Incompetência.

Quando você entra no mercado de trabalho, a tendência é achar a maioria das portas estão fechadas: pedem anos de experiência até para fazer uma experiência! Acabamos com a impressão de que nossos concorrentes estão muito mais preparados do que nós e que vai ser uma longa jornada até alcançar o nível esperado. Pois bem, a vida ensina (como me ensinou) que a verdade é outra: o problema é que as pessoas tendem a ser muito ruins no que fazem.

Claro que o problema é potencializado em países onde não há atenção suficiente com a formação de seus cidadãos, mas não nos concentremos apenas na habitual crítica a República das Bananas do Brasil. Tem algo de mais humano e universal nessa história toda.

Vivemos numa sociedade onde ter o que fazer é essencial para uma vida minimamente digna. Sim, tem gente vivendo de esmola governamental, mas coloquemos os pingos nos is: dizer que gente ganhando Bolsa-Família não está na merda é o mesmo que dizer que preso tem vida boa porque tem três refeições diárias. Se você não trocaria de condição de vida com alguém, é porque esse alguém não está numa boa.

Mas, destergiversando (essa eu inventei, processa eu!), mencionava que é importante tem alguma função no mercado de trabalho. A pessoa TEM que fazer alguma coisa se quiser se sustentar. Nessa história toda, acabamos com uma considerável parcela da população mundial fazendo coisas que ou não gosta de fazer ou não tem habilidade e preparação necessárias para desempenhar.

É uma massa de pessoas ‘enfiando dobrado’ dia após dia, cumprindo seus horários de forma robótica para viver nos intervalos. Os mercados de piloto de Fórmula 1 e fotógrafo da Playboy só comportam um certo número de pretendentes. A maioria dos trabalhos são repetitivos, muitos deles até não fazem muito sentido na escala geral das coisas. O que um astrólogo faz de útil nesse mundo?

Sem contar o considerável número de trabalhadores que até tem algum prazer no exercer de sua função, mas não estão capacitados para tal. Pode ser culpa própria, pode ser culpa do sistema, mas o que não falta por aí é gente que acha que pode desempenhar uma função mas na verdade não dá conta do trabalho. Tem quem não estudou o suficiente, tem quem quer assumir mais responsabilidades do que a experiência permite, tem quem até mesmo tem o potencial técnico, mas não tem vontade de realizá-lo.

Quem trabalha sabe a quantidade de incompetentes com os quais temos de lidar no cotidiano. Podem ser fornecedores, clientes ou mesmo colegas. Sempre que tem alguém trabalhando ao seu redor, é grande a probabilidade de algum inepto torrar sua paciência. Gente que não entende conceitos simples, que não respeita prazos, que perde tempo com bobagens… ou até mesmo aquela pessoa que é terrível no que faz e todos se perguntam como é que consegue manter o cargo.

O mercado é palco de muitos serviços mal prestados. As pessoas simplesmente não conseguem fornecer um produto ou serviço livre de problemas básicos. E quanto maior o alcance, maiores as reclamações… afinal, quanto mais gente você contrata, maior o seu percentual de incompetentes. A tendência é sempre ir nivelando por baixo. Aposto que você deve ter algumas empresas na ponta de língua na hora de mencionar incompetência. E que elas devam se repetir na maioria dos casos.

A verdade é que todo o mercado é cagado. Gente incompetente é a maioria, culpados ou não pelas próprias mazelas. O ser humano é falível, e disso não se escapa. Depender de outras pessoas para realizar um trabalho tende a ser sinônimo de frustração! Uma parte disso é compreensível, é claro: ninguém é perfeito e erros vão acontecer inevitavelmente. Em algumas funções os erros são inofensivos, em outras vidas entram em risco, mas eles sempre vão estar lá.

Agora, é na parte evitável que quero me concentrar. Um pouco mais de atenção e esforço resolveriam a maioria desses problemas. O difícil é encontrar gente atenciosa e esforçada! Como eu já disse, a maioria dos trabalhos não é verdadeiramente interessante e as pessoas acabam fazendo tudo nas coxas. A incompetência é epidêmica no mercado de trabalho, é surpreendente até o quanto conseguimos fazer mesmo assim. Deve ser a força dos números: dez despreparados acabam conseguindo dar conta do trabalho de um preparado depois de algum tempo.

Eu sempre achei que chatice na hora de contratar era coisa de quem queria selecionar só os melhores. Na verdade é apenas o DESESPERO de quem tem que lidar com incompetentes todos os dias. A excelência que tantos almejam na prática não passa de capacidade básica de realizar um trabalho. Porque nem isso as pessoas conseguem fazer. Falta o básico.

O básico não é uma formação de grife ou décadas de experiência, o básico é fazer a porcaria do próprio trabalho com um mínimo de interesse. Isso já faz toda a diferença. Ser razoavelmente produtivo é mais ou menos a faixa onde a maioria das empresas vai te achar atrativo. Estamos tão nivelados por baixo que ser médio já é ponto de desequilíbrio.

Até porque com raras exceções, somos médios mesmo. O que muda são as vantagens e sacrifícios prévios para disputar vagas diferentes. Dentro de qualquer faixa salarial, temos uma distribuição mais ou menos homogênea de pessoas suficientemente capazes de realizar seu trabalho SE estiverem motivadas para isso. CEOs e estagiários separados por fatores pregressos, mas todos no mesmo barco.

Quanto mais complexa uma função, maior a chance de encontrar gente incapaz de sequer compreendê-la. Mas como alguém TEM que fazer o trabalho, elas acabam se colocando nas vagas disponíveis. É por isso que o que não falta nesse mundo é chefe incompetente: tinha que ter alguém naquele posto e a tendência natural é que ele tenha dificuldades até mesmo com conceitos básicos de sua profissão.

Na medida em que a exigência de um cargo aumenta, maior a possibilidade da pessoa estar improvisando nele. Com o tempo você vai aprendendo a tirar a mística de quem ‘chegou lá’ e começar a perceber como sorte e contatos são muito mais poderosos do que talento nesse mundo. A tendência é que sejam incompetentes, mas incompetentes que conseguiram bons frutos das suas horas empregadas no trabalho.

Mas isso aqui não é Flertando com o Desastre à toa: é bacana enxergar o chefe com menos capacidade do que ele diz ter, mas não podemos esquecer que pela probabilidade nós também devemos ser incompetentes. Eles são a maioria! O normal é ser mais ou menos no que faz, o desejável é estar marginalmente acima da média. O resto é bônus.

Até porque é mesmo um saco ser competente. Precisa gostar do trabalho que faz para tornar essa busca pela excelência mais tragável. Infelizmente nem todos nós temos a oportunidade de fazer o que gostamos, não há espaço disponível no mercado. E outra, tem gente que nem gosta de trabalhar em geral. Já estão fazendo muito saindo de casa.

Muitas vezes somos incompetentes pontualmente. Às vezes o universo conspira e tudo o que pode dar errado dá. Podemos estar num dia ruim, podemos estar fazendo algo que não sabemos direito, podemos acabar presos num efeito dominó de incompetências alheias, mas são grandes as chances de fazermos merda e engrossarmos os ranques dos que erraram.

O importante é perceber que não estamos sozinhos. Que vivemos num sistema todo errado que de vez em quando produz algo que funciona. Cria-se um mito de que as pessoas são muito capazes em média e você é um bosta se não se destacar. Ei, a tendência não é essa! Quem faz o básico direito já está muito na frente da média. Não somos gado com expectativas definidas de desempenho. Somos incompetentes porque a vida é curta e dependemos de variáveis demais.

Por mais que exista a vaidade de ser capaz no seu trabalho, ele é só um meio de conseguir outras coisas. Jamais caia no truque barato de condicionar seu bem estar ao bem estar de um negócio. É óbvio que é mais conveniente para quem te contrata que você se sinta na obrigação de ser infalível.

O que você não é. E considerando o mercado, não precisa ser.

Para dizer que meu texto não foi competente, para dizer que você vai parar de se esforçar depois de ler isso, ou mesmo para dizer que essa era a desmotivação que você precisava: somir@desfavor.com

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Comments (19)

  • Visão inovadora. Resume bem nossa tendência natural ao comodismo.
    E digo mais todo trabalho tende a se tornar repetitivo e perde o desafio que motiva alguns (EU!). O cara gosta do trabalho que faz, se esforça de verdade, mas o próprio trabalho desmotiva a pessoa e ele nivela por baixo como a maioria.

  • “Não somos gado com expectativas definidas de desempenho. Somos incompetentes porque a vida é curta e dependemos de variáveis demais.”

    Gostei muito do texto. E achei imprevisível, porque imaginei que você nos incentivaria a acreditar mais no nosso potencial, porque os concorrentes não são tão bons assim.

    Mas nós também não somos.

    E dependemos de sorte e contatos.

    E somos (quase todos) escravos do ponto eletrônico e de salários de merda.

    Eu sou dessas que vive apenas nos intervalos. E nem sempre vivo bem.

  • Sei de casos de pessoas que tomam cuidado pra não serem notadas e correrem o risco de ser promovidas. Promoção que significa pequeno aumento de salário e enormes aumentos de responsabilidades, diminuindo o já pequeno tempo livre onde, como diz o texto, a pessoa vive.

    Outra coisa que vejo muito: colega leva três ou quatro dias para fazer uma tarefa. Pergunto o motivo, e ele diz: “eu poderia fazer isso tudo hoje, mas aí ia chegar de noite morto de cansaço. E amanhã o patrão ia exigir que eu produzisse no mesmo ritmo de novo, mas não vai aumentar meu salário… por que vou me matar pra aumentar o lucro da empresa?”

    O que tenho notado, cada vez mais, é que as empresas sonham com funcionários que “vistam a camisa”, mas não percebem que pro funcionário isso raramente vale a pena. Não que as empresas sejam vilãs e os funcionários sejam vítimas… a tendência é que todos sejam as duas coisas num sistema que já vem errado há muito tempo.

  • Caramba, nunca pensei nisso.
    Um dos empregos em que fui melhor remunerada foi justamente um que pedia muitas experiências (no plural mesmo). Evidente que eu não tinha nem a metade dos requisitos pedidos e que a entrevista foi tensa. Ainda assim, fui contratada e lá percebi o quão desmotivados/incompetentes eram os empregados. Note que ganhavam bem, trabalhavam pouco, mas ainda assim não queriam melhorar no que faziam e fofocavam entre si quando alguém se destacava. Depois de um tempo, percebi que o ambiente era doente e me demiti.

    • Eu não devo prestar, mas acho um absurdo a pessoa se demitir. Eu sou daqueles que vai empurrando com a barriga até ser demitido e isso quase nunca acontece. Ainda mais se pagar bem e trabalharbpouco eu mamo nas tetas a vida toda e foda se o ambiente doente!

  • É, realmente, se competência está ligado ao prazer e satisfação de trabalhar, então de fato fica difícil agradar a todos. Mas o Somir está certo, fazer o mínimo plausível necessário é o básico pra não ser um incopetente qualquer.

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    Jacob Burckhardt

    Somir, esta tua tese é tão pertinente ao mercado de trabalho e por que não à própria condição humana, que deveria ser obrigatória sua inclusão no currículo do ensino médio.

    Um pouco de “como a vida realmente funciona” facilitaria bastante a vida de jovens adultos. Teria facilitado a minha se alguém tivesse me dito isso décadas atrás.

  • Vc era a desmotivação que eu procurava!
    Em emprego bom $ eles procuram sim a experiência da experiência da experiência. Em emprego bosta igual ao meu, entra quem a recrutadorA (só podia ser coisa de mulher) vai com a cara ou se o candidato der mole pra ela ou parecer hetero e não for tão feio.

  • É por isso que eu rio quando assisto CSI ou House. Nunca na vida um bando de incompetentes que geralmente constituem a força de trabalho na maioria dos países teria a vontade de trabalhar, a perspicácia, o conhecimento e a verba para encontrar DNA do bandido no sangue dentro do pernilongo achado na parede do local do crime. Sem falar que na maioria dos casos do House a putada diria que é uma virose e mandaria pra casa, ou então daria um remédio COMBO pra atirar no que viu e matar o que não viu.

  • Incompetentes pululam aos montes por ai. Uma prova disso é o Caipira do ABC, um pretenso humorista que tem um monte de paga-pau por essas bandas e cuja postura parece a de um Caetano Veloso da vida.

    Não é por conta de um livretinho que o pseudocult vai deixar de ser pseudocult. Só de pagar pau pro Olavo de Carvalho a ponto de chamá-lo de “professor” já cai 50% no meu conceito.

    Agradeçam a ele e a aquele bando de inúteis a volta dele pela reeleição da Dilma, até porque pelo menos a Sato tem noção das coisas, coisa que ele NÃO TEM.

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