Minha felicidade ao retornar daquele cu do mundo nevado não duraria muito. Apesar do alívio de me livrar daquela precariedade branca e fria, o regresso aos EUA foi amargo. Somirevsky estava especialmente raivoso por ter sido enganado e espionado, se encarregou de fazer da minha vida um inferno. Quase que diariamente fazia chegar até mim alguma provocação para que eu vá a seu encontro, certamente buscando vingança. Sempre o ignorei, mas sua crueldade foi aumentando progressivamente, até um momento em que não pude mais ficar indiferente.

Certo dia, ao chegar em casa, assoviei chamando meu cão de estimação, um belo Lulu da Pomerância chamado “Orange”, peça cor da sua pelagem. Orange não respondeu, o que me causou estranhamento, já que ele sempre me recebia na porta. Comecei a vasculhar os aposentos à sua procura, quando me deparo com um bilhete com caligrafia conhecida: “Laranja está comigo, venha busca-lo, antes que eu o mande para o espaço – com trocadilhos”.

Somirevsky, comunista radical que é, se recusava a pronunciar qualquer palavra em inglês e chamava o pequeno Orange de “Laranja”. Era a letra dele, ele havia sequestrado meu cão! Não bastasse o que fez com a pobre Laika e todas as torturas que seus cientistas eram conhecidos por aplicar em animais, agora ele ameaçava fazer atrocidades com o meu cachorro. Ao final do bilhete, coordenadas. A indicação no mapa era muito clara: Orange estava refém no Vietnã do Norte, local desprezível com pessoas oleosas e natureza por todos os lados. Pobre Orange!

Somirevsky sabia que eu já tinha contatos suficientes para encontra-lo e surpreendê-lo naquela hemorroida nevada que é a URSS. Eu já o havia sacaneado dentro de sua própria casa, conhecia o caminho e as pessoas. Por isso ele se escondeu estrategicamente em um buraco verde, úmido e inóspito distante dos EUA e ainda por cima comunista. Ele sabia que eu iria atrás de Orange e quis me colocar na situação de maior desvantagem possível. Talvez ele tenha pensado que era longe demais para levar reforços.

Ao contrário dele, eu tenho um coração e afeto pelo meu animal de estimação. Disposta a resgatar Orange a qualquer preço, mas ciente de que sozinha não teria chance nas selvas do Vietnã, criei, digamos, “condições” de ataques aos EUA, acusei o Vietnã do Norte e consegui autorização para “proteger” o Vietnã do Sul e seu carismático ditador dos comunistas malvados.

Foi bem simples. Manipulei a orientação geográfica de alguns navios que estavam no Golfo de Tonquim, para que pensem que estavam em seu território quando na verdade estavam invadindo o território inimigo. Pronto, foram atacados “injustamente”. Já tinha o motivo que precisava para declarar uma guerra que o novo Presidente já estava com muita vontade de fazer. Levaram meu cachorro? Eu levo meu exército. Se ele duvidou disso, foi muito inocente. Sim, eu iria buscar Orange, mas não iria sozinha.

Durante a operação, apelidei os toletes humanos do Vietnã do Norte de “Vietkong”, em uma tentativa de chama-los de macacos de forma mais discreta. Não fui compreendida, por algum motivo depreenderam que o apelido veio da expressão “cộng sản Việt Nam” (comunista vietnamita), mas não me importa. No meu íntimo eu sempre soube que os estava chamando de símios. Declarada a guerra, fui infiltrada no meio das tropas americanas. Não parecia difícil, o que eles poderiam fazer de pior? Atirar frutas ou fezes?

Começaram com um papinho estranho de ser uma guerra de estratégia, que seria melhor matar pessoas estratégicas e a ideia foi se espalhando. Imediatamente chamei Curtis LeMay, o Chefe de Estado-Maior da Força Aérea e o ameacei severamente, ordenando que pregue o mantra: “Vamos bombardeá-los até fazê-los regredir à Idade da Pedra”. Estratégia porra nenhuma, que eu não vou ficar no meio do mato limpando a bunda com folha esperando. Vou até esse lugar horrível para cobrir tudo de bomba, pegar o pequeno Orange e voltar para casa o mais rápido possível.

Tinha que ser um ataque massivo, que me permitisse sair o quanto antes daquele criadouro de mosquitos e outros insetos repulsivos. Toneladas e mais toneladas de bombas foram jogadas nesses símios de olhos puxados, claro, em áreas onde eu sabia que não havia o menor risco de abrigar meu pequeno Orange como refém. Me prestei à indignidade de marchar no meio do mato, lama e animais desagradáveis e antiestéticos, infiltrada entre os fuzileiros. Lembranças terríveis que me acompanharão para o resto da vida. Não havia condicionador de cabelo. Não havia existência digna.

Uma noite, vejo uma sombra entrando no nosso acampamento. Imediatamente o rendi e o levei para o lado de fora, para executá-lo. Para minha surpresa, não era um vietcong e sim um homem com aspecto russo. Ele me deu um recado: “O Agende Russo entregará o Agente Laranja se vocês retirarem suas tropas e você for sozinha até ele”. Ri da cara do idiota, que tipo de código imbecil é esse que deixa tudo tão explícito? Ele insistiu “Vocês não conseguirão andar nesta selva, com esta vegetação. Rendam-se e terão o Agente Laranja de volta”. Disse a ele que me renderia mas precisava de um tempo para comunicar a rendição a todos os meus homens. Obviamente uma mentira, mas esse imbecil havia me dado uma boa ideia.

Era evidente, o problema ali era a selva. A solução seria acabar com ela. Imediatamente articulei para que a substância mais nociva à natureza fosse despejada aos litros por aquela grande asquerosidade verde. Um simples desfolhante resolveria, uma mistura de dois herbicidas na quantidade certa. O nome eu escolhi para deixar um recado bem dado a Somirevsky: “Agente Laranja”. Ele queria brincar de se esconder no mato? Eu tiraria o mato dele, todo, se fosse preciso. Enquanto todos relaxavam contando com uma rendição, eu lhes preparava uma surpresa.

Ao todo, 80 milhões de litros de Agente Laranja foram despejados nas selvas e nos símios locais. Mais de 5 milhões de pessoas foram expostas a ele, muitas não sobreviveram. Morriam como moscas os Congs. Era preciso acabar com aquilo rápido, eu já não suportava mais tanta natureza e precariedade. Acham que eu fui cruel? Queridos, tudo culpa de Somirevsky que sequestra meu cão e vai se esconder em uma republiqueta que ele não se importa se apanhar de todos os lados.

No auge do massacre, havíamos dizimado a selva (e as pessoas) o suficiente para abrir caminho para qualquer lugar dessa republiqueta de merda. Era questão de tempo encontrar Somirevsky. Mas, eis que recebo outro espião namoradinho de Somirevsky. Desta vez, com um bilhete, para não ter margem para erros.

Reconheci a letra assim que li: “Você tem 72h para se retirar desta guerra ou o Agente Laranja será morto. Ele se encontra em solo americano e será executado caso vocês não se retirem da guerra”. Com o bilhete, uma foto do pequeno Orange ao lado de um jornal com a data do mesmo dia, preso em uma jaula na porta da minha casa, nos EUA.

Já vi muitas atitudes covardes, mas essa certamente foi a pior. Somirevsky sabia que não tinha como vencer essa guerra em função na nossa superioridade tecnológica e econômica, então, forçou uma derrota moral na base da chantagem. Quem se importa que dois milhões de vietnamitas morreram enquanto menos de 60 mil soldados dos EUA morreram? 2.300.000 serviram e apenas 58 mil morreram. Quanto dá isso? 3%? E o Vietnã, qual seria seu futuro? Embargo, inflação de mais de 500%, racionamento!

Duvidei que se eu me retirasse naquele momento, entraríamos para a história como perdedores. Mas, como não havia meios de comunicação em massa eficientes, ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo, talvez nossa retirada fosse encarada como uma aceitação de derrota, uma humilhação, uma vergonha sem precedentes para a gloriosa nação dos EUA. Era um risco.

A vida é feita de escolhas, o que é uma humilhação histórica comparada com o pequeno Orange, um banho quente e papel higiênico? Após alguns contatos com o Presidente, o convenci que seria melhor ouvir a voz do povo, esses hippies imundos que sempre se insurgem contra tudo e desta vez estavam se rebelando contra a guerra. Ao menos uma vez na vida manifestantes acéfalos serviram para alguma coisa: me permitiram fazer um movimento necessário sem sujar minha reputação. Orientei a imprensa a tirar as fotos mais horrendas, sangrentas e reprováveis do que ocorria e estampa-las na primeira página. Em 24h a opinião popular dos EUA estava quase toda contra a guerra. Vamos fazer esses hippies sujos se sentirem importantes, sentirem que tem voz, pois desta vez a causa deles me favorece.

Aparentemente, Somirevsky preferiu me humilhar e humilhar os EUA publica e historicamente do que me matar. Se não me engano, ele gritou algo sobre isso enquanto eu fugia da URSS, alegando que devolveria a humilhação que passou. Porém, não creio que ele esteja certo. Uma visão mais atenta saberá que os EUA não perderam a guerra do Vietnã. Não é possível que o povo seja tão burro.


TELEFONEMA:

SOMIREVSKY: Olá Perdedora
SALLY: Não perdemos. Os números comprovarão isso historicamente
SOMIREVSKY: Pessoas preferem a versão aos fatos, Camarada
SALLY: Pois eu acho que você não queria me humilhar. Você ficou com medo quando viu que estávamos chegando perto e fez isso para sair por cima
SOMIREVSKY: HÁ!
SALLY: Acha graça? Dois milhões de símios morreram por uma questão pessoal sua comigo
SOMIREVSKY: Até hoje tem gente morrendo em Hiroshima e Nagasaki, sua hipócrita
SALLY: Me deixe em paz e devolva o pequeno Orange!
SOMIREVSKY: Já está no seu apartamento
SALLY: Não, não está
SOMIREVSKY: Está sim, basta abrir a porta do banheiro
SALLY: Seu descuido, seu trabalho desleixado, sua vodca, estão causando danos que podem fugir ao seu controle. Entrar no meu apartamento? Sério memso?
SOMIREVSKY: Laranja está ou não está no seu banheiro?
SALLY: Sim, está
SOMIREVSKY: Está vendo? Sou um homem de palavra!
SALLY: Você não tem palavra, você tem medo de ver uma pessoa com armamento nuclear enfurecida
SOMIREVSKY: Até acionar todos os códigos de ativação nós já reagimos e dizimamos todos vocês
SALLY: Não conte com isso, já cuidei desse problema
SOMIREVSKY: Pode jogar quantas bombas quiser, isso não muda o fato de que vocês saíram como derrotados da Guerra do Vietnã
SALLY: Foi um resgate de cachorro e eles morreram como moscas enquanto nós saímos com poucas baixas!
SOMIREVSKY: Ninguém vai perceber
SALLY: Ok, se é para falar de história, vocês vão entrar para ela como uma economia falida, um povo que passa fome e frio
SOMIREVSKY: Quem disse?
SALLY: Eu
SOMIREVSKY: Baseada em que?
SALLY: No que eu fiz assim que cheguei
SOMIREVSKY: O que voc…
SALLY: Bye, Little Boy!

Para não entender metade das referências do texto mas achar graça nos palavrões, para dizer que agora acredita que foi mesmo um resgate de cachorro ou ainda para desejar que esta semana chata passe logo: sally@desfavor.com

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Comentários (13)

  • Eu sabia que debaixo daquele angú todo tinha carne…só não imaginava que fosse de cachorro!!
    E as gerações seguintes ainda ganharam o Rambo como recuerdo!

  • “Aparentemente, Somirevsky preferiu me humilhar e humilhar os EUA publica e historicamente do que me matar”.

    Contextualizando:

    Quando Sally entrou no Agency of Strategic Services (ASS), atual OSS, o órgão dependia de duas bases de dados para o trabalho de inteligência:

    – o Public Survey System (PUSSY),
    – o Allied Nations United System (ANUS),

    No início da Guerra Fria, esses dois sistemas eram controlados por um outro órgão, o Council of Core Knowledge (COCK), ligado diretamente ao presidente dos Estados Unidos na época da Guerra do Vietnã (inicialmente John Kennedy e, depois deste ter a cabeça estourada, Lyndon Johnson).

    Com o passar dos anos, o COCK concentrou-se no PUSSY, e deixou o ANUS, que pouco utilizava, a cargo do órgão em que a Sally trabalhava.

    O problema é que os dois sistemas, PUSSY e ANUS, não eram interligados. E o COCK quase nunca permitia que qualquer outro órgão tivesse livre acesso ao PUSSY…

    (Ocorre que Somirevsky já havia, desde o tempo em que entrou para o Serviço Secreto, obtido fácil acesso ao sistema PUSSY…)

      • Alguns anos depois do fim da Guerra do Vietnã, Sally foi acusada pelo governo de ter cedido o acesso do ANUS a Somirevsky e outros agentes soviéticos.

        Ela negou categoricamente ter dado o ANUS de bandeja a quem quer que fosse, por uma questão de princípios. Contudo, foi submetida a torturas cruéis, algumas delas envolvendo o uso de alicate e de lagartixas, além de ter sido obrigada a ouvir repetidamente, 24h non-stop, singles de John Lennon em sua cela, como medida de privação de sono.

        Contudo, meses depois, descobriu-se que havia sido um agente do próprio órgão que cedeu o ANUS para Somirevsky. Na cidade de São Francisco.

  • Peraí… Hiroshima e Nagasaki levaram bombas atômicas por causa de uma amante japonesa de Somirevsky e o Vietnã foi um resgate de um cachorro da Sally? Vocês inventam cada uma… Tô gostando. Mas quero só ver a quê vai ser atribuída a queda do Muro de Berlim…

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    Esquerdista Soviético

    Uma guerra não é sobre quantos você mata, só um psicopata entenderia assim. Uma guerra é conquistar objetivos e a verdade é imutável: não importou quanto napalm, quanto agente laranja e quantos outros crimes horríveis os americanos cometessem, eles ainda assim não pararam a revolução socialista no Vietnam do Norte. Se isso não é derrota, não sei o que é.

    O único jeito de parar o socialismo foi bombardear tudo, matar todo mundo, queimar tudo e impedir outros países de ajudar de qualquer forma. Covardes.

  • Sally está demonstrando ser uma mestra da estratégia, adorei!
    E sempre duvidei dessa história do Vietnã ter ganhado a Guerra do Golfo. Um povo sem preparo e sem armamento jamais ganharia de uma potência com um exército tão poderoso quanto os USA.

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