Primeiros Socorros – Afogamento

Está chegando aquela época indigna do ano de suor, insetos e calor. Com ela, pessoas tendem a se jogar em ambientes aquáticos, estando certas ou não de sua segurança. Não sei o que ocorre na cabeça do ser humano, se é arrogância ou algum tipo de negação, mas pessoas pulam na água sem ter o real conhecimento do que as espera. Assim, aumentam violentamente os casos de afogamento. Somos poucos, melhor não morrer. Desfavor Explica: Afogamento.

No mundo, cerca de 500 mil pessoas morrem todos os anos vítimas de afogamento. No Brasil é uma das principais causas de mortes em crianças, perdendo apenas para acidentes de trânsito. Muitas vezes o afogamento acontece em piscinas ou em ambientes aparentemente inofensivos e os pais só percebem quando é tarde demais.

A primeira coisa que você tem que saber é que um afogamento não se parece com um afogamento. Calma, vou explicar. Aquelas cenas de afogamento de filme, onde a pessoa se debate, grita por ajuda e abana os braços é algo extremamente raro. Via de regra, o afogamento é um evento silencioso onde a pessoa fica quieta, imóvel, em uma posição determinada da qual não consegue sair por imposição do seu corpo.

O que causa barulho e confusão é o evento que precede o afogamento, chamado de “stress aquático”. Isso é uma pessoa em pânico porque não consegue sair de onde está, mas ainda não é afogamento. É uma pessoa percebendo que não consegue nadar para onde quer, que não consegue voltar para a costa, que não consegue se deslocar para onde quer. Quando a pessoa percebe que está correndo risco de vida, quando cai a ficha de que o caldo vai entornar, a coisa muda de figura.

Uma vez que a mente humana percebe que não vai conseguir escapar, uma vez que a pessoa percebe que está se afogando, que sua vida corre perigo, o Sistema Nervoso Autônomo assume o controle do seu corpo e ela entra em um estado automático e não responde mais por seus movimentos. Dali para frente, a pessoa está fisiologicamente incapaz de se portar conforme sua vontade.

Isso tem nome. Em inglês se chama IDR – Instinctive Drowing Response, ou, em português Resposta Instintiva ao Afogamento. Pessoas que estão se afogando estão fisiologicamente incapacitadas de gritar por socorro ou se debater. Vou repetir: FISIOLOGICAMENTE INCAPACITADAS DE GRITAR POR SOCORRO OU SE DEBATER. Isso acontece porque nosso sistema respiratório é programado para priorizar a respiração, a fala ou movimentos bruscos são uma atividade secundária, quando o corpo sente que a respiração está de alguma forma comprometida, ele trava todas as outras funções para priorizar oxigênio.

Pessoas que estão se afogando, via de regra, não conseguem acenar, abanar os braços ou até fazer qualquer movimento do tipo. NÃO CONSEGUEM. O corpo aciona uma espécie de “sistema de emergência” para tentar salvar a própria vida que obriga a pessoa a ficar com os braços estendidos lateralmente (abertos) como quem quer pressionar a superfície da água, por entender que esta é a melhor posição para manter a cabeça do lado de fora e respirar. Mesmo quando solicitada a mudar de posição, a pessoa que sente estar se afogando não consegue. É uma trava biológica pensada para nossa sobrevivência.

Quando a pessoa entra em IDR ela não consegue mais controlar o movimento dos braços. Não adianta pedir para estender a mão ou segurar. Quem a socorre deve retirá-la do local sem esperar colaboração. Depois que entra em IDR o corpo da pessoa permanece na posição vertical dando a sensação de estar imóvel, de não mexer nem mesmo as pernas. Os olhos ficam arregalados, muitas vezes com expressão distante. A menos que a pessoa seja resgatada, depois que entra em IDR, ela só consegue se manter nesta posição por, no máximo, 60 segundos. Depois disso inevitavelmente vai afundar.

Então, se uma pessoa que estava se debatendo se calou e ficou imóvel, isso não quer dizer que ela está bem. E para ajudar essa pessoa imóvel não adianta jogar uma boia ou estender uma mão, ela não vai ser fisicamente capaz de sair dessa posição, não importa quanto você peça. É como um piripaque do Chaves. Isso explica a reação do ator Domingos Montagner segundos antes de morrer afogado. Tenho certeza de que ele era uma ótima pessoa, mas, veja bem, dizer que ele “deixou Camila Pitanga viver” por não agarrar seu braço é biologicamente incorreto. Ele entrou em IDR, um instinto fisiológico incontrolável inerente a todo ser humano. Não foi escolha, não foi nobreza, foi um mecanismo de sobrevivência que está no DNA humano de todos nós e atua até mesmo contra nossa vontade.

Estatísticas apontam que pelo menos metade dos afogamentos em crianças acontece a poucos metros dos pais e estes não a socorrem por não perceberem. Então, vamos deixar isso gravado na memória para sempre: stress aquático não se confunde com afogamento. Afogamento é silencioso, a pessoa fica aparentemente paralisada, com olhar assustado, imóvel, em silêncio, com os braços abertos e corpo na vertical (“de pé”) e não tem mais controle do próprio corpo. Não adianta jogar bóia, pedir para estender a mão. Quando chega nesse ponto de IDR ou você tira a pessoa da água como se fosse um boneco, ou ela vai se afogar.

Dito isto, se você estiver em stress aquático, seguem algumas dicas para tentar evitar que entre em IDR. Primeira coisa é tentar manter a calma e pensar, avaliar sua situação. Ok, difícil, porém vale o esforço. Se estiver no mar e não conseguir retornar para a areia, não insista, apenas flutue e deixe a correnteza te levar para alto mar, ali você pode ser resgatado. O corpo humano flutua com facilidade na água salgada, basta ficar de barriga para cima e encher os pulmões de ar. Deixe o mar te levar, talvez você encontre algum objeto no qual possa se agarrar no caminho. Se conseguir, acene em vez de gritar, que além de ser mais eficiente, consome menos oxigênio. Tente manter sua frequência respiratória regular.

Se você vai tentar resgatar alguém em situação de stress aquático, se possível, leve consigo algum objeto que flutue para ajudar no processo e avise a alguém antes de se jogar na água, para que peça ajuda profissional enquanto você começa a prestar socorro. Nade para perto da pessoa, mas pare poucos metros antes e a acalme antes de ficar ao seu alcance, caso contrário ela pode te afogar no desespero por se salvar. Estenda o objeto que flutua para que a vítima se agarre. Se não tiver nenhum objeto flutuante e a vitima não se acalmar, peça que ela flutue para ajudar a removê-la de onde ela está. Se a vítima se descontrolar e te agarrar de forma violenta, tente submergir levando-a com você, a tendência é que ela te largue. Sim, parece cruel, mas é a melhor chance de você salvar a vida da pessoa e a sua. Um belo “caldo” e a pessoa desiste.

Quando conseguir retirar a pessoa da água, é preciso verificar seus sinais vitais e, se necessário, reanima-la conforme já explicamos nos textos anteriores sobre massagem cardíaca e respiração boca a boca. A morte por afogamento ocorre basicamente porque a pessoa, no reflexo de respirar, acaba aspirando água, que se deposita em seus pulmões, impedindo que o corpo absorva oxigênio, causando asfixia.

Depois, a água entra na corrente sanguínea através dos alvéolos, interage com os glóbulos vermelhos (hemácias) destruindo-os. Por isso é fundamental que a pessoa consiga expelir toda a água que engoliu. Quando reanimada, por reflexo ela começará a tossir e expelir a água. Nesse momento ela não deve ser mantida de barriga para cima, pois pode voltar a ingeri-la. Cada minuto é importante, pois cada minuto sem oxigênio mata células do corpo, inclusive cerebrais, então, não espere o socorro chegar. Leia nossos textos antigos sobre RCP, assim você estará apto a prestar socorro imediato.

Existe também a figura pouco conhecida do Afogamento Atrasado, onde a morte ocorre depois que a pessoa foi resgatada. É mais comum entre crianças. Aparentemente a pessoa se encontra bem, lúcida, porém horas (ou até dias) depois o corpo se deteriora em função da água engolida, prejudicando a função pulmonar e podendo gerar morte. Então, não basta que a vítima seja resgatada com vida e consciente para que seja liberada, é preciso uma análise criteriosa por um médico para avaliar a necessidade de alguma intervenção antes de liberar a vitima. Ela pode ter engolido água que não foi expelida e isso pode matar tardiamente. Afogamento não é brincadeira, dependendo do caso, mesmo que a pessoa pareça bem, pode ser até necessário passar uns dias no CTI.

Ao contrário do que se imagina, a maioria dos afogamentos (cerca de 90%) acontece em água doce e não salgada. As ondas do mar podem parecer mais perigosas, mas o verdadeiro perigo está nos rios. O mar expõe o perigo de forma clara, enquanto que nos rios há correntes apenas sentidas no fundo, não visíveis na superfície e também a formação de redemoinhos que sugam a pessoa para baixo de forma repentina e com uma forma descomunal. Além disso a água do rio tem baixa densidade quando comparada à água do mar, o que significa que no mar boiamos com facilidade, mas no rio afundamos com facilidade.

O tipo de água ingerida faz diferença, a própria mecânica do afogamento é diferente. A composição da água doce é mais parecida com a composição do nosso sangue, por isso, uma vez aspirada ela acaba sendo facilmente absorvida pelo organismo, “diluindo” o sangue (as hemácias incham até estourar), o que pode causar a morte em 3 minutos. Já a água do mar, por ser salgada, gera uma reação de defesa do organismo (água salgada dificulta a absorção hídrica, o sal deixa o sangue mais grosso, e, portanto, ao invés de inchar, a hemácias “secam” em um processo mais demorado), que atrasa o processo para até 10 minutos.

Em caso de afogamento em águas geladas, as chances de sobrevivência aumentam. A hipotermia atenua os efeitos da falta de oxigênio no organismo. Há casos relatados, como o da menina Michelle Funk (Utah, EUA) que passou uma hora submersa e conseguiu ser reanimada sem danos cerebrais.

Porém, a água gelada também pode ser vilã nos casos onde a pessoa efetivamente se afoga. Normalmente os afogados flutuam depois de mortos, pois as bactérias enchem o corpo de ar (fermentação). Porém, em águas muito geladas, a ação dessas bactérias é inibida, fazendo com que a pessoa afunde e nunca flutue. É o caso do lago Tahoe, nos EUA, onde quem se afoga nunca é encontrado pois o corpo não flutua e mergulhadores não podem ter acesso ao fundo do lago.

Vale lembrar que afogamento não ocorre apenas por imersão. Aspirar líquidos que impeçam o pulmão de realizar sua função respiratória pode ocorrer de outras formas menos convencionais, porém igualmente graves, que também podem levar à morte. É caso de pessoas que morrem sufocadas pelo seu próprio vômito. Se alguém aspirou líquido de forma significativa, ainda que não seja por imersão, vale uma passadinha no pronto-socorro. Há relatos de casos onde crianças, mesmo usando boias e mesmo sem se afogar no sentido de submergir, engoliram tanta água pela boca em piscinas e acabaram morrendo afogadas.

Afogamento é algo que, na maior parte das vezes, pode ser prevenido. Se você não sabe nadar muito bem, tenha senso de preservação e não se coloque em perigo. Não seja arrogante, se informe antes de mergulhar em qualquer lugar e jamais o faça desacompanhado, pois mesmo sendo um exímio nadador, todos estão sujeitos a câimbras e outros acidentes de percurso. Não deixe crianças na água sem supervisão e não espere por uma reação histérica de gritos e acenos para socorrer alguém.

Para dizer que prefere acreditar que Domingos Montagner foi herói e teve um gesto nobre em vez de ter entrado em IDR, para dizer que não vai entrar no mar por causa dos toletes mesmo ou ainda para prometer que não vai se afogar neste verão: sally@desfavor.com

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Comentários (8)

  • Boiar. É assim que se chama aqui em Salvador. Era minha brincadeira favorita na infância, quando ia a praia.

    “Boiar” pode salvar uma vida!

  • Já me “afoguei” duas vezes quando mais nova. Uma foi na praia com duas amigas . Nadamos muito e nada de sair do lugar . Optamos por boiar pra descansar , depois de algum tempo chegaram os salva vidas. Pensei que seria como S.O.S Malibu que eles agarram a vítima e levam até a água. Ou ser pega tipo peixe na rede . Que nada ! Deram uma espécie de prancha e mandaram bater o pé . Deram vários esporros e quando chegamos exaustas na área ainda tivemos q sentar e escutar mais sermões na tenda dos bombeiros.
    A outra vez foi no rio durante um rafting. Não lembro de nada durante o ocorrido . Só sei que quando acordei já estava na margem do rio. E depois ainda continuei o rafting.

  • Tive disciplina de primeiros socorros na graduação que estava fazendo anteriormente, mas não me sinto apta a socorrer ninguém em nenhuma circunstância. Sally, seus textos são excelentes, e mesmo sendo um apanhado geral, já da para deixar uma boa noção do que é necessário fazer.

    Você já escreveu algum desfavor explica sobre ataques de pânico?

      • As aulas foram bem ruins e breves. A carga horária era somente de 30h, ou seja, muito conteúdo e pouco tempo. Fora a didática da professora que era bem ruim, ficando somente na parte teórica.
        Ela explicava tudo o que acontecia no corpo durante o acidente e o porque dos primeiros socorros serem daquele jeito, mas no final era muita teoria (que já esqueci) e pouca pratica.

  • Tenho o sonho desse tipo de coisa ser incluído na grade curricular das escolas. É muito mais útil do que esses embustes de humanas que só servem pra professores militontos alienar os alunos e religião. Mas quando eu começar a dar aula talvez ache uma brecha pra abordar os primeiros socorros. Percebi que os alunos gostam dessas coisas e prestam atenção.

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