Conhecimento inútil.

Às vezes eu me surpreendo com a quantidade de conhecimento aparentemente inútil que se acumulou na minha cabeça com o passar dos anos. E não estou falando só sobre conhecer a história da criação do universo no Senhor dos Anéis ou como otimizar personagens num jogo de computador, mas coisas como as teorias mais aceitas para o funcionamento de um buraco negro ou a forma como um veneno específico realmente interage com o corpo humano… coisas que parecem interessantes, mas que não são usadas na vida real. Para que serve o conhecimento inútil?

Bom, como eu tendo ao lado nerd da Força, meus exemplos estavam dentro desse espectro, mas todos nós temos nossos temas “vazios”: tem quem esteja acompanhando o BBB agora e saiba tudo o que está acontecendo entre os participantes. Tem quem conheça profundamente as escrituras de uma ou mais religiões globais… com raras exceções, a maioria de nós tem guardados no cérebro algum pedaço do conhecimento humano acumulado que não necessariamente tem função clara no desenvolvimento pessoal e coletivo. Informações que não resolvem problemas imediatos, informações que talvez nunca encontrem aplicações práticas.

Pensem comigo, estamos chegando no terceiro parágrafo deste texto e parece que ele vai a algum lugar? E mesmo que você esteja esperando alguma resposta sobre a pergunta da função do conhecimento inútil, você realmente espera que isso gere alguma mudança considerável na sua existência? Sim, é meio um tiro no pé escrever isso, afinal, aqui no desfavor estamos no “negócio” de oferecer informação sem garantia de aplicação na vida real, e dependemos do seu interesse desapegado pela informação para termos uma audiência, mas eu acho saudável rever esse tipo de conceito de tempos em tempos.

Ainda mais num mundo onde informação deixou de ser recurso escasso. Historicamente, o conhecimento sempre foi fruto de imenso protecionismo: quem sabia ler não gostava de ensinar, quem sabia fazer um trabalho, uma reação química ou qualquer outra coisa que gerasse valor para outras pessoas, essa gente defendia com unhas e dentes a exclusividade da sua informação. Conhecimento é poder, mas com essa era da informação livre, o conceito de controle através da restrição do conhecimento meio que foi por água abaixo.

O poder não está mais com aqueles que alcançam a fonte do conhecimento, mas com quem é capaz de usar a informação com mais eficiência. Por exemplo: quando eu aprendi a fazer sites, eu tinha restrições a ensinar o que aprendera até mesmo para quem trabalhava para mim. A ideia era que com o conhecimento, nada impediria a pessoa de fazer o mesmo que eu. Mas, o tempo ensina. A lição mais preciosa sobre conhecimento que aprendi nos últimos anos é que você pode ensinar alguém como você faz algo, mas não porque você faz algo. A informação mais poderosa é o momento e o contexto onde usar seu conhecimento. Eu posso ensinar rapidamente para alguém como usar um programa de edição de imagens, mas demora muito – muito mais – para essa pessoa entender porque escolher editar a imagem de um jeito e não de outro. Conhecimento é aberto por definição. Saber onde e quando usar que faz a diferença. Enquanto eu souber quando usar o conhecimento sobre fazer sites, por exemplo, não preciso me incomodar com quem só tem o mesmo conhecimento. Não faz diferença.

E até por isso eu estou trabalhando com este tema hoje: todo conhecimento é inútil até o momento que é necessário. Essa frase é tão óbvia, não? Mas a conclusão sobre ela, nem tanto. Você pode empurrar a conclusão sobre ela para o sentido de que realmente não vale a pena ficar acumulando conhecimento se você não sabe onde e quando ele pode ser usado, mas também para o lado (e a Sally escreveu sobre isso antes também) de que o simples fato de não saber onde e quando você vai precisar dele é um excelente incentivo para ir ocupando o espaço mental, inclusive com o que você tem certeza que nunca vai usar.

Porque, surpresa: certeza não temos. Eu tenho uma profissão que por sorte esfrega essa realidade na minha cara todos os dias. Todo conhecimento inútil pode e será usado a favor ou contra um publicitário: seja sabendo fazer conexões entre ideias e surpreendendo clientes e público, seja ficando preso a preconceitos e perdendo oportunidades de descobrir novas relações entre ideias. E essa experiência sobre que tipo de informação pode ou não ser útil eu acredito que possa passar para todos vocês: não existe caloria vazia quando falamos de conhecimento. Existem “refeições” mais substanciosas, mas cada “bit” de informação que cai no seu cérebro tem uma função potencial.

Principalmente na expansão do campo de ideias: o simples fato de aprender sobre algo novo – sendo relevante ou não para o que você entende como importante na sua vida atualmente – aumenta o potencial futuro de informações possíveis de serem registradas. Como o cérebro humano trabalha basicamente com padrões e associações entre ideias, você precisa ter alguma coisa lá para ser conectada com a informação nova. E os caminhos do cérebro ainda são suficientemente obscuros para não sabermos o que conecta com o quê. Nada impede que o seu conhecimento inútil sobre física ou sobre celebridades que seja o encaixe perfeito para uma nova informação. Muito embora eu sugira o de física…

Adquirir conhecimento, achando-o útil ou não, serve para mais do que ter algo na manga para quando precisar, serve inclusive para tornar todos os outros conhecimentos prévios ou futuros mais relevantes. Quanto mais informação no seu cérebro, maior sua capacidade de ancorar novos conhecimentos de uma forma que faça sentido e não evapore com o tempo. Convenhamos: esquecemos um monte de coisas que aprendemos, e não é só por não ter aplicação prática continuada, mas também porque são informações que não foram sedimentadas com novas relevantes.

E por ser difícil prever qual informação vai ser relevante para o nosso cérebro para fazer relações, estamos mais seguros com uma dieta variada de fontes de informações. Inclusive as que parecem estúpidas. Não tem nada de errado em passar um tempão aprendendo sobre algo que não tem aplicação direta e imediata na sua vida, nem mesmo se você acha que essa informação vai ser esquecida logo logo, porque cada tijolinho que entra nessa construção dá mais significados e funções para outras informações que já estão lá.

Em resumo, estou argumentando que a informação que você aprende hoje é o que garante a absorção da que você aprendeu ontem, por mais que elas não pareçam relacionadas. Seu cérebro precisa fazer conexões, por mais malucas que sejam, só para poder manter aquilo acessível.

O que você aprendeu de novo hoje?

Para dizer que vai esquecer tudo daqui a pouco, para dizer que o texto de hoje atrapalhou o texto de ontem na sua memória, ou mesmo para dizer que é só uma desculpa por não ter dito nada hoje: somir@desfavor.com

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Comentários (9)

  • Marcos Barbosa (escritor) – Esse texto foi muito esclarecedor e tirou de dentro de mim uma revolta. Intimamente, estava revoltado com a perda de tempo, acumulando tanto conhecimento “inútil” no meu cérebro. Tenho pensado que essa mania de acumular muita informação inútil era uma espécie de “SÍNDROME DE DIÓGENES DA INFORMAÇÃO”. Já estava pensando em procurar tratamento psicológico para isso.

  • Fica claro que conhecimento só pode ser até então inútil.

    A universidade tem um papel fundamental em realizar pesquisas… inúteis.

    A iniciativa privada trata de absorver temas mais relevantes para o momento FINANCIANDO as universidades nos EUA. Me entristece que pelo menos no meu Centro Acadêmico, nada de relevante está sendo produzido e pesquisar qualquer coisa ainda é melhor do que não pesquisar nada. Então eu lembro que o volume de recursos empregados sai todo dos nossos bolsos. Absolutamente nenhuma pesquisa é recusada, então não há sequer a necessidade de priorização.

    Não tem problema você fazer algo na sua vida particular sem saber onde quer chegar. O problema é que no caso de pesquisa inútil, o ônus é socializado e me questiono se o benefício social compensa. Talvez descobriremos em 100 anos. Ou não.

  • Com este texto aprendi sim. Na verdade, relacionei com o conhecimento anterior. Na natureza, nada e inútil. Tudo se reaproveita. Tudo e filtravel e sempre se encontra algo de útil no inútil.

  • Tem aquela coisa batida de saber onde encontrar a informação acho válido mas só o exercício constante de raciocínio permite saber o que fazer com ela.
    Ainda aguardando o dia em que terei alguém para falar sobre a criação da Terra Média.

    • (Assim como a Sally (ou até com mais ênfase), garanto que tudo sobre o BBB é/”ficou” e continuará sendo inútil; assim como o “livro sobre o Jornal Bonner Simpson” que uma parente minha tem…)

      Entretanto, isso realmente foi muito bem levantado e pode “ser guia e quase regra” (principalmente Murilo Gun “que o diga”)…

  • Para mim não existe conhecimento inútil, todo conhecimento é importante mesmo que for só pra exercitar o cérebro.
    Hoje nao senti que aprendi nada, infelizmente. Porém exercitei meu cérebro um pouco

  • A questão é priorizar o conhecimento útil imediato, e deixar o (aparentemente) inútil em segundo plano. Até que enfim está percebendo isso somir.

    Prefiro estudar saude, negócios (ganhar dinheiro) e relacionamentos por exemplo

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