Mostrando as armas.

Não foi um derrame. Eu sei que não foi um derrame que matou o Presidente Roosevelt, graças a um bilhete manuscrito colocado debaixo da porta da minha casa: “Isso é o que acontece por flertar com outro na minha frente”. Franklin Delano Roosevelt foi envenenado por Somirevski e eu fui colocada como cúmplice desta informação, arrastada para uma mentira sobre a qual não poderia falar nada, pois para contar o que aconteceu, teria que contar que me envolvi com um espião russo. Se existia uma linha para um ato baixo, vil e nojento, ele acaba de cruzá-la.

Mas, existe uma coisa que vence todos os estratagemas, venenos e armas do mundo, que o Camarada subestima: a putez de uma mulher. Imediatamente me aproximei do novo Presidente. Truman e esse iletrado sem diploma foi facilmente manipulado. Falava diariamente da ameaça comunista, do perigo soviético, do quão sujos, vis e perigosos eram os russos. Peguei algo que era pequeno e inflei, transformando em algo enorme. Não demoraria muito para ele fazer disso uma doutrina e estabelecer a URSS como inimigo numero um da nação.

Mas antes de destruir de vez os soviéticos, eu tive minha pequena vingança pessoal. Somirevski matou meu Presidente e me colocou como cúmplice, então, eu tinha que revidar à altura. A japonesa com a qual ele saiu da Conferência de Ialta e com a qual emendou um relacionamento depois era a melhor forma de pagar na mesma moeda. Você tira um meu, eu tiro um seu. Quem disse que uma “aprendiz de espiã” é inofensiva? Me formei com honras e logo assumi um posto de confiança, que me permitiu articular um grande plano.

Para poupá-los de detalhes cansativos, achei que seria uma boa resposta jogar uma bomba atômica na cidade da japonesa. Como ela tinha familiares por parte de mãe em Hiroshima e por parte de pai em Nagasaki, não sabia muito bem onde ela estaria. Primeiro foi uma bomba em Hiroshima, depois, quando descobri que na verdade ela estava em Nagasaki, completei o serviço com uma segunda bombinha, três dias depois. Tá bom, né? Para uma “aprendiz de espiã” que não podia fazer nada, transformar a amante e toda sua família em pó tá de bom tamanho.

E fiz questão que ele saiba que fui eu. Primeiro mandei nomear o avião que jogaria a bomba de ENOLA GAY, que nada mais é do que as iniciais do sobrenome de Somirevsky mais a palavra GAY. Depois, consegui que escrevam “Little Boy” na bomba, que era o apelido pelo qual eu o chamava. Sim, ele a matou, a metáfora está bem clara. Ele jamais poderia provar que foi obra minha, e, mesmo que pudesse, seria sumariamente executado pelo Governo dos EUA por ser um espião infiltrado ou sumariamente executado pelo Governo da URSS por se envolver com uma espiã americana. Nesse jogo jogam dois! Aparentemente, depois dessa respostinha, o cuzinho russo de Somirevski piscou e eles começaram a se armar até os dentes.

A paranoia da ameaça comunista já tinha se espalhado pelo país e quando perceberam como os comunistas estavam se armando, só aumentou e deu credibilidade à minha teoria. Além de convencê-los que os japoneses são uns escrotos merecedores de uma bomba no meio dos cornos, também vou queimar o filme dos chineses, pois eles parecem demais com os japoneses e isso me irrita. Os soviéticos, é claro, também devem ser dizimados, para que Somirevski fique na merda, tendo que cagar na neve e limpando o cu com gelo. Nunca mais esse filho da puta vai se infiltrar no país alheio, mentir nem colocar a carreira de ninguém em risco.

Óbvio que tudo isso terá que ser executado de forma muito discreta, digamos, uma espécie de guerra fria. Os reais motivos não podem vir à tona e a guerra não pode ser abertamente declarada, pois todo mundo aqui tem rabo preso. Fosse outro o contexto, já estava voando míssil para tudo quanto e lado e as gloriosas tropas dos EUA já teriam invadido e trucidado o inimigo. Mas, não tem problema, vamos ameaçar, atormentar e trucidar os soviéticos de forma mais discreta. Sempre achei que a tortura psicológica era a forma mais eficiente de pressão.

Certeza de que esse cuzão deve ter açoitado os cientistas russos para que eles consigam fazer uma bomba atômica o mais rápido possível e nem assim conseguiram. Como bom invejoso e recalcado que é, está sempre correndo atrás da tecnologia da gloriosa nação dos EUA. Um mero papagaio científico, tentando nos alcançar, nos imitar.

Os rumores sobre armas nucleares russas já estão correndo, mas, francamente, eu duvido muito. Do jeito que esses porcos brancos bebem, nem um estalinho conseguem jogar direito. A menos, é claro, que tenham roubado nosso projeto. Tenho sérias desconfianças daquela piranha da Ethel Rosenberg e se elas se concretizarem, essa mulher vai fritar na cadeira elétrica. Estou de olho.

E, ainda que tenham desenvolvido alguma coisa rudimentar roubada, nossa tecnologia continua muito mais avançada. A economia dos EUA é imbatível e não foi difícil convencer Truman a destinar quase todos os recursos para armamentos depois de plantar a sementinha da ameaça soviética. Já os idiotas russos, bem, enquanto neve não valer dinheiro no mercado, estarão sempre abaixo dos EUA em matéria de recursos. Devem estar criando uma bomba com grampo de cabelo e um chiclete mastigado. Só fazem merda inútil, envergonhando a si mesmos e a esse país patético.

Um belo exemplo disso é o fracasso do risível “tanque parafuso”. O que deveria ser um tanque capaz de se deslocar em alta velocidade na neve e em terrenos acidentados, com dois grandes parafusos giratórios no lugar de rodas, na prática virou um trambolho sem estabilidade, totalmente imprestável. Foram meses de pesquisa e da melhor engenharia soviética para fazer algo que nem se locomover consegue. O frio deve ter congelado o pequeno cérebro dos comunistas.

Os experimentos científicos deles também são risíveis. Os palhaços tem uma tara por sacanear cães: primeiro o demente do Vladimir Demikhov perdeu seu tempo e dinheiro fazendo um suposto cão de duas cabeças, depois o imbecilóide do Sergei Brukhonenko criou uma cabeça de cão que dizia sobreviver sem corpo. O que eles querem, intimidar os EUA ou abrir um canil? Idiotas com seus experimentos inúteis! Nem para ostentar servem!

Não me admira que estejam apavorados trabalhando dia e noite para tentar superar os EUA em tecnologia. Eles que se cuidem, o que hoje é guerra fria, vira guerra nuclear em um piscar de olhos se Somirevski emitir um “ai”, porque depois que eu acabar de solidificar a versão da “ameaça soviética”, poderei socar bomba nesses imbecis sem precisar explicar o verdadeiro motivo. O puto sabe disso e está bem caladinho, apenas fazendo exposição das suas armas. Antagonizar que é bom, nada.

Pior para ele. Quanto mais expõe seus cacarecos toscos, melhor nos preparamos para eles. Foi o que aconteceu com aquele tolete flutuante que eles chamam de “submarino nuclear”. Graças às bravatas babacas pudemos desenvolver mísseis antissubmarino para nossos navios, que detectam sua presença por um sonar e disparam um tiro certeiro. Melhor ficasse calado. Eu fiquei bravateando sobre bomba quando pulverizei aquelas cidades japonesas? Não né? Eu fui lá e fiz. Bravatear é coisa de quem blefa.

Até mesmo em matéria de espionagem eu tenho uma enorme vantagem em relação a Somirevski chamada “não tenho pênis”. Um ser humano com pouca testosterona no corpo consegue ser muito mais cuidadoso. Além disso, convenci Truman a criar uma versão power da OSS, que deixou de existir, dando lugar à CIA – Central Intelligence Agency. Agora os espiões recebem bons recursos, tem um excelente treinamento e equipamentos inimagináveis. Valeu a pena vazar alguns projetos do meu próprio país para convencer Truman da necessidade de investir em espionagem para segurança nacional. Agora que temos um departamento só para espionagem, os comunistas estão fodidos. Já já esses merdinhas soviéticos nos imitam nisso também.

Agora que temos espiões bem treinados, que eu mesma me encarreguei de adestrar, posso deixar meu amado país e ir até aquela merda nevada começar a fazer um estrago de verdade. A ordem que deixo aqui é clara: fazer o que for preciso, O QUE FOR PRECISO, nem que tenhamos que usar nazistas, nem que tenhamos que nos aliar ao tráfico de ópio, não quero saber, vale tudo contra o “perigo soviético”, leia-se, para acabar com a raça do filho da puta do Somirevski.

E assim que acabar minha missão nessa grande bosta nevada que a URSS, volto para os EUA com um propósito: desburocratizar o sistema de lançamento de mísseis. Hoje, cada um tem uma senha, conhecida por apenas uma pessoa, o que pode atrasar em muito nossa resposta caso os soviéticos decidam atacar. Inadmissível. Todos os códigos devem mudar para 00000000. Isso mesmo, oito zeros. E ser do conhecimento geral. Além de resolver as questões de segurança, torna mais fácil que um descontrolado lance um míssil e pulverize de vez Somirevsky. Obviamente, esperarei pelo meu retorno para tomar essa medida, pois não quero ser pulverizada junto.

Parto tranquila, sei que com minhas crianças treinadas na CIA tudo vai dar certo. Pessoas que nada temem, sem limite algum, sem puderes, para trucidar Somirevsk… digo, a ameaça soviética. Nossos projetos científicos também estão mais avançados, começamos a trabalhar com a ideia de colocar armas no espaço. Ah… quando conquistarmos o espaço, a espionagem barata deles de nada vai adiantar, não terão como nos alcançar.

Mas, independente disso, vou para esse lixo nevado descobrir pessoalmente o que esses idiotas estão fazendo de inútil, porque sim, são sempre projetos ostentação inúteis, para, em paralelo, vazar as informações para os EUA e permitir que façamos melhor, só para humilhar. Me desejem sorte, com as condições de higiene locais, vou precisar.


LIGAÇÃO TELEFÔNICA:

SOMIREVSKI: EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ VINDO
SALLY: Você não cansa de me ligar não? Me esquece
SOMIREVSKI: Eu sei que você está vindo e eu vou te caçar até te encontrar! Eu sei o que você fez com Hiroshima e Nagasaki!
SALLY: Você já deveria ter previsto meus atos, Camarada. Minha sobremesa favorita sempre foi bomba…
SOMIREVSKI: Você matou centenas de inocentes!
SALLY: Você matou meu Presidente
SOMIREVSKI: Eu matei o seu amante!
SALLY: Nesse caso, eu também matei a sua amante
SOMIREVSKI: Nossa tecnologia está muito à frente da sua, Sally. Estamos prestes a realizar um grande feito que vai deixar os EUA humilhado!
SALLY: Não se nós não realizarmos antes… e melhor
SOMIREVSKI: Só liguei para dar o aviso, não venha, ou vou te caçar até a morte
SALLY: Camarada, em material de morte, estamos 300 mil x 1, acho que você tem que ter mais medo do meu potencial do que eu do seu
SOMIREVSKI: NÃO VENHA! ESTÁ AVISADA!
SALLY: Somirevski… se uma “aprendiz” já fez esse estrago, imagina do que eu não sou capaz agora
SOMIREVSKI: *palavrões em russo
SALLY: Adeus, Little Boy…

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Comentários (2)

  • Irônico que um espião soviético tenha permitido um aprimoramento da democracia na América, pois Roosevelt havia sido presidente reeleito por quatro mandatos consecutivos até então. Com a morte dele, o Congresso Americano aprovou a Emenda Constitucional 22, proibindo que uma pessoa fosse eleita para o cargo de presidente por mais de duas vezes.

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