Vestida para admirar.

A notícia acabou de sair: o Calendário Pirelli de 2016 vai ser estrelado não por modelos nuas, mas por “mulheres poderosas”. Para quem nem sabia que isso existia, o calendário da Pirelli é a versão 5 estrelas daquelas “folhinhas de borracheiro” com mulher pelada. Chamam fotógrafos de moda renomados e várias modelos famosas são clicadas com pouca ou nenhuma roupa. Bom, foi assim até agora… parece que a ideia é exaltar mulheres de sucesso sem apelar para a sensualidade, até porque algumas passam longe do layout de modelo. Eu quero achar a ideia bacana, mas… alguma coisa não encaixa.

Numa coisa eu concordo bastante até mesmo com as feministas mais histéricas: a imagem da mulher na sociedade está ligada com sua aparência e atratividade sexual bem além do que deveria. Mesmo sendo beneficiário da exposição desenfreada da pele feminina, não dá para tapar o sol com a peneira: há sim um abuso. Nem digo que os homens deveriam fingir que não tem esse interesse, nem mesmo que devamos nos prestar ao papel ridículo de proibir que mulheres (que consentem) sejam exibidas dessa forma, mas… podia mesmo ter um pouco mais de exemplos de mulheres que se destacam por inteligência, talento e esforço.

Então, por esse lado, uma iniciativa interessante a do Calendário Pirelli: nem que seja para mostrar para as meninas que elas podem almejar algo além de aparência e serem reconhecidas por isso. Mas… eu disse que algo não parecia encaixar aqui… é num calendário famoso por mostrar mulheres despidas que essa mensagem deveria ser passada? Passa-me a impressão de uma intrusão. Meninas invadindo o clube do Bolinha para berrar na orelha deles que podem fazer tudo o que eles fazem. Sim, os meninos deveriam escutar e entender essa mensagem, mas eu acredito que pra tudo tem hora. Inclusive a hora de não querer mensagem nenhuma além de ver uma mulher pelada.

Até entendo que depois da internet, essa coisa de mulher pelada banalizou de tal forma que nem tinha mais nada de especial no calendário em questão além dos nomes famosos da indústria da moda. E vai além disso: tem uma revista esportiva americana chamada Sports Illustrated que todo ano solta um especial com mulheres de biquini, o Swimsuit Special, é uma tradição de décadas que já serviu de combustível para a libido de gerações, era sem falta o especial que mais vendia, esperado pelo país inteiro ano após ano. Mas, as vendas recentes são cada vez piores… não sabem mais o que fazer, começou a dar prejuízo! Neguinho simplesmente não dá mais bola pra mulher de biquíni, não ao ponto de comprar uma revista com fotos delas. Por esse viés, realmente não deve mais ser comercialmente atraente focar na forma feminina desse modo mais comedido e/ou artítisco: a novidade acabou quando digitar “mulher pelada” no Google te afoga em resultados. Os tempos mudaram, ok. Talvez venda até mais com essa proposta de valorizar mulheres como pessoas e não como imagens.

Entendo como estratégia comercial. Muito embora eu aposte que tenham que voltar para a fórmula antiga no ano seguinte: essa novidade de calendário com mulheres vestidas é um produto difícil de se vender sem o elemento da novidade. Mesmo assim, entendi o “golpe”. Vai render a atenção desejada, mataram o leão do ano. Bacana! Mas, e a mensagem que supostamente estaria por trás disso? Vai contribuir para a noção de igualdade? Minha impressão é que são mais fogos de artifício num show que está virando nosso mundo cada vez mais politicamente correto. Pessoalmente, eu estou pouco me importando até se colocarem homens pelados no Calendário Pirelli: nunca foi algo importante pra mim, dificilmente vai ser. Mas, e quem tinha interesse por ele?

“Olha, vamos tirar as mulheres peladas e colocar umas vestidas que você deveria admirar no lugar. E se achar ruim, é machista.”

Aí a coisa começa a ficar estranha. Cidadão tem o sagrado direito de admirar ou não quem ele quiser. Ou mesmo definir que vai valorizar numa mulher apenas suas medidas e a disposição de tirar as roupas. Ele tem que obedecer as leis do mesmo jeito, o que está na cabeça dele é livre. E mesmo os homens que valorizam sim inteligência, talento e esforço sem entrar em conflito com seu desejo/fascinação pela forma feminina não precisariam dessa dose de educação. Preocupa-me essa ideia que a solução seja empurrar goela abaixo de todos exemplos “positivos” (vai ter a Yoko Ono no calendário… literalmente uma pessoa que ficou famosa por fazer sexo com um homem) e esperar que as pessoas derivem disso ideias mais igualitárias sobre os gêneros.

Tudo bem que muito homem funciona na base da encheção de saco, mas não é inteligente querer disputar com seu impulso de exploração/apreciação da forma feminina. Isso está num nível muito mais inconsciente do que julgam as feministas dizendo que a solução é exibir menos pele na mídia. Assim que cidadão aprendeu a esculpir, mandou ver uma mulher bunduda! Não que mulheres não tenham atração pela forma masculina, é claro que tem, mas a nossa relação com o “visual” é numa escala de obsessão que raramente encontra eco do outro lado. Até mesmo revista de homem pelado vende mais pra homem do que pra mulher…

Mesmo que estudos indiquem que elas tem o maior impulso sexual dos gêneros, há uma cegueira (auto-imposta) das ativistas dos direitos das mulheres sobre a relação do homem com a imagem da mulher atraente. É algo que até extrapola o mero desejo sexual. Somos vidrados nisso, e não quer dizer que respeitemos mais ou menos as pessoas por essa causa. Infelizmente parece que muito da discussão sobre o assunto recai na recriminação desse desejo tipicamente masculino. Tem que querer ver mulher vestida e pouco sexualizada para respeitá-la! E ai de quem não disser que a “plus-size” é linda!

O maior problema da guerra dos sexos é que ambos os lados tem uma tendência preocupante de enxergar o outro sob sua própria ótica. Uma mulher que normalmente monta sua atração por um homem baseada TAMBÉM em inteligência, talento e esforço pode achar que o homem babando numa modelo genérica em trajes sumários ou inexistentes está pulando todas essas etapas e reduzindo-a a apenas um pedaço de carne. Ela reclamam quando reduzimos suas frustrações a apenas uma descarga emocional, mas não perdem a chance de uma generalização mal informada!

Se tirarem dos homens esse alívio visual midiático, não quer dizer que eles vão começar a ter o grau de generosidade com aparência que as mulheres costumam ter. Esses modos de derivar atração do outro são resultado de milhares e milhares de anos de evolução da espécie. Brasileiros podem ser muito focados em aparência na escolha de uma mulher, mas vocês acham que os noruegueses não são? Essa onda de críticas ao jeito como a mente masculina funciona só vai conseguir deixar alguns deles se sentindo culpados pelo o que são. E boa parte vai fazer o clássico de dizer pra mulher o que ela quer ouvir e fazer o que bem entender pelas costas dela.

O máximo que essa pressão feminista consegue é a marginalização do desejo masculino por suas revistas e calendários de mulher pelada. Ao invés de milhões de resultados em qualquer computador ligado na internet, material clandestino que será passado entre eles. Já aviso: antes da internet, a gente se virava. Ninguém vai ficar entre nós e nosso estímulo visual. E isso ainda tem um problema potencial: a clandestinidade não permite fiscalização. Nos anos 60 e 70, revistas de pornografia infantil eram publicadas e vendidas normalmente na Europa. Ninguém queria tocar nesse mercado pornográfico em geral, e neguinho perdeu a mão sem dó nem pena. Não que o mundo moderno comporte a volta desse tipo abjeto de material, mas é a ideia de que quando se tenta reprimir algo tão natural quanto o desejo de muitos homens de ver mulheres peladas, isso vaza de alguma forma, e cada vez mais precária. Ao invés de pagar fábulas para fotógrafos famosos registrarem a nudez de mulheres que ganham muito para isso, vamos ter safados genéricos clicando mulheres cada vez mais exploradas.

Não adianta dizer pro homem que ele precisa valorizar as mulheres por inteligência, talento e esforço se a contrapartida for deixar de valorizar a aparência delas em geral. É um preço caro demais que não vamos pagar. Vamos fingir bem para não ouvir mais reclamação, e continuar consumindo o material desejado. História de muitos relacionamentos, não?

Repito: a iniciativa do calendário é interessante sim, desde que seja uma “propaganda” pontual. O máximo que as mulheres conseguem é “invadir” o espaço dos homens? Soa derrotista e até meio subserviente. Não seria melhor criar os seus espaços e focar neles? Há de se ter muito cuidado para entender quando a informação vem para somar e quando ela vem pra dividir. Uma coisa é mostrar mais mulheres poderosas como exemplos positivos para a sociedade, outra é forçá-las dentro de um calendário de mulher pelada. Pode funcionar como uma surpresa, mas como método… é encheção de saco.

Espero que o plano não seja só esse.

Para dizer que não sabe se fui machista ou feminista hoje, para dizer que não sabia que calendário de borracheiro era tão chique, ou mesmo para me chamar de tarado explorador: somir@desfavor.com

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Comentários (9)

  • Interpretei o calendário como estratégia para chamar a atenção do público. A nudez a gente consegue ver de graça digitando uma única palavra e dando um único clique no Google Imagens. Não vende mais como antes. Nunca mais vai vender como antes.

    Quanto ao esforço para convencer homens de que eles precisam valorizar as mulheres pelo talento e inteligência em vez de beleza… Acho que há uma confusão generalizada aqui.

    Feminismo é luta por igualdade de direitos, de oportunidades, uma luta constitucional, inclusive: “Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações nos termos desta Constituição”, o que deixa bem claro que homens e mulheres não precisam ser iguais matematicamente (homem não tem o azar de engravidar, de menstruar, não é a maior vítima de estupro e violência doméstica, etc) o que pode ser resolvido com: “Tratar os desiguais desigualmente no limite da sua desigualdade”. Até aí, ok. Sou feroz defensora da equiparação salarial e também da licença maternidade ser dividida com os pais.

    Mas quando se fala em relacionamento amoroso/sexual, a coisa muda. Não se pode impor nada. Não somos obrigados a sentir tesão por quem não sentimos. Desejo é involuntário e incontrolável. Controlamos o comportamento, não o desejo.

    Exemplo óbvio (mas cada vez menos!) Ana não sente atração por homens muito magros. Isso é incontrolável. Ela não controla o desejo que não sente, mas pode controlar o comportamento, dando uma chance ao Fulano magrelo por ele ser muito gente boa e ter outras qualidades.
    Pedro não sente desejo por mulheres gordas. Pedro, igualmente, não controla o desejo, só controla o comportamento. Ele pode dar uma chance para conhecer melhor Fulana gorda, mas essa escolha é tão individual e intransferível quanto o direito que cada um tem de desejar o que deseja. Ponto.

    Isso deveria ser óbvio, mas não é. Cada vez mais: não é! Daqui a pouco, um conceito simples como esse não vai mais nem ser compreendido, de tanta chatice politicamente correta. Tenho visto homens que não sentem desejo por mulheres gordas/negras sendo chamados de gordofóbicos/racistas. É ridículo. Preconceito é negar emprego, negar vaga na escola, negar direitos, dar privilégios, cometer injúria… Mas não se pode confundir preconceito com ausência de desejo.

    Quanto ao “Espero que o plano não seja só esse” eu sou mais pessimista: acho que não há plano nenhum, só há ruídos, ruídos, ruídos…

    • É mais fácil ficar dizendo que a opinião de Pedro é um lixo empurrado pela mídia, já que o vitimismo impera e dá lucro (sentido amplo)

  • Vamos proibir a maquiagem. Afinal de contas, ela serve para valorizar esse modelo de aparência e juventude como critério de valorização da mulher.

  • Não acho que é com uma foto e um nome que alguém vai focar na ‘relevância’ destas mulheres.

    A função/forma está simplesmente errada. Mas…

    …Parabéns feminismo por mais esta ~grande conquista~…

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