Primeiros Socorros – Choques

O choque nada mais é do que a passagem de uma corrente elétrica pelo corpo. Pode parecer algo muito esporádico ou eventual, mas no Brasil, a cada dia, quatro pessoas recebem choques fortes e ficam com sequelas graves. Destas, ao menos uma delas acaba morrendo. O choque pode ser c por causas naturais, como raios, ou pelo contato com áreas energizadas.

Quanto maior a descarga, maiores os danos causados ao organismo, porém, fatores externos podem atenuar ou aumentar o estrago. Por exemplo, se um agente externo agir como potencializador do choque por ser um bom condutor de eletricidade, os danos podem ser majorados. O exemplo mais comum é levar um choque molhado, no chuveiro elétrico. A água é boa condutora de eletricidade, logo, os danos serão maiores.

Ao contrário do que se pensa, a voltagem não é o principal fator de risco para lesões por choques elétricos. O determinante é a amperagem. Aqueles aparelhos de choque vendidos para defesa pessoal costumam ter uma voltagem superior a 30 mil e não matam, pois sua amperagem é baixa. Há relatos médicos de choques de apenas 20v que causaram óbito. Então, tenha sempre em mente que voltagem não é tudo.

Legalmente, áreas com eletricidade suficiente para causar danos devem estar sinalizadas com um aviso de perigo (aquela caveirinha), entretanto, sabemos que existem áreas não sinalizadas, como por exemplo cada poste de luz. É importante ensinar às crianças desde cedo que aquilo é sinônimo de morte, que não se encosta naqueles fios por nada do mundo. Mas, infelizmente estamos em um país onde eventualmente até adultos o fazem.

Mais um fator determinante é o percurso que a corrente elétrica faz no corpo da vítima. Se este percurso incluir o coração (muito comum quando o ponto de contato com a eletricidade é a mão) os riscos de morte são maiores. Outros fatores também influenciam nas consequências do choque, como por exemplo peso, altura e tempo de exposição à descarga elétrica. Por isso, não tem “receita de bolo” para determinar o que é seguro, o que nos leva ao ponto em que eu queria chegar: na dúvida, nada é seguro em matéria de eletricidade. Só quem domina muito bem o assunto saberá avaliar com precisão quando não há risco. Por isso, quando forem mexer com eletricidade tenham o trabalho de desligar a energia.

Depois dessa breve introdução, vamos ao que interessa. Uma pessoa está levando um choque na sua frente. Como agir?

Por maior que seja o desespero, no momento do choque não se deve encostar na pessoa que está sendo eletrocutada, pois existem grandes chances de você ser eletrocutado junto. Descargas elétricas podem causar efeitos cinematográficos, sacudindo o corpo da pessoa e levantando-a por mais de um metro do chão. É preciso manter a calma e não ceder aos impulsos de encostar na pessoa, pois isso não irá ajudá-la, muito pelo contrário, se você o fizer, a pessoa perde a única chance de ser socorrida que tinha.

O ideal é pegar algum material isolante (plástico ou panos grossos) enlaçar a pessoa e a puxá-la para longe da fonte da descarga elétrica sem encostar nela. Na pior das hipóteses, até uma madeira serve, uma vassoura que seja. Mas jamais encoste na pessoa. Se possível, desligue a fonte de energia. Você sabe onde se desliga a energia da sua casa? Se não sabe, deveria saber, assim como todos que vivem na casa. Desligue a chave geral, corte a fonte de energia e só depois encoste na pessoa.

Um detalhe importante: muitas pessoas acham que por usar um chinelo de borracha estão imunes a choques. Isso é mito, é lenda urbana. A borracha não é um bom condutor de energia, o que atenua um eventual choque, mas, dependendo da descarga, você pode morrer ou perder um membro do seu corpo mesmo usando um sapato de borracha! Então, nada de bancar o valente achando que por usar chinelos está à prova de choque.

Primeira providência é chamar uma ambulância (192) ou bombeiros (193) e depois atender a vítima enquanto o socorro não chega. O ideal, ideal mesmo, é prestar socorro imediato enquanto alguém chama a ambulância. Choques podem causar paradas cardiorrespiratórias. Se a pessoa não for reanimada imediatamente ela morre. É fácil de identificar, já foi ensinado no texto sobre parada cardíaca. Entretanto, nem sempre estão presentes as condições ideias para ouvir batimentos cardíacos. Por isso, na dúvida, é recomendável fazer a massagem cardíaca e a respiração.

Caso a pessoa esteja respirando e tenha batimentos cardíacos, ela deve ser movida para a posição de segurança sobre a qual já conversamos nos outros textos: deitada de lado (papo técnico: PLS – Posição Lateral de Segurança). Isso evita ainda mais acidentes enquanto se espera pelo socorro, por exemplo, que a pessoa se asfixie em caso de vômito.

Não raro choques fortes geram amputação de membros em função das queimaduras graves que causam. Por isso, se observar queimaduras severas, siga os procedimentos de primeiros socorros para queimaduras, de modo a não agravar a situação. Queimaduras em decorrência de descargas elétricas aparentam ser menos graves do que queimaduras por fogo, por isso, não se deixe enganar pelo aspecto: pode ser mais grave do que parece. Em muitos casos, causa necrose no tecido muscular e a amputação é a única solução possível. A área mais afetada costuma ser o ponto de contato, ou seja, a área que encostou no local da descarga.

Mesmo que a pessoa esteja aparentemente bem, é indispensável uma visita ao médico ou ao pronto-socorro após um choque grave. Isso porque o choque pode gerar consequências “invisíveis”. A mais comum é a rabdomiólise. O choque detona as células musculares, que se quebram liberando uma substância (papo técnico: mioglobina) na corrente sanguínea que se deposita nos rins, obstruindo a passagem de sangue e causando insuficiência renal aguda. Por isso, quem leva um choque forte deve procurar um médico e ficar sob observação mesmo se de imediato esteja se sentindo bem.

O melhor remédio contra choques é a prevenção. No Brasil centenas de pessoas morrem eletrocutadas todos os anos por pura arrogância: apesar de terem a informação sobre os perigos da eletricidade, insistem em fazer reparos sem desligar a chave geral e cortar a eletricidade em suas casas. Em algum lugar, Charles Darwin ri. Não seja uma delas.

O mesmo vale para morte em decorrência de descargas elétricas por raios. O Brasil é campeão mundial não apenas na incidência de raios como também em lesões e mortes causadas por eles. E é no verão que grande parte destes acidentes (metade!) acontece. Então, é época de se prevenir e tomar cuidado com raios. Não é brincadeira, acontece e pode matar. Para entender os perigos de um raio aqui no Brasil, dois parágrafos de uma rápida explicação.

O ar quente e úmido que nos cerca tende a subir (por ser mais leve que o ar acima dele). Quanto mais ele sobe, mais esfria (fato científico: quanto mais para cima, mais frio fica). Quando chega ao topo das nuvens, onde a temperatura é de 30 graus negativos, o vapor de água que estava misturado ao ar quente se transforma em granizo e começa a cair (por ser mais pesado que o ar) para a base da nuvem. Na queda, vai se chocando com outras partículas menores e cristais de gelo. Esses choques fazem o granizo e os cristais ficarem eletricamente carregados.

As cargas negativas presas ao granizo vão para a base da nuvem e as positivas tendem a subir com o ar quente que vem de baixo para o topo. Com isso, as cargas se separam: positivas em cima e negativas em baixo. Com o acúmulo, as cargas positivas e negativas atingem intensidade muito alta e começam a “se esbarrar”. Para equilibrar cargas tão diferentes, a eletricidade anda sozinha, sem fio nem nada, pelo ar, na forma de um raio, que nada mais é do que uma descarga elétrica cruzando a atmosfera. Esse raio acaba indo parar no ponto mais alto que encontra. Não queremos que seja você, queremos?

Os primeiros socorros para uma pessoa atingida por um raio são os mesmos, nem sempre capazes de atenuar os estragos causados, servindo apenas para manter a pessoa viva. Aqui também o grande ganho está na prevenção. Agora que sabemos o que são os raios, vamos entender seus perigos e como se prevenir.

Que raios costumam cair no ponto mais alto do local todo mundo sabe, o que talvez não seja de domínio público é o motivo: as cargas positivas tendem a se acumular no ponto mais alto de qualquer lugar. Por isso pessoas em áreas descampadas (como praias) são alvos fáceis de raios, elas são o ponto mais alto, logo o ponto com mais carga positiva. Tudo piora se a pessoa tiver a brilhante ideia de ficar perto ou dentro da água durante a tempestade, pois como já sabemos, a água é um ótimo condutor de energia, o que potencializa o efeito da descarga elétrica. Resultado: ao primeiro sinal de tempestade, vá para casa ou para dentro do carro. Ficar na praia com nuvens de tempestade se aproximando é dar sorte ao azar.

E mesmo assim, que dentro de casa não se está 100% seguro contra raios. Uma pesquisa do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) concluiu que 15% das mortes em decorrência de raios ocorrem quando as pessoas estão dentro de casa. Algumas providências simples podem evitar essa tragédia: fique longe de janelas, portas e condutores de eletricidade (telefones sem fio, canos e metais em geral que tenham ligação com a estrutura da casa ou prédio e eletrodomésticos que funcionem ligados na tomada). Por sinal, não é só a você que os raios podem fazer mal. Durante uma tempestade, tire os aparelhos elétricos da tomada se não quiser correr o risco deles queimarem. Celular pode, desde que não esteja plugado no carregador.

Não é frescura, por mais que as chances não sejam das maiores, os raios brasileiros são mais perigosos. Se te pegar, grandes chances de te matar. Cerca de 90% dos raios do mundo tem carga negativa (saem da parte baixa da nuvem, onde se concentra a energia negativa), mas no Brasil, cerca de 60% dos raios tem carga positiva, que são mais perigosos por saírem do topo da nuvem, onde ficam as partículas carregadas positivamente. Todo ano mais de cem brasileiros morrem por descargas elétricas em decorrência de raios. É que os raios com carga positiva tem uma corrente contínua com o dobro de tempo de duração dos negativos e o dobro da amperagem (cerca de 200 ampères) o que os torna mais mortais. O pior tinha que ser no Brasil…

Ah, sim, não custa desmentir: um raio pode cair sim duas vezes no mesmo lugar. Por sinal, um raio pode cair recorrentemente no mesmo lugar. Taí o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, que não me deixa mentir: todo ano é atingido por pelo menos seis raios, muitas vezes no mesmo ponto, que precisa ser restaurado após a descarga.

Eletricidade é um inimigo invisível, cujo acidente é inesperado e dura uma fração de segundos. Todo cuidado é pouco.

Para contar uma história envolvendo eletricidade, para me ouvir e passar a desligar a energia quando fizer reparos em casa ou ainda para me ouvir e fazer um baita escândalo para o seu marido desligar a energia quando fizer reparos em casa: sally@desfavor.com

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Comentários (6)

  • Você consegue tornar os assuntos técnicos simples e compreensíveis.

    Inevitável não contar minha experiência com o choque elétrico.
    Quando eu tinha uns 13 anos, sai do banho, de toalha, parcialmente molhado. Ao por o dedo no suporte pra abrir a geladeira, que nós não sabíamos ter um fio desencapado solto no fundo, fui instantaneamente “fisgado” pelo eletrodoméstico…

    Lembro que vi a geladeira pequenininha, lá embaixo! Consegui dar o grito mais alto de minha vida! O susto bloqueou o raciocínio de minha pobre mae e ela veio com tudo, pra me puxar. Minha irmã teve que pensar rápido. Correu lá fora, desligou a fonte e salvou a nossa vida!

    Pra você ter ideia, minha mao ficou azul!

    • Esqueci de dizer que antes de desligar o contador de energia, minha irma puxou fortemente o braço e minha mae, afastando-a de mim.

  • Fazer um baita escândalo quando o marido for fazer algum reparo! Lembrei essa semana que quase matei ele pq ele foi tirar uma lâmpada sem apagar a madita luz!

  • Sou fanzoca dessa série!
    Parabéns Sally, não tenho dúvida que seus textos já ajudaram muita gente!
    Primeiros socorros é o básico do básico. E deveria ser ensinado nas escolas!

    • Sim, deveria ser ensinado nas escolas, ter cartilhas sobre isso, programas de tv e tudo que fosse possível. Aliás, do jeito que anda a saúde pública, em vez de telecurso segundo grau, deveriam transmitir o curso de medicina, pois quem depende do SUS só sobrevive se fizer uma auto-cirurgia!

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