Inputs X Outputs

O texto de hoje não pretende provar um argumento. Não quero te convencer de nada, apenas te convidar a refletir.

Em um país cada vez mais polarizado, onde discordância virou sinônimo de inimizade e até de desrespeito, saber apreciar o pensamento diferente é para poucos, para muito poucos. É para aqueles que ainda conseguem aprender com uma conversa onde o interlocutor “ousa” discordar, ouvir o outro lado sem a preocupação de “ganhar” a discussão ou impor seu ponto de vista. O que era normal durante boa parte da minha vida e hoje virou um tremendo exercício diário, pois se você não se policia, se deixa contaminar por essa forma empobrecedora de funcionar e sai combatendo e contestando quem pensa diferente de você.

Hoje boa parte dos diálogos e socialização se dá ou se inicia pelas Redes Sociais, que são basicamente um supermercado de gente, onde você decide quem quer ouvir e quem quer silenciar. A tentação de ouvir só aquilo que nos é agradável é enorme, pena que geralmente é a discordância que acrescenta. Optar por ouvir só quem diz o mesmo que você é empobrecedor e ególatra, acrescenta muito pouco ou nada. Colocando sempre os mesmos inputs para dentro você sempre vai ter os mesmos outputs. Não será capaz de inovar, de criar, de ousar nem de evoluir.

Ouço muitas pessoas reclamando por não serem criativas como se criatividade fosse uma dádiva, como se alguns abençoados nascessem criativos e outros não. Isso é uma mentira. Se você alimenta seu cérebro sempre com as mesmas coisas, o que você pensa, o que você fala, o que você faz, será limitado por esses estímulos repetitivos. É confortável poder ouvir só aqueles que concordam com você ou te dizem coisas agradáveis, mas sabemos que não há crescimento na zona de conforto, assim como não há conforto na zona de crescimento.

Beleza, enrolei uma página para introduzir a seguinte pergunta: reflita sobre quais opiniões das quais você discorda você tem se dedicado a ler ultimamente. Você para o que está fazendo para escutar gente que discorda de você, realmente prestar atenção do que a pessoa está falando sem intenção de disputa, apenas para tentar absorver o que aquele discurso tem de bom? Você lê coisas que acha que não tem utilidade prática na sua vida?

Faz tempo que eu realizo exercícios nesse sentido, o próprio Somir já me viu fazer: aprender algo que eu tenha a certeza que nunca vou utilizar todos os dias, apontar um ponto positivo em um discurso de alguém que eu abomine e criar conteúdo que nunca será utilizado para nada na vida a não ser como estímulo para minha criatividade são alguns deles. E você, como varia seu cardápio de inputs? Quem coloca sempre os mesmos inputs para dentro, solta sempre os mesmos outputs e fica estagnado nos seus problemas, na sua profissão, na sua vida.

Eu leio com frequência coisas que uma pessoa com posicionamento político contrário ao meu escreve. Leio não no mindset de contestar (a pessoa nem sabe que foi lida) e sim de me obrigar a extrair algo de bom dali, algo de admirável. Também leio frequentemente uma feminista radical, com o mesmo pensamento. Nada de críticas, o foco é tentar extrair o que há de melhor ali. Leio os pensamentos de muitas outras tribos com as quais não me identifico. E todos já me trouxeram inputs valiosos, usados em situações totalmente inusitadas quem em nada tinham a ver com o discurso daquela pessoa. Chega dessa pequenez de pensar que ler sobre uma bomba atômica só será útil se você quiser construir uma bomba atômica.

Você não precisa concordar com a pessoa para que aquilo que ela fala te acrescente algo. É bem medíocre achar que só quem está com pensamento afinado com o seu é inteligente e o resto é burro e não merece ser ouvido e não tem nada a acrescentar. Vejam bem, não peço que ninguém pare para escutar gente do nível “Ei, Você”, estou tratando do campo de divergência de ideias, porém sempre com pessoas alfabetizadas. Se a pessoa não está tentando se enforcar com um papel higiênico, talvez valha a pena escutá-la, mesmo sem concordar.

Tudo aquilo que você produz é um processamento dos inputs que coloca para dentro. Cada ser humano tem um processamento único e traduz isso de uma forma pessoal. Quanto mais inputs, mais informações armazenadas e maiores as chances de você combiná-las e resolver problemas, ter ideias inovadoras ou apenas melhorar a qualidade de tudo que faz. Ouvir mais do mesmo impede que você aprenda, faz com que você fique estagnado e impede que você exercite a tolerância.

Sim, o ser humano é uma merda tão grande que precisamos exercitar constantemente a tolerância, pois é da nossa natureza ser intolerantes e até tiranos. Muita gente certamente se pensa boa por natureza, mas eu duvido. Tolerância é um exercício diário. Assim como se você vai trabalhar de carro, não exercita as pernas, se você não consegue ouvir a discordância sem antagonizar não exercita a tolerância. E não falo em tolerância por altruísmo, por um mundo melhor, e sim para um você melhor. Um você mais preparado, com mais inputs, mais inteligente.

Variem o cardápio do que andam lendo, de quem andam seguindo em rede social, dos inputs que estão colocando para dentro. Façam o exercício de prestar atenção, levar a sério e dedicar tempo ao diferente, ao antagônico, com a postura de se obrigar a extrair apenas coisas boas dali. Achar uma flor nascida no meio do estrume. Exponha-se ao diferente com um novo olhar, para crescer, para se aprimorar e para se tornar mais inteligente.

Qual foi a última vez que você parou para escutar alguém que pensava de forma totalmente diferente de você nessa intenção de extrair o que havia de melhor? Acredito que muitas pessoas nunca tenham feito isso na vida. Eu faço desde pequena, quando sentava na frente da TV e escutava o Alborghetti gritando e batendo com um porrete em uma mesa que bandido bom era bandido morto. Ninguém no mundo deve discordar disso mais do que eu, mas algo naquele homem suado com uma toalha enrolada no pescoço me fascinava.

Dificilmente vocês conheçam alguém mais verdadeiramente correto (porque que se diz, tem aos montes) do que eu. Eu realmente não faço o que a lei proíbe mesmo quando ninguém está vendo, mesmo quando vou sair impune. Isso não me impede de admirar o que o Rafael Pilha tem a me ensinar. E não se surpreendam, eu tenho coisas a aprender com ele.

Você não precisa concordar com a pessoa e muito menos convencê-la do seu ponto de vista para que seja válido e benéfico para você escutá-la, para que ela te acrescente. Quem você parou para escutar ultimamente que tinha uma opinião muito diferente da sua? O que tirou de bom do que ouviu?

Não faz muito tempo, éramos obrigados a socializar randomicamente, sem escolher tribos. Você só sabia exatamente com quem estava conversando depois de efetivamente conversar. Hoje, com redes sociais quase que categorizadas, você abre o perfil de uma pessoa abraçada a uma bandeira vermelha e lê na frase sobre ela um “não vai ter golpe” e já sabe de que tipo de pessoa se trata. Se concordar se aproxima, se discordar se afasta. Estamos criando feudos ideológicos, estamos emburrecendo. Já já vamos começar a acreditar que nossos pequenos feudos representam a totalidade ou a maioria e começar a medir nossas escolhas de mundo como se o resto fosse igual. Isso vai dar uma merda…

Já cheguei a cogitar até formas de entretenimento para combater isso, de tanto que a questão me incomoda. Pensei em criar um lazer onde grupos randômicos serão trancados em uma sala e terão que se ouvir e chegar a um consenso ou apontar o que o outro tem de melhor, movidos por uma recompensa. Também pensei em uma rede social ou aplicativo que consiga criar um mix de seguidores de tribos diferentes que variem a cada 15 dias e quem conseguir socializar com todos sem ser hostil ou escroto ganha uma recompensa. Triste uma sociedade onde tenhamos que obrigar a diversidade, tolerância e respeito.

Como nada disso nunca vai sair do papel porque eu sou uma péssima empreendedora (só crio, preciso de um par que execute), eu peço a vocês que façam sozinhos esse exercício. Não se atenham a leituras de opiniões convergentes. Não limitem conteúdo, não leiam apenas aquilo que vocês acham que está relacionado à área de vocês. Leiam tudo, leiam coisas que lhes pareçam inúteis, leiam revista sobre carro se forem pedestres, sobre canário se tiverem um cachorro. Acreditem e confiem: não é perda de tempo, é alimento cerebral. Todos esses inputs combinados e processados podem gerar um output que, em algum momento, mudará sua vida e, talvez, quem sabe, com sorte, até mesmo será capaz de te deixar rico.

Invenções que mudaram o mundo nasceram assim. A prensa tipográfica, que permitiu imprimir livros em grande escala que antes eram escritos à mão, surgiu porque Gutemberg resolver unir uma máquina de cunhar moedas com uma máquina usada para extrair suco de uvas. Duas coisas não relacionadas entraram como input e saiu um output bacana da junção das duas. Se Gutemberg fosse um bitolado de rede social talvez nem olhasse para a máquina para extrair suco das uvas porque “foda-se, eu compro o suco em caixinha, não me interessa como é feito” e ainda estaríamos escrevendo livros à mão.

Mentes geniais e ideias geniais não são uma bênção divina, são resultado de esforço. Em um país onde a meritocracia foi jogada na vala e estuprada, fica difícil de acreditar, mas é neurociência: quanto mais diversificado o conteúdo do que você coloca para dentro, mais diversificado, eficaz e inovador é o conteúdo que sairá de você. Faça por merecer e vai se destacar.

Mas lembre-se: para isso não basta ler discordâncias. Não adianta nada ler, sentenciar o autor um idiota e não deixar aquilo entrar no seu sistema. Pessoas inteligentes são grandes recicladores: catam aquilo que presta até mesmo no meio de um monte de lixo, mesmo que seja para usar em uma função diferente daquela para qual o objeto era originalmente destinado. Faça um vasinho de garrafa plástica com ideias. Isso vai te destacar na vida e no mercado de trabalho.

E me conte nos comentários qual foi a última coisa divergente que você leu e conseguiu depreender algo de bom. Hoje é dia de debater, sem comentários este texto perde o propósito.

Para me mandar enfiar a autoajuda no cu, para dizer que sua leitura lixo da qual tenta salvar algo é o Desfavor ou ainda para dizer que véspera de feriado pedia um texto mais facinho: sally@desfavor.com

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Comentários (39)

  • Essa pluralidade de inputs é muito enriquecedora. Pessoalmente, acho que quem forma uma opinião sem conhecer dois, três, quatro lados de um mesmo problema só está repetindo a opinião alheia sem critério algum. Agregar conhecimento sobre vários tipos de opiniões, além de expandir nossa visão de mundo, é uma ótima forma de aprender a ter empatia com várias pessoas, e não só com aquelas que a gente se identifica.

  • Parabéns, Sally! Jundo com o “Estude!” esse é o melhor texto disparado do site. Antes dessa polarização se consolidar eu já fazia isso, por curiosidade mesmo. Sempre quis saber o que levou tal pessoa a ter tal posicionamento, ou defender x questão: o que aconteceu com ela, o que estudou, como cresceu, de onde veio, pra entender de onde sai aquilo tudo. Quando uma pessoa me irritava, mesmo com raiva eu tinha espaço pra pensar “Mas, também, vai saber o que essa pessoa já passou até aqui”. A necessidade desse exercício fica mais aparente agora,já que a dita polarização permeia tudo. Fora essa merda que Hugo bem pontuou que, se vc acompanha ou segue tal conteúdo você concorda 100% com ele; isso tornou impossível um diálogo ou debate de qualidade. Tá difícil não ter com quem bater um papo de qualidade, aprofundar um tema. Enfim, atenção redobrada, já faço isso mas preciso fazer mais. Interessante que, agora a pouco, antes de ler esse texto, ví um vídeo muito, mas muito à propósito, deixo aqui o nome, quem quiser busque no youtube, são 5 minutos: como discordar com gentileza, canal alimente o cérebro. Muito necessário pra começar o exercício de dialogar com quem diverge e treinar pra conduzir bem essa conversa, de forma proveitosa e pacífica (ao menos da nossa parte).
    Aproveito para fazer uma ‘defesa’: não tem muito tempo, li num texto que youtube br tá morto, e discordo veementemente! Tem pouca gente produzindo conteúdo de qualidade? Sim, comparativamente com a quantidade de merda existente, tem sim. Mas tem uma galera produzindo vídeos de ciência em geral, história, observação de fatos da realidade linkados com pensamento teórico, enfim, só procurar que tem. Isso ajuda na parte de, não só lidar com posições divergentes da sua, mas também coisas que você nunca usará na vida, como é a astronomia pra mim, por exemplo.
    Às vezes a estrutura pode ser prosaica de acompanhar, ok, mas o que está sendo exposto muitas vezes vale a pena. Único efeito colateral é que sua lista de livros para ler vai sair de enorme para impossível, pois eles recomendam muita coisa bacana. Como autodidata que passei anos aprendendo coisa com tutorial escrito em blog, acho uma iniciativa ímpar e me esbaldo.

    • Algumas pessoas tem essa sede de conhecimento inata, geralmente estimulada pela família, dentro de casa. Nunca perca isso e se tiver filhos, passe adiante!

  • Na academia isso é bem perceptível também: de repente tu “trabalha” com uma linha de pesquisa A, e parece que tem que se aliar 100% àquela linha e pronto, não pode ir para uma linha B ou C nem que seja só um pouquinho pra se aproveitar de um ponto aqui ou ali para complementar seu trabalho. A academia é cheia desses locais “quadradinhos”, zonas de conforto bem delimitadas. O dito “entre-lugar” na academia incomoda bastante.

    Pra citar como exemplo na minha área (teoria literária), já vi bastante isso acontecer: a crítica genética de um lado, a psicanalítica de outro, e a fenomenológica de outro, todas brigando pra dizer que uma é mais válida que a outra, e parece que o povo tem lá certo prazer em cair com tudo contra um trabalho apresentado que não se encaixe na linha de pesquisa deles.

    Eu olho pra isso e penso: ok que numa pós rola lá aquela batalha de egos barata, mas poxa… Quando é que as pessoas vão cair na real que o que importa é o diálogo, somar as informações em prol de algo maior, e não subtrair em função de dizer que algo é melhor ou pior que outro? A pesquisa acadêmica também parece estagnada nesse sentido por se ater a essas polarizações unilaterais.

  • Mais um texto maravilhoso, que nos faz crescer como ser humano. Reforçou a forma como procuro lidar com a diversidade. Gostaria muito de transmitir isso para muitas pessoas que se acham as donas da razão o tempo inteiro e vê como burro ou errado quem tem uma opinião contrária. O mundo tá cheio de gente assim…

  • É muito importante o exercício da tolerância. Ouvir e compreender a mensagem do outro acrescenta força ou até mesmo muda nossas idéias. Acompanho um podcast chamado Mamilos que sempre teve esta pegada. Experimente ouvir um episódio querida Sally.
    Abraços,

  • Sally, só por curiosidade, o que na sua opinião é uma feminista radical????
    Agora vou fazer o exercício de ler algo que eu não concordo, e quando você escreve que ler algo que discorda totalmente, você quer dizer , entre em página de racista, pessoas que fazem apologia à violência etc, ou há um limite para você? É só curiosidade mesmo viu… porque pra mim seria um exercício quase impossível entrar na página do Bolsonaro por exemplo pra ler o que o cara tem a dizer….
    Andréa

    • Feminista radical é aquela que tem raiva do sexo masculino apenas por ser do sexo masculino, que defende que todo homem é um estuprador em potencial, que homem merece apanhar, ser subjugado como vingança e até morrer. Em resumo, mulher que coloca homem, apenas por ser do sexo oposto, na condição de inimigo a ser combatido.

      Eu tento ler de tudo, até porque me interessa saber até onde o ser humano é capaz de ir. Mas acho que se isso representar uma violência para quem lê, não tem que ler. Uma vez tentei ler argumentos de pedófilos organizados que diziam que pedofilia era ok, que tinha um jeito certo de se fazer, que se fizesse desse tal jeito a criança gostava e não deixava traumas. Parei de ler, aquilo me fez muito mal. Todo mundo tem seus limites, sugiro que cada um respeite os seus.

      • Tem o feminismo radical e o feminismo fútil que é aquele que luta por mudança de palavras em propagandas ou dicionários, e o que fica falndo de liberdade enquanto são o grupo que mais caga regra para mulheres.

  • Parabéns e obrigado pelo texto, Sally. Manter contato com o diferente, com o discordante, ainda que difícil e às vezes até desagradável, é sempre necessário. Ajuda a abrir/ expandir nossas mentes e a exercitar a tolerância. Ah! adorei a sua definição de “feudos ideológicos”… E, realmente, quando todos num grupo concordam sempre com as mesmas coisas e defendem sempre os mesmos pontos de vista, alguma coisa está errada. A mente é como um rio: precisa se manter em movimento, precisa fluir para se oxigenar. Caso contrário, a mente vira água estagnada, que não escoa, só apodrece e não serve pra nada.

  • Sally, vou ter de concordar com o Hugo na rasgação de seda, esse é, para mim, um dos seus melhores textos do Desfavor. Pra levar pra vida.

    Dia desses eu estava discutindo a bibliografia de um trabalho científico com meu orientador e ele falou pra eu tirar da lista um livro porque o texto defendia tese diametralmente oposta ao que eu pretendo escrever é que portanto eu não aproveitaria nada. Mas eu disse que era exatamente por isso que tinha selecionado aquele texto e, de fato, foi um dos que mais aproveito na pesquisa. Os melhores outputs tem vindo justamente da divergência.

    A dialética é isso: contrapor ideias contrárias, ouvir o outro é não só escuta-lo já com cinco pedras na mão. E concordo com você, infelizmente estamos perdendo isso. É muito difícil achar alguém que questione continuamente os seus próprios pontos de vista, que dê ouvidos ao argumento contrário e medite sobre ele, ou adotando uma nova posição ou sendo instigado a criar novos argumentos para manter sua visão, deixando a mente sempre arejada e trabalhando. O mais comum é deparar-se com mentes fechadas em dogmas, que só crescem em intolerância.

    • O input de quem concorda a gente já tem, pois pensa assim. Quem concorda pode acrescentar um detalhe ou outro. Já o input de quem discorda… esse gera toneladas de novidades, não necessariamente aplicáveis ao tema. Pode ser que, dez anos depois, no caminho do trabalho, você use um input sobre atividade física ou adestramento canino combinado com outras informações que te façam pensar em uma grande ideia que mude o curso da humanidade.

  • Essa semana mesmo me peguei pensando sobre isso, pois percebi que tudo o que tenho acompanhado, apesar de porvir de fontes diferentes, segue uma mesma linha de pensamento e discurso. Esse texto foi muito bom prar fazer acordar essa noção de que estar inserida num meio homogêneo não me acrescenta em nada. Acho que, no geral, o desfavor faz um ótimo trabalho trazendo um pouco de heterogeneidade pro meu dia a dia, já que os temas acabam sempre sendo muito diversificados. Vou ficar mais atenta a isso agora e tentar buscar novos pontos de vista sobre diversos assuntos que pautam minha vida no momento.
    Agora por curiosidade, você simpatiza com alguma vertente do feminismo?

    • Simpatizo sim, com a noção de que mulheres não são inferiores a homens. O que me desagrada é o radicalismo de achar que todo homem é um estuprador em potencial e merecem morrer.

      • Mas você já se aprofundou na teoria feminista? É porque sou feminista radical e acabo sempre vendo essa relação do radical com extremismo (quando na verdade é radical de “raiz”, porque o feminismo radical acha que a construção do gênero é o problema de base do patriarcado e tenta lutar pela sua dissolução, cortando o problema pela raiz) e vejo que afasta muita gente do feminismo. E como existem muitas vertentes, algumas mais radicais e outras menos, talvez você se alinhe com alguma que seja mais liberal. Concordo que em diversos momentos as mulheres acabem se tornando extremistas e exagerando, mas o feminismo pra mim não é isso. Se você já tiver algum conhecimento sobre o tema me interesso em ver sua posição sobre ele, acho que você sempre tem uma percepção que foge do lugar comum e seria muito interessante se compartilhasse.

        • Até onde eu entendo, feminismo é a noção de que mulheres não são inferiores a homens. Quando me refiro a “radical”, me refiro a feministas que entendem o homem como inimigo a ser destruído apenas por ser homem. Meu inimigo é o machismo, não o sexo oposto. Infelizmente estas pessoas que vivem de agredir homens apenas por ser homens criaram a falsa noção de que feminismo é o contrário de machismo. São poucas, mas fazem muito barulho e causam muita indignação. Temo que tenham matado o termo “feminista”. Hoje as pessoas ligam feminismo a algo ruim, dizem que não são “nem machista nem feminista, sou humanista”, quando esse “humanista” na verdade representa o feminismo na sua essência, que foi deturpado por meia duzia de descontroladas.

          Na boa? Cagaram a palavra de tal forma que eu acho que o feminismo legítimo merece uma nova designação, pois essa está estigmatizada demais para que a causa seja levada a sério.

      • Também não concordo com essa radicalização. Na teoria – vide Judith Butler e Julia Cristeva – acho lindo toda aquela coisa de subversão da ordem simbólica, mas na prática, a aplicação é difícil, e acabam levando para outro lado.

  • Ultimamente tenho achado difícil encontrar essas bases na internet brasileira – justamente devido à polarização da população, é cada vez mais escasso conteúdo do “lado oposto” às minhas ideias sem que haja o desmerecimento e até a ofensa a quem discorda. Nessa cultura do “nós x eles” quase onipresente na internet BR, acabo achando aquilo de que você falou (o antagonismo saudável e a troca de ideias e argumentos entre duas partes) em discussões em sites com conteúdo de outros países. Tem um site que eu frequento, que originalmente é de humor (mas que levanta algumas discussões sérias de vez em quando) de onde eu posso aproveitar e aprender com os dois lados da opinião. Infelzimente aqui no Brasil não dá mais

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        Innen Wahrheit

        Talvez ainda não seja possível, mas seu texto sugere um bom começo.

        Vejo, mais adiante, um próximo passo a ser dado assim que esse hábito estiver mais presente: o esforço em prol da busca por convergência.

          • Avatar

            Innen Wahrheit

            Passei o dia pensando em sua pergunta, mas acho que não vai dar certo tentar ir além do óbvio dessa vez… Tomo a liberdade de culpar nossa convergência sobre o assunto…

            Apesar de querer acreditar que sim, vejo pouca chance de acontecer por enquanto. O mais provável (é arriscado) é a proposta dar origem a mais um ‘feudo ideológico’ – a exemplo de algo que li um dia sobre uma proposta de ‘imposto único’ no Brasil, que alguns rejeitavam (em tom irônico) devido ao risco de o transformarem em mais um imposto…

  • Sally foi um dos melhores textos que li. E extremamente oportuno.

    Algo interessante nesta polarização é que as pessoas acham que por ler determinada revista, por seguir determinadas pessoas, vc automaticamente concorda com 100% daquele conteúdo ou falas.

    Eu pessoalmente sigo MAIS páginas com pensamentos diferentes dos meus do que alinhados.

    Isso naõ me torna um ‘isentão’. As vezes até reforça meus antigos outputs, só com mais embasamento. Note que este embasamento eu consigo lendo ‘lados’ contrários.

    Solicitar o fim de amizades e relacionamentos de pessoas comuns com base em divergência política ou se limitar a apenas a visão que já se tem de determinado assunto é um fruto podre de mentes totalitárias.

    Se isso não for uma das bases do verdadeiro FASCISMO, não sei o que é.

    • Obrigada, Hugo. A palavra “fascismo” vem sendo usada de forma muito errada ultimamente, é sempre bom lembrar seu conceito.

      • Eu já fui banido da maioria das páginas que sigo, mas ainda as leio.

        Inclusive, por acompanhar páginas que discordo que fui entendendo como se montaram várias coisas. Vi a evolução de transformarem conservadores em reacionários, passando pra coxinhas e agora os fascistas. Vi as pessoas que começaram a plantar as sementes de algo hoje consolidado. Acompanhei cada inserção na guerra assimétrica pra fomentar o nós contra eles, e o mais recente caso agora de tentarem (e vão conseguir) abafar ou justificar uma evidente baixaria passível de perda de mandato com base em quem tem pensamentos diferentes do meu é meu inimigo.

        Não percebem sendo manipulados, justamente por só acompanharem um lado como seu texto bem ilustrou.

        • Tem muita gente achando que derrubar a Dilma significa que todos cairão, um a um. Sem esforço e pressão popular, nada vai acontecer.

      • Verdade, Sally. A maior parte das pessoas que eu vejo usando essa palavra – muitas vezes deliberadamente como se fosse o pior dos insultos -, infelizmente, não faz a menor idéia do que ela realmente significa. E não é só “fascismo”, não. Muitas outras palavras do nosso idioma também têm “padecido do mesmo mal” ultimamente. Um tanto por causa de uma educação – escolar e de casa – historicamente medonha e outro tanto agora por causa da já citada polarização da sociedade. Tais palavras acabam sendo deturpadas, banalizadas, tendo seu sentido “esvaziado” e usadas com intenções que não condizem com seus reais significados. Daria até pra fazer uma lista, incluindo, além de “fascismo”, outras como “amor”, “sustentabilidade”, “ofensa”, “bullying”, “cidadania”… Aliás, será que não cabe um texto sobre isso?

        • Certamente cabe. Foi o que fizeram com o feminismo. Mas, deixo aqui meu questionamento: tem como reverter? Não vejo como, acho que esses termos foram cagados para sempre e termos novos devem ser criados para significados antigos.

        • Vou explicar como aconteceu: Primeiro existiam os conservadores, mas isso era penas uma caracteristica de ‘gente velha e atrasada’, dai as pessoas que não queriam mudanças começaram a chama-los de ‘reaças’.

          Depois de um tempo surgiu um termo novo, o ‘coxinha’, que apesar de pejorativo ainda tinha um caráter irônico pra denominar o mesmo grupo de pessoas ainda inofensivas.

          Foi então que numa mesma semana, Sakamoto, Jean Wyllys e outros começaram acunhar o termo fascista. Tive um comentário apagado ao questionar o ASCOM do Jean Wyllys por não conseguir encaixar o significado semântico ou histórico da palavra nas pessoas que ele apontava.

          Nas semanas seguintes todos que discordavam do governo eram fascistas, e era um grupo genérico e invisível que ninguem sabia ao certo quem eram. Mas agora existia um perigo real. Com heróis bem definidos para combate-los.

          Agora, surgiu uma coisa nova: Quem não concorda com a esquerda não deve ser apenas refutado com as palavras da cartilha. deve ser silenciado, deve-se romper amizades se forem pessoas próximas. Isso visa ‘agrupar’ e fortalecer a minoria militante e reforçar ainda mais o nós contra eles.

          Já flertamos com supostas agressões por causa de cor de camisa. O próximo passo é estimular um inicio de guerra civil.

          Dividir para conquistar…

  • Página do Donald Trump tupiniquim e blog de uma feminista radical que chama de reaça quem discorda de uma vírgula de seus textos.

    Até que funciona. Se antes eu ficaria com a mão formigando pra digitar um monte de “verdades” (minhas verdades) em resposta, hoje em dia eu nem fico tão incomodada com opiniões diferentes.

    • Só toma cuidado para não ler sempre do mesmo que você discorda. Diversidade de inputs,mesmo que na discordância.

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