Um Mago Sem Destino – Interlúdio 2ª Temporada

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Desfavor Convidado: Um Mago Sem Destino

Interlúdio 2ª temporada: Mil maneiras de se morrer no oeste

Naquela primavera, Papaco teve que enterrar seu mentor, morto por causa de um resfriado que ele havia pego durante o último inverno. Aquelas haviam sido noites geladas dormidas ao relento, o que acabou minando a saúde do velho homem que um dia Papaco havia chamado de tio, apesar dele não ter sido seu verdadeiro tio. Papaco não conhecia sua família biológica, já que seu progenitor havia morrido durante um confronto com os indígenas e sua mãe era uma famosa prostituta vinda de Nu York que o havia abandonado ainda bebê na porta de uma fazenda. Órfão, ele foi adotado por um casal de fazendeiros, que certo dia foram saqueados e mortos por um bando de malfeitores. Desde então, Papaco andava de cidade em cidade à procura de pistas e em busca de vingança. No meio do caminho encontrou o velho, que o ensinou a atirar, a desconfiar dos índios e dos mexicanos, a jogar pôquer e a gostar de ser sodomizado por outros homens.

Pouco antes de morrer, o velho havia falado de um homem que vestia preto e que desconfiava ser do bando que havia matado os fazendeiros. Era esse homem que eles estavam perseguindo desde Denver até Kansas City, aonde tiveram que parar por causa da saúde fragilizada do velho. Um médico da cidade chegou a visitá-lo, mas o velho acabou morrendo mesmo assim e o enterro foi feito pelo próprio Papaco, com uma pá alugada a 10 centavos por hora. Por isso tudo precisou ser feito tão rapidamente, já que o dinheiro estava escasso. O velho tinha poucos pertences, dentre eles uma pistola, algumas moedas, um coldre com 8 balas e um chapéu puído. Papaco pegou tudo, pagou o dono da pá e seguiu adiante, antes que perdesse o rastro do homem de preto.

Esse rastro levava a Topeka, mais precisamente a um pequeno saloon abarrotado de pistoleiros andantes à procura de emprego. Aqueles eram tempos difíceis e encontrar algum fazendeiro precisando de mão-de-obra era uma das únicas maneiras de se ganhar dinheiro honestamente. Caminho que cada vez menos homens estavam dispostos a seguir, tornando o oeste um local perigoso e propenso a crimes. Papaco era um desses que ainda se mantinham honestos e apenas observava uma rodada de pôquer que ocorria cinco mesas à sua frente. O homem de preto era um dos jogadores e já havia notado sua presença ali. Para demonstrar isso, havia lhe enviado três canecos de cerveja. Papaco observava o suor escorrer do terceiro copo, mais gelado que os outros dois que ainda estavam cheios, quando foi interrompido:

_Ei chapa, não vai beber isso? – perguntou um caubói de calças pretas e camisa xadrez que se debruçava no balcão. Papaco apenas acenou com a cabeça e o caubói se levantou. Pegou os três copos e voltou para o balcão, acenando para o homem de preto, que apenas o olhou com desprezo.

Papaco estava pensando em como não havia percebido o quanto as pessoas haviam se transformado em idiotas, quando uma confusão na mesa de pôquer começou. Quatro disparos acabaram com a algazarra e no final das contas apenas o homem de preto continuava vivo entre os participantes do jogo. Em suas mãos estavam duas pistolas, ainda fumegantes:

_Acabei de matar esses imbecis por tentarem me roubar e dentre eles estava o xerife, se algum de vocês não tiver objeções, é do meu direito me tornar xerife agora.

Todos no saloon estavam calados, menos o caubói que havia pego as três cervejas, que batia calorosas palmas para o homem de preto. Quando Papaco se levantou, o barulho que fez foi estrondoso e fez com que todos se virassem na sua direção:

_Eu tenho uma objeção.

Papaco olhou para o homem de preto, que retribui o olhar com a mesma intensidade e respondeu:

_Finalmente você se manifestou, já estava achando que não passava de um cagalhão.

_Cagalhão é a puta da sua mãe.

_Não ofenda as putas e acabem logo com essa palhaçada. – ouviu Papaco, percebendo que meia dúzia de prostitutas se amontoavam no segundo andar do saloon.

Quem lhe dirigia a palavra era uma mulher de seios fartos e cabelo vermelho penteado em longas tranças. Papaco voltou sua atenção apara o home de preto e os dois se encararam por longos minutos. Em questão de segundos Papaco estava com a arma engatilhada em uma das mãos, o que deixou o homem de preto impressionado:

_Bem, agora sou um homem da lei e devemos fazer isso da maneira certa. Nos encontraremos ao pôr do sol de amanhã para um duelo, portanto não suma feito um frangote.

Depois disso o homem de preto guardou as armas, colocou o chapéu e saiu da saloon. Fez tudo isso sem tirar os olhos de Papaco, que ainda apontava sua arma para ele. Após sair, um suspiro aliviado ecoou pelo lugar e cinco homens começaram a retirar os mortos com dificuldade. Papaco guardou a arma e seguiu até o balcão, onde foi recebido com uma caneca de cerveja gelada:

_Essa é por conta da casa – disse o atendente.

Ele bebeu do caneco apenas porque estava com muita sede e no meio do copo sentiu uma mão em seu ombro, ao se virar viu que era a prostituta ruiva, que se insinuava para ele dizendo:

_Talvez essa seja sua última noite vivo, então venha comigo para o meu quarto.

Papaco bebeu o resto da cerveja em um único gole e acompanhou a mulher até o quarto dela, que era pequeno e tinha apenas uma cama de solteiro com um colchão afundado no meio devido ao uso constante. Após fechar a porta, a mulher apalpou a virilha de Papaco, que segurou seu pulso e disse:

_Meu bem, da fruta que você gosta, chupo até o caroço. Aceito dormir aqui com você, mas duvido que alguma coisa vá acontecer entre nós.

Visivelmente decepcionada, ela tirou a mão da virilha e se sentou na cama, que rangeu um pouco:

_Puta que pariu, tanto homem querendo me comer e escolho justo um que prefere a pistola do que o coldre.

Então ela começou a retirar o espartilho, o que fazia seus avantajados seios balançarem. Para surpresa de Papaco, ele teve uma ereção:

_Acho que a situação acabou de mudar, venha cá.

Os gemidos e gritos daquela noite serviram de fofoca por muito tempo nas conversas daquele saloon em Topeka.

No dia seguinte Papaco acordou vestindo apenas a roupa de baixo e com a respiração quente de Michelle (essa era o nome dela) ao seu lado. Ele olhou para ela e finalmente entendeu seu interesse naquela mulher, a primeira de sua vida. Os raios de sol lambiam o cabelo vermelho, o que dava a impressão de estar pegando fogo. Sua pele branca ficava levemente rosada com o calor e seus seios subiam e desciam lentamente conforme respirava. Ele tirou uma foto mental daquele momento, mesmo tendo a certeza que nunca mais se interessaria por outra mulher. Ele se levantou sem acordá-la e colocou sua roupa, depois disso desceu para o saloon.

No andar de baixo parecia que o tempo havia parado, com as mesmas pessoas estando praticamente nos mesmos lugares da noite anterior. Apenas o caubói das três cervejas ainda dormia, mas estava branco feito papel, o que fez com que Papaco se aproximasse dele e o cutucasse. Sem resistência, o homem caiu no chão, com sangue saindo de sua boca. Papaco se agachou e verificou que o homem estava morto, provavelmente por causa do que havia bebido em seu lugar:

_Maldito filha da puta! – exclamou Papaco, já que aquele veneno estava destinado a ele.

Por cima da bancada, o atendente olhava a cena enquanto limpava uma caneca de cerveja. Sem se importar com os olhares que o seguiam, Papaco pegou sua arma, engatilhou, saiu do saloon e foi até a cadeia. Com um chute abriu a porta e deu um tiro certeiro no meio da testa da primeira pessoa que encontrou lá dentro. Infelizmente não era o homem de preto, mas apenas um dos presos que havia sido amarrado na cadeira do xerife. Ao perceber o engano, Papaco sentiu algo zunindo em seu ouvido e uma forte ardência no lóbulo da orelha, por onde uma bala havia passado e deixado um buraco perfeito:

_Agora vai poder usar brincos, sua bichona. – gritou uma voz do lado de fora.

Papaco rolou pelo chão e ficou agachado atrás da janela. Ao tentar olhar para fora, outro tiro foi dado e acertou o fundo da cadeia, aonde ficava uma pequena cela. Apenas neste momento ele percebeu que havia alguém dentro da cela, um menino que tentava se esconder entre as sombras. Rastejando até o local, Papaco tentou abrir a porta da cela, mas estava trancada:

_As chaves estão com ele e posso te dizer como vencê-lo se fizer um acordo comigo. – disse o garoto.

_Fale logo ou te deixo mofando aqui. – respondeu o homem.

O menino saiu das sombras e era mais branco que a maior parte das pessoas que Papaco já havia conhecido. Além disso, era careca e seus olhos eram violetas, que demonstravam uma certa sabedoria ancestral:

_Aquele moço lá fora é meu primo e às vezes sofre com intensas dores de cabeça. Houve tempos que ele curava essas dores com asmina, mas hoje em dia ele não as consegue mais. – disse o garoto.

_O que é asmina? – perguntou Papaco.

_Não importa, o que importa é que barulhos estridentes costumam deixá-lo com dor de cabeça. Ao fim da rua há uma Igreja, mire no sino até que o barulho faça seu papel.

Seguindo o conselho do menino, Papaco rastejou de volta para a janela e discretamente olhou para fora, procurando pela Igreja. Encontrou-a e viu um sino, mirando nele. Quando atirou, o barulho da badalada ecoou pela cidade e de repente o homem de preto saiu de dentro de um imóvel que ficava na frente da cadeia. Visivelmente trastornado, ele tentava mirar na direção de Papaco, mas este foi mais rápido e deu um tiro certeiro na barriga do homem de preto, que caiu no chão tentando estancar o sangue que jorrava. Papaco saiu da cadeia e foi na direção do homem caído, que não tentou pegar as armas que agora estavam no chão:

_Finalmente minha maldição acabou e a sua começou. – disse o homem de preto enquanto Papaco pegava as armas.

_Você é mesmo um filho da mãe desgraçado. – respondeu Papaco, limpando a poeira das armas em suas calças. Elas pesavam mais do que aparentavam e possuíam cabo feito de sândalo. Com a ponta dos dedos, Papaco sentiu que havia algo escrito na base dos revólveres. Ao virá-los de ponta cabeça, leu claramente “Roland Deschain, de Gilead”. _Você é Roland? – perguntou.

_Primeiro e único. Agora preciso te passar uma missão que era minha, mas que não pude resolver por causa de meus erros no passado… – Roland fez uma careta de dor, apertando com ambas as mãos o ferimento na barriga. _Eu precisava encontrar um jovem mago chamado Raul, mas não fui capaz. Eu precisava alertá-lo que matar o inimigo não é a solução. Se ele fizer isso, terá o mesmo destino que eu…

Roland agonizou novamente, fechou os olhos e parecia que ia desmaiar, mas antes que isso acontecesse, ele respirou profundamente e continuou a falar:

_Você precisa encontrar Raul e avisá-lo, senão as linhas da realidade e da ficção irão se quebrar e nada será como antes. Nosso mundo seguiu adiante, mas talvez ele ainda tenha tempo para consertar o dele… – ele parou mais uma vez para respirar e continuou. _Mas primeiro preciso ser enterrado ao lado de meus antepassados, senão nunca terei paz e assim não estarei morto de verdade. Me coloque em um caixão e me leve para Gilead, caso não saiba qual caminho seguir, meu primo poderá te guiar, já que habitantes de Gilead nunca se perdem. Tome, pegue as chaves e liberte-o, mas tome cuidado com esse pequeno demônio. – Roland entregou as chaves para Papaco e logo depois caiu no chão, com seu sangue fazendo uma poça ao redor de seu corpo.

Papaco se levantou com as chaves e as pendurou junto com as armas de Roland no cinto. Após isso olhou para a cadeia e pensou na última frase que o velho havia dito antes de morrer:

_Existem mil maneiras de se morrer no oeste, rapaz. Um resfriado é apenas uma delas, não é a melhor, mas também não é a pior. Contanto que não seja por causa de uma grande besteira, todo tipo de morte é válida.

Com a ligeira impressão de que estava fazendo uma grande besteira, Papaco começou a andar na direção da cadeia. A cada passo as chaves balançavam e batiam na arma. Eram o único barulho em toda a cidade e pareciam anunciar a iminente epopeia que Papaco estava prestes a protagonizar.

Continua…

Chester Chenson

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