Voto pingado.

No Paraná, a Lei Seca foi derrubada na eleição de ontem. Ou seja, a venda de bebidas alcóolicas, proibida no resto da nação nesse dia, foi permitida por lá. Sally e Somir bebem de fontes diferentes para analisar este fato. Os impopulares dividem sua dose de sabedoria.

Tema de hoje: a Lei Seca deveria existir nas eleições?

SOMIR

Ultimamente eu ando gostando bastante das decisões vindas do judiciário paranaense. Cruzando os dedos para o pedido de prisão do Lula vir logo… mas, enquanto Moro não assina este papel, gostei de ver a decisão de retirar a proibição de vendas alcoólicas no dia da eleição por aquelas bandas. Mas se você concorda por sentir falta de poder comprar uma cervejinha um ou dois domingos a cada dois anos, não somos do mesmo partido. Pra mim é tudo questão de bom senso.

Não sou jurista, não sou nem formado em direito, não me posiciono de forma alguma como autoridade nessa área, mas não estou querendo ir muito longe não: leis são baseadas em senso comum. Nem sempre um bom senso comum, mas são pensadas na média. Se o povo parece muito idiota, as leis acabam sendo feitas com isso em mente. Por isso eu até entendo o ponto contrário ao meu, um povo meio selvagem feito o tupiniquim precisa mesmo que leis digam-lhe o que deveria ser óbvio para uma pessoa suficientemente educada.

Presume-se que uma pessoa capaz de entender sua realidade não vá se embebedar antes de votar. Presume-se também que entende seu papel na construção do sistema político. Mesmo assim, é proibido vender álcool e o voto é obrigatório. Essas leis não existem na Noruega, por exemplo. A ideia então é que o brasileiro não faz nem mesmo o básico se não for obrigado. E disso eu não discordo. De forma alguma estou dizendo que o brasileiro é maduro o suficiente para ficar sóbrio por algumas horas e ir votar porque ambas as coisas lhe parecem civilizadas. Mas, também estou estendendo o senso comum até o realismo de que a Lei Seca é irrelevante.

De uma certa forma, legislar é parecido com programar. Escrever um código de um programa é a arte de fazer o máximo possível com o mínimo possível de enrolação: se vários botões do seu programa fazem a mesma coisa com pequenas diferenças, é mais inteligente escrever tudo o que é parecido uma vez só e só colocar nos botões o que eles fazem de diferente desse ponto em comum, ao invés de ser redundante e escrever tudo desde o começo pra cada um dos botões. Não estou bêbado, a analogia aqui é a seguinte: em qualquer sistema, computacional ou humano, a melhor coisa que você faz para ele ser eficiente é cortar tudo o que não precisa estar lá para ele funcionar como esperado.

Fazendo mais uma comparação fanfarrona, a Lei Seca é como um carro que vem de fábrica com um botão que o impede de passar da velocidade legal. Se você apertar, pode ser muito útil pra toda a sociedade. Mas, o tipo de pessoa que apertaria esse botão realmente é o tipo que precisa dele? Eu não discordo que esse povo não tem nem a capacidade de achar um problema passar pelo dia da eleição sem estarem bêbados, mas, é esse povo que vai respeitar algo como a Lei Seca? Tanto que… muitos lugares simplesmente não respeitam, e na média o povo dá a volta nisso. Domingo de eleição é dia de churrasco com cerveja! As pessoas sabem que não vende no dia, então compram antes.

E se você realmente quiser, sempre acha um bar que está vendendo. E… se quiser encher os cornos e ir votar, normalmente pode. Não sei como as coisas são em cidades muito maiores, mas pelas minhas bandas de cidade média/grande, não tem nem polícia nas sessões eleitorais. Não estou dizendo nem que entendo a cretinice de não conseguir ficar sóbrio nem por meia hora enquanto vota, mas estou usando o bom senso: BM é tão BM que não está pronto nem pra ser proibido de beber no domingo de eleição!

A lei vira aquela redundância do código. E como esse tipo de sujeira na programação, a lei que não soma realmente na funcionalidade da sociedade começa a deixar as coisas mais lentas e complicadas. Quando as pessoas sabem que não podem comprar cerveja no bar num dia, percebem a oportunidade de se juntar para beber em ambientes privados. Gente que nem ia encher os canecos nesse domingo acaba aproveitando a condição criada pelos seus conhecidos que não aguentam não estar bebendo num bar naquele momento. E vamos entender a mente humana: só o fato de ser proibido já deve deixar a cerveja mais gostosa nesse dia. Natureza humana e jeitinho brasileiro: um combo maldito.

O que a decisão de mandar a Lei Seca pras cucuias faz é admitir que estamos trabalhando com uma legislação mais complexa do que deveria ser, infelizmente pela incapacidade do brasileiro até mesmo de perceber que está sendo proibido por um motivo. Como estou cheio das analogias hoje, mais uma: Lei Seca no Brasil é colocar de castigo o cachorro por ele ter mijado no lugar errado no dia anterior. O animal é simplesmente incapaz de conectar a restrição com o problema que ele causou! O brasileiro, arrogante, acha que estão enchendo seu saco sem motivo e decide que a lei não é pra ele.

O maior problema dessa lei é a escala enorme que ela tem na vida cotidiana de um povo aliada a falta de compreensão de sua função. Eu queria mesmo viver num mundo onde ela não fosse peso morto, mas é. A proibição não resolveu o problema das pessoas beberem no dia da eleição e com base nas coisas que são eleitas por aí, não tem relação nenhuma com consciência e capacidade cognitiva mínima na hora de votar. O que essa lei está fazendo nesse mundo então? É código desnecessário. Faz o programa rodar mais lento.

Eu acredito de coração que legisladores inteligentes reduzem o número de leis ao invés de adicionar. É até um alento ver alguém fazendo isso no Brasil, a terra de criar leis novas a cada comoção popular! Então, sim, menos leis, leis mais inteligentes e abrangentes. O suposto oásis de um dia sem brasileiros médios tomando péssimas decisões não passa de uma miragem… não é ser derrotista, não é ser nem idealista de achar que esse povo consegue resolver seus problemas sem o poder público teimar muito contra a natureza cagada do jeitinho nacional. Isso tudo é sobre ser realista. A realidade é que policial podia muito bem não ter que se preocupar em vigiar bar num dia como esse.

Regras desnecessárias fazem o sistema rodar mais lento. Um dia o brasileiro talvez mereça uma lei dessas. E só depois disso que podemos sonhar com não precisar pelos motivos certos.

Para dizer que quando for pra falar de editar foto você me escuta, para dizer que eu disfarço bem só querer ir pro bar no domingo, ou mesmo pra dizer que prefere que liberem mesmo só pela ilusão que é tudo culpa da pinga e não burrice: somir@desfavor.com

SALLY

Não é sobre a qualidade voto, bêbado ou sóbrio, o brasileiro defeca na urna desde sempre. Não é o fato de estar sóbrio que vai fazer alguém votar melhor. É pela ordem pública, pelo fato de ser um povo mal educado por natureza. Qualquer aglomeração de gente em qualquer lugar fica pior se tiver bebida liberada. A diferença é: eu posso evitar de ir a uma boate, mas o Poder Público me obriga a ir até a urna, então, que ao menos assegure um mínimo de civilidade nessa hora.

Sinceramente, nem entendo o motivo de tanto debate sobre isso. Uma vez a cada 4 anos você não pode comprar sua cachacinha no bar da esquina de casa. GET OVER IT. Eu não posso ligar as trompas se meu marido não AUTORIZAR, de acordo com lei, então, se vamos discutir o ridículo de proibições, eu tenho uma lista de prioridades na frente da sua cervejinha.

Por mais que o brasileiro tenha merda na cabeça, acho uma questão de vergonha na cara que não se permita que votem bêbados e que se tomem algumas medidas para tentar minimizar isso. É um povo sem responsabilidade, então, tá certo proibir de vender e consumir álcool em um dia em que se decidirá o futuro do país. Uma pena que isso seja necessário, mas, convenhamos, é. Não dá para contar com o senso de responsabilidade das pessoas.

A pessoa pode beber em casa? Em termos. Para isso precisaria se planejar e comprar sua cachacinha com antecedência, coisa que já elimina metade desse povo que deixa tudo para última hora. E, mesmo assim, é proibido vender ou consumir álcool. Se espertão bebe em casa e vai bêbado votar, pode ser preso. Então, acredito que atue sim como forma de coibir, ainda que não totalmente, a conduta.

Essa restrição é ainda mais necessária em tempos onde descontrolados encaram política como futebol: com revanchismo, com raiva e desrespeito pelo oponente. Imagina que lindo liberar bebida e grupos de partidos políticos “rivais” se encontram na porta de zonas eleitorais? Vai dar pouca merda, né? Sóbrios, manifestantes já andaram enfiando a porrada uns nos outros, imagina esse povo inflamado por bebida. Não, obrigada.

Pessoas são obrigadas a ir votar, não é facultativo, então, o Poder Público tem a obrigação de zelar pela segurança e bem estar de quem está lá. Não vejo como consigam fazer isso com hordas enfurecidas e bêbadas de partidos rivais se pegando na porrada ou gritando, ou te assediando ou te enchendo o saco com papo sobre candidato. Também não vejo como fazer respeitar normas que exigem discernimento, como a proibição de boca de urna, por pessoas bêbadas, sem filtros e sem compreensão.

Em países civilizados, certamente essa regra não seria necessária. O Brasil é uma país civilizado? Não, né? Essas pessoas que perguntam no Ei Você se podem se enforcar com papel higiênico ou que vem aqui nos comentários contar que enfiaram um gnomo de gesso que estava no jardim no cu e agora ele está entalado podem ter discernimento para usar qualquer tipo de substância que altere a consciência em dia de eleição? Me parece que não.

A Madame aqui de cima tem essa mania de achar que se liberar tudo, a sociedade se autorregula. Discordo. Se libera tudo vira uma barbárie e se coloca em risco não apenas a ordem pública como também pessoas que nos são queridas, que podem ser dano colateral nesse processo. Regras são necessárias e, quando mais involuída uma sociedade, mais regras ela precisa. Não se resolve abolindo regras e sim educando.

Eu não apenas acho necessária a restrição, como ainda acho que em qualquer evento que envolva aglomeramento público do qual eu seja obrigada a participar (principalmente se envolver todas as pessoas do país) deveria ter restrição a consumo de bebida alcoólica. Você que é mulher, conta aí como é um aglomerado de gente com álcool liberado. Abolir regras antes de educar é prenúncio da desgraça.

E, se você pensar racionalmente, essa restrição só fode mesmo com quem é idiotão e bebe até ficar bem bêbado e inconveniente. Se você bebe uma cervejinha em casa, nada te acontece, não tem bafômetro na urna. Quem se fode e pode acabar preso é o babacão que bebeu a ponto de dar vexame e tumultuar sua zona eleitoral, arrumando briga, confusão ou vomitando na urna. Esse, que deixa bem visível ter bebido, é quem acaba preso. Tá super certo que esse tipo de elemento seja punido. Nem eu nem todas as pessoas que votam são obrigadas a sofrer as consequências desse transtorno. Por isso, acho muito bom que neguinho tenha sim um temor de encher os cornos em dia de eleição. Vai chegar bêbado e fazer arruaça? Pode receber voz de prisão. E será muito bem feito.

O Brasil não é o Somir, não sou eu, não são vocês. O Brasil é gente que enfia embalagem de desodorante no cu, vai ao pronto socorro e diz que tropeçou e caiu em cima. O Brasil é gente que acredita que reza cura câncer e suspende tratamento médico. O Brasil é gente que acha que o país estava melhor na época da ditadura.

Então, meus queridos, a pergunta de hoje não é o que você acha mais adequado para pessoas como você e sim o que você acha mais adequado para a grande massa brasileira. Qual a melhor forma de conduzir pessoas que assistem Faustão, pessoas que acham que mulher mereceu ser estuprada por causa da roupa, pessoas que votam em troca de uma dentadura. Sério que vocês acham que dá para dar liberdade?

Foda-se o conteúdo do voto, eu sequer acredito que o voto valha alguma coisa nas urnas eletrônicas. É questão de ordem pública. É para não virar baderna, é para ter algum limite, para neguinho ter algum receio de aparecer lá totalmente embriagado e causar qualquer tipo de tumulto ou confusão. É norma de contenção social de um povo sem limite e sem educação.

Estamos falando de uma situação concreta, prática. Não de divagações sociais e especulações em abstrato. Brasileiro precisa de limites sim, principalmente em situações de aglomeração + rivalidade. Se na roça onde a Madame mora os caipiras são tranquilos, sinto informar que isso não é regra, é exceção.

Para dizer que está cagando porque chegou a um ponto onde se recusa a votar, para dizer que tem que liberar pois para votar nesses candidatos só muito bêbado ou ainda para divagar sobre politica em vez de responder à questão proposta: sally@desfavor.com

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Comentários (12)

  • E falando em eleições, Sally: Foi eleito em Valsador, com cerca de 11.000 votos, o tal do Igor Kannário, o “príncipe do gueto”. Um pagodeiro do tipo baixo astral, que, pasme, é envolvido com o TRÁFICO DE DROGAS. Isso mesmo, um zé droguinha, um zé trafica em plena câmara de vereadores da capital dos absurdos do Brasil, chamava Valsador. E pasme mais uma vez, quem apoiou ele foi ninguém mais ninguém menos do que o também eleito prefeito da cidade, o coronelzinho-neto. E pasme novamente, o que mais vejo é gente comemorando o coronelzinho-neto (iludidos com a maquiagem mal feita e vagabunda que ele fez na cidade, só pra enganar o BM daquelas bandas) se omitindo do fato, já que o prefeito de estimação deles apoiou o canalha. O povinho merece, o coronelzinho-neto e o zé trafica. As pessoas criticam quem votou na Dilma, mas votam em neto e nem ligam que ele apoiou o zé trafica “do gueto”. Como que uma cidade assim vai pra frente? Nunca!

      • Infelizmente tenho de dizer, Sally: Sim, é o esterco tatuado. Valsador, que nunca foi grande coisa em termos de moral, assinou seu atestado de ser mais podre do que carniçad e urubu. Quando me picar daqui, me pico pra todo sempre. Desta terra eu não quero nem levar o pó dos meus sapatos…

  • Poxa, adorei os textos de vcs, e o seu, Sally, foi bem no ponto: Brasileiro é um povo incivilizado, selvagem mesmo. Não sabe se comportar e ainda põe filho no mundo (no país) e ainda por cima perpetua a própria má educação e incivilidade para as novas gerações de BMs. Ontem mesmo, eu e minha família fomos votar em Valsador (depois de tanto inconveniente com zonas que parecem uma verdadeira zona (Bem, Valsador é uma verdadeira “zona” gigante a céu aberto) quando se vota mais cedo, optamos em votar lá pras 16:30, perto de fechar, quando os BMs brasileiróides baianóides já votaram e já estariam lotando as praias (sujas e poluídas) desta cidade selvagem. Pois bem. Nem assim nos livramos de um verdadeiro bacanal de som alto, seres repugnantemente mal educados, rebolando até o chão, bêbados com som nas alturas, tomando praticamente metade de uma rua já bem estreita, transversal da avenida principal do bairro, bem ali, pertinho do nosso local de votação. Pra vc ver como baiano médio é, se comportando como macaquitos de quinta categoria. E é este povinho que fica chorando em redes sociais falando de “preconceito” e outros “cards” politicamente corretos. É, tem que restingir sim, a Bahia e o Brasil não foram feitos para legislação enxuta, tem que proibir sim, senão dá mais merda do que já dá.

  • Eu nem sabia dessa proibição.

    Por muitos anos tive o hábito de, em dia de eleição, ir votar e na volta parar no bar que meu pai freqüentava, e onde ele me levava quando criança, pra tomar umas cervejas e reencontrar velhos conhecidos. Porque esse bar ficava no caminho de onde eu voto, numa direção que não tenho muito o hábito de ir.

    Esse bar não existe mais, não sei se a dona do bar não sabia dessa proibição ou se ela sabia e não se importava. (Mas provavelmente sabia, porque tinha vereador e assessor de vereador que também iam lá beber em dia de eleição.)

  • Eu deveria ter fotografado a zona onde votei. Em menos de 50 metros da zona infernal, um boteco lotado, com homens e mulheres ( com crianças) bebendo livremente, ao som de breganejo. Meu vizinho, candidato à reeleição, fazendo boca de urna na porta da escola. Mesarios e assistentes mais perdidos que cego em tiroteio.
    Proibir ou liberar tanto faz….neste país as regras não valem nada.

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