O ateu acredita em uma religião a menos do que a imensa maioria dos religiosos, tantas que existem. Sally e Somir não são exceção, mas dada uma situação hipotética de unificar a humanidade em uma crença, ou falta dela, eles também se dividem. Os impopulares pregam.

Tema de hoje: o que seria melhor para o mundo, se todos virassem ateus ou se todos tivessem só uma religião?

SOMIR

Para a surpresa de vocês, eu vou de religião unificada. Não, não deixo de achar que religião é o câncer atrasando a evolução humana, nem mesmo estou com dúvidas sobre meu ateísmo… aliás, é justamente o fato de ser ateu que me dá a base necessária para não acreditar que a humanidade em geral esteja pronta para isso.

Mas, vamos por etapas: religião é um problema porque é tão burra quanto a média de seus crentes. Uma religião normalmente reflete os valores da parcela mais atrasada de dada população, e inclusive vai mudando suas visões e regras com o passar do tempo para espelhar os desejos da sua base de fiéis. Não precisa nem estudar muito sobre a história para saber como o cristianismo, por exemplo, tornou-se algo bem diferente de alguns séculos pra cá. Argumento que religião é a soma da ignorância e dos preconceitos de um povo em dado momento histórico. A mitologia que suporta essa mentalidade é perfumaria, como sempre foi.

Religião é uma medida de atraso. Por essa característica, posso argumentar também que pior do que o atraso são atrasos conflitantes. Ou seja: religião já é um problema por si, mas quando duas delas entram em choque, o atraso é protegido de uma forma como nunca seria se a religião não estivesse sob ataque. É a existência de outra medida de atraso que reforça toda a parte negativa da religiosidade. Algo com uma base tão irracional não pode ser questionado impunemente.

O elemento de perigo ligado à religião que não deriva diretamente dos valores já impostos na parcela mais numerosa e atrasada de uma população é justamente o conflito entre religiões diferentes, mesmo que sejam subdivisões de uma mesma fé. As religiões nascidas no Oriente Médio tecnicamente seguem a mesma lógica estrutural e vivem em pé de guerra há milênios. Dentro do cristianismo, do islamismo e até do judaísmo existem correntes diferentes que não se suportam e já tentaram se matar de todas as formas possíveis.

Unificar a fé da humanidade, seja lá para que lado isso vá (embora algumas sejam melhores que as outras, eu prefiro que seja budismo ou alguma coisa coxinha tipo espiritismo) significa eliminar o confronto de atrasos e reduzir a pressão sobre o indivíduo sobre a baboseira que acredita. Spoiler: em algum nível a pessoa sempre sabe que tem alguma coisa errada na religião. É difícil acreditar na mitologia toda que vem junto com uma religião, dá trabalho para o cérebro rejeitar a realidade de tal forma. É mais fácil do que desenvolver pensamento crítico, claro, mas ainda sim não é uma tarefa leve para a nossa mente.

Se a humanidade se livra do medo de confrontar sua crença irracional que dá esse trabalho todo manter, se livra também da necessidade de racionalizar constantemente o que está fazendo baseado na fé que professa. Religiões são muito baseadas em rituais sem sentido aparente, o que sempre exige algum esforço para dar significado para aquilo tudo. É fato que o ser humano sempre tira um pouco mais de força de dentro para defender uma crença ameaçada, afinal, o cérebro não gosta de ter que rever tudo aquilo que já armazenou lá dentro, ainda mais numa pancada só, como é habitual ao ser confrontado com uma fé diferente.

E com uma religião unificada, é muito mais fácil subverter os valores religiosos com o tempo. Afinal, reduz-se consideravelmente a necessidade de defensores da fé. As instituições religiosas ficam gordas e preguiçosas, assim como a Igreja Católica ficou depois de ter “ganhado” a guerra religiosa há alguns séculos atrás. A religião muito hegemônica não teme concorrência e não ameaça tanto seus participantes como uma que sabe que pode perder suas ovelhas a qualquer momento.

E com tanta cacetada em religião, por que eu não escolhi que a humanidade se tornasse toda ateia? Bom, ser ateu é só uma parte do processo. É tirar a rodinha da bicicleta. Se não tiver uma boa base por trás disso, a pessoa fica sem saber o que fazer com toda sua necessidade de abstração da realidade. O comunismo fez essa manobra sem sucesso. Não foi o fato da população não ter uma religião oficial que gerou avanços sociais. O ateu só tem UM problema a menos que o religioso, nem de perto o suficiente para uma vida melhor. E digo mais: se você tirar a religião dessas pessoas, elas só mudam a mitologia de lugar.

Ao invés de um deus, um grande líder. E o problema desses cultos de personalidade é que pessoas temos aos montes, religiões nem tanto. A pessoa que não estava pronta para ser ateia perde a religião e realoca todos os seus problemas com a percepção da realidade em outro lugar. Grandes merdas acreditar ou não em um deus, isso não decide nada sobre as capacidades mentais de uma pessoa. A humanidade ateia corre o risco de ficar ainda mais estúpida e supersticiosa pelo excesso de possibilidades para reorganizar seu senso de atraso em outros objetos ou pessoas. A religião do consumo e das celebridades, por exemplo. Nós já temos vários exemplos do que uma pessoa incapaz de lidar com a falta de uma divindade faz quando não tem uma religião.

O meu ponto aqui é que não tem atalho. O ideal é a humanidade conquistar o ateísmo generalizado, não impor. Se for para fazer na base da canetada, da força… que se unifique as religiões, isso enfraqueceria consideravelmente o monstro criado, se não no começo, mas com certeza com o passar dos anos.

Para dizer que ainda está em choque pela minha opinião, para dizer que infelizmente concorda comigo, ou mesmo para dizer que as pessoas achariam um jeito de estragar o ateísmo: somir@desfavor.com

SALLY

O que seria melhor para o mundo, se todos virassem ateus ou se todos tivessem só uma religião? Ateus. Nada como adultos realmente adultos, que não precisam de um amigo imaginário.

Todos os problemas inerentes à religião continuam na hipótese de uma religião unificada, o único problema que se excluí é a guerrinha entre religiosos, algo que igualmente seria excluído pelo ateísmo.

Se tivermos uma única religião com o mundo todo aderindo a ela, ainda teremos seres humanos escravos das crendices e ignorâncias que ela prega. Gente fazendo ou deixando de fazer algo, não por sua vontade, mas sim por temor a uma punição ou consequência nociva do seu ato. Seres humanos vivendo em um grande cercadinho de criança com grades de medo. Isso nos afasta da condição ideal, que é deixar de fazer bosta por consciência e ética. Claro, não aconteceria automaticamente em caso de ateísmo, mas, porra, certamente estaríamos no caminho certo para que aconteça a longo prazo.

Uma única religião ganharia força, muita força, uma força descomunal que eu acho extremamente perigosa para qualquer instituição. Imaginem só uma instituição com o domínio e apoio de todos os seres humanos da Terra. Realiza os abusos e atrocidades que não poderiam surgir disso. A história está aí para ilustrar o que acontece quando se concentra tanto poder nas mãos de uma instituição, Igreja Católica, por exemplo, promoveu barbáries detendo apenas uma parte da Europa. Hegemonia é um perigo quando estamos falando de seres humanos.

Debaixo dos dogmas de qualquer religião, o ser humano emburreceria como coletividade. Mentes que hoje desafiam dogmas religiosos estariam imersas na religião e não contestariam, questionariam ou desafiariam com tanta facilidade. Mesmo que alguns mais combativos tivessem esse ímpeto, jamais teriam voz contra algo ao qual o mundo inteiro aderiu. Não teriam recursos para realizar pesquisas, mídia para divulga-las nem patrocinadores para bancar seu projeto. A humanidade perderia absurdamente em matéria de inovação e evolução, principalmente científica.

Uma religião unificada fatalmente penetraria em todos os outros campos: política, mídia, entretenimento, educação, etc. A diversidade que temos hoje permite um sistema de freios e contrapesos, ainda que rudimentar. Se todas as emissoras de TV do mundo, todos os jornais do mundo, todos os sites do mundo fossem adeptos de uma mesma religião, receberíamos conteúdo distorcido para sempre, formando mentes distorcidas, em um círculo vicioso muito difícil de romper.

Como religião é algo muito invasivo, que muitas vezes determina os valores éticos e morais e até mesmo o que a pessoa pode comer, criaríamos uma horda de seres humanos iguais. As pessoas ficariam desinteressantes e previsíveis, em sua maioria. Pessoas padronizadas em sua essência, com um peso social enorme que as desencorajaria a tentar sair da caixinha. Se hoje temos preguiça/medo/temor em contestar minorias barulhentas, o que pensar de ter que peitar o mundo todo para poder ser diferente?

Sim, eu concordo que a humanidade é muito involuída e ainda precisa de um suporte religioso. Mas, entre as duas opções que se apresentam, me parece menos pior dar esse choque de realidade e contar logo que Papai Noel não existe, obrigando a criança a amadurecer e encarar a realidade na porrada, do que fazer a manutenção desse estado infantilizado e carente. No começo seria um choque? Sim. Daria muita merda? Com certeza. Mas acredito que o saldo final seria um salto evolutivo.

Você pode estar preocupado com o que aconteceria se cada pessoa fosse e fizesse aquilo que ela realmente quer, sem as amarras de contenção social de uma religião. Bem, para descontroles existe a lei. Não precisamos de religião para controlar o povo, a menos, é claro, que estejamos falando de uma manipulação barata, algo que me parece indefensável. O ser humano teria que se mexer para criar um sistema legal novo e eficiente caso a contenção social religiosa desaparecesse, e, cá entre nós, isso não me parece uma coisa ruim.

Eu não acredito que religião seja algo necessário. O ser humano pode sobreviver de boinha e se tornar melhor a longo prazo sem religião. Se por um lado remover a religião pode causar algum caos, manter uma religião unificada também teria efeitos colaterais nefastos. Então, se é para passar por um período negro, que ao menos seja tendo em vista um futuro melhor. O ser humano é extremamente adaptável, é uma espécie de piolho do mundo: pequeno, chato e difícil de matar. A humanidade sobreviveria. E se não, bem, uma raça que não consegue viver sem religião tem mais é que ser extinta mesmo.

Existem duas formas de crescer, amadurecer, melhorar: no amor e na dor. Infelizmente quase nunca acontece no amor, geralmente tem que ser na dor mesmo. Infelizmente é quando a água bate na bunda que as pessoas aprendem realmente a nadar. Então, uma transição lenta e gradual de um mundo religioso para um mundo ateu pode até ser o cenário ideal, mas não vai acontecer. Enquanto houver a possibilidade de religião no mundo, não faremos esta transição.

Um mundo com religião unificada seria um retrocesso violento. Pensem no que aconteceu com o mundo quando uma religião foi muito hegemônica por muito tempo em algum determinado espaço do planeta. Agora multiplique isso pelo mundo todo e calcule o potencial de dano. Nada de bom que isso possa trazer compensa o estrago que iria causar, principalmente quando do outro lado está a escolha pelo ateísmo. Por mais que eu acredite que a diversidade ainda é a melhor opção, se é para ficar com um dos extremos, eu escolho aquele com o qual eu concordo e acredito ser o menos nocivo para as pessoas.

Para se sentir ofendido por ambos os textos, para dizer que depende da religião ou ainda para se surpreender com a posição da Madame aqui de cima: sally@desfavor.com

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Comentários (12)

  • Prefiro teocracia, ateísmo pressupõe comunismo (ou fascismo, estado forte) são duas vias de coerção não tem escolha não tem livre arbítrio em nenhuma das opções de qualquer forma é mais fácil desacreditar de um Deus espontâneamente do que derrubar um líder comunista.

    • De onde você tirou que ateísmo pressupõe comunismo? Dá uma olhada nos países com mais ateus pelo mundo, você vai ver que isso não é verdade

      • Pois é, Sally (!) : a República Tcheca possivelmente tem alguns preços (internos e “convertidos”) parecidos com os do Brasil, têm uma moeda “menos forte” que o real e, mesmo assim, há vários anos é tão certeza terem pelo menos 30% de “irreligiosos” quanto a do IDH deles continuando de Primeiro Mundo…

  • A resposta é óbvia !

    # Pela parte histórica / medieval, aquele recorde tanto de mortos quanto até de criação de métodos de torturas / apenações – temas específicos em que ainda há “investigações científicas de campo” ainda atualmente – ou seja, mais a detalharem ou até descobrirem…

    # E praticamente, “racha$” em sentidos até diferentes, mesmo “minimamente”; é como “descobrir que é diferente de tanto que está igual”, porém as escrotidões de “coesões teístas” tanto ainda seriam parecidas / piores até por isso !

  • “Grandes merdas acreditar ou não em um deus, isso não decide nada sobre as capacidades mentais de uma pessoa.” Discordo, Somir. Geralmente o fielé teleguiado, nao conhece o mundo ” la fora”. As Testemunhas de Jeová, por exemplo, são praticamente proibidas de ler qualquer coisa que não seja o ” pacote” fornecido por elas. E muitas outras tem esse poder alienador.

    Acredito sim que ateus são mais cognitivos, tem a mente aberta, não se deixam levar por nenhuma “mentira sagrada” e poem a prova cientificamente cada informação. Alem disso, tem propensão a serem mais bem sucedidos materialmente, pois enquanto o crente estava orando, implorando um favor, o ateu consegue tudo pela sua própria forca, arregaca as mangas e faz acontecer. Vide a Suécia.

    Definitavemente, malgrado a importancia social da religião, o que pode ser suprido por outros agrupamentos, o mundo seria BEM melhor sem religião.

  • O Ateísmo funcionaria em países desenvolvidos. No resto deveria se começar por uma religião única, senão os ignorantes, como disse o Somir, ao invés de um deus, idolatrarão um grande líder. Prato cheio para Lulas, Maduros e Kim Jong-uns.

      • Mas ao perceber seus defeitos e lutarem, esses “grandes líderes” lutam de volta, matam, como na Venezuela, Síria, Turquia. Já quando se percebe o defeito de um deus, basta parar de acreditar nele. É claro que em algumas sociedades é melhor desacreditar em silêncio, senão morre anyway.

  • Uma única religião no mundo inteiro? Seria basicamente um poder paralelo, ainda maior que o poder político. Por mais poderoso que o Estado fosse em qualquer canto do mundo, o que seria pior, o governo lhe tirando o que têm ou os emissários divinos lhe garantindo que a não obediência aos preceitos divinos pode lhe impor uma punição eterna?

    Imagina o poder dos emissários divinos. Imagine como seria se a religião única elegesse uma espécie de Papa, a autoridade máxima, o homem enviado ou eleito diretamente pelos Deuses para guiar o povo? Uma pessoa com poder absoluto.

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