Prêmio Ig Nobel

Quem nunca se perguntou se ao se prender um palito de sorvete na cauda de uma galinha, ela andaria feito um dinossauro? Bom, provavelmente todos nós aqui… realmente não é o tipo de informação que costuma confrontar nossa existência cotidiana. Mas hoje eu vou falar de um prêmio que reconhece o tipo de pessoa que pensa nessas coisas: o Ig Nobel.

O Ig Nobel é uma cerimônia de premiação criada e mantida pela revista “Os Anais da Pesquisa Improvável” (traduzido aqui por mera infantilidade minha), que ocorre desde 1991. O objetivo é escolher as pesquisas científicas mais estapafúrdias do ano, segundo a própria organização: “para fazer rir e depois pensar”. O nome, uma jogada com o prêmio mais prestigioso da ciência, o Nobel, aliado às frequentes menções na mídia como uma premiação puramente humorística, acabam sugerindo que é algo do tipo “Framboesa de Ouro” (que escolhe os piores de Hollywood a cada ano), mas muito se engana quem acredita que a ideia central é só sacanear as pesquisas selecionadas ou mesmo chama-las de ruins.

Sim, o Ig Nobel começou com uma postura altamente crítica, batendo em quem fazia um desserviço à ciência com deboche, os primeiros ganhadores eram defensores da homeopatia, da eugenia, criadores de armas de destruição em massa, políticos golpistas e coisas do tipo. Mas aí começa a aparecer um novo padrão, até mais divertido. O das pesquisas improváveis que realmente parecem estúpidas, mas que nem sempre são.

Rir, e depois pensar. Abri o texto falando sobre um dos ganhadores do prêmio, na categoria de biologia no ano passado. A pergunta base que a pesquisa vencedora faz jamais viria à cabeça de qualquer um de nós… mas, depois que ela é solta no mundo… vai dizer que você não quer saber agora se uma galinha realmente anda feito um dinossauro se colocarem uma cauda artificial nela? Eu não vou dizer nada,
só vou linkar o vídeo, porque… é claro, tem um vídeo.

Conclusivo o suficiente para você? Mesmo que não seja… será que você sabe o porquê de alguém ter esse tipo de ideia para pesquisa? Talvez aqui vá uma informação nova: o conhecimento científico vigente aponta que aves são os descendentes mais diretos dos dinossauros ainda vivos. E pela cabeça dos pesquisadores passou a ideia de que uma ave como a galinha poderia dar dicas de como os dinossauros andavam, isso é, se tivesse uma cauda como a maioria dos dinossauros tinham. Sim, a ideia e o experimento são engraçados, mas isso é uma consequência, não o objetivo. Também não se sugere em tempo algum que os pesquisadores são burros ou estão perdendo tempo com isso… afinal, não há nada de científico nesse tipo de restrição do que se pode ou não estudar. Você pode achar estúpido, mas esse não é o ponto nos dias de hoje.

Na verdade, no cerne do que é o Ig Nobel hoje está mais a surpresa com como diabos aquelas pessoas conseguiram fazer as perguntas improváveis que fazem do que necessariamente o quanto elas parecem inúteis. Então, muito cuidado com o tipo de risada que você dá ao ver os outros exemplos que eu vou colocar aqui, a ideia de que o Ig Nobel escolhe pesquisas ruins e inúteis foi criada por estagiários de jornalismo preguiçosos em busca de atenção. Se entrar nessa pilha, o ignóbil pode ser você. Começou primordialmente batendo, mas hoje em dia a imensa maioria dos premiados vai até a cerimônia para receber seu troféu, e adoram isso.


Mas este texto não tem a menor graça sem mencionar excelentes exemplos da criatividade (e talvez inutilidade) da mente humana. Alguns realmente imbecis, outros só com muita curiosidade na cabeça… Pedágio pago, vamos nos divertir:

1992 – Prêmio Arqueologia

Um grupo de jovens franceses pertencentes a uma organização de escoteiros resolveu que a boa ação do dia seria limpar pichações nas paredes das cavernas locais. Por falta de conhecimento, limparam junto pinturas de mais 15 mil anos de idade, inutilizando um sítio arqueológico todo.

1993 – Prêmio Tecnologia Visionária

O americano Jay Schiffman recebeu a honraria por ter inventado uma revolucionária tecnologia de projeção chamada AutoVision, que permitia que um motorista pudesse assistir TV ao mesmo tempo que dirigia. Prêmio dividido com o estado onde morava, que tornou legal o equipamento.

1996 – Prêmio Física

Roberth Mathews, cientista britânico, pelos seus valorosos estudos sobre a Lei de Murphy e a comprovação científica que o pão quase sempre cai no chão com o lado da manteiga virado para baixo.

1997 – Prêmio Entomologia

Mark Hostetler, americano, por ter escrito um livro cujo título pode ser traduzido como “Aquela meleca no seu carro”, que ensinava a identificar o tipo de inseto que bateu no seu vidro de acordo com a mancha formada.

2000 – Física

Andre Gein, holandês, pelo seu importante estudo sobre como fazer sapos levitarem usando ímãs, e tudo mais o que podemos depreender disso. Só mais uma coisa: em 2010, esse mesmo Andre Gein ganhou um prêmio Nobel, de verdade. Claro, já tinha mudado o foco dos sapos voadores.

2002 – Biologia

Quatro cientistas britânicos que publicaram o seguinte estudo: “Os comportamentos de flerte de avestruzes em relação a humanos nas fazendas britânicas”. Não, sério, só precisa disso mesmo.

2003 – Física

Vários cientistas australianos com o espetacular estudo: “Uma análise das forças necessárias para arrastar ovelhas sobre diferentes superfícies”.

2003 – Biologia

Um tocante estudo holandês que revelou o primeiro caso de necrofilia homossexual entre patos.

2004 – Saúde Pública

Jillian Clarke, cientista americana que finalmente foi pesquisar sobre algo que todos queríamos saber: se a regra dos cincos segundos era válida. Ou seja, se o alimento estava próprio para o consumo se retirado do chão em até cinco segundos depois de ser derrubado.

2005 – Paz

Um casal de cientistas britânicos, por usarem a força… de seus cérebros para analisar eletronicamente as reações do cérebro de um gafanhoto ao filme Star Wars… e publicarem os resultados.

2006 – Medicina

O premiado foi um bravo médico americano que ousou responder a pergunta: massagem anal pode acabar com crises de soluços aparentemente intratáveis? Eu acho melhor nem dizer qual o resultado dessa análise…

2007 – Medicina

Num trabalho conjunto dos dois lados do Atlântico, um cientista americano e um inglês publicaram um estudo chamado “Engolir espadas e seus efeitos colaterais”.

2007 – Linguística

Cientistas espanhóis descobriram que ratos de laboratório nem sempre conseguem diferenciar alguém falando japonês ao contrário e alguém falando holandês ao contrário. Obviamente, foram premiados.

2008 – Arqueologia

Orgulho nacional! Dois estudiosos da USP publicaram um fascinante estudo sobre o papel dos tatus na destruição de sítios arqueológicos.

2009 – Medicina Veterinária

Palmas para os pesquisadores ingleses que descobriram que vacas que recebem nomes dão mais leite do que as que não recebem.

2010 – Paz

De novo, os ingleses. Richard Stephens recebeu o prêmio por confirmar em seus estudos a ideia de que xingar diminui a intensidade da dor depois de uma topada.

2010 – Gerenciamento

Para ganhar o prêmio, um grupo de estudiosos italianos conseguiu demonstrar matematicamente que qualquer organização se tornaria mais eficiente se começasse a promover pessoas de forma totalmente aleatória.

2011 – Fisiologia

Cientistas de toda a Europa se uniram para descobrir algo que sempre nos interessou: se bocejos são contagiosos também entre tartarugas. Não, não são.

2012 – Anatomia

Frans de Wall, cientista holandês, por provar que chimpanzés são capazes de reconhecer outros chimpanzés, individualmente, através de fotos de suas bundas.

2013 – Psicologia

Parabéns ao grupo de pesquisadores franceses que descobriu através de numerosos estudos que pessoas que se acham bêbadas também se acham atraentes.

2014 – Arte

Por responder a pergunta se pessoas sentem mais ou menos dor quando atingidas por um potente laser em suas mãos de acordo com a beleza percebida de uma pintura que estejam observando, a honra foi concedida a um time de pesquisadores italianos.

2014 – Ciência Ártica

Você sabe que vem algo bom quando inventam uma categoria só pra isso. Cientistas noruegueses estudaram a fundo as reações psicológicas de renas quando confrontadas com pessoas vestidas de ursos polares.

2015 – Economia

A polícia metropolitana de Bangcok, na Tailândia, recebeu a honraria por seu inovador plano de oferecer recompensas em dinheiro para policiais que recusassem subornos.


A pegada do prêmio mudou com o passar dos anos, e agora boa parte da comunidade científica acha uma forma divertida de expor aquele tipo de material que seria improvável de achar seu espaço ao sol por vias normais. Nem todo mundo vai pesquisar sobre cura do câncer ou fontes de energia mais eficientes… e tudo bem. Porque é justamente nessa soma de mentes atirando para todos os lados que reside uma das maiores forças da humanidade na busca por conhecimento.

Ciência, e eu já tinha mencionado isso no texto sobre o método científico, é muito mais baseada em perguntas do que propriamente as respostas. Muda o mundo quem sabe fazer a pergunta que ninguém foi capaz de fazer antes. Você sabia que se Einstein não tivesse se parado para perguntar se o tempo era relativo você não conseguiria usar seu Waze ou Google Maps para navegar pela cidade? A noção de que o tempo corre diferente de acordo com algumas condições que permite que os satélites do GPS consigam entrar em sincronia com nossos aparelhos aqui embaixo e evitar erros monstruosos de localização.

O Ig Nobel sabe dar umas cacetadas naqueles que desviam a ciência para ganhos pessoais e ideias estúpidas de superioridade, mas está principalmente focado em valorizar essa parte tão importante do desenvolvimento do conhecimento humano que é a da curiosidade. De fazer perguntas malucas que nos fazem rir, mas… quem sabe, pensar. Difícil cravar que uma pesquisa nunca vai ser útil para o resto do mundo, que seja descobrindo algo novo por ela mesma ou influenciando outras pessoas a fazer perguntas diferentes do que sempre fizeram.

Para dizer que isso foi uma grande perda de tempo, para dizer que valeu só pelo vídeo da galinha, ou mesmo para dizer que pelo menos esse algum brasileiro ganhou: somir@desfavor.com

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Comentários (6)

  • Tem uma tese de mestrado de 2012 da Universidade Federal da Bahia onde o título é “FAZER BANHEIRÃO: AS DINÂMICAS DAS INTERAÇÕES HOMOERÓTICAS NOS SANITÁRIOS PÚBLICOS DA ESTAÇÃO DA LAPA E ADJACÊNCIAS”. Até aí tudo bem, cada qual com seu cada qual. O que mais intriga é que o CAPES (órgão nacional que financia pesquisas científicas) deu uma bolsa de 20 mil reais para o autor financiar a pesquisa por (“apenas”, como diz o autor) 17 meses. Mais do que um potencial ganhador de Ig Nobel, acho que é um desfavor.

    Link da tese: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/12572/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20Tedson%20da%20Silva%20Souza.pdf

  • A pesquisa sobre bocejos em tartarugas parece engraçada, mas tem um fundo interessante.

    Neurocientistas vêm explicando a ocorrência desse fenômeno em seres humanos por meio de complexos de neurônios denominados “neurônios espelho”. Estes seriam estimulados ao se observar outro ser humano executando determinada atividade, promovendo ativação das mesmas regiões cerebrais necessárias para a execução daquela tarefa, bem como a facilitação da transmissão de impulsos nervosos para as regiões do corpo que atuariam.

    Assim… Ao ver um dançarino fazer um movimento que você nunca viu na vida, seu cérebro reconhece aquele movimento, ativa as mesmas regiões cerebrais que o dançarino ativa para a execução do movimento e já prepara a transmissão de impulsos nervosos para os membros do corpo.

    Esses neurônios conseguem explicar nossa capacidade de aprender uma língua, assimilar uma cultura, interpretar expressões faciais, compreender sentimentos e, finalmente, consegue explicar como somos capazes de empatia.

    Assim, observar a repetição de bocejos em tartarugas poderia indicar a presença desses complexos neuronais em outras espécies não primatas e como se dá a transmissão de hábitos entre elas, entre outras capacidades…

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