Mídia manipuladora: 2016

TEXTO ORIGINAL

Resolvi caprichar e fui buscar meu primeiro texto solo no desfavor. Depois de oito anos, não foi só o meu modo de escrever que mudou consideravelmente, mudou o mundo de tal forma que eu tenho que rever basicamente tudo daquele texto. Então hoje falamos da mídia manipuladora… versão 2016.

Manipular é o ato de interagir e controlar um objeto usando as mãos. Mas evidente que usamos com maior frequência a definição abstrata de fazer isso com outras pessoas. Manipular não deixa de ser objetificar o outro, pensando dessa forma: uma pessoa cujas escolhas são feitas por um terceiro talvez esteja mais para uma ferramenta do que para um humano. Ela age para realizar os desejos de outra pessoa, sendo o meio para um fim.

Parece terrível, não? Ser manipulado… ninguém gostaria de ser desumanizado dessa forma, de perder o controle sobre o próprio destino e ser só um objeto das vontades e caprichos de outra pessoa. Mas, pensando bem, essa ideia está meio exagerada: ninguém é só uma coisa o tempo todo. Nem mesmo os melhores manipuladores tem a capacidade de controlar a vida de seus manipulados o dia todo, todos os dias. O controle é cansativo… não é à toa que os trabalhos que exigem obediência pagam menos que os que exigem dar ordens. Sem contar a concorrência, principalmente nos dias atuais; o que não falta por aí é meio de comunicação tentando ganhar a sua cabeça e te incentivar a agir de uma forma ou outra.

A condição de ter um manipulador incansável e exclusivo simplesmente não acontece na vida real com a frequência necessária para nos preocuparmos com isso. Somos todos manipulados, mas é tão diluído e inconsistente que me parece estar gerando o efeito oposto: ao invés de ter uma mão poderosa nos fazendo pensar e agir de uma forma específica, estamos tão perdidos com essa “bolinação” de incontáveis mãos nos dias atuais que o ser humano está se voltando para dentro para achar qualquer senso de posicionamento. O efeito colateral da era da comunicação, surpresa, surpresa… é o isolamento.

Sim, eu escrevia de forma mais compreensível em 2008. Mas em minha defesa, era bem mais fácil pinçar ideias claramente manipulativas com adesão suficiente do grande público. São só oito anos, mas que oito anos… nesse meio tempo, houve uma explosão de posicionamentos sobre política e sociedade tão grande que você basicamente encontra defensores de qualquer asneira que quiser pensar em poucos cliques. E com a mídia tradicional e a internet tão mescladas, com o jornalismo diluído em guerra por audiência e notícias falsas virando uma “coisa” no mundo atual, é como se o cidadão médio vivesse numa casa com mais cem crianças hiperativas, berrando suas opiniões com vozes estridentes e choros desesperados. Até pra manipular precisa de um pouco de silêncio antes.

E aí vem o que tanto eu como a Sally criticamos nesses últimos anos: o fim do diálogo. O cidadão da esquerda não ouve nada além de berros do de direita, e vice-versa. Os ofendidos choram sem parar, os incautos afogam-se num mar de fatos inventados, e o cidadão médio preso no meio desse tiroteio acaba preferindo mesmo ver ostentação nas redes sociais. Por isso, oito anos depois, eu decreto aqui o fim da manipulação em massa.

É irrelevante você se preocupar ou não em ser manipulado por qualquer outra pessoa… se você não tem senso crítico suficiente para se defender disso, nem estaria procurando por algo manipulativo pra começo de conversa. Explico: num mundo onde uma notícia dura um ciclo de hashtags no Twitter, não dá tempo para o cidadão médio sequer escutar o suficiente para ter incutida em sua cabeça uma ideia que já não estava lá pra começo de conversa. Por isso que eu falei que as pessoas parecem estar olhando para dentro na hora de se posicionar sobre qualquer tema ao invés de aceitarem a visão do manipulador externo. Manipulação demanda tempo e o tempo está curto demais!

Por isso, quando a pessoa é exposta a uma informação externa, seja um reacionário dizendo pra matar bandido ou um politicamente correto reclamando de uma palavra ofensiva, só há disponibilidade de absorver o que já estiver mais próximo do que a pessoa já pensa mesmo e partir para a próxima. Se você ficar ruminando demais sobre qualquer tema nos dias de hoje, ninguém mais nem sabe do que você está falando. A notícia já mudou, a piada já ficou chata, a histeria já tem outro alvo! Então, ou você vai com o que já tem, ou vai ficar pra trás.

E é aí que vemos a “nova mídia” começando a dar um show na velha. Vejamos a eleição americana, por exemplo: a mídia tradicional fez o diabo pra empurrar uma candidata e tinha certeza que estava funcionando. Lógico, eles só escutavam eles mesmos… ninguém estava manipulando pra fora da própria cabeça. A mídia tradicional em 2008 até conseguia alcançar quem não pensava igual, mas em 2016 isso se tornou impossível, pelo menos usando os mesmos métodos do passado. E do outro lado, mais de cinquenta milhões de americanos que não queriam saber de nada além que reforçava sua visão aterrorizada sobre os rumos da nação. Discurso de medo e inimigos comuns funciona muito bem com quem está se manipulando a ver problemas em todos os cantos. Os próprios defensores do Trump tomaram um susto quando viram que ele ganhou… o mundo já tinha entrado nesse modelo de isolamento mental, mas até por isso, demoraram demais para perceber que os outros pensavam igual.

A nova mídia – vulgo a baseada na internet e redes sociais – já vem de fábrica sem a menor preocupação com manipulação. Vamos entender o seguinte: quando a mídia tradicional queria empurrar uma mensagem, o fazia com um mínimo de discrição e cuidado para não parecer que estava inventando descaradamente um fato ou argumento. A mídia da internet e das redes sociais está pouco se lixando para ser comedida ou mesmo correta no que anuncia ou denuncia: eles já sabem que quem vai ver é quem separou um tempo da sua vida para buscar o conteúdo que disponibilizam e assim como quase todos nós, está de saco cheio da bagunça de opiniões que infesta a internet. São pessoas que só querem escutar algo parecido com o que já pensam… não é manipulação dizer para alguém que acha que a polícia bate pouco em bandido que o Brasil precisa da volta da ditadura. Combina! E quando mais exagerado e dramático esse discurso vier, melhor. Condensa ainda mais a ideia e economiza tempo valioso na vida dela. Essa nova mídia não está nessa para dominar as escolhas das pessoas, e sim para dar-lhes uma dose cavalar do que elas querem escutar.

Mas mesmo com essa atualização da análise, até o meu insert machista fazendo pouco do poder de manipulação sexual feminino combina: a mídia tradicional tentava te manipular, essa nova iteração dela só abre as pernas da forma mais vulgar que puder. E mantenho o ponto central: não tem nada de errado em lidar com material manipulativo se você tiver a disposição de prestar atenção nele. Alguém, que como eu, perde tempo valioso da sua vida para escrever algo mais moderado na esperança de colocar uma ideia na sua cabeça sem que ela necessariamente combine com sua visão de mundo tem uma função muito importante, goste ou não você do que está escrito aqui.

E essa função é expandir sua leitura da realidade. Eu já li textos manipulativos de gente que tem pontos de vista que eu considero abomináveis, e até com alguma esperança de ser vencido pelos argumentos deles. Afinal, se você der espaço suficiente para uma ideia nova entrar na cabeça e ela bagunçar tudo o que está lá dentro, começa um processo de descobrir o que está errado: o que entrou ou o que você já acreditava. Aceitar a manipulação ideológica alheia de braços abertos não significa que ela vá mudar suas escolhas, só quer dizer que de tempos em tempos você vai “treinar seus anticorpos mentais” para manter uma mente saudável, capaz de manter e mudar ideias de acordo com o que você entender ser melhor.

E agora, com uma bagagem de centenas de textos após o meu primeiro solo, posso dizer até que o desfavor é muito manipulativo, e isso é excelente! Morro de medo do dia que isso virar uma câmara de eco de opiniões e comecemos a berrar cada vez mais alto para satisfazer nosso público. Pode ser chato encarar um texto como esse, bem mais chato que o que eu escrevi há oito anos atrás com várias piadinhas e referências, mas pelo menos dessa vez eu estou tentando te manipular ao invés de bater nos que discordam e afagar os que já concordavam comigo.

No final das contas, manipulação sobrou para quem tem paciência de ler um texto desses. Porque o resto? O resto já decidiu faz tempo o que vai pensar. Vamos ver um aumento considerável de pensamentos e movimentos reacionários justamente por isso. O ser humano sem manipulação é medroso, egoísta e complexado, como… uma pessoa sozinha costuma ser. Vamos nos proteger da tempestade com muita manipulação, prometo que faço minha parte!

Eu espero que em 2024 eu refaça este texto, e com uma conclusão menos desanimadora.

Para dizer que não é a mesma pessoa que escreveu os dois textos, para dizer que surpreendentemente é a mesma, ou mesmo para dizer que não sabe se deve concordar comigo ou não: somir@desfavor.com

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Comentários (2)

  • Faz tempo que não me deixo manipular. Especialmente pela mídia aberta.

    Mas não ha como fugir da manipulação subliminar…

  • Não sei… por mais que as pessoas hoje se cerquem de notícias e opiniões que já sejam de seu agrado acho que existe muita manipulação dentro desse meio (Simpatizante – página que reverbera a opinião simpatizada).
    Exemplo: Jovens que se sentem caridosos e progressistas tendem a aderir a páginas de esquerda, como a Quebrando Tabu, e dentro deste meio são manipulados e influenciados em aspectos que muitas vezes não dizem respeito a sua simpatia inicial.

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