Tudo a perder.

Mais um atentado, agora em Estocolmo. Até a hora que eu escrevi, não estava confirmado que era um muçulmano, mas vai ser uma imensa surpresa se não for. Até porque o assunto é válido com ou sem essa confirmação, pelo histórico recente. Ao invés de sugerir que caminhões sejam banidos, vou falar sobre uma teoria (eu sempre tenho uma) sobre a humanidade: a solidariedade do perder.

Em linhas gerais, proponho que quanto mais pessoas numa sociedade tem algo parecido a perder, mais estável ela é. Para o bem ou para o mal. E nem estou escrevendo sobre uma utopia de igualdade entre todos, a coisa é bem mais feia do que isso: sugiro aqui que o grande problema da nossa espécie é a convivência entre pessoas que não deveriam conviver, mas não por características inatas como a cor de pele, e sim pelo quanto cada um tem a perder na vida.

Por exemplo: pessoas que tem carros entendem melhor o sofrimento de ficar sem carro do que a turma que prefere as bicicletas. É um esforço imenso para nossas mentes compreender quão ruim é perder algo que para nós não é importante. Empatia tem um componente reflexivo, vemos no outro o que conseguimos ver em nós… o resto é feito de suposições e adaptações. Uma pessoa que perde um ente querido como um pai ou um avô consegue se aproximar da dor de quem perde um filho, mas se não tiver um exemplo claro e próximo na sua vida, invariavelmente vai precisar adaptar o que conhece no contexto diferente. E nessa adaptação, algo sempre se perde.

Não necessariamente por mal, evidente. O texto de hoje até continua o de ontem nessa tentativa de compreender o funcionamento do aprendizado e aplicação de informações: quem não tem uma base sólida tende a deixar vazar o que entra de conhecimento. Precisa de algo lá para absorver e criar conexões para fazer o cérebro funcionar. Pessoas que partem de bases muito diferentes – principalmente no campo das coisas, pessoas ou ideias que tratam como essenciais para o seu modo de vida – não conseguem conviver.

E me parece claramente que é isso o que acontece na crise migratória europeia… pessoas com noções completamente diferentes do que configura a base de uma existência colocadas lado a lado, obrigadas a presumir e adaptar o que pensam e sentem para ter alguma chance de entender o outro. Porque nem mesmo o que parece totalmente orgânico e instintivo em todos nós realmente o é nesse contexto. Eu mesmo, morando num país perigoso como o Brasil, tive sorte o suficiente para ser isolado da violência urbana ao ponto de simplesmente não compreender o que é o medo primal de ser assassinado ou violentado. Na hora do aperto os instintos te mandam fazer coisas mais ou menos parecidas, mas o grau de “preparação” para esse tipo de reação pode diferir demais caso a caso.

Especialmente se as pessoas comparadas tem coisas diferentes a perder. Vamos pensar num sueco médio e num refugiado árabe. O sueco vive num país que funciona, bem ou mal, mas funciona. Existe um Estado, existem leis antigas e consistentes, além de toda uma rede de serviços públicos que tentam manter o sistema funcionando de acordo com os preceitos de dignidade e liberdade de um mundo modenro. O refugiado veio de um país onde o Estado derreteu e no lugar surgiu uma batalha sangrenta que parece não ter mais fim. O refugiado podia ter uma vida bem parecida com a que consideramos razoável no padrão ocidental até a guerra, mas depois disso, a base ruiu.

E aí, quando esses dois convivem, temos que considerar o seguinte: o sueco não tem uma vida a perder, o refugiado tem. Para o sueco, a maior ameaça a sua vida é o tabagismo ou o excesso de gordura, portanto, não há senso de urgência na defesa da vida. O reugiado veio de um lugar onde bombas podiam cair na sua cabeça a qualquer momento. O perder a vida é muito mais imediato para ele, é algo a se perder a qualquer segundo. A vida dele e das pessoas que ama. O sueco nunca vai conseguir sentir essa gravidade imediatista a não ser que algo exploda em sua cara.

E no sentido oposto, o sueco tem um Estado vivo. Um Estado que pode desaparecer e levar consigo quase tudo o que valoriza se ceder a uma mentalidade imediatista. O Estado foi construído lentamente, baseado em confiança e estabilidade, com luxos como direitos iguais e mentalidade essencialmente pacifista. Para o sueco, é desesperador perder isso com arroubos de violência contra os refugiados muçulmanos. Por incrível que pareça, a forma de defender seu sistema passa por tolerância exagerada até com os imigrantes mais “selvagens”. É um equilíbrio sutil. Vidas podem sumir em segundos, Estados são um pouco mais estáveis, mas passam longe de ser imortais.

Ás vezes eu fico puto vendo povos como o sueco fazendo alarde de tolerância e compreensão com alguns dos malucos que vem junto com cada remessa de imigrantes, mas é hora de ser honesto e pensar melhor: eu posso ser um farol de evolução mental no Brasil (maior anão do mundo…), mas não sei o que é perder uma sociedade pacífica e igualitária, nunca tive uma por aqui. Claro, parece totalmente razoável dar um basta nos abusos, proteger as mulheres dos estupros, punir aqueles que causam violência e medo na população, mas foi agindo de forma bem mais tolerante que outros países que eles chegaram nesses altos níveis de desenvolvimento humano.

Eles tem algo a perder que nós daqui da bananolândia não temos. O que eu posso fazer é adaptar o que já tenho como base e tentar entender o problema deles. Do meu ponto de vista, os europeus tinham que endurecer a linha com os imigrantes, e urgentemente. Será que para o sueco médio, aquele que temos vontade de berrar na orelha por não impedir a entrada de muçulmanos no seu país… será que para ele essa ideia não soa bárbara? Assim como pra mim soa bárbaro entrar num país diferente e querer impor violentamente seus valores para quem te acolhe?

Porque se a Europa puxar a espada de novo e resolver isso de uma forma “feia”, não foi uma vitória cultural dos imigrantes, que não tinham uma sociedade pacífica e evoluída para perder para começo de conversa? Sei que é excelente ficar fazendo perguntas, então mais uma: será que se eles fizerem do jeito deles de novo, com essa tolerância que nos parece excessiva… será que eles não vão ganhar de novo? Na dúvida, eu prefiro apostar em quem tem o IDH mais alto. Honestamente eu preferia um meio termo: linha dura contra quem estivesse atacando o povo local e defesa consistente dos direitos humanos, mas… se não for uma escolha no final das contas, o jeito da pancadaria todo mundo tenta, desde sempre.

Para dizer que não entendeu para onde este texto foi, para dizer que eu só quero ser do contra, ou para me chamar de colonizadinho: somir@desfavor.com

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Comentários (9)

  • Potencial destrutivo para vidas humanas e até uma sociedade inteira.
    É, um governo corrupto não está tão longe de um cabeça de toalha explosivo… Brasileiro fica meio eufórico porque “pelo menos aqui não tem atentado islâmico”, mas não percebem que já temos nosso próprio terrorismo rolando. e várias comunidades islâmicas crescem em silêncio nas favelas
    Mas estou fugindo do assunto.

    Eu não espero uma brutalização dos suecos, não de uma porção significativa. Na verdade isso é muito imprevisível. Se na fuckin’ Holanda aquele clone magrelo do Trump conseguiu quase metade dos votos…

  • Eu errei. Achei que o Somir não deveria ser estuprado, mas como sou fruto de uma sociedade machista, não me resta alternativa a não ser cumprir minha missão: levar a ele o medo primal da sodomia, ampliando sua possibilidade de empatia com o povo brasileiro. Peço desculpas a todos os impopulares, como pai, como marido e como quem passar na minha frente.

    José Mayer de Sunga

  • *se os suecos forem partir pra porrada, a Suécia vai perder a mentalidade (e reputação internacional) de povo civilizado e calminho
    *se os suecos continuarem abafando as merdas feitas por imigrantes (que compõem a maior porcentagem de criminosos), em algumas gerações a população será substituída por esses animaizinhos e a Suécia vai perder a mentalidade (e reputação internacional) de povo civilizado e calminho

    não tem pra onde correr

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