Million Dollar Extreme

Com toda essa conversa de “alt-right” – a suposta nova face da direita nos dias modernos – tanto nos EUA como no Brasil, pode ser uma boa hora para você conhecer um grupo de humor chamado MDE (Million Dollar Extreme), talvez não como uma indicação (explico a seguir), mas como uma forma de exemplificar como a sociedade moderna está ficando especialista em achar cabelo em ovo…

O MDE surgiu há vários anos, encabeçado por Sam Hyde, Charls Carroll e Nick Rochefort nos EUA, e viveu uma história de problemas desde seu começo no Youtube, o canal sendo deletado várias vezes e toneladas de vídeos desaparecendo, só para serem recuperados por fãs teimosos vez após vez. Como tantos outros grupos, eles fazem esquetes cobrindo todo tipo de assunto que acreditam poder tirar sarro. Mas, existem algumas peculiaridades na hora de descrever o que acontece nesses vídeos: muitas vezes o estilo deles é chamado de “anti-humor”. E esse conceito é complicado de definir na prática.

Talvez exemplos funcionem melhor: o primeiro vídeo que vi deles era uma série de entrevistas de rua em bairros hipsters de Nova Iorque, onde eles fingiam que faziam parte de programas de moda e grifes descoladas para ridicularizar “sutilmente” as vítimas da moda locais. Detesto usar esse tipo de expressão, mas é um tipo de humor bem mais dependente de você entender o contexto da sátira/crítica do que ficar esperando a piada chegar. Porque muitas vezes ela não chega. Cansei de ver esquetes deles cujo humor estava na ideia de fazer aquele esquete muito mais do que no conteúdo dele.

Durante vários anos, os vídeos estavam apenas no Youtube e em arquivos esporádicos na web, o canal deles (se ainda está de pé) tem centenas de horas de material, com diferentes graus de produção. Desde longos programas de mais de uma hora simulando um show de variedades até clipes virtualmente incoerentes usando um estilo gráfico muito único. Não é como se eles fossem completos desconhecidos, mas as coisas começaram a mudar de figura mesmo quando ganharam uma temporada no Adult Swim, a faixa adulta do Cartoon Network. Nos EUA, muito mais do que aqui, o Adult Swim é uma incubadora de desenhos e séries non-sense que fazem sucesso entre o público de jovens adultos.

Claro, não houve muito estardalhaço na estreia, basicamente só os fãs de longa data que perceberam o potencial de dar espaço em TV e verba de verdade para eles produzirem conteúdo. O que saiu disso, na minha opinião, foi tão espetacular como incompreensível. São cinco episódios de em média 20 minutos, seguindo o padrão de comédias de esquetes, com segmentos variados ocupando o espaço do show. Não se sabe se eles vão ser renovados, mas seria uma pena se não acontecesse.

O meu preferido até aqui foi um bloco chamado “The Wall”, onde eles simulam um programa britânico sobre mulheres que estão chegando aos 30 anos solteiras, sem filhos e com problemas na carreira. A premissa é sacanear mulheres que acham que batem numa parede da vida quando chegam nessa idade. Parece uma premissa sem graça, e talvez seja se você não tiver o mesmo gosto pelo humor escroto e malvado deles. Não tem muitas piadas no meio do programa, mas só a ideia de gastar tempo (porque deve ter dado um trabalho do cão) e verba pra fazer uma crítica azeda dessas às mulheres em pelnos dias atuais. Como eu disse, até meio babacamente antes: tem que entender o contexto azedo e cínico para entender como humor.

Por isso eu comecei o texto dizendo que não é exatamente uma indicação, porque além de ter que entender inglês (não vi legendado até agora), tem que ter o gosto honesto pela escrotice e amor por um tipo de humor que tenta o tempo todo subverter o que é uma piada, pagando até o preço de não fazer a porra do menor sentido e te deixar com cara de tacho na frente da tela para chegar nesse resultado. Complicado indicar humor cuja graça é tentar não ter graça, por isso, não me cobrem se virem e acharem uma merda. Eu consigo concordar de verdade com quem achar pretensioso (é pra caralho, mas é meio que a piada deles), mal-intencionado (muitas vezes batem por bater) e até mesmo sem graça nenhuma (eu acho que a graça está na ideia de fazer o que eles fazem mais do que na execução).

O que eu acredito que pelo menos nos una aqui no desfavor para gostar um pouco mais deles é o prazer que eles tem em sacanear minorias e mexer em assuntos incômodos. Num dos episódios, começa a tocar um clipe de pessoas felizes cantando como os judeus são demais, e termina mostrando os executivos do Adult Swim acompanhando as gravações… cutucam algo que só é cutucado mesmo na internet, e de uma forma que ao mesmo tempo é sutil e completamente na cara. Uma das coisas que eu mais gosto no MDE é essa obsessão que eles parecem ter para achar o melhor jeito possível de serem horríveis ficando no limite da dúvida sobre ser uma piada ou não.

O principal rosto do grupo é de Sam Hyde, que torna-se cada vez mais notório na internet como um dos rostos da direita alternativa, o que faz sentido pelas opiniões que expressa constantemente em vídeos próprios no Youtube e suas redes sociais, mas também só escancara como chamam de alt-right qualquer coisa nesses dias. Sam teve seu primeiro momento de fama quando sacaneou o pessoal do TED dizendo que daria uma palestra sobre quebra de paradigmas no futuro e passou a apresentação inteira falando nada com nada, vestido como um idiota e deixando todos na plateia visivelmente confusos. Também faz invasões em convenções de quadrinhos e anime, com a mesma ideia de fazer uma palestra sobre um tema querido do público, mas na verdade passando vários minutos falando asneiras e batendo nas inseguranças dos presentes.

Os outros dois estão mais contidos nos vídeos, mas a pegada anti-humor, cínica e azeda parece ser a linha que os une. Antes de terem o show no Adult Swim, fizeram coisas como criar um vídeo onde contratavam atrizes desconhecidas para uma cena e passarem o vídeo todo deixando elas confusas sobre se estavam dentro ou fora de suas personagens. Inclusive sacaneando em dobro (de forma cruel até) uma delas que era deficiente auditiva. Eu sei que é uma coisa feia, mas é a questão da ideia do quadro… a insanidade de pensar nessas coisas e realmente botar em prática.

E como sempre tiveram uma linha muito definida contra o politicamente correto e visões bem parecidas com as nossas aqui sobre várias questões do mundo moderno (eles fizeram um programa de Youtube sacaneando “exemplos de superação” que pediam dinheiro para realizar seus sonhos em sites de vaquinhas, criticando gente tosca e sem noção independentemente do tipo de pena que recebiam da sociedade), acabaram embolados no grupo da direita alternativa, afinal, com toda a separação da mídia entre “bem” e “mal” entre direita e esquerda recentemente, basta não se render à vitimização das minorias para ser considerado conservador e reacionário…

Neste momento há uma grande pressão para cima do Adult Swim para não renovar o programa. O que é triste, até porque gostando ou não do humor deles, o material parece ser feito com uma qualidade e originalidade que simplesmente não vemos mais nesse nível de televisão. A maioria dos outros programas do Adult Swim (que não são desenhos) parecem colados com cuspe, abusando da permissividade de um público essencialmente maconhado que acompanha a faixa de programação. MDE pode ser estranho e realmente escroto e/ou presunçoso nas suas piadas na maioria das vezes, mas é um ângulo completamente diferente da média para o tipo de público que começa a alcançar.

A polêmica que os cerca parece completamente fabricada por uma sociedade desesperada por rotular as visões políticas das pessoas e colocá-las em caixinhas pré-definidas de personalidade. MDE sacaneia mulheres, negros, deficientes, crianças, idosos e homens brancos com a mesma crueldade, sua figura mais famosa defendeu o Trump (embora tenha muita cara de ser uma piada) e acabou caindo nas graças de uma parte considerável de seus defensores. Agora, começa a ser chamado de programa de humor da direita reacionária e racista, o que pode ser a plataforma para o sucesso ou mais uma “deletada” que vão receber por passarem do limite. Espero que seja a primeira, mas se os terroristas ganharam, eu pelo menos fiz você saber que eles existem.

Não indico, mas é muito bom.

Para dizer que eu só sou uma pessoa ruim que gosta de ver os outros sendo ruins, para dizer que já conhecia mas não queria ser taxado de racista e misógino por isso, ou mesmo para dizer que viu alguns clipes e me acha retardado agora: somir@desfavor.com

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