Chorando de rir.

+O ator Roberto Bolaños, criador de personagens como Chaves e Chapolin, morreu aos 85 anos nesta sexta-feira (28), em sua casa em Cancún, no México.

Bolaños deixou um mundo chato demais para merecê-lo. Desfavor da semana pela perda de um talento e por uma sociedade cada vez mais incapaz de reconhecê-lo.

SOMIR

Não faz muito tempo Sally escreveu um texto brilhante sobre como o Chaves não seria mais aceito como algo novo no mundo de hoje. A mais pura verdade. Passava por debaixo dos radares do politicamente correto por ter sido feito em outros tempos e por ser adorado por várias gerações.

Se nada de muito horrível acontecer, continuará assim. Mas ai de quem tentar mostrar um mundo menos do que ideal para nossas crianças! Chaves é atemporal, mas infelizmente seu humor está datado. Não se pode mais rir do obviamente ridículo, não é mais aceitável debochar do que nos incomoda numa espécie da catarse da imperfeição humana.

Bolaños nos deixa marcando o fim de uma era. Uma era onde se respeitava mais a inteligência das crianças e não se tentava criá-las em bolhas. Sua saúde debilitada no final da vida não nos deixa pesar demais pela sua partida, mas é sempre triste quando ficamos pra trás. O seriado deliciosamente tosco com o qual nos presenteou perdurará por mais algum tempo, provavelmente ainda graças às reprises do SBT, mas a ‘alma’ que o tornou possível simplesmente não faz mais parte de nosso mundo.

Para mim a característica mais marcante do Chaves era como as personagens demonstravam para as crianças como na prática a teoria é outra. Lições valiosas sobre a parte menos aceitável da natureza humana. Lidava com preconceitos e falhas de caráter com uma doçura ímpar. Eram personagens que faziam coisas ruins mas não eram necessariamente pessoas ruins.

Muitas vezes os conflitos apresentados no seriado eram frutos das condições precárias em que viviam. Ria-se da pobreza, da ignorância, da truculência… todas coisas habituais no mundo em que vivemos. Ao invés de tratar o desprivilegiado como um coitado sem personalidade, Chaves e cia. jogava na sua tela o lado positivo e negativo dessas pessoas, sempre a serviço da risada.

Infelizmente as crianças de hoje são superprotegidas de fatos da vida como a dualidade da personalidade humana. Seus heróis são todos bonzinhos, compreensivos e estéreis. Não nego o valor de ensinar bons exemplos, mas quando eles se afastam da realidade, a realidade parece ficção para essas crianças. Estão se identificando cada vez menos com gente de verdade. Seu Madruga era um exemplo de vagabundo, sim, mas também era uma valiosa lição sobre o que acontece com vagabundos. Havia consequência.

Se você só vê pessoas impossivelmente boas agindo de forma positiva, como lidar com os próprios conflitos? Somos humanos. Ver alguém fazendo coisa errada mas ao menos tentando se redimir gera exemplos mais fáceis de se identificar. Chaves agrada muitos adultos, mas é essencialmente infantil: tudo está lá para as crianças. O bom e o ruim.

Exatamente como ela vai se sentir em relação ao mundo mais tarde. Se o padrão de comportamento reforçado se torna inalcançável, a criança vai perder o interesse em segui-lo. A graça estava nas gags visuais e nas piadas incrivelmente sem vergonha, mas também havia os conflitos internos das personagens e frequentes demonstrações de que no fundo todos eram humanos e queriam fazer a coisa certa.

E é disso que as crianças precisam: da crença que fazer a coisa certa deve ser o norte de suas ações. Todos vamos falhar, todos vamos nos render aos menores denominadores comuns do comportamento humano e nos colocar em situações politicamente incorretas como as demonstradas no seriado. É preciso saber lidar com isso, saber sair desse buraco.

E entender que o mundo não é perfeito. Chaves lida demais com frustração e a natural impossibilidade de se ter tudo o que quer. A personagem principal é um menino de rua, oras! Meu medo é que essa geração criada com a ilusão de que querer significa poder fique frustrada demais com a vida real para produzir qualquer coisa que preste.

E desconte tudo isso em quem tenta fugir desse padrão preguiçoso de aspirações irreais. São materiais como Chaves que fazem a importante transição entre desejo e realidade em cabeças em formação, e infelizmente eles estão cada vez mais raros.

Com a morte de um dos seus maiores expoentes, ficamos ainda mais órfãos de conteúdo do tipo. É um marco negativo, Bolaños já fazia falta afastado, fará ainda mais depois de partir.

Para dizer que só diz isso quem não tem Discovery Kids, para dizer qual sua personagem favorita do Chaves que não o Seu Madruga, ou mesmo para dizer que só achava engraçado as crianças se pegando de porrada: somir@desfavor.com

SALLY

Morreu o último Dodô. O humor entra oficialmente em extinção hoje. Morreu ontem, aos 85 anos, Roberto Bolaños, o criador do personagem e do seriado “Chaves”.

Seria mais do que merecida uma homenagem do Desfavor, mas, como já escrevemos sobre Chaves, vamos direito ao assunto. Não se trata apenas da morte de uma mente privilegiada, que conseguiu emplacar com sucesso um seriado com baixíssimas restrições orçamentárias. Se trata da morte do humor gostoso, incorreto e humano que Bolaños sabia fazer.

Apesar de ser politicamente incorreto, Chaves ainda era permitido, pois atravessou a fronteira antes dela ser fechada. Quando o seriado chegou ao Brasil, ainda não havia a ditadura do politicamente correto. Isso permitiu que um seriado onde um homem bate em crianças seja querido. Um seriado onde um personagem declara abertamente sua aversão ao trabalho. Um seriado onde uma idosa é severamente hostilizada.

Quando Chaves entrou, a fronteira estava aberta. Esse tipo de humor era permitido. Mas, com o tempo, o cerco foi se fechando e hoje a fronteira está muito bem guardada por cães de guarda judicial. Não pode mais falar ou fazer nada do que é mostrado em qualquer episódio de Chaves sem tomar um processo. Mas Chaves não era/é alvo dessa fúria. Uma vez do lado de dentro, ganhou permissão para ficar.

Depois que o seriado Chaves entrou, a porta bateu. Mais ninguém entra, ao menos não no grau que o seriado faz. Chaves era o que havia sobrado de autenticidade em matéria de seriado de humor, talvez por isso tenha feito e faça tanto sucesso. Por mais que Bolaños não estivesse mais escrevendo e que nos últimos tempos sua saúde estivesse deteriorada, ele ainda estava lá, ele ainda estava do lado de dentro, ele ainda podia colocar mais coisas para dentro da fronteira. Não mais. Infelizmente.

O pior é toda essa comoção, admiração e pesar que as pessoas esboçam. Pessoas que no segundo seguinte estão te bombardeando com algum discurso politicamente correto. Pessoas hipócritas que enchem o saco com um discurso que torna incompatível sua admiração pelo seriado, mas não percebem, porque estão acostumadas a uma repetição quase que mecânica daquilo que gera aceitação social.

A mesma pessoa que dá uma pedrada no Desfavor se fizer humor com algum assunto proibido, assiste e ri de “Chaves” sem ao menos perceber a incoerência. A pessoa que gosta de Chaves e não sabe identificar exatamente porque é a mesma que sufoca qualquer possibilidade de humor em troca de posar de boa pessoa. O tributo que estão pagando a Roberto Bolaños é, o mínimo, hipócrita, já que quem tenta seguir seus passos é vítima da fúria destas mesmas pessoa.

Uma pena que a morte de Bolaños não tenha uma utilidade, seja apenas a dor da perda, a saudade. Uma pena que as pessoas não parem para refletir porque este foi o último grande seriado de humor de sucesso na tv aberta. Talvez se o fizessem, percebessem que Chaves agradou gerações por desafiar justamente as regras que eles cagam todo santo dia.

Uma coisa todo mundo sabe: os seriados nacionais de humor são sem graça, tanto é que nenhum emplaca faz tempo. Partindo dessa premissa, não precisa de muito raciocínio para perceber qual é o fato que existe no Chaves e não existe nos seriados modernos. Só não vê quem não quer.

Morreu um dos últimos que tinha permissão social para brincar, sem amarras. Um seriado onde um adulto bate em uma criança e todo mundo ri. Onde chamam uma idosa de baranga e todo mundo ri. Onde personagem diz que não gosta de trabalhar e é amado. Onde gordo é sacaneado e todos acham graça. É mesmo tão difícil assim perceber que o politicamente correto está matando o humor?

Desfavor deixa seu tributo a Roberto Bolaños que, sem saber, foi o último suspiro de humor espontâneo na TV aberta brasileira. Uma pena que ele não esteja mais entre nós, ele tinha passe livre para nos trazer mais coisas boas.

Para reclamar que a morte dele frustrou sua expectativa dos nossos comentários sobre os mascotes olímpicos, para lamentar que um dos poucos com licença para brincar tenha morrido ou ainda para relembrar momentos históricos do seriado Chaves: sally@desfavor.com

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Comentários (30)

  • “(…)que conseguiu emplacar com sucesso um seriado com baixíssimas restrições orçamentárias.” O correto não seria; com altíssimas restrições orçamentárias? As restrições eram altas, no sentido da baixa ‘qualidade’ da produção.

  • Somir conseguiu mostrar a essência do programa chaves e ao mesmo tempo como ele influi o nosso mundo. E como essa influência faz e vai fazer falta.
    Chaves será eterno!

    ……………………………….

    Gente falando merda sobre já era esperado por mim assim como uma comoção exacerbada da manada “funcional” . Todo assunto que está na “moda” obriga a massa funcional a assumir um lado pra poder defender a unhas e dentes, o velho grupinho.
    Por favor um povo mais inteligente nesse pais!

  • Este post explicita uma das características do Desfavor que mais aprecio: a de falar sobre o que todo mundo está falando – mas só quando é realmente relevante ou necessário – de uma forma que ninguém mais faz ou consegue. Parabéns, Somir. Parabéns, Sally. De tudo o que li nos últimos dias repercutindo o falecimento do Bolaños, os textos de vocês foram, disparado, os melhores, tanto como análise quanto como homenagem. Já mandei o link daqui pra algumas pessoas que, espero, consigam apreciar o que vocês escreveram tanto quanto eu.

  • “(…)Meu medo é que essa geração criada com a ilusão de que querer significa poder fique frustrada demais com a vida real para produzir qualquer coisa que preste.

    E desconte tudo isso em quem tenta fugir desse padrão preguiçoso de aspirações irreais. (…)”

    Infelizmente, isso já está acontecendo, Somir…

  • Eu amo o Chaves… ri muito e algumas vezes chorei tbm…

    Amo muito!! No meu face houve gente falando que era uma merda, que nao achava graça nenhuma e que era machista… cheguei a ler de gente falando coisas tipo… deixa esses tontos chorarem por uma merda de programa.

    Santa ignorancia… Não é todo mundo que consegue enchergar a escência do programa e o que ele realmente queria transmitir.

    PArabéns pela definição dos dois!!! Gostei muito!! :)

  • Bruna K. de Souza

    Chaves nunca vai deixar de passar no SBT porque Silvio Santos é tão ou mais politicamente incorreto que o seriado…

    No Teleton, Silvio Santos perguntou pra atriz que faz uma das Chiquititas (Pata, a chiquitita negra) o que ela queria ser quando crescer e ela respondeu “atriz ou cantora”. Logo em seguida, Silvio Santos soltou um “COM ESSE CABELO?” falando do cabelo da menina, que é daquelas que assume os cachos. Acho que ela foi pro camarim chorar…

    Não é pra morrer de amor?

    Silvio Santos não tem filtro. Então acredito que o seriado vai longe na emissora.

    Chaves chirrion :'(

    • Silvão é meu herói. Agora que está velho, percebeu que tem aval social para falar qualquer merda e está mandando ver!

  • Shoshona zlutsky

    ”A mesma pessoa que dá uma pedrada no Desfavor se fizer humor com algum assunto proibido, assiste e ri de “Chaves” sem ao menos perceber a incoerência.”

    Se chamam estúpidos. Eu tenho um irmão que é assim. Se define como O ”anti-racista” (prof de estória), mas é hipócrita ao nível máximo.

    O problema do humor moderno, e é algo que eu tenho mesmo de concordar com os idiotas úteis, é que o humorista faz humor com os grupos dos quais nutre menos empatia. É a visão bem humorada (ou na tentativa de ser…) dele sobre o seu cotidiano e sempre elencando os grupos que menos gosta.

    O humor para ser realmente justo, deve rir de tudo e de todos. Tudo aquilo que existe, é potencial motivo de piada.

    Eis aí onde reside o problema visceral do humor moderno.

    Sem comentários para Chaves, maravilhoso…

    https://br.celebridades.yahoo.com/blogs/notas-omg/paula-braun-e-criticada-ao-questionar-comocao-pela-172436584.html

    Menos isso. Mais e mais eu me dou conta que as ”pessoas celébres” são um porquinho psicopáticas, como esta sucata genética aí de cima.

      • Shoshona zlutsky

        Humoristas geralmente falam mal, dos defeitos daqueles que nutrem menos empatia. Nem é que, detestem ”certos grupos”, só que gostam menos do que de outros.

        Humoristas adoram rir de gays e deficientes mentais. Mas rir de héteros, mulheres bonitas E de si mesmos, poucos fazem. Existe a piada do português, do gay, do bebado, mas não existe a piada do hétero, do branco, por exemplo…

        No entanto, o nível mais alto de coitadismo acontece em relação aos negros e creio eu, menos por parte deles, só dos ”mais ixxxpertos” se me entende.

        Repito, humor tem de ser ofensivo, mas com todos, ninguém é perfeito, todos nós somos caixinhas de defeitos.

        • Você não respondeu, apenas repetiu o que já havia dito.

          com base em que você afirma que humoristas falam mal de grupos pelos quais nutrem menos empatia? Vamos ver se na segunda tentativa eu consigo uma resposta…

        • Para mim acontece justamente o contrário. Eu, por exemplo, só faço piada com pessoas próximas, ou seja, pessoas que gosto muito. Não consigo fazer piada com gente que não nutro muita simpatia ou que acabei de conhecer.

          Também estou no aguardo da resposta…

          • Não vai responder, e não vai continuar aqui. Fica bem claro que de dois um: ou quer apenas tumultuar, ou é burro demais para conseguir argumentar. Nenhum dos dois me serve.

  • Zaq (o cachorro!)

    Isso! Isso! Isso! Concordo com tudo dentro da maior concordância possível.
    Ah, eu sempre torcia pro Kiko se foder…

  • Somir, que definição excelente ! “Se você só vê pessoas impossivelmente boas agindo de forma positiva, como lidar com os próprios conflitos? Somos humanos. Ver alguém fazendo coisa errada mas ao menos tentando se redimir gera exemplos mais fáceis de se identificar. ”

    Quando crescer quero ser igual a vocês!!!

  • Vejo muito os vídeos do humorista Paulo Gustavo. Ele tem um personagem que se chama “senhora dos absurdos” (amooooooooo), e não sei como até hoje não recebeu um processo!

    Penso que ele entrou pro rol dos queridinhos que podem bater em todas as classes sociais sem ninguém perceber.

    Povo incoerente. Tenho certeza que se fosse Gentilli ou Rafinha já teriam dado o grito.

      • Pq ele é viadão e é um intocável. Só faz papel de mulher e é sempre a mesma coisa. Rir com minha mãe é uma peça, depois disso tudo de vi dele era mais do mesmo.

      • Pq ele é viadão e por isso um intocável. Rir com minha mãe é uma peça, depois disso tudo que vi desse cara era mais do mesmo. Daqui a pouco as pessoas se cansam dele e aparece mais um comediante descartável.

  • Na verdade meu lado pessimista ainda conta os dias pra Chaves ser banido pelas próximas gerações. Impressionante como um programa desses sobreviveu a essa atual ditadura do politicamente correto. Se fosse o Rafinha ou o Danilo que tivesse escrito os roteiros…

  • Comentário de 2008 num fórum qualquer dum portal qualquer sobre Chaves: “(…) o homem é uma espécie de Didi Mocó mexicano: um talentoso profissional, porém não pensa duas vezes em passar por cima dos outros para conseguir o que quer.”. Sempre fui dessa opinião, embora isso não desmereça a grandeza do seu programa, que sempre assisti desde 84 e continuo assistindo até hoje, quando calha.

    • E isso é verdade, Chaves é um seriado genial, mas Roberto Gomes Bolaños é um FDP que merecia um processa eu apesar da sua grande obra.

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