Comemorações de 12 anos encerradas. Luto oficial em toda a nação por tempo indeterminado.

Criptografia.

Não sei se é lenda urbana, mas a história é a seguinte: um abastado empresário mandou blindar seu carrão importado. Numa bela noite, parou num sinal e foi abordado por um meliante armado. Confiante na caríssima blindagem que revestia seu veículo, riu da cara do bandido. Poucos segundos depois, estava com a arma apontada a milímetros de seu rosto, já dentro do carro. Como? Esquecera de trancar a porta.

Para bom entendedor, uma anedota basta. Mas eu tenho páginas para cumprir: “A criptografia moderna é bela, nóis que estraga ela”. Já está ficando até chato, toda semana vazam mais e mais fotos íntimas de celebridades, a maioria vítima de uma falha de segurança no sistema criptografado de armazenamento de arquivos da Apple.

Quebraram a criptografia? Não, abriram a porta destrancada mesmo. A criptografia digital ainda é a forma mais segura de se proteger um arquivo de olhares curiosos, e absolutamente essencial nessa era de troca de informações constantes. Sem criptografia seria impossível que a internet chegasse onde chegou.

Mas o que é criptografia?

VTOQYPHTSGOS

A origem da palavra é grega, significa escrita escondida. Não precisa de um computador para criptografar algo, basta transformar uma mensagem compreensível em incompreensível para todos menos os que sabem o segredo. Aposto que muitos de nós já brincamos disso com a famosa “língua do P”. É uma porcaria de criptografia, é claro, mas todos os princípios estão ali.

Como segredos são extremamente importantes na história da nossa espécie, desenvolvemos uma série de métodos bem mais complexos para codificar mensagens e garantir que só os recipientes certos pudessem compreendê-la. Os primeiros registros que temos são dos egípcios, em hieroglifos fora do padrão datados de 1.900 a.Z.J. (antes do Zumbi Judeu).

Mas eu aposto que já aprontavam desde os tempos das cavernas. Uma daquelas tantas gazelas desenhadas provavelmente estava sacaneando um homem-das-cavernas mais… colorido. É da nossa natureza limitar informações, conhecimento é poder! O problema da criptografia humana é que eventualmente descobrem o segredo e ela deixa de valer.

No Império Romano usavam algo chamado de Cifra de César, algo pouco mais complexo do que a língua do P: bastava pular três letras no alfabeto para descobrir a correta. O pior é que funcionou por um bom tempo. Depois dessa fase mais ‘romântica’, entraram os matemáticos na jogada. Os árabes começaram com a parte ‘profissional’ da coisa (o que aconteceu com esse povo? sério, é deprimente pensar nisso).

As fórmulas foram se tornando cada vez mais complexas, e com o tempo decodificar mensagens não era mais possível só com o cérebro humano. E não faltaram guerras para incentivar o desenvolvimento da área.

HSMJSMFP S HIRTTS

O próximo salto na tecnologia da criptografia responde por Enigma. Esse era o nome da máquina que fez o alemães terem uma vantagem considerável durante a Segunda Guerra Mundial. Os soldados alemães comunicavam-se por sequências indecifráveis de letras e números (e vamos convir que alemão já é denso o suficiente sem criptografia) que os aliados não tinham a menor ideia de como desembaralhar.

O grande segredo da Enigma é que o… segredo… mudava constantemente! Mesmo que colocassem as melhores mentes para descobrir, logo tudo mudava e tinha que começar todo o processo novamente. Claro que vários outros fatores contribuíram, mas o Terceiro Reich começou a ruir quando um alegre cientista chamado Alan Turing capitaneou a construção de uma outra máquina chamada Colossus. Com as informações conseguidas através de uma máquina Enigma roubada, ele pode desenvolver a tecnologia necessária para desconstruir as chaves de segurança alemãs tão rápido quanto eles as criavam.

E quando a superioridade de informação caiu, o resto foi seguindo o mesmo caminho. Turing foi um daqueles Gênios com G maiúsculo, e não porque era gay (a piada se faz sozinha). Mesmo depois de ter ajudado MUITO na guerra, Turing foi perseguido por sua orientação sexual até acabar se matando em 1954. Nunca foi segredo que a humanidade se preocupa mais com a genitália alheia do que com a ciência…

Mesmo com a ingratidão da humanidade, Turing ainda nos deixou outro legado: os computadores. Mal pode ver tanto do que teorizou se tornando realidade nas décadas seguintes. Mesmo sendo mecânicos, os equipamentos para desenvolver e quebrar criptografias deram o primeiro passo para o desenvolvimento da tecnologia computacional.

FOHOYSÇ

Com os computadores avançando numa velocidade impressionante, finalmente chegamos no ponto onde uma pessoa JAMAIS quebraria uma dessas chaves de segurança sem ajuda de um outro computador. A criptografia permite que a internet seja viável tanto na comunicação quanto na comercialização de bens e serviços.

Hoje em dia é quase impossível não fazer uso da criptografia no dia-a-dia: sem ela seria trivial acessar a conta bancária de outra pessoa e gastar o dinheiro dela ao invés do seu. É relativamente fácil saber quando a página de internet que você está visitando está usando criptografia ou não: normalmente os endereços de web começam com “http://”. Quando sua conexão está criptografada aparece um S a mais: “https://”. É discreto, mas faz muita diferença. Sem o “S” tudo o que você está fazendo está arreganhado para quem puder interceptar a comunicação, com o “S” a informação viaja toda embaralhada de um lado para o outro da rede, só sendo liberada sua leitura para quem tem a chave de segurança (normalmente só você e o site em questão).

FOGÓVOÇ

E como funciona a criptografia hoje em dia? Com certeza não estão mais só usando letras depois da real como no tempo de César (ou de Somir). A criptografia moderna se baseia em algo muito simples: contas que um computador pena para fazer. Computadores não adivinham, eles sempre tem que fazer todos os cálculos possíveis para chegar num resultado.

E é aí que está este segredo. Pela forma como os computadores fazem contas (e SPOILER: eles só fazem isso), é especialmente complicado descobrir, por exemplo, quais números são divisíveis por quais. O computador não vai chutar porcaria nenhuma, ele vai dividir todos os números possíveis pelo alvo até dar o resultado.

O que é relativamente fácil quando o número é 12: 1, 2, 3, 4, 6 e 12. Mesmo que ele tente o 5, o 7, o 8, 9, 10 e 11, ainda vai ser bem rápido. Agora, quando ele tem que achar todos os divisores de um número com mil dígitos, a coisa começa a ficar complicada. Ele tem que fazer com todos. A criptografia moderna se baseia em explorar essas ‘falhas’ do processo de cálculo dos computadores para criar problemas que demorariam milênios para serem resolvidos mesmo pela máquina mais poderosa existente.

A chave de segurança nada mais é do que a resposta do problema. Se o computador sabe de antemão quais são os números que dividem, pode verificar a resposta em frações de segundo. Teoricamente, ele pode finalmente adivinhar os números e confirmar que de fato, eles dividem.

Isso, aliás, é bem próximo de um dos maiores desafios da matemática moderna, saber se P é igual NP: de forma horrivelmente simplificada, P são as contas que o computador consegue fazer, NP são as que ele consegue verificar se estão corretas, mas sofre MUITO para fazer. Tentam descobrir se existe algum ‘truque’ para fazer os computadores resolverem as contas NP com a mesma facilidade que resolvem as P.

Se alguém resolver esse problema, ganha um milhão de dólares (e provavelmente imortalidade científica). Se a resposta for que P e NP são a mesma coisa, a criptografia como conhecemos vai para as cucuias, seria muito fácil descobrir as chaves de segurança. Se não for, ainda devemos temer o computadores quânticos.

Como os ainda incomuns e pouco práticos computadores quânticos tem uma capacidade potencial de fazer o trabalho de milhares de computadores ao mesmo tempo (ou até mais), mesmo fazendo as contas dessa forma complicada e demorada, ainda sim os prazos para quebrar a criptografia cairiam numa velocidade absurda, tornando-se razoáveis para qualquer adversário.

QPTYS SNRTYS

Mas enquanto isso não acontece, pode confiar na criptografia. É MESMO absurdamente difícil, demorado e dispendioso derrubar esse muro. O problema sempre é uma porta aberta. A peça que mais dá defeito num computador é a que está olhando para o monitor…

Se você tiver seus arquivos criptografados, só quem tem a chave de segurança vai acessá-los. Ponto. Não acredite em teorias conspiratórias de agências de segurança quebrando criptografia atual, é balela. Até mesmo a criptografia que vem no seu Windows é complicada demais de quebrar. Ninguém em sã consciência vai se concentrar em decodificar sua mensagem antes de tentar arrancar a senha de você.

Claro, desde que sua senha não seja algo ridículo que qualquer dicionário de palavras já contenha. Ou qualquer coisa terminada em 123. Mas já aprendemos que senha tem que ser levada a sério, não?

Para dizer que ainda não decifrou minha criptografia, para ficar paranóico achando que estão lendo tudo o que você escreve, ou mesmo para reclamar que não tem S no desfavor: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas: , ,

Comentários (28)

  • Lembram dos hds apreendidos no apartamento de Daniel Dantas? Eles estavam criptografados com o software TrueCrypt e ninguém foi capaz de quebrar está barreira. Recomendo o podcast Segurança Legal onde falam sobre o TrueCrypt.

  • Na verdade, o grosso do trabalho de decifrar o Enigma foi feito por matemáticos poloneses, que desde muitos antes da guerra já criptografavam a comunicação do exercito alemão, tendo construído réplicas das máquinas graças ao talento e documentos do fabricante passados pelos franceses. Só pararam quando os alemães passaram a usar , cinco rotores para escolher os três que iriam para a máquina no final de 38. Assim, repassaram em junho de 1939 o que sabiam para Turing e Cia., que finalizaram o trabalho.

  • Wbfeçlçsi pyw ç xeuorifeçduç si Ainue ewoewawbrç yn ÇREÇAI wn ewkçaçi ç sw Xwaçe. Gwub, çreçai, wbrwbswy?

    Çg, disç-aw, bubfywn cçu reçsymue uaai nwani.

      • Hahahaha o Humano 1.1 viria criptografado, com firewall, pacote de idiomas, módulo de senso crítico totalmente remodelado… além de outras pequenas correções como a do bug de morder a própria língua.

  • Rcvrçrmyr yrcyp !!!!!

    “Os árabes começaram com a parte ‘profissional’ da coisa (o que aconteceu com esse povo? sério, é deprimente pensar nisso).” – Também me dá depressão pensar na perda de conhecimento de povos como os árabes, chineses, maias. Será que os “médios” venceram mesmo? Força bruta vs capacidade intelectual? Excesso de filhos???

    • No caso dos árabes, é um misto de religião e mais recentemente, petróleo. Mas talvez daqui há alguns séculos os africanos estejam lamentando pelos europeus… Vai ver é cíclico mesmo.

  • Bacana ver este tipo de assunto aqui! Apenas aprofundando um pouco na questão do P versus NP. Este é talvez o problema mais fácil de ser explicado intuitivamente ao público geral, dentre os “problemas do milênio”: P representa a classe de problemas computáveis em tempo polinomial, isto é, a quantidade de cálculos necessários para se resolver os problemas em P cresce polinomialmente. NP representa a classe dos problemas que têm solução verificável em tempo polinomial. Em outras palavras, se você der a solução ao computador, a quantidade de cálculos que ele precisaria fazer para verificar se a solução está certa cresce polinomialmente. Assim, o problema P=NP pergunta se, quando é rápido verificar uma solução, existe um algorítmo que encontre a solução na “mesma” velocidade.

    Um bom e simples exemplo é o problema do caixeiro viajante, google it.

    Extrapolando poeticamente o significado da questão, podemos dizer que, se P fosse igual NP, seria tão fácil compor a 5a de Beethoven quanto o é “compreende-la”. Ou pintar a monaliza versus aprecia-la.

    • Ganho o dia quando aparece alguém para aprofundar os assuntos. Passei umas boas horas da minha vida tentando entender P e NP, e não porque estou mirando no milhão de dólares. E bem que você disse que é o mais fácil de visualizar… quando eu fui descobrir mais sobre os outros problemas milionários, recolhi-me à minha insignificância matemática.

      • Pois é, há maneiras mais fáceis de ganhar o milhão… quem mira em um desses problemas, é pra por o nome na história. Tanto que o único que resolveu um deles até o momento, recusou a grana… e com isso chamou mais atenção ainda, rs.

Deixe uma resposta para Joviatã Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: