CBM: Paredão Metralhadora

Todo carnaval uma música odiosa desponta e é tocada incessantemente por todo o país. Geralmente um axé de rima pobre e duplo sentido, com melodia fácil, daquelas que gruda na cabeça. Se fosse possível combater essa teratologia musical, certamente eu ignoraria o assunto e deixaria essa excrescência morrer na escuridão, de onde nunca deveria ter saído. Mas, infelizmente, no Brasil o carnaval vai até você: blocos, trios, vizinhos, festas e muitos outros meios de propagação desses aterros sanitários musicais promovem um estupro auditivo te forçam a escutar música merda.

Bem, se não pode vencê-los, ao menos deboche deles. Eu lhes apresento a música que vai paunocuzar o carnaval de todos nós e aproveito para tecer algumas considerações sobre ela. Talvez, quem sabe, quando ela estiver sendo reproduzida incessantemente estuprando seus ouvidos, você se lembre das belas palavras proferidas neste texto e consiga rir por um instante dessa desgraça. Não custa tentar.

O estume da vez é uma música chamada “Paredão Metralhadora”, cantada por algo conhecido como banda Vingadora. O ritmo é “arrochadeira”, uma mistura do arrocha (Pablo, aquele que diz que homem não chora) com a música baiana comum e um violino no meio para tentar dar um ar chique. Evidentemente falhou. Um porco com um terno Armani ainda é um porco.

A vocalista da banda se chama Tays, com y. Nunca ouviu falar na banda? Imagina, um sucesso. Tem até DVD gravado em… Imbicuí, na Bahia. Entendo que você não queira passar por isso, mas, confie em mim, você vai acabar ouvindo essa merda mais cedo ou mais tarde, que ao menos seja com alguém que partilha do seu sentimento comentando…


O clipe já começa com a inadequação de pessoas se preparando para uma guerra, saindo com cara pintada, roupa camuflada, de dentro de um barracão. Sai um elemento com franja emo, mas em vez de uma arma ele tem um… violino. Deixa o Estado Islâmico descobrir o poder bélico do violino para vocês verem o que é bom. No dia em que perceberem que tocando essa merda todo mundo vai embora da sua terra prometida, aposentam a AK-47.

Uma moça com cara de cavalo passa uma pintura supostamente para se camuflar no rosto. Não dá para deixar de reparar no topete mal feito. Não custava nada passar um pente fino para nivelar o cabelo depois de ter jogado o laquê. E vou logo avisando que a música tem apenas DEZ frases.

Isso mesmo. São três minutos de clipe repetindo apenas dez frases. Eu disse frases? Na verdade, são meras junções de palavras, nem verbo tem em algumas linhas. Nem verbo nem sentido: “Paredão zangado, grave tá batendo, médio tá no talo, corneta tá doendo”. Parece aquelas obras de arte que eu nunca consigo compreender nem apreciar feitas por malucos de hospício.

A parte seguinte eu entendi, até porque, como toda música baiana, tem aquela mimicaeróbica: coreografia que se limita a descrever o que está sendo dito na música, que no caso é “Pega a metralhadora: tratratra, as que comandam vão notra”. A moça com cara de cavalo simula estar dando tiros de metralhadora com os dedos enquanto o ruído de balas sendo disparadas é ouvido no meio da música. É bacana pois essa música me faz sentir em casa onde quer que eu esteja, levando um pouco do Rio de Janeiro a quem quer que a escute.

Claro, se fosse um humorista polêmico a fazer algum vídeo com um conteúdo similar (não com música, mas com piada), viria o Ministério Público em cima por incitação à violência. Todo mundo criticaria a tamanha falta de sensibilidade de, neste contexto mundial, estar retratando como algo bonito ou com algum glamour tiros de arma de fogo e uma metralhadora. Mas, como é axé e manifestação de minoria não pode ser jamais criticada para não ser interpretado como racismo e preconceito, podem fazer suas metralhadoras com o dedinho que tá liberado.

Já tem criança fazendo. Não bastava o axé sexualizar precocemente as crianças, agora também vai introduzir o culto às armas de fogo junto: atira e rebola, atira e rebola. Meus parabéns aos que tiveram coragem de ter filho morando no Brasil, vocês tem a tarefa hercúlea de tentar criar essas crianças com dignidade. Boa sorte. Boa sorte também para explicar os horrores da guerra nesse contexto.

Então, recapitulando: atira + rebola, atira + rebola. Depois dá meia dúzia de pulinhos com deslocamento e mais rebolado ao som da última frase da música: “As que comandam vão no tra… tra… tra”. Ou seja, quem é bacanão, quem tá no poder, quem comanda, o faz atirando uma metralhadora (e rebolando). Se você é alguém na fila do pão, vai notra. Se você tem alguma relevância, vai notra. Na boa? Em tempo de guerras e refugiados seria mais digno se esse “tra” fosse um peido e não um tiro.

Se eu te disser que a letra acabou, você acredita? Ainda faltam dois minutos de clipe e a letra já acabou, sofrendo apenas pequenas variações ao longo da música. “Jacaré Iemanja, repete mais 69 vezes para acabar…”. A letra acabou, mas infelizmente o clipe segue.

Um conjunto de mulheres daquele tipo cujo rosto não compensa o corpo continuam atirando e rebolando enquanto um sujeito olha de longe com um binóculos. Esse sujeito ganha minha total simpatia quando, aos 55s de clipe faz cara de nojo depois de ver essas mulheres. Gostaria de convidá-lo a frequentar o Desfavor. Pessoa de bom gosto.

Aos poucos, mais pessoas de bem se aproximam das mulheres-traveco que comandam e vão notra. Tenho a impressão que eles estão armados e torço para que fuzilem cada uma delas. Um tiro no rosto seria bom, pois é sempre um alívio não ter que olhar para feiura e vulgaridade, mas na verdade, na verdade verdadeira, por mim poderia ser um tiro em cada joelho, que é para doer bastante e nunca mais conseguirem reproduzir esses movimentos hediondos.

Infelizmente os sujeitos que eu pensei serem pessoas de bem não estão armados. Estão com instrumentos musicais. A vida é cheia de decepções. Um elemento se levanta com um uma Keytar. Parece mais uma versão terrorista do Alan do Polegar. Eu não subo em um avião se esse sujeito estiver do lado de dentro. Em um twist digno de drogado, a Keytar lança uns raios circulares contra as barangas, que se esquivam na versão mais pobre, deprimente e roceira de Matrix que eu já vi. Nesse ponto, um único olho meu latejava de raiva. Mas prossegui.

Depois, óbvio, elas começam a arrochar: 180° +180° + 360° com o quadril. Não entendeu? Parecem um Lango-Lango levando um choque. O Fulano com o violino é colocado em destaque. Não dura muito, rapidamente os falsetes dignos de Mc Melody (se não sabem quem é, mantenha-se puro e não procure saber) de Tays tomam conta da cena novamente e em poucos segundos ela já está metralhando novamente.Me entristece saber que as pessoas vão fazer isso indiscriminadamente pelas ruas, pelo trabalho ou onde mais estiverem. Os que não comandam vão no tra durante todo o verão para tentar parecer que comandam.

Um grupo de mulheres se aproxima e joga uma suposta bomba nos homens que combatiam as Vingadoras com instrumentos musicais. Menção honrosa para a unha de acrigel mal feita que liga a bomba antes de atirar. Mas os rapazes se recuperam e continuam combatendo a música-lixo. Desta vez pegam uma caixa de som e direcionam as ondas sonoras para as Vingadoras. Aí chega aquela parte que eu adoro: os defeitos especiais dos clipes de pobre. Vejam por vocês mesmos. Chaves feelings.

Tays pede reforços e chega uma caixa de som maior ainda para impor sua música a todos. Essa parte é realista: pobre tem sempre o melhor aparelho de som de todos. Podem comer merda, miojo com salsicha o mês todo, mas o som custa mais do que o carro. Ao que tudo indica, as Vingadoras conseguem aprisionar os homens. Muito apropriado falar de prisioneiros de guerra acorrentados no atual contexto. Tão de parabéns. E também estão de parabéns por conseguir me fazer torcer para homem conseguir enfiar muita, mas muita porrada em mulher.

Escravizados, barbarizados e humilhados, os prisioneiros de guerra são obrigados a fazer a coreografia ridícula. E você achando que as torturas do Estado Islâmico eram cruéis… Enquanto os rapazes executam a coreografia acorrentados pelo pescoço, Tays segura as correntes. Toda mulher sacaneada por homem e ressentida vai ao delírio ao ver isso e vai se realizar vendo esse clipe. Isso deveria se chamar “gozar com a buceta alheia”. Que triste. Sinal de estar muito mal resolvida, de ser muito saco de pancada de homem, de ser bem histérica se alegrar em ver homens acorrentados sendo torturados dessa forma humilhante e cruel. Por mais mal que um homem tenha me feito, não desejo a obrigação de dançar Paredão Metralhadora a ninguém. Há limites.

Preparem-se, porque neste verão “as que comandam vão no tra”. Você vai ver e ouvir muitas pessoas metralhando e rebolando como se fosse status, como se fosse algo bonito, como se fosse cool. Faça as pazes com isso, pois vomitar em público é constrangedor.

Para se revoltar e desabafar nos comentários sem medo de ser recriminado, para frisar que pobre é uma desgraça ou ainda para dizer que prefere Tom Produções: sally@desfavor.com

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Comentários (64)

  • Bom, Sally, você morou aqui. Sabe o que passo, especialmente nos finais de semana. O bom disso tudo é que a música é descartável e logo ninguém lembra mais. Tá rolando uns arrochanejos aqui insuportáveis. Se continuar assim, eu vou pegar a metralhadora!

  • Como eu postei no meu facebook:

    Música falando de um cada que só quer cabelo de chapinha (aquela do tal do Bel Marques que deu aqueeeele mimimi) não pode, mas música de metralhadora pode.

    A hipocrisia típica do BM…

  • Ah, Sally, agora que escutei ao vivo (em ponto de ônibus, pra variar, naquelas narraquinhas de CD pirata com som nas alturas) a música da metralhadora. Ridícula! Mais uma típica de BMs… e falando em BM, esta “cantora” veio peq Valsador e esnobou geral… Tá tudo mundo reclamando, tá impagável kkkkkkkkk

  • Moro em Guarulhos e do lado da minha casa tem um retardado filho de chocadeira que ouve esse lixo o dia todo com o som do carro bem alto ontem fiquei tentado em jogar um coquetel molotófi no carro dele de madrugado e claro ainda estou tentado em fazer isso já que o carro fica na rua ninguém viu ninguém vê kkkkkkk ótimo Blog

  • Não aguento mais, todo dia sou forçada a ouvir essa bosta! É por essas e outras, que o orgulho de morar nesse País está morrendo.
    Sally ri muito com seu desabafo, é libertador encontrar pessoas que, diferentemente dos meus vizinhos, não suportam esse LIXO.

    ‘Desfavor’ salvo nos favoritos.

  • Como educadora e cidadã de bem,me deparar com esta letra e música foi ver a degradaçao moral q a sociedade chegou,um verdadeiro esgoto social.Já consigo imaginar os bandidos assaltando e cantando a música metralhadora pra ficar mais engraçado.Me poupe.Onde vamos parar…Esta música nao era p ser divulgada e muito menos aceita pela sociedade,pelo conteúdo enojante e incitando a violência em todo o tempo.Um verdadeiro efeito subluminar mental.Vcs verão não somente no carnaval,mas o estrago q essa música irá fazer na vida de muitas pessoas.Foi só um desabafo.Parabéns pelo texto e pelos comentários.

    • Para mim o pior são as criancinhas cantando e metralhando, já colocando no inconsciente a familiarização com armas…

  • Você sabe que chegou ao fundo do poço, quando ao ver uma obra dessa, sente saudades da Tom Produções…

    Saudações da China Sally!

  • Alguém reparou que ela NÃO abre a boca o clipe TODO a não ser nos 45 do segundo tempo? Sim, cantar e dançar, arrochar e cantar não dá pra fazer ao mesmo tempo. Só para os fortes.

    E sou 100% team #tomproduções. Porque é uma merda mas é bom (sqn). Aliás olha o naipe do slogan da figura no canal oficial do tio Tom no Youtube: “Tom produções é de verdade, cada video uma celebridade”. Gezuis-Godzilla me socorre!

    Para poupar o seu trabalho Sally querida, fiz questão de pegar umas pérolas do nosso Tom Produções. Dê minhas lembranças ao seu ouvido.

    http://www.youtube.com/watch?v=0bMYWdRmJ0s
    http://www.youtube.com/watch?v=iG1C7aOoviw
    http://www.youtube.com/watch?v=eVDMRaJgrm4

  • Nossa, Sally, que lixo.
    Vontade de vomitar…
    Letra escrota, ritmo escroto, coreografia escrota e ainda tem que aturar a voz horrorosa da horse face cantando e fazendo a dança do acasalamento.
    Arghhhhhhhhhh
    Você não sofre com isso?

  • Pode soar estranho, mas a minha alegria esse ano vai ser poder passar pelo menos parte do carnaval no hospital. E tive o desprazer de ver essa tal banda numa tv de sala de espera, que coisa deprimente.

  • Apenas uma coisa: até eu, que adoro porcaria, achei isso aí um lixo. Assim como “Baile de Favela”.
    Saudades da época que a porcaria era “Mila”, Bomba” ou “Xibombombom”.

  • Um conjunto de mulheres daquele tipo cujo rosto não compensa o corpo continuam atirando e rebolando enquanto um sujeito olha de longe com um binóculos. Esse sujeito ganha minha total simpatia quando, aos 55s de clipe faz cara de nojo depois de ver essas mulheres. Gostaria de convidá-lo a frequentar o Desfavor. Pessoa de bom gosto..

    Quem diria, isso para “alvo de CBM” ! hahahahaha
    Sensacional !

  • Por incrível que pareça, achei seu blog enquanto procurava por algo que me ajudasse a ignorar os péssimos hábitos dos animais que moram perto de mim.
    No momento em que abri essa postagem, uma chimpanzé que mora ao lado me importunava exatamente com essa pérola que você disseca.
    Adorei sua escrita leve, apesar de ácida. Eu também curto escrever e sei como é complicado falar de coisas desprezíveis sem tornar o texto pesado. Você faz isso muito bem.
    Me diverti tanto lendo seu texto que, quando dei por mim, a raiva que eu estava sentindo tinha se transformado em risadas.
    Seu site já está na minha lista de favoritos.

    Recentemente eu publiquei no meu blog um texto sobre esses imbecis que adoram som de mala. Eu gostaria muito que você lesse e desse um feedback.

    http://www.minoriadeum.blogspot.com.br/2016/01/a-involucao-hi-tech.html?m=1

  • Eu fiz o desfavor de abrir o vídeo e descobri que eu já conhecia a obra de arte. É que aqui onde eu moro essa “música” já está sendo tocada desde dezembro. Antes era só barulho que os vizinhos tocavam no último volume, já que eu não entendia nada além do tra, tra, tra, agora eu conheço a letra. Aqui tem a prévia do carnaval, uma festa que acontece em janeiro, então todas essas bostas são ouvidas antes, se for arrocha então, é sucesso na certa. Aliás, nesse exato momento eu estou escutando a música tocando em algum lugar aqui perto.

  • Olha Sally, eu não vi o clipe inteiro, mas a unha deve ser daquelas de farinha de trigo e superbonder, não tenha dúvidas. E muito obrigado por me fazer dar risada :D

  • Você conseguiu falar bastante de uma “”musica””” que nem sequer deveria ser chamada assim. Admiro o desfavor por essas análises, tem que ter estômago forte. Ouvi falar dessa tal metralhadora mas como já suspeitava que era um excremento musical, previ que mais cedo ou tarde ouviria contra a minha vontade. Não foi contra a minha vontade, mas conseguiu ser pior que imaginava. Isso porque o carnaval nem começou…
    Obs: E esse tal de Wesley Safadão que estão comentando agora ? Não sei quem é mas pra fazer sucesso prevejo que deve ser uma droga,

    • Wesley Safadão é, atualmente um dos cantores mais bem pagos do Brasil. Dica: continue sem conhecer. Eu estou saturada daquele 1% (letra de uma musica dele)

      • Jura? Chocada. É pior do que pensava
        Só por esse nome, boa coisa não deve ser mesmo.Nessas horas é bom morar afastada dos grandes centros…

      • Também saturado, e ainda acho irônico “daquele 1%” ser algo tão repetitivo, inclusive a faixa (antes fosse nos meus olhos e ouvidos !) é de uma dupla whatever, então (teoriccamente e por enquanto) no que dependesse da própria “autoria vocal” / do (que for o) atual (suposto) CD solo…

      • Imagino que “1%” deva se referir à quantidade de massa encefálica “válida” (i.e., que serve pra pensar um mínimo) de seus ouvintes!

      • Ouço taaaanto falar desse tal de Safadão q me bateu a curiosidade e fui procurar no youtube… Escutei meia música, achei bosta e larguei mão! A voz dele é horrível! Misericórdia!
        Quanto a essa aí, sempre dou graças q não posso escutar nesse pc… kkkkk… Mas, Sally, acho que vomitar em público é mais digno que dançar e cantar essas porcarias! HAHAHAHAHAHA…

  • Mas Sally, frase não precisa ter verbo, só orações.
    Médio e grave parecem se referir as frequências do som.

    • Para uma música o mínimo que se espera é que uma frase tenha um verbo, né? Uma única frase sem verbo pode passar uma mensagem e ser até poética, mas várias delas juntas sem verbo começa a ficar complicado…

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