A idade chega para todos. Sete décadas de vida pesam… quando essa história começou, eu era um jovem idealista. Hoje sou um velho idealista… vejam bem, a única coisa que passa você querendo ou não é o tempo. Gorbachev foi um balde de água fria nos meus planos. Traidor! O que se esperar de alguém que implanta uma campanha para COMBATER o alcoolismo na União Soviética? Sally tem muita sorte.

Nós tínhamos algo muito bom acontecendo, mas é claro, o partido jamais capitalizaria nisso… o que é até compreensível, pela palavra. Os EUA estavam prontos para serem dominados com aquela onda de hippies nojentos, tipo de gentalha que jamais surgiria na minha terra. Eu gastei muito tempo e recursos financiando aqueles drogados e seus artistas favoritos para enfraquecer as bases da sociedade ianque, mas uma raposa não faz inverno. Ainda acredito que a última risada vai ser a minha, porque os americanos vão acabar completamente degenerados com as sementes que nossos programas de influência comportamental plantaram, mas não foi rápido o suficiente.

O mundo vai se lembrar da Guerra do Vietnã como um fiasco, mas não o suficiente. Eu realmente não deveria ter facilitado pra Sally roubar os planos na época da corrida espacial… aquela vitória deixou a nação dos porcos capitalistas orgulhosa demais. E do nosso lado, a sorte cuspiu na minha cara. Brejnev era um incompetente, tentando passar uma mensagem pacífica para o mundo. “Adoeceu e morreu” quando não aguentava mais. Conseguimos colocar Andropov no poder, que já era chefe da KGB, e por chefe da KGB eu quero dizer a pessoa que assinava a papelada.

Acreditei que a coisa começaria a andar, mas… eu dizia que ele exagerava na vodka. Pouco mais de um ano de Andropov no poder. Chernenko assume depois, e como ele era o presidente não oficial do partido desde os tempos de Brejnev, também acabou sofrendo com uma “doença misteriosa”. Pudera, Sally tinha tirado a sorte grande e conseguido colocar no poder do seu país um ATOR! Sim, um ator! Ronald Reagan provavelmente vai ser o presidente mais limitado intelectualmente da história daquele país, eu duvido que os americanos consigam eleger alguém ainda mais burro. Aposto que ela decidia tudo por ele.

Mas, como eu já disse, a sorte não estava do meu lado. De todos que poderiam ser eleitos para o lugar de Chernenko, escolheram aquele pacifista manchado do Gorbachev! Não dava pra trabalhar com aquela situação… e eu já estava manjado demais pelo “azar” de presidentes anteriores que conversavam muito comigo. Mikhail não me encontrava nem nos corredores do Kremlin! Sally deitava e rolava pra cima de Reagan, que adotava uma linha dura contra nosso regime.

Fiz o que pude, mantive a pressão no Afeganistão. Se estava vendo a grande União Soviética ruir diante dos meus olhos, pelo menos poderia deixar preparada uma situação para me vingar no futuro. Se os ianques gostam tanto do ouro negro, vão se afogar nele. O Oriente Médio vai ser um inferno até o fim dos tempos, palavra de comunista! Mas, enquanto eu tentava deixar um “presentinho” para os americanos no futuro, Sally se importava com o presente. Golpe baixo focar os esforços em Berlim.

Ela sabia da Helga e da Frida. Tudo bem que eu não era especialmente cuidadoso com essa história, mas achei que não chamaria tanta atenção. Vejam bem, mantive-me solteiro a vida toda para não ter que lidar com as dificuldades emocionais que derivam de viajar muito, se é que vocês me entendem. Eu posso ter influenciado levemente a criação do muro de Berlim para evitar o encontro de duas mulheres com as quais mantinha uma relação relativamente estável, mas com certeza a ideia principal da barreira era manter pura a ideologia comunista. Com certeza.

Helga vivia na Berlim Ocidental, Frida na Oriental. Na época da separação da cidade, ambas ficaram isoladas das famílias, belas jovens alemãs desamparadas que cuidei como se fossem minhas. Ambas muito ciumentas, até pelas condições nas quais nos encontramos. Como espião, era muito fácil transitar entre os dois lados do muro e de tempos em tempos visitar as duas. E durante décadas, isso funcionou perfeitamente. Podia até manter a mesma fachada de comerciante internacional para as duas, não havia comunicação entre os dois lados. Era ótimo para todos: as duas tinham uma vida muito confortável para os padrões locais, e eu tinha tempo de descansar um pouco… a diferença de idade era um tanto quanto acentuada.

Mas, com aquele fantoche do Reagan nas mãos, Sally pode dar mais esse golpe em mim. Eu já estava pensando em me aposentar quando o imbecil americano vem até Berlim para fazer o discurso… já estava vendo vantagens em apoiar a trégua entre nós e os americanos, mas… aquela frase final, aquela frase tem a cara da Sally. “Sr. Gorbachev, derrube esse muro?”. Ela sabia! E eu não tinha mais idade para lidar com isso.

Mikhail, fraco, obedeceu. Em questão de meses já havia uma multidão nojenta marretando o muro, o mundo comemorava enquanto eu me desdobrava, já na minha idade, para acompanhar o evento pelos dois lados ao mesmo tempo. Helga e Frida estavam jubilantes para reencontrar as famílias… eu quase tendo um infarto para passar de um lado para o outro, inventando desculpas. E como começo a acreditar, o ateísmo pode ter feito os céus me punirem… as duas são uma das primeiras a se encontrar. Um abraço que poderia ter virado uma foto eternizada na nossa história… pessoas se reencontrando. E eu? Eu nunca mais pude chegar perto delas.

Era a minha aposentadoria, Sally! Mulheres jovens que cuidariam de mim! E agora? O que eu faço? Fico em Moscou onde me odeiam por ser um “dinossauro comunista”? Onde meus feitos não serão reconhecidos jamais? Eu devolvi o seu querido cachorro, não devolvi?

No final das contas, o comunismo não compensa.


Ligação:

SOMIREVSKY: Está feliz?
SALLY: Sim! O mundo está reunido!
SOMIREVSKY: Não se faça de sonsa.
SALLY: Como vão suas amigas?
SOMIREVSKY: Você me deixou na rua da amargura… o Estado faliu!
SALLY: Isso é pelo Orange!
SOMIREVSKY: Estão me expulsando do Kremlin! Nem na KGB eu posso ficar mais.
SALLY: A CIA vai de vento em popa. As coisas acontecem pra quem não passa a vida bêbado.
SOMIREVSKY: Eu cansei disso. Eu cansei disso tudo.
SALLY: Está desistindo?
SOMIREVSKY: Caso você não tenha percebido, eu não tenho mais um país para usar no nosso jogo.
SALLY: Então você admite que eu venci?
SOMIREVSKY: SIM! EU ADMITO! VOCÊ VENCEU!
SALLY: Se não fosse pela artrite, eu estaria fazendo a dancinha da vitória agora mesmo.
SOMIREVSKY: Tem alguma vaga pra agente duplo aí?
SALLY: Se tem, pergunta pro meu sucessor, eu estou me aposentando.
SOMIREVSKY: Hã?
SALLY: Acabou a graça, né?
SOMIREVSKY: É… desde o Reagan isso ficou fácil demais pra você.
SALLY: Não seja mau perdedor. Eu me esforcei mais e ganhei no final.
SOMIREVSKY: Merda…
SALLY: Vai, vou te dar uma missão. Pelos velhos tempos…
SOMIREVSKY: Qual?
SALLY: Eu comprei uma bela casa de praia em algum lugar do mundo. Vou pra lá descansar dessa loucura toda. Tenho vários livros pra colocar em dia.
SOMIREVSKY: Onde?
SALLY: Assim que você descobrir, tem um sofá com o seu nome nela. Boa sorte, camarada!
SOMIREVSKY: Espera…

Para dizer que na guerra e na guerra vale tudo, para dizer que tem pena da Frida, ou mesmo para dizer que aposta que a casa de praia não existe: somir@desfavor.com

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