Coração gelado.

Semana passada completamos um álbum de figurinhas. Com a primeira foto em alta resolução de Plutão, todos os antigos nove planetas do Sistema Solar estavam oficialmente retratados. Claro, Plutão sofreu uma demoção desde a época que a maioria de nós aprendeu sobre sua existência, mas mesmo sendo um planeta-anão, ainda sim gera uma reação diferenciada. A foto com o “coração” de Plutão talvez seja a última de uma era. Talvez precisemos de mais do que isso agora.

Até Setembro de 2006, Plutão era um planeta. O nono, o último. Até por isso, acredito que não vá ter ninguém aqui lendo que nunca viveu numa realidade onde o Sistema Solar não acabava nele. Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno… e Plutão. Decoramos isso para passar de ano na escola! Essa história do nono planeta ser só mais um asteroide vitaminado ficará para as próximas gerações. Se me perguntarem, Plutão sempre vai ser um planeta, mesmo que honorário. Pelos serviços prestados à imaginação, por assim dizer.

Não estou negando a ciência, longe disso. A lógica usada para demovê-lo é boa e precisávamos ter algum padrão que não significasse colocar mais um monte de planetas no nosso Sistema Solar. Eris, Makemake, Haumea, Sedna e afins acabariam se tornando planetas se mantivéssemos a mesma definição que ascendeu Plutão ao rol de um dos astros da nossa vizinhança. As crianças sofreriam decorando tantos planetas… não tenho nada contra a canetada que o fez mudar de categoria. Planeta-anão, que seja. Mas é tão recente que a memória emocional ainda não teve tempo de se adaptar.

Aliás, tão recente que a missão que acaba de tirar essas fotos saiu da Terra com a certeza que estaria visitando um planeta. A New Horizons partiu no começo de 2006, poucos meses antes de saber que jamais teria a mesma fama das Voyagers. Há quem argumente que a missão foi uma furada, mas, não é como se tivessem escolhido visitar um planeta-anão. Plutão ainda era tão importante como todos os outros. E era um absurdo que faltasse só ele!

Até poucos dias atrás, a única imagem que se tinha do ex-planeta era um ponto de luz borrado. Era a figurinha que faltava. Nos próximos meses ainda vão ser baixadas muitas informações que a sonda coletou e provavelmente vai esclarecer muitas das hipóteses levantadas sobre Plutão. Eu provavelmente vou acompanhar porque acho interessante, mas provavelmente para a maioria do público, a única grande novidade vai ser aquela foto mesmo. Isso é, considerando que se interessem ao menos pela imagem.

Mas é claro que eu estou aqui escrevendo por algum motivo. As imagens da New Horizon marcam o fim de uma era. O Sistema Solar está completo com a tecnologia disponível. O que podemos ter agora são novas missões para fotografar melhor outros planetas-anões e luas, mas nunca mais com a sensação de fascínio que é ver pela primeira vez algo ao mesmo tão conhecido e desconhecido. Plutão estendeu essa era por mais algumas décadas, mas não vai ser capaz de mantê-la viva indefinidamente. Acabou: vimos Plutão, mesmo que ele não tenha mais o status de outrora.

Pode ser exagero – e tomara que seja exagero – mas eu temo que vamos entrar numa era de menor empolgação sobre o que “está lá fora”. Apesar de ser muito complicado mandar uma “câmera” para além da órbita de Netuno, ainda sim podemos considerar a missão da New Horizons como a última fácil antes de evoluirmos consideravelmente a tecnologia de exploração espacial. A partir de agora, se quiser causar alguma comoção no público leigo, vai ter que fazer mais do que tirar uma foto há milhares de quilômetros de distância.

E para ser honesto, o conhecimento científico válido para astrônomos e similares tende a não ser muito interessante fora desses círculos. O que a nossa tecnologia atual pode fazer ainda vai ser muito útil para o acúmulo do conhecimento, mas enquanto alguém não botar os pés em Marte, estamos num hiato de fascinação sideral. Como, aliás, já estivemos antes do pouso da sonda Rosetta no cometa de nome impronunciável e dessas últimas fotos de Plutão.

E eu argumento, como já fiz outras vezes, que exploração espacial é provavelmente uma das coisas mais importantes que a humanidade tem para fazer em benefício próprio. Por impossibilidade de fazer diferente, estamos apostando todas nossas fichas num planeta só. Muita coisa pode acontecer com a Terra que inviabilize a nossa existência. Asteróides, pulsos de raios gama, o próprio ciclo de vida do planeta e da estrela que o aquece… não precisa desenvolver a tecnologia para sair daqui tão cedo, é claro, mas é muito razoável já ir se preparando para a próxima casa.

Sim, temos uma infinidade de problemas aqui mesmo que soam muito mais urgentes, mas não é como se as sondas espaciais fossem construídas com o dinheiro da erradicação da fome… já temos dinheiro e comida suficientes para todos nesse mundo, e não é de hoje. Os problemas são maiores que mera distribuição de recursos. De qualquer forma, a vantagem da sociedade humana é poder correr em várias direções ao mesmo tempo. Não façamos pouco do desenvolvimento da habilidade de conhecer e visitar outros planetas e quiçá outros sistemas estelares. Isso pode ser a nossa salvação.

E pensando assim, é essencial que haja o esforço para manter o tema interessante o suficiente. Sinto falta de ver mais tempo dedicado a convencer as pessoas da graça que tem o Universo. Principalmente em lugares pouco desenvolvidos como o Brasil. Não digo esperar que o povo se interesse por dados técnicos e cálculos complexos, mas sim de ter mais gente tratando do assunto de forma divertida. Estamos num país onde Superinteressante é revista de intelectual! Mesmo tendo que colocar alguma capa com “algo sobre Jesus” de tempos em tempos… não tenho nada contra a revista, só sinto a dor de quem tenta viver da parte divertida da ciência numa terra de gente acha chato tudo o que não tem a ver diretamente com “dramas humanos”.

Puxando outro exemplo: quando a Folha de São Paulo soltou um site secundário para falar de celebridades E ciência, eu fiquei escandalizado. A notícia relacionada do último caso de Fulano Famoso era uma descoberta de uma nova espécie? Hã? Como assim misturar essas coisas? Mas agora eu começo a entender, e até admirar o plano. É claro que rolou uma pesquisa para saber que esse público de fofoca aceitaria notícias “leves” de ciência, provavelmente para se enganar que não estava desperdiçando o cérebro, mas eu acredito agora que essa é justamente a solução: transformar ciência em fofoca e curiosidade amena para o grande público.

Falar de Plutão como um planeta-anão cuja órbita é inclinada em relação aos outros não vai virar muitas cabeças, mas dizer que ele tem um coração desenhado na sua superfície vai fazer as pessoas curtirem e compartilharem a notícia. Tratar do assunto de forma mais emocional reduz barreiras de entrada e quem sabe até faça alguma dessas almas fofoqueiras ir pesquisar um pouco sobre o ex-planeta. Eu sempre tive restrições à abordagem que faz o Bóson de Higgs virar a “partícula de Deus”, mas… quem sabe eu esteja amadurecendo. A ciência precisa sim de um pouco de emoção, pelo menos na hora de se divulgar.

Um pouco mais de encantamento “fabricado” na falta de sua ocorrência natural no público que é impactado por ela. Quem diria eu dizendo isso… mas está faltando mais coração na divulgação da ciência para o mundo. Te vendem um celular tocando as notas certas que encantam seus sentimentos, mas não conseguem vender uma foto tirada a bilhões de quilômetros de distância de um corpo celeste que aprendemos a categorizar como um planeta? Tem algo de errado aí.

A ciência realmente soa arrogante. Tanto conhecimento incrível para ser dividido com o resto do mundo e uma exigência desnecessária de gostos específicos para ser apreciado? E muitos de nós que já adquirimos esse fascínio acabamos jogando contra, numa arrogância desnecessária. É excelente que saiam notícias do tipo no meio de um site de fofoca! Não ia chegar nessas pessoas de outra forma. Queremos ser especiais ou queremos que as pessoas saibam mais sobre o que se descobre todos os dias?

No final das contas, o que vai nos salvar é a popularidade da ciência. É mais gente interessada e financiando – direta ou indiretamente – o nosso avanço como espécie. Este texto pode não ser muito útil para quem nunca deu bola para o assunto, mas se você for como eu e às vezes escolher “não se misturar com a gentalha” no que tange o seu conhecimento, pense melhor nisso. Dividir o que se sabe ou o que se gosta não pode ser exclusividade apenas de quem está promovendo uma celebridade querida… as fotos de Plutão deveriam ter graça para muita gente sim, talvez só o que falte é vender melhor o produto.

Não é de hoje que eu acho que quem produz conhecimento científico deve contratar gente para se divulgar e talvez colocar um pouco das verbas em exposição, se não para ter um ganho imediato, pelo menos para facilitar todo o processo para os próximos que vierem. O que eu estou penso a mudar agora é a noção que talvez valha tudo mesmo para conseguir essa visibilidade, até negociar com o “diabo/indústria da fofoca/entretenimento”. Talvez a Super seja muito elitista mesmo! Tem que fazer bem besta, tem que comparar os planetas com cantoras pop, tem que usar o horóscopo para “injetar” informações sobre as missões especiais…

Não sei se vou ter tempo para botar esse plano em prática, não agora… mas eu começo a acreditar que dá para fazer um bem para esse mundo “humilhando” a ciência um pouco. Talvez respeitemos demais o que nos é fascinante e não façamos o suficiente para espalhar a ideia por aí.

Talvez tenha um plano bom por aqui… o que vocês acham?

Para dizer que eu consegui te pegar de surpresa com o rumo do texto, para dizer que queria saber mais sobre Plutão, ou mesmo para dizer que está começando a imaginar o que eu estou imaginando: somir@desfavor.com

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Comentários (11)

  • “Sinto falta de ver mais tempo dedicado a convencer as pessoas da graça que tem o Universo. Principalmente em lugares pouco desenvolvidos como o Brasil. Não digo esperar que o povo se interesse por dados técnicos e cálculos complexos, mas sim de ter mais gente tratando do assunto de forma divertida.”

    Somir, será que Richard Dawkins não está começando a trilhar esse caminho? O livro “Magia da Realidade” torna os temas científicos muito simples. Tudo bem que ele é biólogo, mas eu nunca achei tão divertido ler sobre o Universo como neste livro! Ele sabe tornar as coisas muito digeríveis, ainda que sejam “dados técnicos e cálculos complexos.”

    Sua ideia é interessante…
    Comparar astros planetários com “astros” da mídia. gostei! Certamente, muitos que antes achavam chato ler sobre astronomia, vão adorar ler suas publicações, meu caro.
    Sucesso!

  • Duas coisa que eu vejo que são problemáticas e dificultadoras: tornar o assunto das ciências atrativo e agradável para as pessoas, e o enfrentamento de questões políticas e ideológicas por trás que invariavelmente molda a produção acadêmica/intelectual e também as publicações por aí. É fácil ter em mente um plano pra ciência ficar “pop”, mas quando tu vê os enfrentamentos que a própria academia tem pra publicar sequer um artigozinho…

  • Falando em astronomia, o Observatório Nacional promove anualmente cursos sobre o assunto, no sistema EAD, são gratuitos e com certificados
    Este ano é sobre “Cosmologia” e há cerca de 25 mil inscritos no curso…se chegarão até o fim não tem como saber, mas, se levarmos em conta a matéria abordada, é um nº record de pessoas inscritas.
    São cursos rápidos e destinadas ao publico em geral, que acredito que poucos se interessam, ou é mal divulgado.
    Na real? poucas pessoas se interessam por estes assuntos, por qualquer assunto científico, são acometidas de diarreia mental quando tem contato com estes assuntos, além de acharem fútil tamanho investimento indo pro espaço, literalmente!
    O problema é ter que vulgarizar tudo para chamar a atenção destas pessoas

  • Essa era, aliás, a grande defesa que Carl Sagan fazia. Quanto mais popularizar a ciência, melhor. Ainda que sejam necessárias simplificações grosseiras para tanto. É como você diz, trata-se de uma porta de entrada. O programa “Cosmos” e aquela história de poeira de estrelas atraiu muita gente pra temas científicos e isso só trouxe benefícios.

  • Achei a ideia muito interessante, Somir!

    Provavelmente esse será o caminho para aproximar mais as pessoas desse mundo de tão vasto e para arrecadar mais investimentos para esses projetos. Gostei muito do ponto de vista!

  • Falando em popularidade da ciência, há uma HQ muito legal chamada “Nowhere Men”, onde 4 cientistas fundam uma empresa, criam coisas fantásticas e se tornam celebridades. Os personagens dizem que ciência é o novo Rock n’ Roll.

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