Depois da guerra.

Estados Unidos contra Coreia do Norte, uma guerra que se desenha há muitos anos, e parece cada vez mais provável. Caso as ameaças virem pancadaria de verdade, Sally e Somir torcem por resultados diferentes. Os impopulares fazem suas declarações.

Tema de hoje: numa guerra entre EUA e Coreia do Norte, qual vencedor seria melhor para o mundo?

SOMIR

O legal dessa opinião é que eu acho que todo mundo vai odiar: na média, os EUA são os melhores donos que o mundo já teve até hoje. E isso não significa necessariamente que eu acredite que o mundo deva ter um dono, mas diante da realidade estabelecida, melhor que sejam eles. Isso porque os americanos tem algum equilíbrio entre ideais nobres e desejo imperialista, que ora tende para um lado, ora tende para o outro, mas nunca parece se perder demais num dos extremos. Não seria bacana se a Alemanha Nazista ou se União Soviética tivessem assumido esse posto nas últimas disputas.

E antes de me chamar de colonizadinho, primeiro que quem me dera que o Brasil fosse colonizado pelos ingleses (que tinham ALGUM plano para isso, ao contrário de portugueses e espanhóis), segundo que o mundo é uma engrenagem complexa e há muitos limites no quanto uma potência hegemônica como os EUA podem influenciar o resto da humanidade. Não quero que o mundo seja todo igual a eles, mas considerando que alguém vai ter a maior incidência de cultura exportada, que sejam eles por enquanto. Acredito numa sociedade em constante evolução, e esse tipo de domínio que os americanos aplicam é o menos danoso a esse objetivo.

Essa introdução é para dizer que em termos de vencedores de guerras, não acredito que muitas outras sociedades além da americana estejam preparadas para lidar com o poder oriundo disso em escala global. Com certeza uma das menos indicadas é algo como a Coreia do Norte, que mesmo com todo seu poder, ainda seria extremamente insegura e irrealista no seu domínio conquistado. E, além disso, temos que analisar como essa guerra poderia terminar com a vitória da turma de Kim Jong-un: num cenário realista ou num cenário puramente especulativo.

Num cenário realista, precisamos definir que o poderio militar americano é o maior que qualquer país já teve sobre o mundo em qualquer época da história humana conhecida. Nenhum país do mundo conseguiria vencer uma guerra contra eles, nenhum. Apenas o esforço conjunto de TODOS os outros geraria um cenário onde eles estariam realmente ameaçados de perder uma guerra. Militarmente, os EUA são um lutador de UFC, a China e a Rússia dois adolescentes e o resto do mundo um bando de crianças com diferentes graus de desenvolvimento. Um contra um, é impossível perder a briga, os dois adolescentes podem causar um problema, e se o resto das crianças estiverem distraindo demais o adulto lutador, talvez consigam derrubá-lo.

Tudo isso pra dizer que se você tinha alguma ilusão que o exército americano não era imbatível, esqueça dela. É sim. Não vai ser pra sempre, mas nesse momento, só um esforço mundial poderia fazê-los perder uma guerra (guerra de verdade, apesar do Vietnã ter sido um desastre, não caiam nessa que os EUA perderam por não serem capazes de vencer, mas sim porque a guerra dava mais trabalho que recompensas quando acabou), e um esforço mundial contra os EUA SÓ pode gerar esse resultado se China e Rússia apoiarem a Coreia do Norte, e mesmo assim, precisaria de muita sorte e coragem para vencer. A Coreia poderia vencer no caso de uma Terceira Guerra Mundial com bombas atômicas voando para todos os lados. O que é melhor para o mundo, que a guerra termine com ou sem bombas atômicas sendo usadas? Que as duas maiores economias do mundo precisem se voltar para a guerra ou que as coisas continuem mais ou menos como estão?

Mas tem outro cenário: um totalmente imaginário, onde por alguma mágica os norte-coreanos sejam capazes de rechaçar uma invasão americana por conta própria. Lembrando que o Vietnã estava perdido quando os americanos saíram de lá, a estrutura de poder já era dos ianques. No caso da Coreia do Norte, para a guerra ser vencida, o ditador local teria seu sistema inteiro após a guerra e os americanos sairiam correndo com o rabinho entre as pernas da península toda.

O que essa vitória do regime de Kim Jong-un significaria para o mundo? Que vale a pena se militarizar e que vale a pena focar em demonstrações de poder para conseguir seus objetivos. Os programas nucleares mundo afora ganhariam uma tração enorme, principalmente nos países ao redor. Com a Coreia do Sul perdida (lembrando que esse é o objetivo da Coreia do Norte, conquistar a do Sul), a Coreia unificada que acabou de dar um pau nos EUA viraria um grande jogador no cenário mundial. Com um líder poderoso (mesmo sendo maluco) e com toda a infraestrutura do Sul. China e Russia teriam muitos motivos para se aliar com eles, criando uma nova estrutura de poder no Oriente.

A estrutura de poder baseada em líderes e partidos hegemônicos, com culto de personalidade e uma versão atualizada do comunismo (sem a parte da igualdade, mas com a parte do poder absoluto) traria um novo paradigma para a humanidade. Ao invés do sistema democrático carregado por americanos e europeus, uma era de déspotas auto-intitulados esclarecidos. E daí, das duas uma: ou entramos numa verdadeira nova guerra-fria, com as tensões entre os lados do mundo aumentando dia após dia, ou teremos a queda do império americano e o fim da sua imensa influência política, social e cultural.

E sinto informar que cultura por cultura, a que menos nos faz mal agora é a americana. Com certeza não queremos um mundo onde a União Soviética vence, até porque nesse novo contexto, temos três países muito poderosos disputando a mesma área, e todos os vizinhos potencialmente radicalizados pelo medo da expansão do novo eixo de poder oriental. E nem comecemos a falar da coragem que os islâmicos radicais conquistariam com isso. A Europa estaria extremamente ameaçada se o medo dos EUA ficasse menor, ou mesmo se os ianques precisarem gastar suas energias defendendo suas próprias fronteiras. A vitória da Coreia desestabilizaria o mundo de tal forma que precisaríamos de gerações para termos uma chance de continuar de onde paramos atualmente.

Por mais que seja hilário o prospecto de ver a “melhor Coreia” vencer, não vale a pena no longo prazo.

Para dizer que só quer ver o circo americano pegar fogo, para dizer que esse meu medo de comunismo é muito século passado, ou mesmo para dizer que adorou a analogia dos exércitos com crianças: somir@desfavor.com

SALLY

No caso de uma suposta guerra entre EUA e Coreia do Norte, o que seria melhor para o mundo: ver os EUA ou a Coreia vencendo?

Sei que não é a resposta que você quer ouvir e que pode parecer que foge ao bom senso, mas eu sinceramente acho que seria melhor para o mundo se a Coreia do Norte desse uma surra sem precedentes nos EUA. Calma, eu não tenho nada a favor da Coreia do Norte e do lunático do Kim Jong-Un, meu argumento é indireto, um devaneio fruto de putez acumulada. Talvez nem seja um bom argumento, mas é de coração.

Acredito que quando as coisas estão ruins, continuam ruins e ficam por muito tempo ruins, é preciso mudar a qualquer custo. Nem que para isso seja necessário mudar para pior, explodir tudo ou dar um tiro no escuro. Nada me assusta mais do que a acomodação em uma situação ruim, da qual não se sai por medo ou por não conseguir vislumbrar uma saída. Prefiro mudar, nem que seja para pior, pois pode ser que da situação pior a gente consiga encontrar uma saída.

Eu vejo o mundo atual assim. Anos de hegemonia burra dos EUA, estagnação científica, aumento de desigualdades e muitas outras merdas acontecendo. Estamos em uma era cagada, improdutiva. O outro braço forte do mundo, a Europa, está em decadência, recolhida, lambendo as feridas, tomando bomba e atentado terrorista. Da linha do Equador para baixo está todo mundo batucando, passando fome, na praia ou todos juntos. Um mundo estranho, permeado por fanatismo religioso e por uma nova guerra fria está se desenhando. Como já disse em outro texto, nada pior do que a constante ameaça e medo de uma guerra que nunca acontece.

Então, que se peguem na porrada logo, que tenhamos todos os danos colaterais que infelizmente existirão, que um lado mostre superioridade sobre o outro e que comece uma nova fase, porque esta, está uma merda. E, ainda nesse raciocínio, nada contribuí mais para uma mudança de paradigma do que o lunático do Kim Jong-Un dar um pau nos EUA. Pensando friamente seria péssimo, mas pensando grande, pensando longe, em matéria de mudança e de obrigar o mundo todo a se reposicionar, seria bacana. Se Coreia do Norte vira nova potência mundial, o mundo tem que se mexer e rever seu papel, ocorreria uma quebra obrigatória da inércia.

Não se iluda, no tema proposto, haverá uma guerra. Morrerá muita gente, haverá destruição no planeta. Muita coisa ruim acontecerá, independente de quem vença. Paz e não-violência não são uma opção no texto de hoje. O que queremos saber é qual resultado final você acha melhor para o mundo.

Então, se o objetivo é cutucar o fundo do cu, é causar desconforto para que todos se mexam, é tirar o planeta da zona de conforto para obriga-lo a entrar em uma zona de crescimento… algo muito desconfortável tem que acontecer. Se os EUA ganharem essa guerra, bem, teremos muita morte, destruição e sequelas para nada. Nada muda. Tudo continua exatamente como está, cada país cuidando da sua vidinha e os EUA, Xerifão do Mundo continua onde está. Já se a Coreia ganha, meus amigos, todo mundo vai ter que levantar a bunda do sofá!

É um pensamento estratégico. Não é que eu ache que a Coreia é mais legal ou mais merecedora. São malucos, lunáticos bélicos, doentes mentais. Porém, às vezes, para forçar uma mudança é preciso que passemos por um desconforto muito grande. Quer coisa pior do que Kim Jong-Un sendo o macho-alfa do mundo? Até países neutros, como a Suíça, teriam que mostrar a carinha.

E não me refiro a uma grande guerra mundial. Isso já passou, não é assim que as coisas funcionam hoje. Falo de embargos econômicos, sanções, restrições e outras medidas que, hoje, a maioria dos países prefere não adotar pensando em seu bem estar econômico. Vai ter que acontecer algo muito grave, algo muito bizarro, muito grande para que todos os países do mundo abandonem a política de boa vizinhança e se indisponham com um bloco que pode impactar sua economia.

Existem duas formas de fazer as pessoas acomodadas se deslocarem do lugar onde elas se acomodaram: no amor ou na dor. Pouquíssimas pessoas conseguem sair de um lugar confortável (não há crescimento na zona de conforto, não há conforto na zona de crescimento) no amor. Pouquíssimas mesmo. A triste verdade é que a esmagadora maioria só funciona na dor. É com tiro na bunda que se faz alguém correr.

Seria bacana, só para variar, ver o mundo se unir e se levantar contra um inimigo em comum, um lunático como Kim Jong-Un, que certamente merece apanhar de um planeta inteiro. Isso poderia trazer uma nova perspectiva, de como a união e a cooperação pode fazer coisas grandiosas. Novos tratados, acordos e leis surgirão, para resguardar a humanidade das barbaridades atuais, ainda sem tratamento legal. Limites do que é tolerável ou não serão revistos. Valores serão revistos. O mundo tomaria um sacode, um wakeupcall como poucas vezes visto, que o obrigaria a olhar em volta e repensar muita coisa.

Então, já que vamos ter guerra, morte e destruição, que ao menos seja para mudar as coisas. Não tenham medo, por mais lunático que seja, se o mundo todo se voltar contra ele, Kim Jong-Un será esmagado como uma barata. Esse lunático vencendo uma guerra não vai ser algo permanente, será apenas um sustinho para que o mundo acorde e se reorganize. É hora do mundo parar e repensar muita coisa, e isso só vai acontecer se uma catástrofe da proporção desse Coreano Maluco acontecer.

Talvez querer ver o circo pegar fogo para obrigar que os acomodados se levantem não seja a estratégia mais civilizada ou mais inteligente, mas, sinceramente, não consigo ver outra forma de dar uma sacudida no mundo e obrigar a que questões importantes sejam revisadas. Arriscado? Meus queridos, nada é mais arriscado do que continuar na merda.

Meu jeito é esse. Se estou em uma situação escrota que não consigo resolver, pago qualquer preço para que essa situação escrota não continue como está, mesmo que venha uma situação ainda mais escrota, pois pode ser que uma situação ainda mais escrota (apesar de ser mais grave) eu consiga resolver. Eu sei, eu sei, não soa muito inteligente, mas posso garantir que é eficaz.

Para agradecer por eu não ter poder, para dizer que apesar de burra você vê méritos na minha teoria ou ainda para dizer que Rafael Pilha curtiria este texto: sally@desfavor.com

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4 desfavores sobre “Depois da guerra.

A Coréia do Norte não tem capacidade de projeção de poder, não tem população nem economia para ser uma superpotência. Um eventual sacode nos EUA apenas beneficiaria Rússia e China.

Também sou a favor, do sacrifício pela mudança, já que a guerra acontecera de qualquer forma.

É aquela coisa da hegemonia…

É hora de mudar tudo, rever tudo. Uma nova potência mundial!

É claro que vamos comer uns perrengues daqueles. Mas a longo prazo, pode valer a pena. Deixar como está, pra ver como é que fica só gera mais estagnação.

…E que continuem, que “quedem” (!) os “paneleiros pseudotípicos” !

(…E ficaria curioso com mesclagens ao contexto do livro “Os próximos 100 anos” : George Friedman ter citado Turquia, Polônia e até México antes “desse dilema Kim” sem demonstrações espaciais…)

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