Um mago sem destino. (11)

Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para desfavor@desfavor.com.
O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e não publicá-los. Sally promete interceder por vocês.

Desfavor Convidado: Um mago sem destino

Capítulo 5 – Os cavaleiros do sol

Papaco soltou o rapaz da cela e descobriu que ele se chamava Arthur e seu apelido era Cabeça de Ovo, devido à brilhante careca. Juntos eles arrastaram o corpo de Roland e o colocaram em um caixão comprado com o dinheiro que estava guardado nos bolsos do “falecido” homem. No total haviam dez moedas de ouro, uma verdadeira fortuna para aqueles tempos difíceis, ainda mais sabendo que ouro vale mais do que dinheiro. Deixaram a cidade ao entardecer e para facilitar o transporte, Papaco puxava o caixão por uma corda. Feliz da vida, o coveiro ficou apenas observando aqueles dois estranhos indo embora, deixando atrás de si um sulco na areia por onde passava o caixão.

Após uma hora da saída dos dois, ele ainda brincava com a moeda, jogando-a pro ar, quando viu quatro silhuetas se aproximando pela direção contrária a que Papaco seguiu. Eram quatro cavaleiros, que vinham em trote vagaroso, porém ininterrupto. Após alguns minutos eles estavam parados na frente do coveiro, com olhares afiados feito águias. Um homem loiro de chapéu vermelho, colete e calças amarelas disse para os outros:

_Com certeza eles passaram por aqui.

Outros dois homens loiros se adiantaram e pareciam irmãos gêmeos de tão parecidos que eram, um estava com chapéu e roupas azuis, enquanto o outro vestia uma camisa branca e calça amarela. O segundo apontou para a moeda que estava na mão do coveiro:

_Aquele homem porta uma das moedas de Hugo, O Grande.

Os três sacaram suas armas, deixando o coveiro tremendo de medo. O quarto homem, um mexicano que vestia chapelão e poncho rosados, começou a fungar o ar feito um cachorro:

_Sinto um cheiro adocicado no ar, alguém morreu aqui.

Ao ouvirem aquilo, os outros três engatilharam as armas. Mesmo acostumado com a morte, o coveiro nunca havia sido ameaçado antes e seu nervosismo era visível. Tanto que acabou urinando nas calças, o que fez com que o homem de poncho desse uma gargalhada:

_El hombre és um cobardón, não seria páreo para Roland. Vamos pendejo, conte o que aconteceu aqui.

Mesmo humilhado, o homem respondeu:

_Eles vieram e foram embora como fantasmas no deserto. Ficaram apenas por uma noite e duelaram entre si, o que resultou na morte de um deles. Isso é tudo o que sei, mas vocês podem procurar mais informações no Saloon. Um deles com certeza teve uma noite inesquecível lá, perguntem pela Michelle e ela dirá tudo.

Os quatro forasteiros continuaram parados e após um sinal do mexicano, os outros três seguiram para o Saloon. O mexicano se virou para o coveiro e disse:

_Vou deixar que fique com essa moeda, em agradecimento a essas informações, mas sugiro que a gaste rápido.

_Por quê? – perguntou o coveiro.

_As moedas de Hugo perdem valor com o tempo e quanto menos valor possuem, mais enganam o seu portador. Muitos homens morreram por causa dessas moedas achando que portavam verdadeiros tesouros, quando na verdade não passavam de moedas de latão. Por isso, aproveite enquanto a sua é de ouro e suma desse fim de mundo.

Com um sorriso no rosto, o mexicano se virou e seguiu os outros três homens. Apesar de parecer meio maluco para quem o olhasse rindo daquela maneira, havia uma explicação oculta na informação que havia acabado de dar ao coveiro. Todo portador de uma moeda de Hugo, quando avisado da maldição, imediatamente se tornava obcecado por ela até a morte.

“Esses idiotas de Gilead podem estar perdidos, mas ainda não dão ponto sem nó”, pensou o mexicano, ainda rindo, enquanto amarrava seu cavalo na frente do Saloon. Lá dentro, os outros três já haviam se sentado em uma mesa, a mesma em que alguns homens haviam morrido devido a um jogo de pôquer na noite anterior. O mexicano se sentou em uma das cadeiras livres, tocou com os dedos e disse:

_Estou sentado na mesma cadeira de Roland, sinto isso. Ele estava nervoso, procurando a atenção de alguma outra pessoa. Ele sabia que essa pessoa tinha instintos naturais e queria provar isso tentando envenená-la. Se estivesse certo, o acaso resolveria dessa pessoa perceber ou ser impedida de ser envenenada. Se estivesse errado, bem, teria que tentar novamente em outra cidade, não é mesmo? – perguntou para si mesmo e ficou em silêncio.

O loiro de roupas azuis, incomodado com o longo silêncio do mexicano, perguntou:

_E então Cormano, ele estava certo?

_É claro meu caro Billy, senão nós não estaríamos aqui.

_E o que faremos então?

_Precisaremos passar a noite aqui. Você e Bob farão o primeiro turno de vigília. Stevie cuidará do resto e eu interrogarei a mulher.

Juntos, os quatro homens se levantaram e tomaram postos. Instintivamente, Cormano já sabia onde encontrar Michelle e seguiu para o segundo andar, entrando no quarto da mulher, que ainda dormia. Cormano se sentou na cama, ao lado da mulher e apenas pensou:

“Vamos preguiçosa, acorde”.

Michelle ainda sonhava com sua infância, talvez o único dia feliz que ela tivera em seus vinte e poucos anos. Até então ela havia sido abusada sexualmente pelo seu pai, enquanto sua mãe estava presa a uma cadeira, em estado catatônico. No seu “dia feliz de verdade”, como ela costumava chamar aquela data, ela decidiu se revoltar e pegou uma faca escondida da cozinha. Quando seu pai veio fazer a visita noturna, ela esperou que ele a montasse e retirou a faca que estava debaixo do travesseiro, esfaqueando-o cinco vezes na garganta. Ainda se banhava no sangue do imbecil quando ouviu a voz chamando-a, dentro de sua própria mente. Ela sabia que estava dormindo e queria curtir mais aquele sonho, mas foi impossível resistir à voz e aos poucos foi acordando.

Ao abrir os olhos, ela viu um homem sentado ao seu lado e por puro reflexo, ou achando que seu pai havia ressuscitado, ela cobriu a nudez. O homem, afinal, não era seu pai e sim apenas um cliente que havia entrado em seu quarto. Por algum motivo que ela não soube explicar, continuou cobrindo os seios com as mãos, o que fez com que o homem desse um sorriso:

_Es la primera vez que vejo una puta con verguenza.

Michelle ia tirar as mãos dos seios e convidar o intruso para uma noite de sexo, bebidas e dinheiro fácil, mas começou a ouvir tiros e gritos nas ruas da cidade. O homem olhou pela janela e disse:

_Ah sim, ouça a maldição das moedas de Hugo fazendo seu efeito, já que uma vez ativada ela começa a atrair todas as pessoas ao seu redor que são movidas pela ganância. Porém, não tema criança, a maldição costuma afetar mais os homens do que as mulheres. Deve ser porque elas sabem como ganhar dinheiro de outras maneiras… – Então ele colocou a mão entre as pernas dela e penetrou o dedo médio em sua vagina que, para surpresa dela, ficou lubrificada.

Entre tiros, gritos e sangue, eles fizeram sexo naquela noite. No dia seguinte, Michelle acordou incomodada com um sacolejar monótono e compassado. Intrigada, viu fios negros batendo em seu rosto e o chão se movia lentamente. Mesmo com o raciocínio lento, ela percebeu que estava no lombo de um cavalo e tentou se mexer, mas estava amarrada. Olhou para trás, além da traseira do cavalo e teve um último vislumbre da cidade em que até então havia trabalhado. Corpos se amontoavam ao redor da casa funerária e algumas mulheres choravam pelos seus mortos. No meio da algazarra algo brilhava, Michelle conhecia ouro o suficiente para saber que aquele brilho não era de algo tão valioso. Seria cobre? Bronze?

_É latão e está prestes a começar a enferrujar. – disse o mesmo homem da noite anterior, que agora se sentava na sela de um cavalo mais a frente.

Impressionada com aqueles homens idiotas que haviam morrido por algo tão sem valor, Michelle perguntou:

_Quem é você e o que quer comigo?

_Meu nome é Cormano e nós somos os Cavaleiros do Sol. – disse, apontando para outros homens que ela ainda não havia visto. _Nós queremos capturar um homem que nos roubou algo muito valioso e ficamos sabendo que você teve certas…. relações com ele, então você será nossa isca para capturá-lo.

Ela gargalhou e disse:

_Você pode até ler minha mente, mas não passa de um idiota. Ele nunca cairá na sua armadilha, já que para ele eu não passo de uma má lembrança, um erro, um deslize…

Cormano se aproximou do cavalo em que ela estava e respondeu:

_Não sei se você sabe, mas quando homens e mulheres possuem relações como a sua e a daquele maldito, uma certa magia acontece.

_O que quer dizer?

_O sexo foi feito para gerar a vida, mesmo que a mulher não fique grávida. Sendo assim, todo ato sexual gera uma criança. Quando essa criança não se transforma em um bebê, ela vira uma magia poderosa, capaz de realizar os maiores desejos de seu criador. Você não sabia disso, o cavaleiro com quem você teve relações também não sabia, mas eu sabia e o pratiquei com você. Era essencial que eu fizesse sexo com você, para assim usarmos essa criança que vocês criaram sem saber.

_O que acontecerá então?

_Muito simples, ordenei que essa criança encontrasse o próprio pai e o matasse. Por isso precisamos de você…

_Eu não entendo.

Cormano se aproximou mais e deu um tapa na cara de Michelle, dizendo:

_Mulher burra, nós três geramos um filho, que nesse exato momento deve estar crescendo em sua barriga.

_Impossível. – ela gritou em resposta, chorando mais pela humilhação do tapa do que pela dor em si.

Porém, ela sabia que não era impossível, ela sabia que algo estava crescendo em sua barriga. Algo estava se mexendo lá dentro e aquelas pontadas de dor com certeza não eram gases. Era alguma coisa maligna, feita para matar ou morrer. Michelle também tinha a certeza de que ia ser vítima do próprio filho, assim como seu pai havia sido vítima dela. A ironia a fez sorrir, mas mais a frente, a algumas dezenas de quilômetros de distância, Papaco sentiu um arrepio na espinha e olhou ao redor. Não havia nada ao redor além dele, do menino careca e do caixão. O menino careca também sentiu as trevas que se aproximavam e disse:

_Precisamos andar mais rápido.

Então aceleraram o passo, indiferentes aos golpes e chutes que ouviam vindos do caixão. Roland precisava ser enterrado ou nunca iria descansar em paz, além disso, eles estavam sendo caçados e enquanto o sol brilhasse no céu a ameaça seria constante.

Continua…

Chester Chenson

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas: ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: