Mundo cruel.

A lua reinava cheia no céu. A noite era clara e poucas estrelas pontuavam a escuridão. Do alto da maior ponte da cidade, uma mulher apóia-se sobre o corrimão do corredor de pedestres, mãos firmemente presas a um dos grossos cabos metálicos da estrutura. Seu corpo está inclinado rumo ao vazio, suas lágrimas caindo livremente por centenas de metros até se encontrarem com as ainda mais salgadas águas do oceano.

MULHER: Vai sua covarde, vai!

Ela faz menção de se soltar, mas suas mãos não obedecem. Pelo horário, poucos são os carros que passam, e os que o fazem estão em altíssima velocidade. Escondida pelo manto da noite, ela fala com si mesma longe da atenção de qualquer pessoa.

MULHER: Nem pra isso eu sirvo… nem pra isso…

Os soluços pontuam sua voz, os lamentos de seu choro transformando-se numa espécie de mantra sôfrego e constante. Ate por isso, mal ouve o zunido que começa a se formar atrás dela. Sua atenção só é conseguida após um brilhante lampejo que captura com o canto do visão.

MULHER: Quem está aí?

Silêncio.

MULHER: Não tenta me impedir…

Mais silêncio.

MULHER: Eu sou ridícula mesmo… até parece que alguém viria tentar me impedir. Chega! Agora eu vou… agora eu vou… agora…

VOZ: NÃO!

Ela se prende novamente aos cabos da ponte, virando rapidamente a cabeça na direção do som. Logo atrás dela, um homem vestindo um macacão prateado, apenas a cabeça de fora. Pálido e sem nenhum fio de cabelo, ele está com as mãos erguidas como se estivesse pedindo calma para a mulher.

MULHER: Quem é você?

HOMEM: Em primeiro lugar, calma. Muita calma. Sem movimentos precipitados.

MULHER: Eu já me decidi. Não quero mais viver essa vida maldita!

HOMEM: Eu não te peço muito, só alguns minutos. Isso não é hora de tomar uma decisão dessas, tudo bem? Só segura direito aí e fala um pouco comigo. Pode ser?

MULHER: Você não sabe o que me trouxe até aqui. Aposto que você vai dizer que a vida é muito valiosa, que tudo vai dar certo e blá blá blá…

HOMEM: Estatisticamente a vida é muito valiosa mesmo. Ainda mais nessa realidade.

MULHER: Eu perdi meu namorado, meu emprego, ninguém da minha família fala mais comigo… até o meu cachorro morreu!

HOMEM: Sinto muito. Mas você é muito importante para todo o universo!

MULHER: Eu sou um lixo! Ninguém gosta de mim! Por que eu sou importante?

HOMEM: É… veja bem… no momento eu não vou ter essa informação, mas até onde me foi informado, essa sua decisão de hoje vai influenciar toda a realidade na qual você vive.

MULHER: Hã?

HOMEM: Na confusão eu nem me apresentei! Eu sou Glax, Guardião Sênior do Setor de Manutenção de Realidades Paralelas do Conselho Interdimensional. O SMRPCI. A sigla é meio ruim de entender…

MULHER: Você está drogado?

GLAX: Seu nome é Mariana, você tem 25 anos de idade, seus pais são Nestor e Cláudia, você é atendente de telemarketing e seu cachorro se chamava Toco. Que descanse em paz… Certo?

MARIANA: Como você sabia disso?

GLAX: Pois é, essa parte do seu arquivo estava intacta. Nós recebemos um alerta nível Supernova sobre você e viemos correndo te acompanhar aqui. A sua decisão de agora tem o potencial…

Glax toca um botão no pulso de seu traje e uma tela começa a flutuar em pleno ar. Mariana observa incrédula.

GLAX: Aqui… potencial de quebra da continuidade do espaço-tempo em aproximadamente quatro bilhões de universos paralelos. Acho que ainda nem inventaram um nome para o número de vidas que você pode influenciar aqui. Já ouviu falar do efeito borboleta?

MARIANA: Mas por que eu?

GLAX: Você não acreditaria no equilíbrio tênue de todas as realidades. Talvez você vá fazer algo grandioso, talvez um átomo do seu corpo vá catalisar um evento de vácuo perfeito… não sabemos. Esse é o problema! O seu arquivo está com um defeito e justamente essa parte está corrompida.

MARIANA: Olha, se você está tentando me enrolar para evitar que eu me mate, está fazendo um péssimo trabalho. Eu não quero mais viver…

GLAX: Pensa num número!

MARIANA:

GLAX: 13!

MARIANA: Parabéns… mas se você acha que um truque barato vai me impedir, está muito enganado.

GLAX: Eu quero te provar que eu estou aqui por um motivo. Que eu tenho capacidades que humano nenhum tem! Eu sou membro de uma ordem muito poderosa, e mesmo assim eu nunca tinha conhecido alguém tão importante como você.

MARIANA: Faz tempo que ninguém diz que eu sou importante.

GLAX: Mas você é! Mais do que qualquer um nesse planetinha pode entender. Mariana, incontáveis universos estão em suas mãos. Eu só peço mais algum tempo em sua presença.

MARIANA: Por favor não brinca comigo… eu já estou no meu limite.

GLAX: Mariana, estou sendo o mais sério que posso ser. Você é especial e única. Sinto muito se a vida não te tratou do jeito que você merecia, mas ninguém pode tirar o seu valor. Ninguém!

Mariana começa a chorar novamente. Ao levar uma das mãos ao rosto, perde o equilíbrio e quase escorrega do corrimão no qual se apoiava. Glax grita assustado, mas Mariana logo se recompõe.

GLAX: Você quase me mata de susto!

MARIANA: E o universo também… hehehe…

GLAX: Haha… verdade. Isso é um sorriso que eu estou vendo?

MARIANA: … Se eu não quiser continuar vivendo aqui, você consegue me levar junto com você?

GLAX: Não posso te prometer nada, mas posso tentar. Quem sabe até não é isso que eu vim fazer aqui, não é mesmo?

MARIANA: Eu acho que vou descer.

O comunicador de Glax salta novamente do pulso.

GLAX: Opa! Acho que resolveram o problema com seu arquivo. Vamos ver por que eu estou aaaa… ai.

MARIANA: O que foi?

GLAX: Na verdade você tinha que pular. Três minutos atrás.

FIM (do Universo)

Para dizer que adora quando eu sou romântico, para reclamar que nem essa você entendeu, ou mesmo para dizer para pular logo: somir@desfavor.com

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