Falando o que (não) pensa.

Pessoas com algum treinamento em argumentação, em tese, podem defender até mesmo pontos com os quais não concordam, pelo exercício (ou pela mentira). Sally e Somir discutem hoje se colocar esse poder em prática é uma boa ideia. Os impopulares acreditam no que dizem.

Tema de hoje: você vê problemas em argumentar publicamente sobre algo no qual não acredita?

SOMIR

Não, não vejo. Eu entendo que o tema possa parecer confuso agora, eu que sugeri (explica muito…) e vou tentar desenrolar isso aqui no começo: foram muito poucas das centenas de colunas “Ele disse, ela disse” até hoje, mas eu confesso que já argumentei por puro esporte aqui. Coisas que eu não acreditava e defendi nos textos mesmo assim. Sally sempre achou estranho quando eu me propunha a fazer isso, dizia que era só achar outro tema onde a discordância fosse real, mas algumas vezes eu teimei e quis fazer assim.

E numa conversa sobre esses casos, Sally mencionou que não gostava desse recurso e que isso denotava algo de errado em quem fazia. Resolvi então colocar o assunto em pauta, para descobrirmos, todos juntos, se é tão problemático assim. Estou me colocando em análise pública e até mesmo tentando descobrir se só eu acho um exercício divertido de pensamento. Se eu argumentar, num dia de rara inspiração, que você tem que comer cocô para ser feliz, não é como se minhas palavras fossem influenciar a tendência à coprofagia de vocês, certo? Não sou um pastor lidando com completos retardados, sou um Zé Ruela escrevendo um blog para um público que tem foco de atenção suficiente para aguentar 4 páginas diárias de texto.

Eu vejo problemas em fazer esse tipo de gracinha quando se trata com um público muito vulnerável, e mesmo assim, só se o assunto for capaz de gerar uma ação danosa para o leitor. O que raramente é o caso aqui. Tanto que eu fico longe dos textos onde seria mais saboroso trollar gente sem cérebro. Vocês não acham que eu fico me coçando pra escrever uma asneira enorme a cada vez que alguém surge aqui perguntando o que fazer com algo enfiado no cu ou pedindo conselhos jurídicos depois de enfiar porrada em menores de idade? Sempre tomo o cuidado de argumentar por esporte em temas baseados em reflexões e não em ações.

E se você está se perguntando se eu então só menti até hoje e nenhuma das minhas opiniões é real, sugiro respirar fundo e pensar um pouco antes de ter um ataque: estou falando de uns 5 ou 6 textos, só nessa coluna, nesses quase 9 anos de desfavor. Grandes chances de você sequer ter lido um deles. Confesso que eu me divertiria fazendo isso muito mais vezes, mas seria bagunçar totalmente a proposta do desfavor. Tenho outros meios que não aqui de extravazar esse meu gosto pelo argumento desconectado de crença, e mesmo assim, sempre seguindo as regras auto-impostas de não colocar pessoas em risco por isso.

Não concordo que demonstre algum problema fundamental na minha pessoa fazer isso. Oras, faço porque consigo. Não é fácil construir um argumento como se constrói uma história, tentando imaginar como eu defenderia um ponto com uma mente ficcional. Pra quem vê de fora, é indiferenciável de eu estar argumentando de coração, não por eu ter um talento especial pra isso, mas porque no final das contas cada pessoa absorve apenas a informação que está preparada e predisposta a absorver. A virtual totalidade dos meus textos aqui eu sei que jamais alcançariam um público brasileiro médio, adoraria ter esse poder de convencimento escrito, mas é óbvio que não funciona assim.

Se a pessoa já quer concordar com um ponto, vai aceitar praticamente qualquer argumento que siga nesse sentido. Sou bem cético sobre gerar mudanças diretas nas percepções de quem lê meus textos (ou mesmo os da Sally), acredito que eles estão numa faixa de funcionalidade bem específica para quem já tomou a mesma pílula (vermelha?) que nós, em diferentes estágios de interesse e compreensão. Estou tomando todo esse cuidado de dizer que aqui eu me preocupo o suficiente com uma linha média de coerência, mas mais porque o acordo implícito do desfavor presume isso.

Porque honestamente, eu adoraria me livrar totalmente das amarras da coerência para explorar ideias completamente opostas às que defendemos aqui. Eu sei que a minha compreensão dos temas não vai ser mudada mesmo se escrever o contrário, e acredito, de coração, que faz bem pra todo mundo ficar com o pé atrás quando lê algo, tanto que temos o dia do Troll por essas bandas. Não importa o que se leia, tem que ter capacidade de analisar o tema e escolher sua própria posição. E se alguém me achasse uma pessoa horrível por defender algo que não acredito, problema dela. Não me acrescenta nada ser ouvido por repetição ou por me tornar figura de autoridade para um público: o que importa é o argumento, a palavra desconectada do autor, com vida e sentidos próprios.

Talvez eu esteja influenciado pelo texto de sexta para o tema de hoje, mas cada vez mais me fascina a ideia de aumentar a capacidade de emular a mente alheia e tentar alcançar a lógica íntima dela, mesmo que se faça isso com uma “mentira”. Reconheço que argumentar sobre algo que não se acredita pode gerar o risco de se perder em divagações e esquecer os valores internos, mas nada como a prática e a experiência para fazer alguém conseguir lidar com esses riscos. Não só não vejo problema como ainda recomendo para todos a prática, para treinar a mente e começar a entender melhor as outras pessoas. Muitos dos meus melhores argumentos vieram de conseguir entender o processo que ocorria na mente do meu “adversário” e adaptar o discurso a ele.

E não adianta querer fazer esse processo de “empatia lógica” pensando apenas no que já se acredita, isso é justamente o que nos afastou daqueles que discordam de nós para começo de conversa. A melhor forma de entrar na cabeça do outro e até mesmo plantar sementes de mudança é tentar entender o processo mental alheio da forma mais completa possível, e isso muitas vezes presume argumentar por ela. Nem todo mundo tem a eloquência e a articulação necessárias para deixar claro o porquê se posiciona daquela forma. Se você tem, é até uma boa para ambas as partes que você faça esse serviço mais pesado e saia dele entendendo melhor como o outro pensa. Até pra negociar funciona melhor.

Não vejo um problema inerente a pessoa que faz isso, acho apenas que existe o processo bem feito e o mal feito. Que existem boas e más intenções por trás da prática e a defesa dessa parte ruim vai muito da capacidade de pensamento crítico do interlocutor.

A pessoa escuta o que quer, quase sempre.

Para me chamar de mentiroso, para dizer que já não acreditava em nada, ou mesmo para dizer que só Gezuiz pode me salvar agora: somir@desfavor.com

SALLY

Você vê problemas em argumentar publicamente defendendo aquilo em que não acredita?

É a hora em que você pergunta qual é o nosso problema. Será que os temas acabaram? Será que saímos de férias e deixamos os estagiários brincando com as postagens? Não, a Madame aqui se cima está nesse grau de insanidade. Ele não se acanha de defender com unhas e dentes algo que ele não acredita. Por qual motivo um ser humano faz uma coisa dessas? Nunca saberemos. Nem lendo o texto dele, que apenas manipula, não explica porra nenhuma.

Eu jamais daria a cara a tapa para defender algo de que eu discordo, pois no dia em que eu defender uma mentira em público, terei que tomar cuidado eternamente para adequar meu discurso, de modo a não ser “desmascarada”. Será uma preocupação eterna, algo escravizante, que certamente me será muito mais custoso do que falar a verdade ou simplesmente calar a boca. Sim, calar a boca é sempre uma opção.

“Jesus morreu para salvar a todos nós”. “Eu tomo remédio homeopático, você deveria experimentar, é ótimo”. “Sua semana está ruim porque seu signo está em inferno astral”. “Amor quando é de verdade é para sempre, se acabou, não era amor”. “Tenho um relacionamento à distância e tenho certeza que ele não me trai”. Sim, dói. Sim, o ouvido sangra. Sim, sobre um calor pelo rosto e uma vontade de começar a falar umas verdades. Mas calar é possível, com um pouco de esforço. Basta calar. Olha para a pessoa com cara de Síndrome de Down voluntária e volta a fazer o que estava fazendo. Calar é uma opção. Para não agredir uma pessoa com uma verdade não precisa concordar com um absurdo.

Eu não vejo ganho em abrir a minha boca para defender algo em que não acredito. Sério, por qual motivo alguém faz isso? Para se sentir poderosão? “Haha, enganei esses babacas!”. Amigão, isso não é sinônimo de poder no Brasil, aqui qualquer pessoa engana brasileiros em massa. Poder, poder de verdade, tem quem consegue levar informação (em vez de enganar), de forma simples, interessante e palatável para um grupo. Isso sim é difícil em um país de ególatras onde cultura e questionamento não interessam. É isso que me faz sentir poderosa.

Na minha cabeça, quando você defende algo que não acredita e, tempos depois, diz ou faz coisas que contradizem essa declaração, sua credibilidade sai minada. Eu levo muito a sério a minha credibilidade, a minha palavra. Coisa mais triste uma pessoa sem moral. Sim, eu me importo. Não quero ficar desacreditada, não quero ser aquela maluca que muda de ideia a toda hora e que não é confiável. Não quero ser aquela pessoa que quando fala algo os outros dizem “Tá bom, Sally, tá bom” com aquele tom que se usa para falar com maluco e bêbado. Eu sou romântica, eu dou muito valor à minha palavra, à confiança que as pessoas depositam em mim. Sou reconhecida por isso? Não, claro que não, mas eu quero é que se foda, meus valores não dependem do olhar de terceiros.

Mas eu entendo o Somir, que vive de mentir como se não houvesse amanhã. Isso não custa nada a ele, já que ninguém percebe ou se importa. Se hoje ele defende os direitos dos animais e amanhã defende paulada na nuca de foca, ninguém repara ou, se repara, ninguém contradita. Não há confronto, não há cobrança para que o outro seja coerente: “Ele é assim mesmo”. O Brasil é a terra onde mentiroso pode se contradizer sem constrangimentos, porque as pessoas aceitam que “ele é assim mesmo”, como se mentir fosse um jeito de ser e não uma questão de caráter. É um pacto silencioso onde as pessoas toleram a incoerência alheia sem apontar para, em troca, serem incoerentes também, sem que isso seja apontado. Não aceito, não topo, não pactuo.

Então, realmente deve ser bem mais fácil sair cuspindo tudo que passa pela sua cabeça sem a preocupação de ser coerente. Foco apenas no assunto pontual, sem pensar no macro, sem ter uma visão global e enciclopédica, fazendo um scan rápido dos seus valores para adequar sua opinião com sua moral e sua ética. Não… pra que? Há aval social para ser incoerente! Por qual motivo você se daria a esse trabalho? Por um motivo muito simples: é uma tremenda perda de tempo. Você tem tempo a perder?

Vamos falar em bom português? Estamos falando de mentir. Defender algo que você não acreditar se chama “mentir”. Mentira é sim um recurso social necessário em casos extremos, quando a verdade apenas vai causar o mal ou então vai causar muito mais mal do que bem. Mentir por esporte? Mentir e não ver problema nenhum em fazê-lo? Pra que? PRA QUE? Sim, Somir está nesse grau de danação mental. Ele acha ok, aceitável e talvez divertido argumentar no sentido oposto ao que pensa.

Desculpa mas eu não tenho tempo a perder na minha vida. Vou ficar por aí defendendo o que não acredito exatamente para que? O que isso vai me trazer de bom? Provavelmente vai atrair pessoas que não terão afinidade comigo (já que eu penso o oposto do que estou alardeando), vai induzir as pessoas a erro a meu respeito (e, em algum momento, causar uma enorme frustração nelas pois a verdade sempre vem à tona) e também será uma enorme perda de tempo e energia.

Tanta coisa boa e importante que eu posso fazer com a minha vida e dizer aos outros, vou ficar defendendo o que não acredito? Sacanagem, né? Questões morais à parte, não o faria também pela perda de tempo! O que se ganha com uma porra dessas? Não vejo nenhum tipo de ganho que valha a pena tanta perda de tempo e energia. Não acho bonito, não acho graça, prefiro canalizar minhas forças para outras coisas mais produtivas.

Então, em resumo, eu vejo problema em sair afirmando coisas que não penso de verdade tanto por minar minha credibilidade, por achar sacanagem com quem escuta e é induzido a erro e também por entender que é uma energia mal gasta, com algo que não gera nada de bom. Não me gera nenhum ganho fazer uma coisa dessas e, no final das contas, ainda me faz mal, pois me sinto péssima em ver minha credibilidade indo embora ou em gastar meu tempo com algo que não me acrescenta nada.

E sim, eu vejo problemas em quem o faz. Se você tira algo de tão bom de ficar mentindo por aí, tá na hora de deitar a cabecinha no divã de psicanalista, porque não é assim que se vive uma vida saudável.

[assin]Para se preocupar com o Somir (entre na fila), para perguntar que porra de tema foi esse (entre na fila também) ou ainda para dizer que concorda comigo por nem ter entendido ao certo os argumentos do Somir: sally@desfavor.com----escape_autolink_uri:2fe696ead53dbe564f15a5e6a79d89d2----

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Comentários (8)

  • Sally, dessa vez tenho que discordar.
    O exercício proposto pelo Somir é excelente! É como tentar escrever com a mão esquerda (no caso de você não ser canhoto). Isto desenvolve um lado do cérebro. Mas no final das contas, isso não acontece com o(a) advogado(a)? Por exemplo, na maioria dos casos criminais, não se defende uma causa em que não se acredita?

    Portanto, não vejo problemas. Na realidade, vejo uma solução!

  • Falar por falar acho que não vale a pena, só quando necessário. Manter a credibilidade é outro problema porque somos muito mais julgados pelos pré conceitos do que pelo que realmente somos. Aos olhos preconceituosos podemos perder a credibilidade por causa da idade, gênero, escolhas pessoais não relacionadas ao caráter ou capacidade de fazer alguma coisa, etc.

  • Nenhum problema. Nas malfadadas dinâmicas de grupo de processos seletivos para o mercado corporativo isso ocorre o tempo todo!

  • Se tem uma coisa que eu valorizo é autenticidade pra mim vale mais um inimigo declarado do que um isentão que fala mal de você pelas costas.

  • Não é bem defender, é falar merda só pra tirar onda com a cara dos babacas que acreditaram. Os trolls e desocupados tipo eu fazem direto. Quem é esperto descobre que to zoando e acho divertido ter imbecil que fica com ódio.

    • Você acha que está zoando alguém. Eu acho que você está perdendo tempo. Isso não gera nada de bom nem de produtivo para quem o faz, a não ser uma massagenzinha no ego muito da boba.

      Trollagem é outra coisa.

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