Drogas sintéticas.

Se você é como eu, do tempo em que droga era maconha, LSD, cocaína, heroína e crack, é hora de se atualizar. Drogas novas surgiram e vem surgindo no mercado e saber identificar seus efeitos e conhecer seus riscos é muito importante. Não, não é uma apologia a drogas, é informação. Desfavor Explica: novas drogas sintéticas.

Chamamos de “drogas sintéticas” as substâncias psicoativas produzidas com componentes que não são encontrados na natureza e criadas em laboratório. Sua produção depende exclusivamente do ser humano, sem necessidade de cultivo, plantio ou matéria prima da natureza.

Uma confluência de fatores levou à necessidade de criação destas drogas desenvolvidas em laboratório. Para começo de conversa, plantio de drogas demanda tempo (nenhuma planta cresce do dia para a noite), não pode ser feito em qualquer lugar (determinadas plantas só crescem em climas e solos específicos, onde quase nunca é permitido por lei) e não é algo fácil de esconder (uma plantação não é algo pequeno).

Assim, com a guerra às drogas que foi declarada décadas atrás e o aumento de consumo no mundo todo, surgiu uma demanda não atendida. E, vocês sabem como é a lei do mercado, quando surge uma demanda não atendida, o mais apto e atento tira proveito dela.

A solução encontrada foi fabricar drogas em laboratório. Até então, isto era feito em larga escala como o LSD e com o Ecstasy, drogas com características próprias, que causavam efeitos peculiares. Agora não, agora a ideia é recriar de forma sintética o efeito já conhecido de outras drogas, que até então, só poderiam ser obtidas através do cultivo de plantas.

São as chamadas Designer Drugs, drogas já conhecidas, mas criadas e melhoradas em laboratório. E, já que era para criar em laboratório, ao gosto do cliente, obviamente estas novas drogas tem um efeito muito mais potencializado do que a original, que é para garantir que desbancarão a concorrência.

O problema é que se o efeito é muito maior, os danos que causam ao organismo também são. A dependência, os danos à saúde e o risco de morte foram majorados – e muito. Sem contar que, por serem uma novidade, não há estudos científicos do que elas podem causar a longo prazo. Os viciados de hoje são as cobaias de amanhã. Terrível, não?

Para completar essa combinação tenebrosa, a forma na qual a droga se apresenta e sua forma de consumo estão facilitadas, a ponto de alguma delas não serem detectadas por aparelhos de raixo-x ou cães farejadores. E, por serem produzidas com facilidade e em larga escala, sem depender de plantio, o preço é bem mais barato e não precisam de tráfico internacional, cada bairro pode ter seu fornecedor. Percebem o prenúncio do desastre?

Claro que aproveitaram e também resolveram preencher outra lacuna no mercado: estão criando novas drogas que geram sensações que as antigas não geravam. Cerca de 650 drogas sintéticas novas já foram identificadas nos últimos anos, muitas delas com substâncias sobre as quais não existem estudos para entender o impacto que terão sobre o corpo. Porém, um novo produto não parece tão perigoso, pois ainda precisa conquistar o cliente, enquanto o antigo já tem usuários fiéis. Assim, as drogas sintéticas que emulam drogas “tradicionais” vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado.

Além disso, pela lei brasileira, é droga aquilo que está em uma listagem classificado como droga. Então, se o químico que cria estas substâncias for criativo, consegue emular um efeito parecido de algo que, após uma análise, não estará dentro da classificação de droga e, quando finalmente for inserido nesta classificação, basta mudar a composição novamente. Isso pode garantir um uso impune por muito tempo.

Arrisco dizer que, para cada droga conhecida existe, atualmente, uma versão Power, feita em laboratório. Uma droga sintética com os mesmos efeitos (porém mais intensos), mais fácil de conseguir, de transportar, de esconder e mais barata. Talvez seja hora de entender um pouco mais sobre elas, pois, em breve, você vai virar motivo de piada se procurar por um baseado na mochila do seu filho.

A versão power do LSD se chama NBOME, uma droga bem recente, descoberta em 2003. Fácil de esconder e de usar, é um pequeno selinho, com aparência de papel (do tamanho de um chip de celular) que se coloca debaixo da língua e causa fortes alucinações, euforia e sentimentos agradáveis e prazerosos. O problema é que pode detonar o coração, gerar problemas psiquiátricos graves, detonar o rim e coisas mais graves. Detalhe: apenas dois papeizinhos podem causar overdose mortal.

A Maconha Sintética conservou sua forma de uso tradicional, que é apreciada pelos entusiastas: também é fumada, pois aparentemente este ritual tem valor para essa gente. Pegam plantas aromáticas inofensivas e as banham em moléculas sintéticas que tem ação similar ao tetraidrocanabinol (THC), princípio ativo da “maconha tradicional”. O resultado desta power maconha é o mesmo da tradicional, só que os efeitos são muito mais intensos, desde o simples relaxamento, que fica muito mais exacerbado, até a alteração na percepção, que é muito mais forte. As consequências também são power: desde hipotermia até convulsões e lesões nos rins.

A Heroína Sintética é conhecida como KROKDIL. Também é novidade no mercado, só começou a ser usada para esse fim em 2000. Esta heroína power provoca uma sensação muito mais intensa que a original, porém, seu efeito dura apenas duas horas, o que obriga o usuário a aplica-la várias vezes, potencializando ainda mais seus efeitos negativos, que vão de convulsões até morte. Tem esse nome pois a região do corpo onde ela é injetada fica escamosa, grossa e verde, como a pele de um crocodilo.

A versão power da cocaína é a MIAU MIAU ou M-CAT. É vendida na internet como “fertilizante para plantas”. Dizem que o efeito é algo como cocaína + esctasy e, como sempre, os riscos também são majorados: pode causar desde doenças mentais sérias como esquizofrenia até ataques cardíacos. Também costuma vir em forma de pó branco, pelo apego dos usuários a esta… “embalagem”.

Até o Ecstasy, que já nasceu sintético, ganhou sua versão power: o DOB. Seu efeito mais conhecido e curiosos é a sinestesia, situação onde cores tem som o e sons tem cores. Os danos são devastadores, podendo gerar, na melhor das hipóteses, crises de violência, perda de memória e espasmos musculares.

Uma observação: todas estas drogas custam menos de R$ 50,00. Os baixos custos com transporte, armazenamento e corte de intermediários tornam seus preços competitivos. Paga-se o mesmo (ou até menos) que uma droga convencional e se leva um efeito muito maior.

Este mercado em expansão está criando novas realidades para o mundo do consumo de drogas. Já foram encontradas drogas sintéticas que fizeram vítimas letais cujas substâncias não puderam ser totalmente identificadas. A possibilidade de criação e combinação é tamanha que, em meio a um mundo de ofertas, vemos surgir as “drogas de grife”, com “marcas” de fabricantes conhecidos no mercado e até mesmo a encomenda de drogas “sob medida”, de acordo com a demanda de sensações que o cliente quer ter.

Nesse novo mercado, criadores de novas drogas competem entre si pelos usuários, então, se alguém cria uma droga sintética 10 vezes mais potente que a original, a concorrência vai tentar fazer uma 20 vezes mais potente. Assim, elas ficam cada vez mais perigosas, não apenas para os usuários, mas para a sociedade como um todo, já que alguns surtam severamente durante o uso, muitas vezes afetando quem não tinha nada a ver com a história. Já foram encontradas versões até cem vezes mais potentes que a droga original.

No Brasil, ainda não viraram mania. Como vocês podem imaginar, a mão de obra brasileira está mais para plantadores do que para químicos avalizados com diploma e mestrado, que dominam misturas complexas de substâncias. Mas nos EUA e na Europa, estas drogas já são encaradas como um problema sério de saúde pública. Já perceberam que o combate ao tráfico destas novas drogas tem que ser totalmente diferente e já começaram estudos para entender o quão devastadores são esses efeitos a longo prazo no organismo humano.

Hoje, no Brasil, é certo dizer que nem mesmo policiais estão aptos a reconhecer estas novas drogas. O NBOME, por exemplo, parece um selinho ou uma figurinha e pode vir até com desenhos de um personagem qualquer ou um emoji. Nem pais, nem professores nem ninguém que não tenha um mínimo de familiaridade com o mundo das drogas pode identificar esta nova geração de drogas, com aparência coloridinha, inofensiva e incomum. Se você tiver filhos, é bom ir se familiarizando com elas. Dá uma googlada em cada uma delas e observe. Um dia pode ser útil.

Ainda não tivemos por aqui uma grande explosão de drogas sintéticas, mas quando acontecer, vai ser trágico: traficante semi-analfabeto fazendo mistura tosca com receita da internet no forno de casa. Não quero nem pensar no que vai acontecer.

Para dizer que está desacostumado com textos sérios, para dizer que é pobre e só pode cheirar fralda para se entorpecer ou ainda para dizer que matar o usuário rápido não é uma estratégia inteligente: sally@desfavor.com

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30 desfavores sobre “Drogas sintéticas.

Já havia lido alguma coisa a respeito dessas novas drogas sintéticas, mas ainda não em um texto esclarecedor como esse. Aliás, por falar nisso, fico apavorado não apenas com os efeitos dessas novas drogas, mas pelo fato de que nos lugares onde já li a respeito delas, os comentários dos brasileiróides já apontam onde isso vai dar. Vamos colocar esse assunto na mesma gaveta de “falar sobre suicídio”, ou seja, as pessoas vão evitar falar sobre isso. Pois as reportagens a respeito estavam sendo acusadas por esses retardados ignorantes de “incentivar o consumo ao divulgar os efeitos dessas drogas”. Tenha paciência.

Precisamos falar sobre essas drogas novas, e seu avançado potencial letal. A desinformação e a ignorância a esse respeito, principalmente sobre ter medo/tabu de falar, vai levar a uma onda gigantesca de usuários, culminando em uma catástrofe na saúde pública

Pois é, tem esse entendimento tosco de que falar sobre é o mesmo que incentivar o consumo. Ignorância é um dos piores erros em matéria de drogas.

Essas drogas são tão baratas e fáceis de enviar por correio que não compensa para os traficantes brasileiros montar um laboratório em casa e começar a brincar de breaking bad, quem vai lucrar com isso são os playboys de classe media alta que vão vender esse tipo de droga em raves pelo triplo do preço e repor o estoque simplesmente comprando drogas pela internet (suspeito que já aconteça isso em menor escala).

Mas isso não é fiscalizado pelos correios?

Veja bem, não ria, pelos correios brasileiros eu sei que dá para mandar até um corpo, digo pelos correios do país de onde sai a droga…

Pra piorar, hoje em dia tem toda essa romantização do uso de drogas. Várias pessoas que criticam quem se orgulha de beber se orgulhando por usar drogas e ter ficado doidão na festinha do fim de semana. Ostentam baseado e outras porcarias (ainda me lembro da modinha do narguile). E quem se opõe é depreciado com argumentos pseudocientíficos. A propósito, eu não fumo e nem bebo.
É que nem aquele negócio da Baleia Azul: pra alguém arriscar a vida (ou a saúde a longo prazo) desse jeito tem que estar muito broken mind, por mais que eles neguem.

Mais um texto de utilidade pública, Sally! Parabens pela escolha do tema!
Acho que faltou falar do GHB, o clássico pra aplicar o Boa Noite Cinderella…

E só uma correção: qualquer droga pode desencadear o primeiro surto esquizofrênico em pessoas com predisposição (e isso é algo que não da pra prever, então…). A gente ouve mais sobre cocaina e derivados, mas qualquer uma pode gerar.

Sim!

Os gatilhos pra “ligar o interruptor” da esquizofrenia ainda são nebulosos… mas qualquer droga pode ser o gatilho!
Tem muita gente que ativa depois de experimentar maconha, por exemplo!

E também existe a questão de que pessoas com alguma doença mental (incluindo ansiedade e depressão leves) tem mais predisposição de viciar em drogas… ou seja, um retroalimenta o outro. Um assunto bem interessante e difícil!

Sobre essa possibilidade de qualquer droga desencadear doença mental, muita gente não sabe disso, especialmente no caso das drogas consideradas inofensivas, como maconha.

Tem q difundir informação, investir no diálogo com os filhos e alunos, o resto entregar pra São Darwin.

O que teria que fazer, na real, é uma vacina para que essas drogas não façam qualquer efeito no corpo humano e vacinar cada bebê recém nascido, até criar uma humanidade imune a drogas. Mas ninguém concorda comigo nisso.

Mesmo se fosse possível (provavelmente não é), uma vacina assim ia acabar bloqueando junto o efeito de muitos remédios, que tecnicamente também são drogas… inclusive boa parte dos analgésicos e anestésicos, que funcionam de forma parecida. E se não bloqueasse nenhum remédio, muitos deles tem potencial pra serem usados como entorpecentes.

É um sonho distante… Acho que nem daria certo, pois neguinho criaria novas drogas o tempo todo, que demandariam novas vacinas.

Se as drogas de laboratório são melhores e mais baratas, os traficantes brazucas irão a falência? Ou tem como se adaptar? Fico pensando se eles tiverem que mudar de ramo, será um tal de explodir caixa eletrônico, assalto a shopping, banco… Não vai ser nada bom acabar com a profissão deles!

Depois de ler o texto aqui do Desfavor, fui procurar mais informações em outros sites, me deparei com umas imagens de usuários de KROKDIL – também chamada de Desomorfina – e me assustei de verdade! Puta que pariu! ESSA DROGA LITERALMENTE APODRECE AS PESSOAS! Se quiserem olhar fotos, façam por sua conta e risco. As imagens de gente necrosada, com ossos e músculos expostos em grandes áreas do corpo – e até no rosto! – são fortíssimas. E alguns desses sites dizem que estatísticas – sem fontes e não sei se exageradas ou não – mostram que nada menos que 99% dos usuários morrem poucas semanas após o primeiro uso. Apavorante!

O mundo está ficando um lugar cada vez mais estranho. As fotos são assustadoras mesmo, todo pai deveria mostrar para seu filho.

Texto bastante esclarecedor. De todas as drogas sintéticas citadas no texto, só tinha ouvido falar da KROKDIL – mas ainda não sabia o porquê do nome – e do NBOME, que assusta por ser algo tão pequeno, de aparência tão inofensiva e tão letal. Este é mais uma daquelas postagens “salva-vidas” do Desfavor, que, apesar do tema pesado e/ou desagradável, são pra ler, guardar e consultar sempre.

Até mesmo muito (!) randômica !

Sempre lembremos do que a Sally já mencionou sobre, no RJ e “até” além, assalto(s) poder(em) ser com crackudo(s) [ e / ou daquele(s) tipo(s) que mata(m) mesmo se o(a) abordado(a) estiver totalmente obediente… – complemento meu ]

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