Carnaval seguro.

Você gosta de carnaval? Provavelmente não. Não gostamos de carnaval por aqui: muito suor, muita urina, muita música ruim. Pessoas andam em bandos se portando como símios, em um misto de violência e promiscuidade agravado pelo calor extremo e consequente suor. Carnaval é uma festa tupiniquim indigna e primitiva. Mas, ainda assim, apesar de todo meu desprezo, acho que vale uma análise sobre o que carnaval está se tornando.

Vamos falar de apropriação cultural. Mas não muito, no começo do mês fiz um texto só sobre isso. Você tem o desafio de achar uma fantasia não relacionada com qualquer cultura, para não correr o risco de virar alvo viralizado de ataques em redes sociais pelo rolo compressor da lacração ou até mesmo de ser hostilizado no meio da rua. O problema é: quase tudo que existe deriva de alguma cultura. Talvez se fantasiar de alienígena? Menos provável que você seja confrontado, pois um alien que tem inteligência suficiente para chegar na Terra certamente não perderá seu tempo com essa ofensa de apropriação cultural.

Também há regras para fantasia expondo corpo feminino. Pode se você for empoderada, feminista e lacradora, leia-se feia, mole, gora e peluda. Aí ok. Se for linda, em forma e despertar olhares masculinos não pode, pois é objetificação do feminino. Sim, seu corpo, as regras dela. Se você quer se objetificar não pode, será patrulhada, recriminada e esculhambada por pessoas que, em tese, estão aí para impedir que patrulha e esculhambação aconteçam com mulheres em função de sua escolha de roupas. Eu sei, complexo. Não pergunte, não rebata, elas são chatas pra caralho, não vale a dor de cabeça.

Mas, ao mesmo tempo, se usar uma fantasia que cubra muito o corpo você também pode sofrer ataques, afinal, é repressão da sociedade machista, mulher tem que sair na rua com os peitos de fora para resolver qualquer mazela social. Sim, difícil, eu sei: se mostra é objetificação, se não mostra é opressão de cultura patriarcal machista. A solução? Passar carnaval em Veneza, com pessoas civilizadas que não barraqueiam com quem pensa diferente delas.

Tem também a questão racial, muito cuidado com isso. Quem não lembra a merda que deu aquela criança fantasiada do macaquinho do filme Aladim? Tinha o pai de Aladim, a mãe de Yasmine e o menino, por sinal, adotado, ou seja, especificamente escolhido por aquela família, vestido de Abu, o macaquinho mascote do Aladim. Gerou até investigação do Ministério Público, viu? Então, cuidado, se você for negro ou tiver filhos negros, existem uma série de fantasias que você não pode usar, afinal, a luta contra o racismo taí justamente para isso: para limitar mais ainda a vida do negro. Não é recomendada nenhuma fantasia relacionada a: símios de qualquer tipo, bananas, alusão a cabelo crespo, alusão a escravatura. O lado bom é que negros estão autorizados pela patrulha pau no cu a usar turbante.

Black face nem pensar. Não importa o contexto, não pode pintar o rosto de preto nem mesmo para peça de teatro, quem dirá para carnaval. Perucas black também são um risco, pois o cabelo crespo não pode mais nem ser cantado, já que marchinhas como “o teu cabelo não nega” e músicas baianas como “escovadinha” foram banidas. Fantasia de “nega maluca” é certeza de linchamento. Evite a todo custo.

Fique de olho no politicamente correto no geral. Para facilitar sua vida, fizemos uma breve lista com os temas que podem ser objeto de sátira em fantasias de carnaval. Pode: japonês, português, argentino, políticos no geral. Não pode: judeus, negros, deficientes físicos, crianças, idosos e pessoas mortas. Mas cuidado, existem zonas cinzentas: muçulmano pode, se for com uma leitura alegre, se for segurando uma bomba não pode. Político pode se forem uma alusão a punição, atrás das grades, ou ridicularizando sua postura, como homenagem, não pode.

Fantasias nerds não serão compreendidas, mas, tudo bem, dificilmente ofenderão. O populacho associará com algo de mais parecido que conhecer. Por exemplo, se você for vestido de Tardis, pode ser que achem que está de caixa de fósforo. Se estiver vestido de Efeito Dopler, como Sheldon Cooper, acharão que está fantasiado de zebra. A gentalha bêbada encontrará algum significado. Em todo caso, sempre pode apelar para o nerd que favelizou, como Star Wars e Pokemon. Fantasias de super-heróis foram promovidas, saíram da categoria nerd e estão na categoria cool, graças à massificação de filmes de heróis dos últimos anos. Quanto mais gorda for a mulher, mais empoderada e questionadora dos padrões de beleza vigentes ela se sentirá com aquelas roupinhas pequenas e justas da Marvel.

A última novidade é que adultos vestidos de bebês no carnaval poderiam, de alguma forma, estar estimulando a pedofilia. Sim, sim, bem provável. Adulto saudável vê uma pessoa fantasiada de bebê e pensa “olha só que bacana, e se eu começar a fazer sexo com crianças? Essa fantasia me deu uma ótima ideia!”. Um perigo. Por isso, nada de fantasias de bebê ou de crianças. No aguardo de banirem o seriado Chaves da televisão brasileira.

Homem se vestir de mulher, por farra, para sair no bloco das piranhas, também não é mais bem visto. As trans, cross e todas as derivações de homens que se vestem com roupas femininas acham desrespeitoso. Homem tem que usar fantasia de alguma entidade do sexo masculino, para não debochar de pessoas que, durante todo o ano tem bilau e se vestem com roupas femininas. Homem com roupa de mulher não é fantasia, é direito e não pode ser motivo de banalização e brincadeira.

Ah sim, o Rei Momo tem que ser magro, pois é uma apologia à obesidade e às possíveis doenças que ela acarreta. E se você quiser jogar confete, trate de comprar confete ecológico, feito com papel reciclado, afinal, você sabe quantas árvores morreram para que você possa jogar papelzinho para o alto? E, por favor, nada de cantar “olha a cabeleira do Zezé”, vocês viram o que aconteceu com o pessoal do Charlie Hebdo quando brincou com Maomé, né? Todo cuidado é pouco. Bom carnaval.

Para dizer que acha ótimo que estejam matando essa festa pau no cu, para dizer que depois da quinta latinha de cerveja tem feminista de burka ou para dizer que torce mais é para ter briga entre esses animais suados: deixe seu comentário.

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Comentários (46)

  • Resumindo : Acabou o Carnaval!

    Isto mesmo, Sally. “Cu sujo mal lavado”. Esse pais fede! Não curto Carnaval, a não ser que seja a trabalho.

    Saudades da Marina e suas prosass poéticas…Alguem viu ela por ai?

    Sally, você curte ROCK? que bacana…Mas eu imagina.

  • O que me encanta no feminismo é a capacidade excessiva de cagar regras inúteis e sem efeito, e a total falta de posicionamento em situações onde as mulheres são realmente, e severamente, subjugadas: países muçulmanos onde as mulheres são meros objetos, com pouco ou nenhum direito, e sujeitas às mais cruéis violências; Nosso querido STF que acha exageiro prender por seis anos alguém que matou a mãe do seu filho, esquartejou e deu os restos aos cães (goleiro bruno). Nos dois casos, as feministas lacradoras chupadoras de cu peludo sujo NÃO DÃO NEM UM PIO com suas bocas gordas sujas de gordura de pastel de centro.

  • Hummmmm posso ser um pouco advogada do diabo aqui???? Não concordo que toda feminista seja feia , eu estou tentando tirar um monte de regras machistas que me colocaram a vida toda, mas tem uma coisa que uma amiga minha sempre diz e concordo: ” o feminismo não te dá passaporte de imunidade ” então se algo é errado para os homens tem que ser para as mulheres também, uma mulher criticando uma roupa de outra, seja ela por ser discreta ou “escandalosa” demais é preconceito do mesmo jeito… qualquer um se veste do jeito que quer….. Mas enfim talvez eu seja a exceção aqui….

    • Vi uma reportagem com uma líder do Femen onde ela relatava a dificuldade que eles tinham em achar feministas minimamente estéticas para colocar na linha de frente dos protestos. Elas mesmas sabem que o material é meio desconfigurado…

  • “Fantasias nerds não serão compreendidas, mas, tudo bem, dificilmente ofenderão.”

    Isso me lembrou de quando fui a uma festa de aniversário à fantasia, e ninguém entendeu do que eu estava vestido. Aí descobri que as pessoas não conheciam Angus Young

    • Pegou pesado. Rock é para dinossauros como eu, o povo de hoje se divide entre o pagodin, sertanojo ou pop diva gay.

  • Fantasia de Alien é uma boa idéia! Se algum ovni passar por aqui por acidente existem maiores chances de abdução!

  • “Ah sim, o Rei Momo tem que ser magro, pois é uma apologia à obesidade e às possíveis doenças que ela acarreta.”
    Ta errado, Sally. Segundo os blogs e publicações feministas-defensores-de-obesos, a C&A e outras fasts fashion erraram ao vender uma coleção plus-size que ia APENAS até o nº 46, disseram que quem veste 46 não é gorda, que tem que incentivar quem usa de 52 pra cima.
    É sério.

  • (…) para dizer que torce mais é para ter briga entre esses animais suados (…)

    Essa vontade (quase ?) passou quando lembrei de quem “se muleta em dogmas” para querer retiro “anti-carnaval”…Já que não parece que aparecerá nenhum dos dois tipos de briga(s), que seja nenhum(a) então…

  • Um dia desses eu li um desses ‘textões’ criticando as fantasias pro Carnaval, quando fui ver a cara da “manx lacradorx” que escreveu, não me surpreendi: gorda, feia e provavelmente com uma certa invejinha (ou será “invejona”) das gostosonas que desfilam em trajes mínimos.

    Nem curto o Carnaval, mas o desprezo que sinto por essa festa nem se compara com o ódio que sinto por essa turminha “empoderada” cagadora de regra.

      • “Feias”, não, Sally. Se me lembro bem de um vídeo que vi do George Carlin há pouco tempo, de acordo com o ideário do politicamente correto elas agora devem ser chamadas de “pessoas com severo déficit de aparência”…

        • Hahaha

          Pessoas com massa corporal excessiva
          Pessoas em situação de pelos aparentres
          Pessoas portadoras de flacidez
          Pessoas esteticamente prejudicadas

    • Concordo, Fernanda. Às vezes dá até vontade de passar na frente de uma manifestação dessas “empoderadas” de violão em punho e cantando só aquele trechinho de uma música do Skylab que diz : “Você é feia, é feia pra caralho…”

    • lamentável que elas disfarcem de feminismo seu ressentimento com mulher bonita
      é meio maldoso, mas é essa impressão que eu tenho

      • O conceito original de feminismo se perdeu: a ideia de que a mulher não é inferior ao homem. Está virando aval para ódio, rancor e comodismo de mulher feia que não quer se esforçar para ser uma pessoa melhor e quer que o mundo se adapte a ela.

  • Carnaval é tempo de samba, suor e cerveja: samba mal tocado, suor em excesso e cerveja quente. Ah! E agora tem também o politicamente correto pra paunocuzar todo mundo…

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    #MarineLePen2017

    não dá pra discutir, esse povo só é a favor da pluralidade de ideias que forem parecidas com as deles.

  • Sim, eu tive o desprazer de me deparar com um texto falando sobre fantasias de carnaval e apropriação cultural. FINALMENTE alguém falou sobre isso de maneira sensata porque tudo o que vi foram pessoas concordando. MEU DEUS QUE INFERNO

    *indo procurar o texto do começo so mês*

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