Pedra Letícia

Já pensou se fosse possível misturar Stand Up e música? Já pensou se rock não precisasse ser algo sério, ranzinza e underground? Já pensou que legal uma banda formada por pessoas que se propõe a rir de tudo e de todos, principalmente de si mesmos? Não precisa pensar mais, existe: conheçam a banda Pedra Letícia, liderada pelo maravilhoso Fabiano Cambota.

Pedra Letícia. Um nome que chama a atenção e presume algum simbolismo ou significado oculto. Porra nenhuma. Não tem significado. O nome foi escolhido por causa de uma paródia que os Trapalhões fizeram da novela “O Astro”, cuja música de abertura é “Bijuteria” do João Bosco. Na música, ele fala “Minha perda é Ametista” e o Didi cantava propositadamente errado “Minha Pedra Letícia”. Pronto, bastou para virar nome. É a cara da banda: leve, bem humorado e sem se levar a sério.

Contrariando todos os prognósticos, vieram de Goiânia e tocam rock. Talvez sejam uma das poucas bandas de rock que sobrevivem com dignidade até hoje. Não tem essa coisa chata, purista, de rock elitista ou de preconceito com outros ritmos. Essa coisa babaca de que para ser rock de qualidade não pode ser popular, não pode ser animado, não pode ser divertido. Rock pode sim conter bom humor, não precisa se encaixar em estereótipos. O mais legal é que eles não se levam a sério, não tem a menor pretensão de nada além de tocar músicas divertidas. Uma raridade em tempos politicamente corretos que sufocam qualquer criatividade que saia do mainstream.

Na minha opinião, o maior mérito da banda é a leveza e o humor com que abordam qualquer tema, marca registrada do seu vocalista e também humorista Fabiano Cambota. Quem já assistiu a um Stand Up dele sabe que a persona de caipira meio inocente, meio sem filtro, torna aceitável basicamente qualquer tipo de barbaridade que ele fale. Mais do que aceitável: fofo. Esta persona, que já serviu muito bem a outros humoristas como Danilo Gentili (que depois foi forçado a se reinventar), faz com que as piores atrocidades fiquem “fofas” nas suas músicas também. A mesma história, a mesma proposta, contada/cantada por outra pessoa poderia ficar extremamente grosseira, mas não no contexto Pedra Letícia.

A banda começou meio que de brincadeira, amigos reunidos para tocar em um bar conhecido, mais para pegar mulher e beber de graça do que com a pretensão de virarem astros do rock. E talvez esta origem despretensiosa tenha sido o grande diferencial da banda, pois desde o começo seu grande propósito não foi fama, fortuna ou imortalidade e sim diversão. Uma fórmula que quando dá certo encanta, assim como foi com Mamonas Assassinas, uma banda que só deslanchou quando parou de se levar a sério. Um dia, o bar onde eles tocavam fechou. Aí eles se viram diante de uma escolha: continuar com a banda e correr atrás de lugares para tocar ou encerrar aquele projeto cômodo de tocar no bar que pertencia a um deles. Decidiram virar uma banda, no dia 11 de setembro de 2005.

No começo, a banda tocava aquelas músicas padrão de barzinho, aqueles covers rock-balada bem melosos. Não por gostar, mas para atrair/agradar as mulheres. Como o próprio Fabiano Cambota conta em entrevistas, havia um momento do show que eles apelidaram de “Projeto Umedecer” onde tocavam músicas que sabiam ser do agrado da mulherada. Mas, como o tempo, isso começou a ficar cansativo. Perceberam que eles faziam apenas música de fundo para os outros beijarem na boca, eram figurantes que passavam despercebidos. Aí veio a grande sacada da banda: saíram do papel de figurantes e se tornaram protagonistas.

Começaram com pequenas troladas musicais: tocavam a abertura de uma música famosa que todos mundo gostava e, quando as pessoas se aproximavam do palco mudavam para algo bem inesperado, como Sidney Magal. Com o tempo, começaram a compor suas próprias músicas, com melodias que estourariam facilmente nas rádios mas com letras que fugiam completamente aos padrões.

A primeira composição foi “Eu não toco Raul”. Depois de tocar em barzinho e ouvir zilhões de vezes este pedido, resolveram brincar com isso. Vocês podem imaginar o quanto eu amo essa música, né? A letra, se dita friamente, pode até parecer rude, mas eu garanto que no contexto da música e da banda, não é. Descrevem dois hippies que pedem para tocar Raul Seixas e emenda com uma resposta muito bem humorada explicando que não tocam Raul e os motivos. Chamam Paulo Coelho de “um mago mais falso que o Menudo” e diz que não vai tocar Raul pois a banda preza pelo estilo Sidney Magal.

A primeira música deles que fez sucesso foi a engraçadíssima “Como oce pode abandona eu”. Alguém colocou um vídeo deles tocando a música no YouTube e explodiu o numero de visualizações. Na música, um caipira tosco está inconformado porque a mulher o trocou por um sujeito mais bonito e rico. Ele adverte a mulher, cheio de recalque, sobre o erro que ela está cometendo com argumentos bizarros, por exemplo, sustentando que Caldas Novas é muito melhor do que Nova Iorque, pois não tem água quente no Central Park.

A banda foi ficando cada vez mais conhecida e depois de passar pelo Faustão e pelo Jô Soares se consolidou como uma banda conhecida. Pode não ser tão popular como outras bandas, mas não dá para dizer que Pedra Letícia seja desconhecida. Não é o tipo de banda que fique massivamente conhecida, pois não tem um nicho específico de fãs. Isso fica bem claro quando você vai a um show: tem de tudo, de todas as tribos, de todas as idades, com o denominador comum do bom humor. Bem humorados de todas as tribos tem a banda como denominador comum. Chatos, babacas, ranzinzas e elitistas falam mal, e, quer saber? É um ótimo filtro. Eu gosto e quero pessoas leves a meu redor, se alguém esnoba Pedra Letícia eu já uso isso como um filtro.

E não pense que por ter humor a música é precária. Nada disso. Um dos maiores sucessos da Banda, “Teorema de Carlão”, é uma música com melodia linda, arranjos muito bacanas e que certamente teria estourado se tivesse uma letra romântica. A música nasceu como forma do Fabiano Cambota se declarar para uma amiga dele. O começo da música “Ei, você aí, isso vai mudar sua vida, então, tente me ouvir” é original. Mas, como a declaração não foi muito bem sucedida, ele avacalhou com a música e resolveu fazer uma homenagem ao Carlão, um barangueiro que trabalha com a banda. Reza a lenda que Carlão só pega mulher feia, mas feia mesmo. Isso acabou imortalizado na música, onde são dados diversos conselhos e incentivos sobre os benefícios de pegar barangas. Mais um refrão que te deixa cantando por dias. Mas cuidado, a letra pode ser meio desabonadora para sua pessoa.

São mais de dez anos de carreira, então, não dá para falar de todas as músicas. Vou falar das minhas favoritas, mas fica a recomendação para que você ouça o repertório e escolha as suas. Tem um mix bacana de ritmos, certamente você vai achar alguma que goste.

Começo pela minha favorita: “Que você se…”. É basicamente uma música desejando mal a ex. Coisa linda de se ouvir! Todo tipo de praga em uma melodia bem rock. Deseja desde coisas mais sérias como, por exemplo, que a pessoa nunca mais trepe até coisas pequenas como acabar o gás do refrigerante ou que o café esfrie. A métrica da música é muito interessante e a progressão da letra com o ritmo também. Adoro. Do começo ao fim soltando os cachorros em ex, sem pudores, sem receios, sem politicamente correto. Quem nunca se sentiu assim que atire a primeira pedra (letícia).

E por falar em politicamente correto, eles tem algumas músicas que já despertaram críticas desses chatinhos que povoam o mundo patrulhando a arte alheia. Na musica “Caretão”, Fabiano Cambota diz que não é porque não bebe álcool que é idiota, crente ou bobo (não basta ser bonito, engraçado e cantar bem, ele também não bebe, que homem…). Em determinada parte da música ele diz “vai bebendo que no final da noite você está na minha cama”. Pronto. Já teve deficiente mental acusando a música de instigar “estupro de pessoas vulneráveis”. Uma música que defende uma coisa bacana, a capacidade de se divertir sem beber, acabou virando uma referência negativa, apesar de toda a leveza e bom humor da banda. Sérios problemas mentais quem pensou isso.

Já vi gente faniquitando com a música “Resolução”, uma musica que obviamente não é para ser levada a sério: ele diz que não aguenta mais mulher e os problemas tipicamente femininos e por isso resolveu namorar um traveco, narrando os pontos positivos de namorar um homem: joga bola com ele, joga Playstation e, na falta de outro orifício, dá o cu todo dia. Mas, eu juro, a música não é grosseira, é engraçada e leve. O que se passa na cabeça de alguém para levar essa letra a sério? E, para quem tiver curiosidade, existe uma versão proibidona dela, igualmente engraçada (isso mesmo, essa que eu narrei é versão mais leve!).

A sensacional “Sou pedreiro” também já foi pintada como um desrespeito com a mulher e incentivo a cantadas. Besteira, a música é uma gracinha. Composta basicamente por um aglomerado de cantadas clássicas que toda mulher já escutou na rua, em uma melodia doce. Menção honrosa para o clipe, onde ele abre com a singela frase: “Minha querida, você não é a Ponte da Amizade, mas se eu te pego, te atravesso”. É, Fabiano… não atravessa mais, nem no sentido conotativo, porque hoje Fabiano Cambota é casado, nem no sentido denotativo, pois ele é meio que odiado no Paraguai, por causa de um Stand Up que fez falando sobre o país. Mas, ainda assim, a música é uma gracinha. Desafio você a ouvir e ao menos não sorrir ouvindo os clássicos pedrerais.

E não pensem que são músicas para se gabar. Não é essa a pegada da banda. Transitam entre uma figura desprezível em músicas como “confesso eu sou cafajeste” mas também se colocam no papel de cornos otários em músicas como “O amor não escolhe profissão”, onde um Zé Ruela namora uma puta meio que sem perceber que é puta. Também criticam sua condição de “caipiras” em “Caminhoneta zera”, onde desprezam modismos e manias do interior.

Para vocês verem a capacidade deles de leveza em qualquer tema, a música “Anos atrás” (com trocadilho) fala sobre um sujeito que reivindica o comer o cu da namorada quando o relacionamento fica sério. Esta música é perigosíssima, pois você fica cantando o refrão sem querer e, dependendo do local, pode não pegar bem. Uma vez me peguei cantando no trabalho, não foi bonito. Amo que ele encerra dizendo que “casamento é uma mera troca de anéis”. Pois é, um anel de metal por um anel de couro. A sabedoria Pedra Leticiana me acolhe a alma. Fizeram até música composta em parceria com o Danilo Gentili! “Ela traiu o rock n´roll”. Felzimente Danilo não canta, apenas participou na letra. Tem como não amar uma banda dessas?

E não pensem que tudo se resume a humor. Tem humor, mas no meio do humor também tem críticas, como na música “Lá lá lá” onde ele diz, no refrão “Eu me recuso a fazer uma canção / usando lá lá lá como refrão / pra média burra da população / que vive em frente à televisão”. Tá meio que explicado por qual motivo não é uma banda de música massificada. Em “Funcionário do mês” ele narra as agruras de trabalhar no Mc Donalds, o que, apesar de engraçado, não deixa de ser uma crítica. E a música “O menino”.. Ahhhh… “O menino” é Brasil na veia! Essa música resume o espírito do brasileiro!

Não sei se você vai gostar de Pedra Letícia, mas você precisa ao menos conhecer. É meu fundo musical via fone de ouvido para quando paus no cu do meu trabalho me chateiam. Devo confessar que Fabiano Cambota fazendo Stand Up Music (categoria totalmente inventada por mim nesse minuto) no meu ouvido melhora absurdamente meu dia. Eu simplesmente não consigo ouvir algumas letras sem ao menos dar um sorriso de tão engraçadas e inusitadas que são, então, queria dividir isso com vocês, pois pode ser que Pedra Letícia ajude a melhorar o dia de vocês também.

Caso você escute e goste, fica a dica: assista aos Stand Ups do Fabiano Cambota disponíveis no YouTube e ao excelente programa comandado por ele no Comedy Central chamado “A culpa é do Cabral”, onde fazem um mix de Stand Up e mesa redonda (você vai aprender muito sobre o Rio com o Rafael Portugal).

Pedra Letícia faz mais do que música divertida e engraçada. Tem melodias muito legais, integrantes autênticos que destoam da figura típica de uma banda de rock e, mais importante, conseguiram sair do papel de “pano de fundo” para virarem protagonistas de qualquer barzinho, festa ou show. Não consigo pensar em nenhuma outra banda que faça o que Pedra Letícia faz, esse Stand Up Musicado, essa junção de diversão com boa música, essa brincadeira saudável de rir de tudo, principalmente de si mesmos.

Fica aqui meu amor por Pedra Letícia. Se você não conhece, corre para ouvir!

Para trocar ideia sobre as músicas do Pedra Letícia, para dizer que a Record merece falir por colocar Porchat como estrela e Fabiano Cambota como coadjuvante ou ainda para posar de elitista (e pagar de idiota) com discurso exclusivista sobre rock: deixe seu comentário.

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Comentários (16)

  • Massa!
    Nem conhecia, mas gostei do que ouvi. Bem leve mesmo! Lembrou os Mamonas.

    “Contrariando todos os prognósticos, vieram de Goiânia e tocam rock.” E eu achando que de Goiânia só saiam sertanejos.

    Esse mimimi com humor chega a ser ridículo! Bando de pavio curtos, amargos e sem senso de humor.

    Repito sem demagogia: Se a Sally indicou, é bom.

  • Passo um tempo sem aparecer por aqui e quando venho: que grata supresa!

    Conheci Pedra Letícia numa finada comunidade do orkut e foi amor à primeira vista. Está sempre na minha playlist!

  • Se vivêssemos em um universo paralelo onde o Sorocaba não tivesse começado a revolução empresarial musical no Brasil, talvez esses caras tivessem um pouco mais de visibilidade fora da internet.

    • Por não ter um público clichê, um grupo comercialmente classificável, Pedra Letícia sempre vai ter esse sucesso difuso. Eu até lamentaria, mas acho que eles estão com agenda lotada, então tá bom para eles também.

  • Dizem que o seu coração/ via mais que avião…

    Fiquei muito feliz em abrir o Desfavor hoje pela manhã e ler no topo da página “Pedra Letícia”! Acho que a descrição que você fez foi a melhor possível: uma banda leve se divertindo com o que faz e sem se levar a sério!

    Momento rasgação de seda: cada vez mais eu gosto mais desse lugar!!

  • Eu sou fascinada pelo Pedra Letícia há muitos anos, mas depois de assistir aos stand ups do Cambota (que homem… 2) eu me apaixonei de vez! Eles são demais mesmo, umas das minhas bandas favoritas!

  • Assisti a um Stand Up (na tv) dele falando sobre a banda e amei.
    Depois, assisti “A Culpa é do Cabral” e viciei, já ligo a tv procurando esse programa, e me divirto horrores, até com os episódios repetidos. Rafael Portugal: sem comentários.

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