Vida ou morte.

+Há pouco menos de um mês, celebrou-se o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. A data foi fundamental para trazer o tema à tona. Mas depois disso, pouco se falou a respeito. O suicídio ainda é um assunto considerado tabu por muitos e, por isso, pouco discutido. Entretanto, o número de pessoas que tiram a própria vida tem avançado muito — e silenciosamente. No mundo, a morte por suicídio já é mais frequente que por HIV entre os jovens. No Brasil, o número de pessoas que se suicidaram perde apenas para homicídios e acidentes de trânsito entre as mortes por fatores externos (o que exclui doenças).

Estamos chegando no ponto onde o tabu sobre o assunto não pode mais continuar vivo. Desfavor da semana.

SALLY

Faz muito tempo se convencionou que era contraproducente falar sobre suicídios na mídia. Os motivos tinham validade na época em que essa convenção começou: dependendo da forma como se fale, a notícia poderia gerar aumento nos os casos de suicídios. Nesse contexto, não falar fazia mais bem do que mal. Além disso, se procurava poupar os amigos e familiares do suicida, pois explorar o assunto os expunha e poderia gerar uma presunção ruim contra eles, desde questionamentos, responsabilização e até acusações, fora que os motivos pelos quais a pessoa se suicidou poderiam respingar em terceiros se viessem à tona.

Mas, crescimento exponencial, o mundo mudou muito em poucas décadas. Hoje não existe mais a possibilidade de não se falar sobre suicídio. Mesmo que a imprensa tente poupar a família do suicida e esconder o suicídio para não encorajar quem já estava pensando nisso, a informação está disponível ao alcance de todos a um clique. Sites, blogs, fóruns, redes sociais e muitos outros são usados para divulgar e explorar suicídios. Pessoas se suicidam ao vivo, com a câmera do computador ligada e hora marcada, como se fosse a transmissão de um evento. Centenas de sites ensinam formas de se suicidar e alguns até vendem os medicamentos necessários para isso.

Enfim, não dá mais para segurar. É hora de falar sobre suicídio. Se o assunto vai ser ventilado de qualquer forma, que o seja também por pessoas avalizadas a falar dele da melhor maneira. Principalmente no Brasil, com esse povo que adora posar de alegre mas que se suicida de montão.

Hoje, no Brasil, suicídio é a terceira maior causa de mortes por fatores externos, perdendo apenas para acidentes de trânsito e homicídios. Sim, é um numero expressivo demais para não ser considerado. E está crescendo: se antes o aumento de casos de suicídio ficava em torno dos 3%, nos últimos dez anos disparou para 33%. Pior do que está, não fica. Precisamos falar sobre suicídio, até porque, já está todo mundo falando sobre isso, menos quem realmente deveria.

Isso nos coloca em um baita dilema, pois com uma mídia sensacionalista sedenta por cliques, que usa o choque como isca vai ser bem complicado abordar o tema com o tom correto. Muitos ainda defendem que com essa mídia podre é melhor nem abordar o assunto, mas como combater e conscientizar algo que ignoramos?

Eu mesma me surpreendi com as últimas pesquisas sobre suicídio no Brasil. Estatísticas comprovaram que quem mais se suicida são pessoas menos escolarizadas, homens e maiores de 59 anos. Era basicamente o oposto do que eu pensava. Aquela alegria ruidosa e animalesca que emana do pobre sempre me fez pensar que estavam de fato muito felizes ou alienados para conseguir se matar. Também achava que mulheres eram mais dadas a se entregar ao sofrimento, chegando mais perto desse ponto. Igualmente pensava que jovens se matavam mais do que idosos, pois a falta de maturidade os levaria para essa passionalidade destrutiva.

Sim, boa parte da mídia trataria o assunto de forma inadequada para conseguir cliques, mas não é nada que já não esteja sendo feito por inúmeros sites e blogs. Essa podridão, o suicida em potencial já tem à sua disposição: casos reais contados em detalhes, pessoas incentivando suicídio, informações sobre como fazê-lo, milhares de fotos de pessoas que se suicidaram e até mesmo comunidades que fazem pactos para se suicidarem juntos. Tudo isso já existe. Um pouco mais de merda em um oceano de bosta não vai fazer diferença.

O que não existe é uma abordagem massiva de forma responsável e esclarecedora, não apenas para quem está pensando em se matar, mas também para os pais, filhos e amigos da pessoa que está pensando em se matar. Informações que auxiliem a identificar o sofrimento silencioso, os grupos de risco e como reverter esse quadro. Eu pago o preço de ter tratamento sensacionalista para o assunto (que, como dito, já existe) para passar a ter também estas informações do bem. E, que fique claro, sou a favor de que quem quer se matar se mate, desde que bem consciente do que está fazendo, e não transtornado. Os transtornados precisam de ajuda.

Na verdade, o tema de hoje não é uma discussão sobre ser melhor ou pior falar em suicídio. É a constatação de que o assunto já vem sendo muito falado, e das piores formas possíveis, por isso é hora de abrir as portas para que uma fala mais informativa, mais esclarecedora e mais compassiva tenha voz. Abafar o assunto não é mais uma opção, a internet acabou com ela faz algumas décadas. Talvez por isso o numero de suicídios entre pessoas jovens tenha crescido em 15% nos últimos dez anos.

O que vai acontecer se esse pacto implícito continuar é que o assunto será muito falado, mas apenas pelas pessoas erradas, com a abordagem errada. Quando você pesquisa sobre suicídio no Google, as chances de cair em um site sério que te esclareça e eventualmente te demova da ideia são pequenas. Muito mais provável cair aqui no Desfavor, na nossa postagem nada educativa sobre suicídio.

Você saberia identificar um adolescente que está na beira do abismo, propenso a se suicidar? E um idoso? E uma criança? Sim, os casos de suicídio em crianças estão aumentando. Você sabia que suicídio não é exclusividade de pessoas deprimidas? Você sabe a melhor forma de abordar o assunto? Eu não sabia sobre nada disso até parar para escrever este texto. Mas você certamente sabe como evitar a proliferação do mosquito da Dengue ou os sintomas da doença, certo? Uma informação massificada pela imprensa, campanhas de esclarecimento, entram quase que por osmose em nossas mentes. É hora de falar sobre suicídio.

Vai acontecer? Provavelmente sim, mas vai demorar, como qualquer evolução social no Brasil. Faça a sua parte por uma sociedade menos titica (ou para cuidar quem você gosta), se informe e converse sobre suicídio. Leve esta informação para outras pessoas e tente ajudar quem precisa de ajuda. Não vai demorar até curiosos da sociedade civil como a gente prestarem melhores informações do que a mídia no geral. O poder é de vocês, basta coloca-lo em prática.

Para reclamar, confundindo assunto sério com assunto chato, para dizer que acha compreensível que brasileiros se matem ou ainda para sugerir que nós nos suicidemos: sally@desfavor.com

SOMIR

Sempre me foi complicado entender qual exatamente era o problema da sociedade humana com a ideia do suicídio. O direito a própria vida deveria ser o mais básico de todos, nenhuma posse mais inalienável do que o corpo. E aí, divaguei por diversos caminhos… o mais simples é aquele baseado na humanidade como gado. Que pessoas que detém poder sobre outras não gostam da ideia do seu rebanho tomando essas liberdades. Se a existência de alguém gera o trabalho e o consumo necessários para o seu modelo de negócios, faz sentido que você queira preservá-la.

Até por isso a maioria das religiões modernas e virtualmente todos os sistemas políticos do mundo têm restrições à ideia da pessoa poder se matar quando quiser. Um mundo que cresceu com a ideia de desenvolvimento infinito, baseado no aumento da população produtiva, com certeza não está aberto ao suicídio diminuindo o tamanho do rebanho. O status quo se baseia na força dos números. E, claro, dependendo de quantas pessoas eram dependentes do suicida, ele deixa nas mãos do resto uma responsabilidade que até então era sua. Suicídios podem deixar órfãos, em todos os sentidos.

Mas nem só dessa visão utilitarista vive a sociedade. Somos humanos, difícil não nos doer a ideia de perder uma pessoa querida para sempre. Difícil até mesmo pensar sobre o estado em que sua vida está para que ela contemple a possibilidade. Ou mesmo lidar com a distância entre o que cada pessoa concebe como impossibilidade de continuar vivendo… existem muitas variáveis aqui na relação entre o suicida e as pessoas ao seu redor. E não vamos mentir: dá um trabalho considerável até mesmo ajudar quem está chegando nesse ponto.

Suicídios não são bons para os negócios, e são fonte de muito incômodo prévio e póstumo para as pessoas que vivem ao redor do suicida. Via de regra os tabus são assuntos difíceis o suficiente para não ter uma resposta clara, mas fáceis o suficiente para que praticamente todo mundo entenda como eles se desenvolvem. O suicídio se encaixa perfeitamente nesse ponto. Até porque a base dessa ideia de dispor da própria vida para alcançar algum conforto permeia diversos outros aspectos das nossas vidas sem exatamente soar como vontade de se matar, ou nem de se matar de uma vez só.

Numa vida complicada como quase todos nós vivemos, de tempos em tempos surge a vontade de acabar com tudo o que nos faz mal, de uma pancada só. Vocês vão me achar maluco, mas entretenham a ideia por algumas frases: de uma certa forma, o suicida e a pessoa que sonha ganhar na loteria estão partindo de princípios muito parecidos. O de dar um golpe só na realidade que vivem e incomoda e criar uma nova realidade mais agradável. Claro que quem deseja o fim das suas dificuldades com o fim da vida está considerando uma via inescapável, e deve ser tratado com cuidado pelos que estão ao seu redor, mas acredito que pouca gente trate a ideia do suicídio por essa base mais “aceitável”.

A dificuldade acentuada de tratar do tema tende a gerar naquele que contempla acabar com a própria vida uma sensação terrível de inadequação. A pessoa se sente ainda pior por estar pensando naquilo. O silêncio e o incômodo ao tratar o tema só reforça na cabeça da pessoa que ela está totalmente desconectada do mundo, que não há mais caminhos para reaproximação com outros seres humanos. Mas, se pudermos falar livremente sobre isso, talvez a ideia de que é natural querermos fugir do que nos faz mal e que a maioria das pessoas pensa em acabar com tudo de tempos em tempos possa fazê-la se sentir mais… humana. Mais parte desse mundo.

A noção de que ninguém aguenta viver no sacrifício o tempo todo é tão natural que tiramos férias e existe uma gigantesca indústria do lazer. Boa parte da nossa economia baseia-se em dar alternativas para as pessoas saírem de suas vidas cotidianas por algum tempo. Sim, todo mundo fica de saco cheio do que está vivendo, é inescapável. O que acontece no suicida, por uma série de motivos relevantes para ele, é a ideia de que melhor do que férias, o ideal é demitir-se de vez. O suicida não é uma mutação irreconciliável do ser humano, é só mais um de nós que por uma soma de fatores perdeu o impulso de voltar para a vida depois de conseguir um tempo fora dela.

E tem gente nesse mundo que realmente tem muita razão em não querer voltar, até por isso a eutanásia tem nome próprio. Não é só pra evitar a palavra “ruim”, é o conceito diferente mesmo. E eu também acredito que caso a pessoa tenha a claridade mental necessária para tomar essa decisão e possa fazê-lo sem forçar a sua escolha pra cima de outros, deveria ter toda a liberdade para tal. Nada mais seu que seu corpo. O que preocupa, e preocupa muito, são os dados que sugerem que não são pessoas com claridade mental necessária tomando essas decisões.

E aí faz muita falta a honestidade sobre o tema. Se um número suficiente de pessoas falarem sobre o assunto, temos a capacidade de disseminar a informação até mesmo para quem não consegue destrinchar um texto como o meu, por exemplo. Fica a impressão de que no final das contas, o tabu sobre o assunto suicídio mata mais pessoas do que as dificuldades da vida.

Para dizer que foi a motivação que não precisava, para dizer que considerou se matar pela chatice, ou mesmo para dizer que a analogia com férias foi a coisa mais insensível que eu escrevi (obrigado!): somir@desfavor.com

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Comentários (4)

  • Interessante a abordagem do Somir de qie o tabu pode gerar a sensação de inadequacao e que o contrário também é verdadeiro: falar sobre suicídio ajuda a diminuir os casos.

    (Sempre soube que os idosos estão no topo da lista)

    Então vamos sim quebrar o tabu.

  • (…) para dizer que acha compreensível que brasileiros se matem (…)

    Dependendo do grau de “submissão à ditadura da alegria” ou “…dos vizinhos” (…)

    (…) para dizer que a analogia com férias (…)

    Acabei de pensar “liberdade de cair fora” ou “…de turismo definitivo” (mais) no(s) sentido(s) concreto(s), já que verdadeira(s) liberdades(s) de viajar / migrar (talvez) causariam tanta (boa) barganha…

  • 33%??? Sério que de cada 10 pessoas 3 tão metendo o pé da vida? Cadê a lenda de que brasileiro é feliz? Só se for no Facebook! Cadê a lenda religiosa que se suucidar deus castiga? Tempos mudados e que merda de país!

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