Ministério da Confusão.

+A presidente afastada Dilma Rousseff criticou nesta sexta-feira (13), durante entrevista a jornalistas estrangeiros, a ausência de mulheres e negros entre os ministros escolhidos pelo presidente em exercício Michel Temer. Questionada sobre o que achou dos nomes anunciados pelo peemedebista, afirmou que o novo governo tem “problema de representatividade”.

E não foi só chororô de perdedora. Tem mais gente criticando as mesmas coisas nas redes sociais. Mas será que estão vendo o quadro geral? Desfavor da semana.

SALLY

Existem hoje, no Brasil, alguns homens e algumas mulheres, alguns brancos e alguns negros, com capacidade técnica para ocupar cada Ministério. Poucos. Mas existem de ambos os sexos e ambas as cores. Em um país que usa os critérios corretos, ou seja, escolhe seus Ministros de acordo com sua competência e capacidade técnica, seria realmente machista escolher apenas homens e racista escolher apenas brancos.

Sabemos que esse não é o caso do Brasil. Aqui se coloca gente sem a formação necessária para cuidar de áreas que lhe são alienígenas. A escolha passa longe da competência técnica, do currículo, da formação e do histórico profissional. A escolha é pautada em negociações, trocas de favores ou qualquer outra baixaria visando interesses pessoais em vez de pensar no interesse público. E isso, meus amigos, por si só, é um problema que antecede a machismo ou racismo.

Adianta colocar Graça Foster ou Dilma no poder e tirar onda por ter colocado mulher? Suponho que não, do contrário não teríamos milhões de pessoas nas ruas pedindo para que Dilma saia. O problema não está em sexo e cor e sim nos critérios utilizados para a escolha, algo muito mais grave e profundo.

Quando simplificamos o problema a questões como de raça ou sexo, fica feio. Fica feio pois parece que somos ignorantes e não conseguimos ver um problema muito mais grave: havendo ou não mulheres, havendo ou não negros, a escolha continua errada. Não se corrige inserindo mulheres e negros e sim modificando os critérios de escolha.

Claro, o PT está correto em cacetar de tudo quanto é forma quem os derrubou. Eu faria o mesmo e estou muito feliz em ver o PT exercendo o papel de oposição, única coisa nessa vida na qual eles são bons. Dilma tem que apontar cada pentelho fora do lugar e trucidar Temer e cia, pois é assim que a coisa se regula: filho da puta fodendo com filho da puta.

Atenção: odeio o PT, mas acho que ele exerce um papel importante de predador que contém quem está no poder. O fato de achar graça e achar muito bem feito a Dilma apontando falta de mulheres e negros não me cega nem me impede de ver que é um argumento vazio, coisa que aparentemente a maior parte das pessoas parece não perceber. Sim, eu frequentemente acho graça e acho bem feito mesmo sem concordar. É possível.

Independente da porrada que Temer levou, sempre engraçada, no mérito discordo. Se vamos começar a apontar e resolver problemas, vamos fazê-lo por onde realmente nos prejudica mais: escolha de pessoas incompetentes para o cargo, independente de sexo e cor.

Uma vez que esta grande questão central, que compromete todo o resto, esteja nos eixos, uma vez que apenas pessoas qualificadas para o cargo sejam nomeadas, aí sim podemos nos ater a questões secundárias como sexo e cor. Enquanto a questão da competência não for revista, ela prejudica qualquer outra. Adianta colocar mulher e negro incompetente? Se você respondeu que sim, bem, aguenta firme aí a ciência já está trabalhando no transplante de cérebro.

É como se as pessoas estivessem trancadas em uma sala que está pegando fogo e, em vez de uma mobilização para apagar o incêndio, estivessem todas discutindo o descascado da tinta na parede. As labaredas aumentando e as pessoas se mobilizando para pedir que a parte descascada da parece receba uma mão de pintura. E se você avisa que está tudo pegando fogo, que uma mão de pintura não vai ajudar, todos se voltam contra você e gritam que você é “contra pintura”. Complicado. Complicadíssimo.

Numa boa? Por mim pode ser homem, mulher, transexual, branco preto, amarelo ou até verde, desde seja competente para o cargo e melhore o andamento do país. Aí, e só aí, quando tivermos uma variedade de pessoas competentes disputando o cargo e ao final se desenhar uma equipe de homens brancos, eu posso criticar sem hipocrisia. Pois aí, só aí, quem os nomeou estará dizendo que mulheres e negros são menos competentes que seus concorrentes homens e brancos.

Por enquanto, não vejo essa conotação. Não se discute nem se observa competência nem mesmo na hora de nomear esses homens brancos. Não é esse o critério, infelizmente. Se nomeia quem está no poder quem tem mais moeda de troca, quem gera mais benefícios pessoais para os que estão no poder. Quando este é o critério, não cabe falar de sexismo ou racismo. Vamos falar antes da falta de caráter e no mau uso do poder? Me parece um pouquinho mais urgente.

Soa egoísta falar em sexo e raça quando tem essa grande falha acontecendo diante dos nossos olhos. Sabe o que fica parecendo? Que os grupos “preteridos” também estão advogando em causa própria e não pensando em um país melhor, pois quem quer um país melhor tenta suprimir primeiro essa grande falta de caráter que é nomear gente sem competência para o cargo. Parece que se for incompetente ok, desde que seja mulher ou negro.

Prioridades, minha gente. Este país está todo cagado, vamos focar no que é estrutural antes. Vamos perceber que o quarto está pegando fogo e parar de priorizar a pintura. E, mais importante do que isso, não vamos nos deixar intimidar por aqueles que nos imputam machismo ou sexismo por isso. Uma coisa não se diz da outra. O fato de querer que, em primeiro lugar, se nomeie uma pessoa competente (e de achar isso prioridade) não me faz machista nem racista.

Temer, o Presidente Inelegível, que é corrupto o bastante para não poder se candidatar, mas ainda assim pode herdar o poder, continua chafurdando na mesma merda em que o PT estava. E no que depender da gente, vai apanhar aqui tanto quanto o PT apanhou. Com uma diferença: agora tem uma oposição competente, que está com sangue nos olhos. Sério mesmo, eu quase que tenho pena do Temer.

Não adianta focar em questões secundárias quando caráter, ética e competência não norteiam as decisões de um líder. Vamos focar no que deveria ser prioridade agora?

Para dizer que eu sou machista, para dizer que eu sou racista ou ainda para dizer que eu sou petista: sally@desfavor.com

SOMIR

A gente sai da Semana dos Fracos, mas a Semana dos Fracos não sai do desfavor. Bacana ver o PT já afiando suas garras para começar a bater no Temer e cia., mas ao mesmo tempo me preocupa que essa seja a crítica que mais se popularize logo no começo de seu governo. Sim, acredito que seja natural para uma sociedade democrática evoluída ter representação política condizente com a composição da população, mas muito cuidado para não adiantarmos problemas, principalmente se isso significa ignorar outros mais urgentes.

Temer, seguindo o hábito dos que vieram antes dele, fez em sua imensa maioria indicações políticas. Estratégia básica de manutenção de poder agradando partidos, deputados e senadores que podem sustentar um mínimo de governabilidade durante seu mandato. Sim, é problemático que o time de ministros não seja reflexo da composição populacional brasileira, mas é bem mais que não sejam técnicos comprovadamente competentes nas áreas que vão administrar.

Então, questão de ordem: não ter mulheres ou negros entre os ministros deveria ser o problema a ser resolvido após o problema da falta de competência. Até pelo bem das minorias. Pessoalmente eu não me importo tanto assim com diversidade, vantagens de ser homem branco, admito. Se todos os ministérios fossem gerenciados por mulheres negras comprovadamente competentes em suas áreas, eu estaria feliz do mesmo jeito que estaria se fossem homens brancos comprovadamente competentes em suas áreas.

Até pela visão que eu já compartilhei aqui de que toda essa gente de Brasília é funcionária do povo. Eu quero ser atendido por um funcionário competente, não por um gênero ou raça. Mil vezes melhor para todo mundo um time de ministros técnicos homogêneos na aparência do que um de indicações políticas diversificado. Quando eu digo que é natural numa sociedade democrática evoluída ter representantes de todos os tipos na política, na verdade estou falando de equiparação de capacidade. Uma sociedade é saudável quando coloca mérito e capacidade acima de sexo ou cor de pele.

Então, mundo ideal? Se a escolha de ministros for feita pelo currículo e os melhores dos melhores naturalmente forem representativos da composição populacional. Algo já estraga quando se coloca outra coisa na frente… o Brasil, como vejo, não precisa de um número específico de representantes de minorias em cargos de alto escalão, precisa sim é que essas minorias tenham oportunidade de se candidatarem aos cargos em igualdade de condições. Pra nunca termos que pensar em cotas.

Claro, não vivemos num mundo ideal. Muitos já nascem com menos chances, e é um equilíbrio complexo entre senso de justiça e senso de merecimento para fazer essa balança ficar menos torta. Sei que defendo algo utópico com a individualização do ser humano até mesmo nesses casos de representação popular, mas muita gente parece esquecer qual é o objetivo final. E ele NÃO é termos metade dos ministros do sexo feminino. Isso não vai resolver nada por si só. Não importa o sexo da pessoa para sua capacidade de fazer o trabalho direito, Dilma está aí para nos provar. Eleger uma mulher não gerou nenhuma vantagem por si só.

Tendo o objetivo claro em mente, é mais fácil analisar quais estratégias tomar para pelo menos chegarmos mais perto dele. E bem antes de pensarmos se a composição ministerial prestigia mulheres e negros, temos que pensar se ela prestigia capacidade técnica. É mais fácil criticar Temer por ter formado um grupo de homens brancos do que criticá-lo por ter partilhado mais uma vez o poder de mudar a vida do povo para sustentar seu breve mandato.

Até porque cacetar o recém-empossado presidente sobre falta de mulheres nos seus ministérios pode gerar um resultado (pretensamente) positivo: ele vai lá e coloca uma pra calar a boca de quem está gritando. Os ministérios servem mesmo para que ele se beneficie, então, não duvido que logo logo ele pense em arrumar essa parte mais “cosmética” para poder continuar fazendo o que realmente está errado sem receber atenção negativa.

E aí, nenhum problema resolvido. Entra uma mulher ou um negro tão capaz de exercer a função que deveria quanto o homem branco genérico anterior, e continuamos com ministérios ineficientes e vendidos. Se é só a roupa e a cor da pele que vai mudar, que vitória é essa? Até mesmo para as minorias, que vão continuar vivendo num país mal administrado, o que sempre faz as coisas piorarem para elas. Não tem diferença viver na crise se a Dilma ou o Temer são presidentes, a crise está lá do mesmo jeito.

Enquanto as prioridades estiverem focadas em mudanças cosméticas e não nas estruturais, continuaremos vivendo num país em ruínas. Se lhe é algum alento afundar no barco com um capitão ou capitã que pareça mais com você, pra mim não é. Que tal não afundar o barco pra começo de conversa?

Para dizer que esse meu ponto não tem a mesma graça pra soltar na rede social, para dizer que eu chamei mulheres e negros de incompetentes, ou mesmo para dizer que não há nada o que Temer: somir@desfavor.com

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Comentários (10)

  • Reclamar do fato de não haver “diversidade” nos ministérios, em vez de focar no “balcão de escambo” que é o nosso sistema de nomeação de ministérios é como presenciar a casa desabar e reclamar que o quadro na parede tá torto. Tem a porra de um fucking pastor prestes a assumir a pasta de Ciência e Tecnologia (!?), e a preocupação dessas pessoas é a falta de representatividade?

  • Perfeita a crítica do fato. Hoje em dia parece que o politicamente correto é o mesmo que o “Hitler” e o “Einstein” eram lá na época do Orkut. Aquela pontuação unânime, aquela carta branca incontestável para argumentar contra ou a favor de qualquer fato. Parece uma batalha de rap, quando um deles faz aquela rima ácida e todo mundo ao redor fica “uuuuhhh, vai deixar? Não vai responder??”. Mas é um argumento estético, pra te botar em posição de favorecimento retórico para pessoas que não pensam profundamente sobre o assunto. Desfavor gigantesco por parte da Dilma, é justamente ela quem deveria estar preocupada em fazer com que as pessoas pensem profundamente sobre política neste momento (não é ela que repete incansavelmente que sofreu um golpe?), e acabou desviando a atenção de todo mundo para um fato insignificante no contexto. Autossabotagem.

  • A primeira coisa que pensei foi que era pra desviar o assunto. Uma merda sem tamanho acontecendo e geral falando de gênero, cor, cuecas e outras bobagens.
    Dúvidas se o Pt vai se recuperar e bater de frente. Tá mais pra extinção mesmo.

  • Sally e Somir, mais uma vez, parabéns pelos textos, pra variar! :)

    E é isso mesmo, vcs tocaram num ponto chave: A prioridade para o que não deveria ser prioridade. E uma das que ficaram pra escanteio foi justamente a questão fisiológica da coisa. O PMDB sempre foi o partido dos interesses, dos conchavos – não é à toa que namorou o PT por tanto tempo, são na prática iguaizinhos (a não ser pelo projeto de poder autocrático do PT, que é algo sui generis na história do país). E desta fisiologia, eis que surge outro problema que os reclamões de minorias não prestaram atenção: Os cerca de OITO nomeados ministros investigados na famosa lava jato. E uma coisa que chama atenção é aquele joguinho de “ah, tão atacando os ministros de Temer indiciados na lava jato, mas não falaram nada dos não sei quantos da Dilma”, retratando aquela coisa de BM de “ah, se um fez, que é que tem eu fazer também”, perpetuando a corrupção que só piora. Olha, esse país me cansa, e o BM mais ainda…

    • Não são investigados, isso foi boataria, mas foram citados em depoimentos, o que para mim já bastaria para não nomear. A gente não esperava muita coisa do Temer mesmo…

  • Competência agora tem cor? Tem sexo? Sempre achei que não. Ah! E Hikaru, adorei o seu “ativistas de condomínio fechado”. Vou incorporar esse ermo ao meu vocabulário.

  • Errei. Por um momento pensei que o Desfavor da Semana seria o projeto Escola (nada) Livre.

    Sei lá, mesmo se tivesse ministros mulheres, negros ou mulheres negras, as reclamações dos ativistas de condomínio fechado não iriam parar. Duvido que iriam acatar qualquer reclamação ou crítica sobre esses ministros sem associar a racismo opressor que não aceita negros, a raça da cultura mais rica (segundo eles), no poder.

    • Tem questões mais sérias e mais profundas que devem ser discutidas nos critérios de nomeação antes de cor e sexo

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