Pago quando puder.

+O salário médio de uma mulher brasileira com educação superior corresponde a apenas 62% do de um homem com a mesma escolaridade, segundo relatório divulgado nesta terça-feira pela Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE), com dados de 46 países.

A diferença entre os salários é um desfavor, mas deixar essa história mal explicada assim também é. Desfavor da semana.

SALLY

Brasil está em primeiro lugar no ranking da desigualdade de salários entre homens e mulheres, tomando por base a remuneração recebida por pessoas com educação superior.Números piores do que aqueles de países que os próprios brasileiros consideram inferiores ou menos desenvolvidos.

O Brasil não é um bom lugar para ser mulher. Campeão mundial de estupros, de violência doméstica e agora de desigualdade salarial. Mas o pior é a pose que o país faz de igualitário. É isso que mais me revolta e provavelmente o que mais impede que este problema seja combatido. O brasileiro nega para o mundo e para si mesmo que aqui exista qualquer tipo de discriminação: não, não tem não, são todos bacanas, um povo alegre e receptivo. Mentira.

O brasileiro é um dos povos mais ignorantes e preconceituosos do mundo. A ponto de esse preconceito estar tão enraizado que nem ao menos se dão conta disso. Quando você não sabe que tem um problema, não dá um primeiro passo para mudar sua realidade. E o preconceito está nas próprias mulheres, que por sinal, são quem criam esses homens que posteriormente oprimirão outras mulheres no mercado de trabalho.

É fácil simplificar a questão no “mulher ganha menos, que absurdo” e ficar batendo nessa tecla. Enquanto não se aprofundar o problema, ninguém vai chegar nem perto de uma solução. Sim, mulher com a mesma capacidade ganha menos e a resposta que todo mundo tem na ponta da língua é que a culpa seria do preconceito. Vamos além?

É verdade que grupinhos de homens tendem a promover outros homens, mas não necessariamente por considerarem mulheres inferiores. Eles se sentem melhor ao lado de outros homens, pois assim tem total liberdade de expressão e podem gerir seus negócios e continuar convivendo como sempre o fizeram. Não são obrigados a se adaptar. Grosserias, assédio e corporativismo masculino permeiam essa zona de conforto.

Essa é a parcela de culpa dos homens. Mas… e a das mulheres? Elas são vítimas, claro, mas também tem sua parcela de culpa. Culpa no sentido de erro, de errar na estratégia. Sim, mulheres tem culpa. E daqui para frente entra o diferencial do Desfavor, você vai ler o que dificilmente alguém tenha coragem de dizer. Desarme-se e tente interpretar da melhor forma possível, serão palavras duras.

Mulheres vem tentando conseguir igualdade no mercado de trabalho se comportando como homens. Furada, um gato que pega um graveto com a boca nunca será um cão, será um gato ridículo. Tentar emular comportamento masculino é degradante, humilhante e falta de ambição na vida. É admitir e reforçar o estereotipo de que apenas homens e seus comportamentos merecem espaço no mercado de trabalho.

Além disso, as mulheres também parecem se conformar em não poder competir com homens no mercado de trabalho. Besteira, podem sim. E se o fizessem com vontade, observação e sabedoria, dariam um surra nesses marmanjos. Mas aparentemente elas preferem se recolher a profissões consideradas tipicamente femininas, para não ter que encarar essa batalha. Profissões estas notoriamente mal pagas, como pedagogia, enfermagem e outras profissões “de mulher”. Lutem, frouxas! Se você não brigar pelo que quer, ninguém vai te dar nada de graça não!

Mulheres deveriam ensinar suas filhas a lutar, mas parece que em vez de fazer isso, ensinam a importância do casamento. Contam histórias de princesas, dão a Barbie noiva e projetam nas filhas todos os sonhos não realizados. A menina cresce com a ideia de que ela se afirmará socialmente pelo seu relacionamento. O que importa é ser casada, ter uma família, ter marido, ter filhos. Foda-se se o que ela ganha não basta para ela se sustentar sozinha caso um dia o marido suma do mapa. Aliás, pergunta: quantas mulheres vocês conhecem que, se o marido do nada for totalmente desintegrado da face da Terra, como que em um passe de mágica, conseguiriam manter seu padrão de vida apenas com sua renda?

Então, nesse jogo jogam dois. Muito fácil cruzar os braços e culpar seu fracasso profissional ou falta de oportunidades apenas por fatores externos. Os fatores externos existem sim, e são obstáculos difíceis de ultrapassar, mas o pior obstáculo está dentro das mulheres, não fora. Enquanto a sociedade não romper com esse pacto de que mulher se afirma por casamento e filhos, continuarão em segundo plano. Ou se revê essa postura ou a estagnação continuará.

Não se pode ter tudo. É clichê, porém verdadeiro. Não se pode ter tudo. Se você quer estar no topo da remuneração, sua dedicação ao trabalho tem que ocupar uma grande parcela do seu tempo. Ninguém fica genial trabalhando pouco, estudando pouco, se aprimorando pouco. E para investir em um setor temos que, fatalmente, desinvestir em outro. Não tem mágica, por mais que você se ache multitarefa, vai ter que abrir mão de alguma coisa. Aceita que dói menos, não sou eu, é a ciência quem diz.

Se o grande sonho, o grande ponto de investimento feminino, continuar sendo marido e filhos, bem, sinto informar, mas vão continuar para trás no mercado de trabalho sim. Mulher é fera em manter uma família funcionando, isso ninguém nega. O motivo? É o principal investimento da sua vida. Eu, pessoalmente, não quero isso para mim. Meu principal investimento é em mim, não nos outros.

Crescimento profissional (como qualquer outro) implica em renúncias. E se não renunciar à família como prioridade foi a escolha da mulher, não há espaço para culpar sociedade, preconceito ou qualquer fator externo. É natural que quem coloca o lado profissional como prioridade na vida (homens no geral) seja mais bem sucedido. Não estou mandando deixar família de lado, apenas dizendo que colhemos melhor o que escolhemos priorizar. Nem 8, nem 80.

Para começar a reclamar da sociedade, é preciso que a mulher tenha feito a escolha de priorizar o mercado de trabalho, ou ao menos dar a ele o mesmo peso que dá a outras escolhas de vida. Deixar trabalho em segundo plano e querer ser tão bem remunerada como quem coloca trabalho em primeiro plano é uma postura infantil. E, sejam sinceros, quantas mulheres vocês conhecem (além da que vos fala) cujo projeto de vida principal não seja casar e ter filhos?

Pode reclamar aquela que coloca a mesma quantidade de empenho no trabalho que homens e ainda assim é preterida pelo simples fato de não ter pênis. O resto é apenas chororô de quem não assume as consequências de suas escolhas de vida. E enquanto não perceberem isso, continuarão chorando para o nada e jamais conseguirão mudar sua realidade.

Para se ofender, para concordar e se ofender ou ainda para insistir na burrice de que dá para priorizar marido e filhos e ser tão boa profissionalmente como quem prioriza profissão: sally@desfavor.com

SOMIR

Confesso que achei que ia sozinho hoje no caminho de colocar em dúvida se é só machismo mesmo que causa essa disparidade entre salários. Com o endosso da Sally, sinto que preciso pisar em menos ovos para tratar do tema. Não é sobre “defender minha classe”, é sobre analisar o problema da forma mais realista se você se importa com resultados.

Evidente que se uma pessoa ganha mais que a outra exclusivamente por ter um pênis as coisas vão mal. Essa com certeza não deveria ser a característica definidora de capacidade de produção na maioria absoluta das profissões (que não sejam ator pornô). Que o machismo da sociedade causa sim distorções entre a valorização profissional nem se discute, mas entender a cena toda faz diferença na hora de analisar se estamos evoluindo ou não nessa área.

Quando surge um dado como o que ilustra a coluna de hoje, parece que as coisas estão irremediavelmente estragadas! Para cada real que um homem com curso superior ganha, uma mulher ganha só 62 centavos? Como assim? Absurdo! Mas… se você está comparando só o dado da formação, está deixando de ver uma série de outros fatores que podem estar contribuindo para o resultado.

Educação superior pode significar uma série de profissões diferentes. Embora ambos tenham terminado seus estudos, um médico tende a ganhar mais que alguém formado em Letras, não? É assim que funciona desde sempre: algumas profissões vão pagar mais que outras. E a não ser que você nutra alguma fantasia comunista de todas as pessoas ganharem por igual independentemente de seu trabalho, não é nada de estranho.

Se homens e mulheres se formassem em exata proporção nos mesmos cursos e ainda tivéssemos uma diferença brutal dessas teríamos sim uma prova inegável de tratamento desigual, mas não é o caso. Mulheres tendem a ser maioria em cursos cuja remuneração da carreira vai ser menor, e mesmo as que escolhem as profissões mais lucrativas ainda tem o fator comportamental como Sally já descreveu tão bem. É muito complicado ter exatamente o fator de discriminação que influi nos ganhos menores delas sem eliminar variáveis tão importantes.

E não se pode mais tentar uma análise mais racional do tema sem dar de cara com a presunção de machismo. Como infelizmente a maioria das pessoas fica presa a uma dicotomia maniqueísta que exige concordância absoluta para ser “mocinho” e qualquer sinal de dúvida como prova de vilania, até mesmo as pessoas que se importam com a causa de salários mais equânimes entre homens e mulheres acabam atrapalhando.

Aceitam cegamente os dados que corroboram com sua visão de mundo e tratam como ofensa os que causam qualquer dúvida. Já temos pesquisas que inclusive dizem que em condições realmente iguais de competição profissional, mulheres até ganham mais. Eu não compro isso integralmente porque não é uma comparação tão justa assim: mulheres enfrentam uma barreira de entrada no mercado profissional em vários trabalhos, forçando uma “seleção natural” ainda mais violenta que a que os homens encontram. Mulheres em condições iguais nessas pesquisas na verdade não são iguais, são melhores mesmo. O filtro pelo qual passam é bem mais fino.

E isso sim tem cara de raiz do problema. Os salários diferentes também são causados por elementos externos que funcionam de forma mais ou menos igual para ambos os sexos: o formado em pedagogia vai acabar ganhando menos que a formada em arquitetura… o homem que se focar na vida familiar vai ter menos oportunidades que a mulher que só pensa na carreira. Sabem qual eu acredito ser a verdadeira diferença? Homem precisa ser menos impressionante no que faz para se dar bem em profissões de alta remuneração.

Esse ponto é sério e raramente é tratado. Principalmente porque não dá para só cruzar os braços, reclamar e esperar que alguém resolva o problema pra você. Lidar com as barreiras de entrada e progressão que mulheres são obrigadas a encarar exige uma mudança de paradigma tão grande que nem mesmo a maioria dos ativistas da causa tem coragem de enfrentar. Na verdade, ficamos basicamente na exigência de mais dinheiro… por uma mulher ser uma mulher. Percebem a armadilha? Parece a mesma coisa da revolução sexual: mulheres querendo imitar os homens justamente no que as prejudicou até aqui.

Se você só analisar os dados de diferença salarial, vai encontrar uma “saborosa” injustiça da qual pode reclamar muito e apontar o dedo para outros esperando que resolvam. Mas quando cai a ficha de que: 1) Mulheres fazem escolhas menos lucrativas na vida e 2) Precisam demonstrar mais habilidade do que homens para se destacar, aí sim vemos como os DOIS lados contribuem para o problema e ter mecanismos para reduzir a diferença.

A verdade tem essa mania de ser bem mais cinza do que gostamos de acreditar. Acredito que ambos os elementos que causam essa disparidade sejam “dores do crescimento” de uma sociedade que começou a finalmente aceitar a mulher fora de casa. Se muitas delas escolhem profissões cuja remuneração seja menor, é também porque existe um ganho secundário nisso. Profissões mais lucrativas cobram mais da vida pessoal, em média. E como ainda estamos engatinhando nisso de tirar todo o peso da manutenção do lar das costas delas, mandamos mensagens confusas. A mulher vai querer tudo ao mesmo tempo, virando uma espécie de “pato” da nossa estrutura social. Não vai conseguir realizar as duas funções com sua devida plenitude.

E nessa confusão, as que tem a oportunidade de deixar para trás esse foco familiar criam a falsa impressão na sociedade que é isso o que se espera de uma mulher no ambiente de trabalho. Tem que cuidar de uma casa e agir como as que não cuidam quando estão trabalhando! Isso gera barreiras enormes para quem quer equilibrar os dois mundos. Homens sofrem muito menos com isso, já que já parte de uma presunção de capacidade média suficiente para realizar seu trabalho. Homens são promovidos com menos para mostrar que mulheres. Presume-se que o homem sempre vai dar conta do recado, mas não que a mulher vai (pelo foco duplo). Ela tem que provar muito mais para ser vista da mesma forma. E como algumas vão e encaram essa prova de fogo, parece normal cobrar mais delas.

Tudo resultado do problema da confusão sobre o foco na vida. Talvez o mundo comece a se adaptar a isso, talvez o foco familiar comece a ficar cada vez menor (com todas as consequências disso) até que elas ganhem a “liberdade” de serem mais medíocres com as mesmas oportunidades de crescimento profissional, mas por enquanto tem essa diferença considerável.

E não é a diferença que pesquisas que comparam salários estão mostrando.

Para dizer que nem leu mas vai me chamar de machista, para dizer que é típico culpar a vítima, ou mesmo para dizer que quem engravida sempre vai ganhar menos: somir@desfavor.com

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Comentários (48)

  • Este problema parece nunca acabar. Antes, eu achava que era PPR causa do preconceito, machismo, etc. Nunca tinha analisado por estes fatores colocados por Sally e Somir. Obrigado por me ajudarem a refletir.

  • Antes de ler os comentários, já adianto: fui surpreendido positivamente pela análise de vocês. Especialmente pela da Sally. Depois de ler o que os impopulares escreveram, me pronuncio novamente.

  • O dia em uma mulher e um homem, que trabalham na mesma empresa, tendo exatamente a mesma função, me mostrarem seus holerites com diferença de salário, eu acredito nesse mimimi todo! É como disse a Sally, não adianta nada querer ganhar um salário bacana, se o trabalho não foi sua prioridade… Bônus sem o ônus não funciona… Eu sei bem disso e conversava com meu marido sobre o assunto dia desses. Eu não ache que ganhe mal, tampouco ganho muito, mas eu decidi que nesse momento da minha vida, minha dedicação será pro meu lado pessoal… Escolhi que logo quero ser mãe… Quero essa vida de família… Foi minha opção, por tanto, minhas consequência! Não posso reclamar de algo que foi unicamente escolha minha…

    • Uma vez uma pessoa muito importante me disse uma frase que eu levei para a vida: o tanto que você corre depende do tamanho do cachorro que está correndo atrás de você. Se tem um poodle te perseguindo, você não corre tanto quando se tiver um cachorro gigante.

      Mulheres casadas cujos maridos tem condições de prover o mínimo NÃO CORRERM tanto quanto poderiam. E, desculpa, essa culpa é só delas.

      Claro que existe machismo, escrotidão e muita injustiça, mas sobre isso todo mundo fala. Por isso fiz questão de trazer um ponto de vista diferente.

      • Boa frase. O problema é que há múltiplos universos dentro deste mundo e nem todas as mulheres têm condição, base, grau de escolaridade ou capacidade para fazer essa reflexão e questionar a bobagem de que só serão felizes quando forem mães e esposas e que o ponto alto de suas vidas é um altar numa igreja.

        Mas realmente muito boa a frase. Vou pensar sobre ela.

        • Tem muita mulher sem condições de questionar sim, mas também tá cheio de madame que fica casada só para dizer que tem marido e abraça o projeto de vida “marido e filhos” por falta de culhão de romper com isso – e essas são as mais ativistonas de rede social, pois as outras nem tem consciência do mecanismo para sequer pensar em fazer ativismo.

  • Um fato relevante apontado pelo texto, que já testemunhei: mulheres geralmente escolhem carreiras menos rentáveis que os homens. Considerando que a comparação trata de pessoas com ensino superior, basta observar as proporções de gênero em salas de aula de Engenharias e de cursos relacionados a TI (altos salários nessas áreas, se vê pouquíssimas mulheres nesses cursos). Já em outros cursos como Pedagogia, Educação Física, etc., mulheres são maioria, mas a renda média dessas áreas é menor que a de engenheiros e programadores, por exemplo. E isso, creio eu, pende mais para uma questão cultural

    • Sim, mulheres escolhem e conduzem carreiras que lhes permita realizar seu sonho: marido e filhos. Se essa é a prioridade, ok, sem julgamentos. Mas se você não prioriza o trabalho em um mercado escroto e competitivo como o nosso, está ciente que nunca ganhará tanto como quem prioriza trabalho. Uma pena que seja assim, mas é.

  • Mulher ganha menos em MÉDIA!!! E essa palavra MUDA TUDO.

    E os casos específicos onde se poderia haver mesmo uma comparação direta, as diferenças se dão por escolhas pessoais.

    Homem costuma trabalhar mais horas semanais que as mulheres.

    Mulheres costumam ser mais escolarizadas e com menor evasão escolar.

    A escolha das carreiras também é diferente. Existem profissões com muito mais mulheres que homens e vice versa. E isso não é por questão corporativista.

    Se os homens costumam se dedicar MAIS tempo a carreira que familia (lembre-se estamos falando com foco na média), a posição profissional, e a experiência mudam também, refletindo de forma exponencial no salário.

    Enfim, se o homem seguir tudo o que a mulher costuma escolher, também vai ganhar menos -o fato de mijar de pé não vai acrescentar mais renda ao seu salário.

    Se a mulher fizer tudo oque o homem fizer, também vai ganhar mais.

    E isso tudo INDEPENDE de gênero.

  • Lembrei de um processe seletivo que fiz esse ano. Fui bem em todas as etapas, só não passei na entrevista final que foi conduzida por um homem e uma mulher prestes a sair de licença maternidade.
    É bem isso que alguém contou aqui, partem do pressuposto de que todas vão querer ter filhos e punem antes. Ter filhos é importante, acho que em grandes empresas (tem mais estrutura e dinheiro em geral), deveria ser concedido o mesmo tempo de licença pra homens e mulheres. Mas na pratica o plano de carreira é agressivo e quem diminui o ritmo por 6 meses se fode.

    • A demanda de trabalho hoje torna a vida profissional pela com a dedicação que precisa incompatível com filhos. Eu acho isso certo? NÃO, ACHO ESCROTO E ERRADO, em um mundo bacana seria plenamente possível conciliar ambos.

      Mas, as coisas são como elas são, não como a gente gostaria que elas fossem…

      • Sally, te amo (principalmente sua versão surtada) e sou daquelas pessoas que só leem (há anos, aliás) e não comentam nada. Até porque nem sempre eu tenho algo a acrescentar. Mas hoje preciso comentar, porque achei que esse texto olha a situação por um ângulo equivocado: você tá falando de uma coisa que é cultural/social como se fosse uma simples questão de escolhas individuais. O buraco é mais embaixo, é mais complicado.

        Sim, é verdade que as mulheres são criadas para priorizar marido e filhos em vez da carreira. Aliás, não só priorizar: a vida inteira, a identidade inteira delas vem disso. Mas de onde vem isso? Machismo. Da ideia milenar de que mulher foi feita para ficar no espaço doméstico, limpando e cuidando de filho, enquanto homem foi feito para o espaço público. Se um tenta fazer o trabalho do outro, ou “não presta ou não sabe”. Basta ver, pra ficar só em um exemplo, as propagandas de produtos de limpeza falando até hoje que homem “simplesmente não sabe” passar um pano no chão ou que a mulher tem um “dom mágico” para acalmar as crianças. Filmes, livros, imprensa toda uma cultura de massa representando os homens em postos de comando e as mulheres como fúteis que se importam só com roupa, maquiagem, casamento e filhos.

        Embora as mulheres já estejam no mercado de trabalho faz um bom tempinho, cultura é um negócio que muda muito mais lentamente. Então as pessoas continuam criando seus filhos com essas ideias. Dois mil e fucking quinze e, se você entrar numa loja de brinquedos, ainda vai ver um monte de panelinhas, vassourinhas e bonecas-bebê para meninas e blocos, carros, robôs e outras coisas mais “pensantes” para os meninos. É lógico que não é obrigatório você criar seus filhos assim. Eu não fui criada assim e provavelmente você também não. Mas o BM (aliás, o ser humano médio) só vai no automático, fazendo o que todo mundo faz. Nisso, cresce a Mariazinha, do jogo de panelinha à revista Capricho, sem ter seu interesse por ciências exatas despertado. Chega a hora do vestibular, o que ela escolhe? Pedagogia, já que passou a vida inteira cuidando de bonequinhas e sonhando com filhos. Enfermagem, pra cuidar dos outros. Comunicação, já que mulher é que “gosta de falar”. E o homem vai lá e escolhe uma profissão condizente com os brinquedos, filmes, séries e interesses que foram a vida inteira mostradas pra ele como sendo “de menino”. Profissões que, como geram mais mercadorias e dinheiro, pagam melhor.

        Outra coisa que devemos considerar é: essa coisa que você coloca no texto, de ter de escolher entre o que vai priorizar, carreira ou filhos, só é uma realidade pra mulher. Ninguém pergunta pra homem “como ele faz” para conciliar carreira e filhos. Ele PODE ter os dois, a gente não. A mulher casada ou que já tem filhos muitas vezes é descartada já na hora da entrevista. Agora para o candidato homem, isso não faz diferença nenhuma. Por quê? Porque a maioria dos homens pode ter filhos sem precisar efetivamente cuidar deles. Não troca uma fralda, não lava uma louça, porque cresceu ouvindo desde pequeno que isso não é tarefa dele. É da mulher. A muher, trouxa, também internalizou isso e fica lá, se fodendo, trabalhando em dobro, segurando sozinha a bucha que é ter o filho, limpando a sujeira que o cara também ajudou a fazer mas não se digna a limpar. Quando o casal tem um pouco mais de condição, faz o quê? Contrata uma empregada (ou seja: outra mulher) em vez de fazer o cara levantar a bunda da cadeira.

        Se o casal não dá certo e se separa, na maior parte das vezes a guarda é dada pra mulher. De novo, porque acham que “o filho é mais dela”. Aí pronto, fica a mulher sozinha com toda a bucha da criação diária do filho, enquanto o cara só pega para passear em fins de semana alternados.

        Resultado dessa cultura cocô inteira: a mulher com filhos fica cansada e rendendo menos no trabalho. Sem tempo para se reciclar. Já o cara pode se investir na carreira dele numa boa, porque sabe que pode contar com a mulher correndo atrás das buchas domésticas.

        Então, não, não é só uma questão de escolha individual. Eu não quero ter filhos, assim como você. Mas muita gente quer. E aí a mulher que quer ter filhos acaba caindo nessa espiral em que simplesmente NÃO DÁ para investir na carreira igualmente, porque o folgado do homem não divide igualmente as coisas com ela. Ou, mesmo quando ela acha um raro espécime que divide, o empregador já não a contrata logo de cara, ou não chama para os projetos, porque já acha de antemão que ela não vai render porque tem filho.

        Enfim, essa questão dos salários envolve todo um monte de pepinos, não é só questão de prioridades individuais, não.

        PS1. desculpa o comentário gigantesco.
        PS2. Malzaãe, Somir, não li o seu, só o da Sally.

        • Homem não pode ter os dois não, homem, como regra, é muito menos presente na família. Quem mantém a família funcionando é a mulher. Quem passa mais tempo com filhos é a mulher. Quem cuida mais da casa é a mulher. Homem nem cogita priorizar casa e filhos, homem prioriza trabalho e PONTO FINAL. Assim se cria um ambiente muito confortável onde eles tem todo o suporte para priorizar trabalho enquanto a mulher tem que abrir mão disso para priorizar família. Eu quero participar isso? Não. Não tenho filhos.

        • Marjorie,

          Gostei muito do seu comentário! Assim como você, eu também não quero ter filhos de jeito nenhum, mas não acho que isso seja uma questão de simples escolha individual para todas as mulheres.

          Os homens são folgados mesmo, em sua maioria, principalmente em relação aos serviços domésticos. Mas a não-participação dos pais na educação dos filhos está mudando. Atualmente as mulheres exclusivamente donas de casa são exceção. E os homens de hoje se interessam mais pelos filhos do que os homens de 50 anos atrás. Tanto é que fazem questão da guarda compartilhada (que, inclusive, é a regra hoje em dia.)

  • O triste é ter conhecer algumas mulheres que se tornaram chefes e, no minuto seguinte, fazerem de tudo para limpar todas as mulheres da própria equipe, sob a justificativa de que. “Ah, e se todas ficarem grávidas ao mesmo tempo?”, “e se todas ficarem com cólica na mesma época”, “mulher chora por qualquer coisinha”, “mil vezes trabalhar só com homens,” ou então reclamar, com seu proprio chefe, que nunca vai poder tirar férias em julho ou em janeiro porque as funcionárias querem aproveitar as férias escolares para viajar com os filhos…

    Depois uma chefe como essa reclama pros amigos porque ela, sendo a mais velha da empresa e a mais capaz de todos, sempre acaba preterida…

    Aí fui pro Japão trabalhar alguns anos e lá, em termos profissionais, e bem pior do que aqui…depois reclamam que mulher por lá não queira mais nada com nada..

    • Eu não contrato mulher com filho por peculiaridades do cargo a ser ocupado. Quem tem filhos nao vai poder me dar a disponibilidade que eu preciso e nem eu quero tirar uma mãe de uma criança tanto tempo,seria cruel por muitas vezes ela acabaria trabalhando com a cabeça na criança. Isso não é preconceito, é opção. Eu quero quem priorize carreira e não filhos. Não é um direito do empregador buscar isso?

      • Quem pensa assim acaba não contratando mulher. Mulher sem filho pode engravidar a qualquer momento e aí, do ponto de vista do empregador, é pior porque vai ter licença maternidade e estabilidade por um tempo, além de um recém nascido para cuidar.

          • Sim, conhecer eu também conheço muitas. Mas, do ponto de vista do empregador, só se ele contratar apenas mulheres que ele conhece muito bem e já confia.

            • É postural. Uma pessoa tem um período de experiência antes de ser efetivada, período no qual o empregador pode desligar o empregado sem custo. Em três meses dá para avaliar o tipo de pessoa que está ali. Você exige tempo, disponibilidade, ralação… você vê em três meses quem faz trabalho de excelência. Quem não faz, quem prioriza marido, fazer jantar e afazeres domésticos vai pro olho dá rua. Dá para peneirar pelo pacote.

                • Para trabalhar comigo eu não abro mão de três coisas: 1) Que a pessoa goste de estar fazendo aquilo , 2) Que a pessoa tenha compromisso com excelência e 3) que a pessoa não tumultue o ambiente de trabalho. De resto, por mim, pode tudo: fazer o próprio horário, escolher os dias de folga… Sou conhecida até por ser frouxa demais, quando encontro alguém que preenche essas três coisinhas básicas, dou todas as mordomias do mundo.

  • O pior preconceito é o Mercado de trabalho nivelar as mulheres por igual, como se todas quisessem a vida padrão de priorizar a família ao invés do trabalho, o feminismo precisa quebrar esse preconceito. Porém, a luta pela igualdade é uma via de mão dupla. Eu digo que enquanto a mulher não tiver igualdade dentro de casa, não adianta querer lutar pelos direitos da porta pra fora. Não existe ser independente e emancipada no trabalho e ser serviçal e submissa dentro de casa. Enquanto as mulheres permitirem que as filhas sejam criadas para serem mães e esposas (porque essa é a função delas e não tem que competir com homem) e os meninos para serem trabalhadores (qualquer semelhança com discurso religioso não é mera coincidência), aceitar que todas as tarefas domesticas sejam apenas dela ao invés de dividir com o marido e filhos (meninos e meninas- igualmente) e sempre ser a única pessoa que falta no trabalho pra levar filhos pro medico e ir na reunião da escola e etc, não existirá igualdade. Nos países mais igualitários os homens assumem mais as responsabilidades pela casa e filhos.

    • Sim, as próprias mulheres propagam o machismo da educação dos seus filhos e depois reclamam quando são prejudicadas por esse mesmo machismo que passaram adiante

  • São só mulheres que criam os filhos machistas? Eles não tem pai, não?

    Outro clichê: Como seria exatamente uma mulher imitando um homem no mercado de trabalho? Há apenas duas maneiras de se comportar: masculino ou feminino, agressivo ou doce? Mulheres são todas iguais? Homens são todos iguais? Sem nuances, sem variações?

    Não é das brasileiras, criadas para acreditar que não há felicidade fora do casamento, a culpa pelo machismo. Mas não quero ser burra: Essa lógica é muito perigosa, porque os homens foram igualmente doutrinados para serem machistas. Então, eles também estão livres da “culpa”?

    Mas vocês não focaram em culpas, argumentaram em busca de soluções e reflexões. O machismo existe e é monstruoso, como as mulheres podem se libertar dele? Não há respostas fáceis.

    • Não ter filhos é um dos maiores acertos da minha vida, do qual me orgulho sinceramente. Mas e se não tivesse tido a sorte de ter uma família que nunca me doutrinou para ser Amélia, (nem para ser feminista) nem para ser qualquer coisa além do que eu quisesse ser, me dando a oportunidade de estudar em boas escolas e a chance de aprender a pensar pela minha própria cabeça?

      Quanto mais machista é uma pessoa, mais pobre (de espírito e/ou de dinheiro) ela é. Por isso é que não há respostas fáceis. Talvez a miséria e a ignorância sejam o verdadeiro problema que causa todos os outros: Pobreza gera ignorância e machismo… Machismo gera pobreza e ignorância…

      • PS: Pedagogos e professores de todos os sexos deveriam ganhar muito mais do que publicitários. São muito mais úteis para o futuro do país.

      • Mulher tem que entender que a vida é feita de escolhas e decidir se quer priorizar profissao (nesse caso, favor nao ter filhos para nao deixa-los largados) ou priorizar familia (nesse caso, natural e justo que ganhe menos do que quem prioriza profissao)

    • Marina, acredito que a questão cultural pesa demais acerca desse tipo de assunto.
      Ex: cresci ouvindo a vida inteira da minha mãe, que eu deveria estudar e trabalhar duro, para jamais depender de ninguém, muito menos de homem. Ok, estudei, cresci e não dependo de homem algum. Aí essa mesma mãe me condena por eu namorar um cara pobre. Mas e aí? Eu não preciso dele financeiramente, conquistei meu espaço e… pra ela, no fim, o bacana seria eu estar com um cara melhor financeiramente.

      • Diana,

        O pior é ela não perceber a contradição…

        Talvez ela tenha medo de você, por ganhar mais, acabar bancando ele…

        • Sim, não percebe!
          Acredito que esse deva o ser o medo dela, realmente. Mas é um risco, correto? Se eu que estou dentro da relação, colhendo os ônus e os bônus, cabe a mim decidir o que aceito ou não.
          Não vejo nada de errado de uma mulher ganhando mais, contribuir mais nas despesas da casa, logicamente se o cara também dividir as rotinas domésticas (veja que eu digo dividir, não “ajudar”).

          É algo muito enraizado até mesmo na geração de quem nasceu dos anos 80 pra cá. Vai ser conscientizando essas pessoas, que poderemos contar com uma relação melhor n futuro, pra gente, não dá mais tempo.

  • Para ilustrar os argumentos sem cair na ideologia de gênero, um amigo meu que é músico me disse uma frase lapidar: “você quer levar a vida que eu levo ganhando o salário que você ganha”. Não dá. O cabra tem que escolher e bancar os dois lados da escolha. Músicos também precisam se destacar mais do que um fiscal do IBAMA para ganhar decentemente (peneira mais fina).

  • O que mais me chama atenção no comportamento das mulheres no mercado de trabalho é a falta de ambição muitas delas entram em uma empresa qualquer e se acomodam em um cargo mais baixo não tem coragem de sair e muito menos lutar por algo melhor aí vão empurrando suas tarefas com a barriga, até que um dia engravidam e usam isso como desculpa pra fazer menos que o esperado acreditem eu já vi isso várias vezes é o ciclo que se repete sempre

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