Comunismo robótico.

Provavelmente desde a primeira máquina que substituiu trabalho humano já deve se falar sobre o dia hipotético onde robôs vão assumir todos os trabalhos e deixar uma grande massa desempregada. E com a tecnologia finalmente chegando no ponto necessário para começarmos essa transição, já se começa a discutir qual seria o papel da automação na sociedade humana, além, é claro, de aumentar os lucros de quem produz. Também não estou sendo original nessa ideia, mas: talvez os robôs sejam a condição necessária para o socialismo finalmente funcionar…

O pesadelo distópico de uma sociedade onde quem controla os meios de produção não está sujeito às vontades de outros seres humanos é tentador de se imaginar numa visão pessimista do futuro, mas distopia não é o inverso de utopia à toa: é específica demais. Muitos fatores têm que corroborar com o desenvolvimento de um mundo onde as pessoas fiquem desesperadas por total falta de emprego enquanto alguns se tornam inimaginavelmente ricos. O ser humano é imprevisível ao ponto de nem a ideia de ganância infinita ser uma certeza entre nós.

Talvez o fim da maioria dos empregos que exijam o funcionamento do ser humano como uma máquina nos livre da necessidade de um sistema capitalista, e não o reforce como se costuma imaginar. Na verdade, eu até acredito que os robôs destroem o capitalismo sem deixar nada funcional no lugar se não soubermos nos adaptar. O perigo é que com o sistema produtivo saindo das mãos humanas, a massa desempregada inunde o setor de serviços (o que já começa a acontecer), explicitando todas as dificuldades de quem pensava como máquina em seus trabalhos repetitivos numa adaptação para uma área que exige mais capacidade de contextualização.

O mercado de serviços colapsa diante de um influxo enorme de pessoas, reduzindo a confiança do consumidor, derrubando preços entre quem presta um serviço de média qualidade e inflacionando exponencialmente os preços daqueles que tem competência acima da média. De um lado, uma maioria de desesperados oferecendo serviços tão baratos quanto podem, de outro, uma elite que se eleva da média, tornando-se inalcançável para quem já não é rico.

O que eu espero é que a humanidade consiga se adaptar de forma mais inteligente do que isso. E é aí que entra aquela história de “ir para o meio” que eu mencionei logo quando Trump foi eleito, percebendo a virada do pêndulo para uma sociedade mais de direita: faz muito sentido que estejamos desconfiados dos modelos de esquerda, principalmente na América Latina depois das crises causadas por Lula, Chávez e Cia. Agora estamos vendo uma discussão bem maniqueísta sobre direita e esquerda, mocinhos e bandidos de acordo com o lado que se olha.

Pois bem, a verdade, como de costume, é que ninguém é santo e todos os lados tem seus pontos fortes e fracos. O capitalismo é excelente para movimentar o sociedade no sentido de inovação e criatividade, mas depende de uma condição insustentável: crescimento exponencial infinito. Todo sistema capitalista tende ao desastre quando não se consegue mais criar valor no sistema para manter o número suficiente de pessoas lucrando. E vamos pensar aqui: por mais que robôs derrubem os custos de produção, eles também tiram trabalhadores do mercado, que por sua vez não tem mais como comprar produtos. Se essa gente que foi substituída não tiver como consumir, os robôs produzem para quem?

O socialismo realmente só deu com os burros n’água até hoje. Durou com alguma teimosia no século passado, mas tinha alguma coisa que não encaixava. Em tese, não é um sistema ruim não: igualdade mínima entre as pessoas, e trabalho conjunto pelo bem comum. Mas todo sistema socialista tende ao desastre quando não se consegue mais criar valor no sistema para uma distribuição “lucrativa” de recursos. Lucrativa no sentido de que todos aqueles que recebem seus recursos do Estado sintam-se no lucro por estarem sendo providos. No começo do comunismo, principalmente em sociedades muito pobres, qualquer pedaço de pão garantido é lucro. Mas o tempo passa e as pessoas querem mais.

Esse é o problema que não conseguem resolver. Mas pode ser justamente esse o problema que o pináculo do capitalismo, a produção totalmente automatizada, consiga dar cabo. Mais uma curva: o Brasil estava numa crise violenta até que um governo mais “capitalista” (FHC) conseguiu equilibrar as finanças abrindo mão do tamanho do Estado. O sistema foi muito bem até que a população deixou de ver produção de valor suficiente. Aí entra o governo “socialista” (Lula) pra pegar esse dinheiro acumulado e jogar ele de volta (seja como fosse) de volta para o povo. Novamente, o sistema foi muito bem até que a população deixou de se sentir no lucro com as esmolas que recebia.

A melhor coisa para o capitalismo é vir de um sistema socialista (vide China), a melhor coisa para o socialismo é vir de um sistema capitalista (vide Brasil – por poucos anos). Justamente pela “ilusão” de valor e lucro que a população precisa enxergar para apoiar um sistema. Tempos atrás eu escrevi um texto sobre como o melhor sistema de governo possível é aquele em que os governados acreditam piamente. Voltando da curva: num sistema com automação espalhada por todos os lados e com seres humanos relegados a prestar serviços a outros seres humanos, temos um ápice capitalista que dá uma oportunidade de ouro para o socialismo.

Com os robôs produzindo e preferencialmente já cuidando deles mesmos com inovações e manutenção, o sistema tem a chance de cobrar impostos de quem produz e reverter tudo para as pessoas. Os robôs se pagam e o excedente vira uma forma de garantir rendas mínimas para o resto da população. Quando as pessoas não tem um emprego “robótico” para seguir, convenhamos que precisa de algum tempo, talvez até umas gerações, para que elas se adaptem a uma nova realidade. E nesse meio tempo, “dinheiro grátis” pode se a melhor solução para acalmar os ânimos humanos.

Meio como tirar uma geração sabática: garantir o sustento daqueles que tentariam disputar com os robôs enquanto se prepara as próximas com a mentalidade correta para o foco em serviços. Talvez a humanidade esteja precisando de férias mesmo, um tempinho para estudar, conhecer novas pessoas e relaxar um pouco dessa bagunça toda de capitalismo selvagem. E como sempre, o sistema não dura pra sempre. Assim que for a hora de voltar, a sociedade se reorganiza pra direita de novo. Que os robôs sejam úteis na transição, porque melhores que a gente em trabalhos robóticos eles já são. E depois disso, nós começamos a nos preocupar com a inteligências artificiais que vão roubar os serviços… Mas, cada problema ao seu tempo.

Para dizer que esse texto é perfeito para te desanimar, para dizer que o carnaval realmente acabou, ou mesmo para perguntar se prostitutas robóticas prestam serviços ou se são produtos: somir@desfavor.com

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Comments (22)

  • Talvez eu seja burro demais pra compreender o texto mas na minha opinião não tem como a automação contribuir para um sistema comunista, por mais baratos que os robôs e maquinas se tornem com o passar do tempo o ser humano sempre vai ser ganancioso e acontecera uma redução da mão de obra humana porem os preços atuais serão mantidos para aumentar o lucro dos metacapitalistas.

    • Tá vendo o que você fez com a autoestima de quem te cerca, Somir? Antes de discordar de você todo mundo faz uma ressalva cogitando não ser inteligente o suficiente para ter entendido. Vasectomia, urgente, para ontem!

    • O meu argumento aqui gira muito ao redor da economia de escassez. Queremos mais e mais porque na média temos muito pouco. Enquanto o ser humano tiver a sensação constante que vai acabar dinheiro, comida ou segurança, vai manter o impulso ganancioso. Mas, e se as máquinas tornarem o processo produtivo tão eficiente que é meio que inevitável estarmos sempre com mais oferta do que demanda? Porque essa coisa de controlar a distribuição que você mencionou para aumentar lucros funciona quando os meios de produção estão muito concentrados. Impressoras 3D baratas e eficientes já começam a disputar essa realidade… tende ao comunismo não pela índole das pessoas, mas porque a produção fica espalhada de tal forma que não dá para controlar preços e distribuição. Não pense só no robô monstruoso dentro de uma fábrica isolada, mas também na peça que se produz em casa ou no seu bairro de acordo com a necessidade… uma impressora 3D não deixa de ser um robô.

    • Os preços podem até ser mantidos no curto prazo, mas os lucros acima da média sempre estimulação o surgimento de uma concorrência oferecendo algo similar por um preço menor, visando conquistar a clientela daqueles que já estão no mercado. Ou então, esses novos concorrentes oferecerão serviços mais personalizados a um preço semelhante. Ao longo do tempo, esse efeito tende a empurrar a média geral dos preços para baixo.
      Ao menos, é assim que funciona em mercados mais livres.

  • Primeiramente, (em muito) elogiando : “mais novo melhor texto / ensaio (?) de toda a RID” !

    Que os robôs sejam úteis na transição, porque melhores que a gente em trabalhos robóticos eles já são. E depois disso, nós começamos a nos preocupar com a inteligências artificiais que vão roubar os serviços… Mas, cada problema ao seu tempo.

    E “tentando complementar” : (muito mais claramente) para mim, será como se “nós e esses tantos deles” seremos “como megasofware” (“geração sabática” = “próxima hiperatualização” + “futuras IAs = próximas supersemiatualizações”)…

    Aliás, recomendo (…provavelmente, muito…) :
    http://observador.pt/2017/02/26/entrevista-chris-lamberton/

  • A automação nunca foi bem vista, em parte pela ideia de empobrecer os trabalhadores. Se por um lado os robôs tiram trabalhadores do mercado, por outro possibilita abrir horizontes (empregos). Com a diminuição dos custos de todas as empresas, novos postos iram surgir, possibilitando novas oportunidades aos desempregados. Com relação ao comunismo, o mesmo é pobreza, a igualdade na pobreza. “Mas o tempo passa e as pessoas querem mais.” Sim, o desejo humano não tem fim, talvez seja a nossa perdição, mas somente vislumbro essa distopia comunista se a inteligência artificial sobrepujar a humana e isto poderia levar a extinção.

  • Incrível, Somir! Nunca tinha pensado na questão da “robotização” por esse lado!

    Obrigada por este novo ponto de vista!

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