por aquele evento sobrenatural.

Os barulhos foram se intensificando conforme a madrugada ia passando e cheguei a ver alguns vultos passando pelas brumas. Eu tentava ficar o mais imóvel possível, para assim não ser notado pelas entidades, mesmo parecendo que elas não se importavam com a minha presença ali. Até que em determinado momento uma bola de plástico veio rolando em minha direção e atrás dela veio correndo um garotinho. Ele estancou no meio do caminho quando me viu e gesticulou com a mão, como se pedisse que eu chutasse a bola para ele. Permaneci imóvel, mas ele insistia e subitamente me veio uma vontade imensa de chutar a bola. Tentei resistir, mas a vontade foi mais forte e acabei chutando-a para o garoto, que parou-a com o pé e depois pegou-a com as mãos e saiu correndo.

Voltei a me sentar e após alguns instantes o garotinho voltou, trazendo com ele uma mulher, que aparentou ter gritado ao me ver, mas nenhum som saia de sua boca. Então, do meio da névoa, outras pessoas começaram a aparecer, interessadas em me ver ali, sentado na frente daquela porta. Elas pareciam nervosas e gesticulavam, talvez tentando me dizer alguma coisa, mas nenhuma voz vinha de suas bocas. Até quando a porta atrás de mim se abriu de supetão e eu quase caí para trás. Por questões de centímetros um machado passou pelo meu pescoço, fazendo um fino corte. Tive segundos para ver que o autor da tentativa era o homem de preto, que agora mais parecia um demônio em vestes humanas.

Me levantei e saí correndo, passando no meio das aparições e sentia o homem de preto no meu encalço. O denso nevoeiro deixava o clima frio e um arrepio na espinha me incomodava sempre que atravessa algum dos “fantasmas”, que tentavam me ajudar barrando o agressor ou me incentivando com as mãos a correr mais. Sem querer, acabei chegando ao cemitério e vi que lá havia uma grande concentração das almas penadas. Me escondi atrás de uma das lápides, sob os olhares curiosos das almas que pairavam ali. Ao longe, ouvi pegadas pesadas pisando na lama daquele solo sagrado e os rostos apavorados das entidades acusavam que o homem de preto se aproximava.

Rastejando, tentei me locomover entre os túmulos, mas senti que uma mão havia agarrado minha canela. Era o homem de preto, que havia me encontrado mesmo com toda aquela névoa. Com o pé livre, dei um chute na cara dele, mas ele não me soltou e levantou o machado no ar, logo após descendo em direção à canela que agarrava. O golpe foi certeiro e arrancou meu pé em um único golpe, gritei de dor e pavor, quase desmaiando, mas sabia que se isso acontecesse seria o meu fim. Livre da mão do homem, tentei me levantar com a perna boa, mas me desequilibrei e senti o machado passando sobre minha cabeça, arrancando a ponta de alguns fios de cabelo.

As almas se amontoavam ao redor do homem, na tentativa de pará-lo, porém não conseguiam e ele seguia em frente como se nada estivesse acontecendo. Ele me olhava, com brilhantes olhos vermelhos quando levantou o machado mais uma vez. Dessa vez percebi que ele não tinha como errar e fechei os olhos, aguardando minha sentença final, quando senti que alguma coisa havia acontecido. Uma bola havia acertado o rosto do homem, distraindo-o momentaneamente. Nesse meio tempo, os espíritos estavam se tornando mais visíveis e começavam a atrapalhar o homem de preto, que desferia golpes a esmo.

Voltei a me levantar e segui mais ao fundo do cemitério. O homem ainda me seguia, mas os espíritos estavam conseguindo pará-lo, por mais que ele tentasse se desvencilhar. Continuei fugindo até chegar num beco sem saída, de um lado estava o homem ainda caminhando na minha direção, do outro um precipício que delimitava o final do cemitério. Vinte almas tentavam segurar o homem, mesmo assim ele conseguiu levantar o machado e veio em minha direção. Vi o machado descendo rapidamente e senti um tranco empurrando meu corpo. Cai no chão achando que eu havia me tornado mais uma das almas condenadas a morar ali no cemitério, mas quando me virei, vi que no meu lugar estava o menino que havia me jogado a bola. Desequilibrado, o homem de preto desceu o machado, que passou o espírito do menino e fez com que o agressor ficasse a poucos centímetros do penhasco. Uma multidão de almas pulou sobre o homem, fazendo-o cair ao longo de muitos metros. Nesse momento, acabei desmaiando.

Acordei com os raios do sol batendo no meu rosto. Eu estava deitado em uma cama e uma atadura improvisada estava enrolada na minha perna. Senti um vulto ao meu lado e vi que era Rosa em sua cadeira de balanço, ainda fazendo seu crochê:

_Tem sorte de ainda estar vivo, filho. – disse ela com um amável sorriso no rosto. _É a primeira vez que vejo as almas tão fortes, tão cheias de ódio contra aquele que foi o grande ceifador desta vilarejo.

_Por que elas me ajudaram? – perguntei.

_Não sei filho. Algumas daquelas almas foram levadas pelo tempo, outras pela seca, mas algumas foram mortas pelo ceifador. Ele chegou aqui enviado pela cidade, para enterrar os mortos pela seca, mas acabou se tornando um mal pior do que ela. Quando a cidade ficou quase vazia, ele nos deixou em paz e permitia que nossos parentes viessem no Dia dos Mortos contanto que não contássemos sobre ele. Desde então ele não havia atacado ninguém, bom, pelo menos até esta última madrugada.

Minha perna doía e eu sentia que minha cabeça ardia em febre, mesmo assim consegui me sentar na cama:

_Então os que me ajudaram foram vítimas dele?

_Acho que sim, principalmente os que se tornaram fortes o suficiente para agarrá-lo.

Tentei me levantar e não consegui. Apesar de saber que eu não deveria estar fazendo aquele esforço, Rosa me deu uma bengala que estava encostada ao seu lado. Com dificuldade, voltei ao cemitério e lá encontrei Gomes, ajoelhado do lado de um túmulo. Me aproximei o mais silencioso possível e esperei ele se levantar. Sentindo minha presença, ele disse sem tirar os olhos do túmulo:

_Ele foi a última criança da cidade e passava os dias a jogar bola sozinho. Esperava que algum dia tivesse algum amigo para jogar a bola de volta, mas isso nunca aconteceu. Estava jogando na frente da funerária quando o homem o pegou. – Gomes se calou, passou por mim sem falar mais nada e saiu do cemitério, indo na direção de sua casa.

Me aproximei do mesmo túmulo que ele e li em pequenas letras “Ramirez Sosa Monterrey, o menino que jogava bola – 2000 – 2013”.

Fim

Essa ficção foi inspirada a partir de uma história real.

CHESTER CHENSON

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas: ,

Comentários (5)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: