Tempo perdido.

Valdir estava muito atrasado. Era apenas o segundo encontro com aquela bela morena e os vinte minutos além do combinado não ajudariam com suas pretensões de esticar o jantar para um motel. Celular sem bateria, para variar. E para ajudar, o caminhão à sua frente parecia se arrastar pela estradinha. Belo atalho esse… não havia tempo a perder: subida, curva e tudo mais, lá se foi Valdir pisar fundo no acelerador para fazer a ultrapassagem. No sentido oposto, outro caminhão. Sem chance alguma de desviar, ouviu o estrondo, sentiu o corpo flutuando no ar… e depois, mais nada.

Ainda registrou mais alguns poucos segundos se lucidez, intermitentes. Viu paramédicos, luzes cegantes, talvez até uma sala de cirurgia. A visão só foi recuperar o foco muito depois. Um rosto desconhecido, castigado pela idade… o homem que via de pé ao lado de seu corpo deitado falava uma língua estranha e gesticulava muito. Recuperando o controle sobre o corpo, Valdir se levantou. Havia mais gente por perto. Muito mais gente.

Ao seu redor, tudo… branco. Não havia paredes, teto ou mesmo uma fonte de luz reconhecível. Uma imensidão estéril pontuada por uma considerável população de desconhecidos e desconhecidas. Alguns deles claramente perdidos, outros reunidos em grupos de diferentes tamanhos. Todos nus, inclusive Valdir. O senhor agitado ao seu lado logo foi buscar outras paragens, incomodando um grupo próximo onde vários homens e mulheres discutiam entre si.

Valdir começa a perambular pelo local, perdido na multidão ocupada demais com seja lá o que estivessem fazendo. O som de uma língua conhecida guia serve de incentivo para uma aproximação. Um homem e duas mulheres, dois jovens e uma senhora conversam em um idioma reconhecível.

HOMEM: Deve ter algum segredo…
MULHER JOVEM: É um teste!
MULHER IDOSA: Foi algo que fizemos em vida…

Valdir se aproxima.

VALDIR: Oi?

Os três se voltam para Valdir, expressões curiosas.

VALDIR: Onde… onde eu estou?
MULHER IDOSA: Isso é o purgatório!
MULHER JOVEM: Você não tem certeza disso.

O homem estica a mão na direção de Valdir.

HOMEM: Carlos.
VALDIR: Valdir.
HOMEM: Essa é a Clara *apontando para a jovem, essa é a Maria *apontando para a idosa.
VALDIR: Como assim purgatório?
CLARA: Você acabou de chegar, né?
CARLOS: Você morreu. Isso a gente sabe.
VALDIR: Não! Não… os médicos… eu vi… tem um telefone?
MARIA: Contar assim não ajuda ninguém, mocinho.
CARLOS: É melhor saber logo e passar mais rápido pela negação.
CLARA: Não é certeza que a gente morreu.
CARLOS: Eu apertei o gatilho e não foi para errar.
CLARA: Você pode ter ficado em coma! Quando eu tomei os remédios, sabia que podia acontecer.
MARIA: Suicídio é motivo para o purgatório.
CLARA: Mas eu não queria me matar!
VALDIR: Alguém me explica onde eu estou, pelo amor de Deus!
CARLOS: A gente não sabe. Ninguém sabe. Muita gente aqui tenta explicar, mas ninguém tem prova de nada.
MARIA: Parece purgatório.
CLARA: A gente não pode ter morrido… isso aqui não tem cara de céu, inferno ou seja lá o que for.
CARLOS: Valdir, qual a última coisa que você lembra?
VALDIR: Um caminhão… eu tentei ultrapassar…
CARLOS: Tá vendo? Coma meu ovo, a gente bateu as botas mesmo.
CLARA: Prova!
VALDIR: Eu morri?
MARIA: Parece que sim, meu filho. Deixou família?
VALDIR: Eu era sozinho… tem meu irmão.
MARIA: Menos mal, é triste quando deixa filho para trás.
VALDIR: E o que a gente está fazendo aqui? Por que está todo mundo pelado?
MARIA: Daquela vida a gente não traz nada.
CARLOS: Aliás, algum de vocês sentiu fome, frio ou algo assim nesse tempo aqui?
CLARA: Nada. Outro dia eu corri o dia todo tentando achar um fim nesse lugar, mas nem cansar eu cansei.
CARLOS: Achou alguma coisa?
CLARA: Só mais e mais gente. Eu vi até gente brigando, mas ninguém se machucou.
CARLOS: Nada funciona aqui! *pegando na própria genitália
MARIA: Respeito!
CARLOS: Mas não funciona. Não deve ter pecado nisso, né?
MARIA: Você não sabe quem está observando, melhor se prevenir.
VALDIR: Vocês estão aqui há muito tempo?
CLARA: Não sei. Sinto que estou aqui faz anos, mas podem ser dias… você?
CARLOS: Nem sei se o tempo passa aqui.
MARIA: Quem era o presidente do Brasil quando você… bom, quando você se lembra?
CLARA: O Fernando Henrique…
MARIA: Quem?
CARLOS: Você morreu antes do Lula?
CLARA: O Lula virou presidente?
CARLOS: E ainda foi reeleito!
CLARA: Ah, que legal. Eu votava nele.
CARLOS: Valdir?
VALDIR: A Dilma…
CARLOS: Aquela que estava com câncer?
VALDIR: É.
CLARA: Eu estou maluca… ou a gente já conversou sobre isso antes?
MARIA: Agora que você mencionou… eu lembro sim.
CARLOS: Nossa, é verdade! Você morreu em 1957, não é?
MARIA: E você em 2007!
CLARA: E eu… eu vim pra cá em 1998.
VALDIR: Estávamos em 2015 quando eu… bom, quando eu me lembro antes de vir pra cá.
CARLOS: E você acha que está viva? 17 anos depois?
CLARA: Tem gente que passou 20 ou mais anos em coma.
CARLOS: E a Maria está em coma há mais de 50? Acorda!
CLARA: Não… não quero falar mais disso.
VALDIR: Maria, você está aqui há mais de 50 anos?
MARIA: É o que parece… mas não assusta não, nem parece tanto tempo assim por aqui.
VALDIR: A gente morre e não vai para lugar nenhum? A gente fica aqui pra sempre?
CARLOS: Não sei… eu nunca vi o Einstein ou o Hitler, por exemplo.
MARIA: Mas tem tanta gente aqui… será que não foi azar? Ou sorte, no caso do Hitler.
CARLOS: Sei lá, pode ser.
VALDIR: O que a gente faz?
CLARA: Mata o tempo? Eu aprendi a falar um pouco de outras línguas…
MARIA: Dançar também faz bem para passar o tempo.
CARLOS: De vez em quando a gente faz umas lutinhas… ninguém se machuca mesmo. Distrai. Mas é meio gay… com todo mundo pelado e tal.
VALDIR:
CARLOS: Eu só faço boxe, as outras de se pegar eu não gosto não. Nada contra quem gosta, mas…
CLARA: Ah, e o problema é ficar se roçando e não sair na porrada?
CARLOS: Não tem lei nenhuma aqui dizendo que não pode brigar.
MARIA: Mas Deus pode estar te julgando.
CARLOS: Se está, não está nos dizendo o quê.
MARIA: Você aprendeu as regras em vida!
CARLOS: Tem criança aqui, porra! Como é que criança vai saber as regras? E outra, quem disse que quem manda aqui é o Deus da Bíblia?
MARIA: É esse tipo de coisa que você diz que vai te deixar preso aqui!
CARLOS: Você é católica, super carola… e está aqui há meio século.
MARIA: Eu nunca fui santa.
CARLOS: Ninguém é! Se for esperar por isso, fica todo mundo no purgatório pra sempre. Acho que nem os papas sobem.
MARIA: Devemos aceitar nosso julgamento. E isso é difícil.
CARLOS: Não sei por que eu ainda insisto em discutir isso com você.
VALDIR: Gente… ninguém aqui sabe onde estamos?
CLARA: Muita gente diz que sabe, mas continua todo mundo na mesma. E… a gente já discutiu isso também, não foi?
CARLOS: Ha… pior que sim. Foi com aquele peruano que falava com um sotaque carregado…
CLARO: Verdade! Onde ele foi parar?
CARLOS: Parece que ele encontrou gente da família dele.
MARIA: Graças a Deus eu ainda não vi os meus filhos!
VALDIR: Será que minha vó está aqui?
CLARA: Ela estava em coma?
CARLOS: Clara! Isso já está ficando ridículo.
CLARA: Você está chato demais hoje, a gente se fala depois…
CARLOS: Volta aqui! Volta… ai… acho que ela nunca vai aceitar.
MARIA: Você gosta dela, né?
CARLOS: De um jeito meio diferente do que eu estava acostumado, mas sim.
VALDIR: Vocês vão ficar por aqui?
MARIA: Se você andar muito, não acha mais a gente. O lugar aqui não parece ter fim e é muita gente por todos os lados. A Clara só foi até ali, está vendo?
VALDIR: Vi. Então, não tem mais o que fazer? A gente só fica aqui conversando?
CARLOS: É. Mas é menos chato do que parece. Juro.
VALDIR: Eu vou ficar maluco assim…
MARIA: Quem era o presidente do Brasil quando você… bom, quando você veio para cá?
CARLOS: O Lula.
MARIA: Quem?
VALDIR: Então você chegou bem antes, quando eu vim, a Dilma tinha sido reeleita…
CARLOS: Aquela que estava com câncer?
VALDIR: É.
CARLOS: Ué… a gente não falou disso faz algum tempo?
MARIA: É! Você veio para cá em… 2007! Nossa, eu cheguei em 1957!
VALDIR: Você está aqui há mais de 50 anos?
MARIA: Mas nem parece, sabe? Olha, olha só quem voltou.
CLARA: Tudo bem?
CARLOS: Tudo.
CLARA: Se eu fico quieta por algum tempo, eu acho que consigo escutar as máquinas.
CARLOS: De novo com essa história?
CLARA: Dizem que seus sentidos ainda funcionam quando você está em coma. Eu acho que estou melhorando.
CARLOS: E como é que a Maria estaria em coma por 50 anos?
VALDIR: Já não falamos sobre isso?
MARIA: Verdade. Isso aqui só pode ser o purgatório.
VALDIR: E será que a gente sai daqui? Você fez algo grave, Maria?
MARIA: Eu traí meu esposo, uma vez só.
VALDIR: 50 anos por isso me parece meio exagerado.
MARIA: Bom, não tenho orgulho do que eu fiz.
CARLOS:Se você está esse tempo todo por isso, eu vou demorar mil anos para sair daqui.
CLARA: E se…
CARLOS:Não, não completa.

VOZ ESTRANHA: Desculpa… mas…

Um homem lá pelos seus cinquenta anos de idade interpela o grupo.

HOMEM: Onde… onde estamos?
CARLOS:Você quer a resposta curta ou a longa?
HOMEM: Qualquer uma.
CARLOS:Você morreu e ninguém aqui sabe onde está.
VALDIR: Que ano você estava?
HOMEM: Hã?
VALDIR: Em que ano estamos?
HOMEM: 2035.
CLARA: Estão ouvindo?
VALDIR: O quê?
CLARA: Estão falando… estão falando…

Clara desaparece.

Fim.

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