Antes mal-acompanhado?

Hoje comemoramos o Dia da Exclusão Social aqui na República Popular do Desfavor, e nada mais adequado do que discutir as implicações do que se comemora em outros territórios. No Dia dos Namorados, Sally e Somir divergem sobre o que é menos pior na data. Os impopulares casam com uma das opiniões, se assim quiserem.

Tema de hoje: no Dia dos Namorados, é melhor estar sozinho ou num relacionamento falido?

SOMIR

Creio que em qualquer data seja melhor estar num relacionamento saudável, mas temos condições bem específicas aqui. Um relacionamento feliz e estável não é uma opção. Ou se está sozinho, ou se está num namoro ou casamento fracassado, embora não desfeito ainda. O que eu defendo aqui é que a segunda melhor opção é sempre estar sozinho, bem melhor do que ter um conforto vazio nesta data. É pensar no quadro geral ao invés do momento.

Vamos deixar algo claro: nascemos e morremos sozinhos. O contato humano é importante sim, mas a única companhia garantida na vida é a dos próprios pensamentos. O mínimo que cada um deveria ter é a capacidade de lidar com esse elemento básico da existência humana, até porque quem não consegue estar sozinho quando precisa estar sozinho acaba vivendo uma vida parasitária, incompleta na sua característica mais básica. Uma existência atrelada à existência do outro é fundamentalmente incompleta.

O que não quer dizer que não existam vantagens consideráveis em criar e manter parcerias com outras pessoas, somos seres sociais e não dá pra atingir o potencial humano sem interações, evidente. Mas entendamos que existem padrões mínimos para que isso aconteça, não é o simples fato de ter uma pessoa próxima que significa que você conseguiu uma parceria. Nada mais comum do que se sentir sozinho mesmo cercado de outras pessoas, conexões não são geradas por mera proximidade, mas sim por um esforço conjunto de duas ou mais partes.

E um relacionamento falido é basicamente duas pessoas sozinhas mesmo estando próximas. Em dado momento algo se quebra e cria-se um afastamento que não pode ser corrigido por mera proximidade física. O estado natural humano é o isolamento, justamente por isso temos tantos instintos e processos automáticos que aumentam nossa necessidade de contato. Mas esses processos sozinhos não geram nada além de calorias vazias, eles são os estímulos iniciais do processo, não o ganho em si.

Então, mesmo que sob os olhos da sociedade você tenha a presunção de estar acompanhado e ter feito um laço significativo com outra pessoa, nada muda a realidade que um relacionamento falido é solidão da mesma forma. Com alguns confortos como o contato físico e a sensação de “propósito social”, mas ao mesmo tempo com a sensação horrível de não conseguir gerar uma conexão mesmo estando ali do lado do outro. Relacionamentos falidos frustram numa proporção bem maior do que nutrem, é uma troca desvantajosa.

O mesmo argumento que defenderia estar em um relacionamento ruim numa data como o dia dos namorados poderia ser usado em todos os outros dias do ano: a relação entre o conforto momentâneo e o fracasso do relacionamento deveria sempre pender na direção do longo prazo, não de uma sensação de pertencimento pontual. Se o que importa é o momento, um relacionamento é tão válido quando a sensação que te gera naquele instante? Se é assim, então por que pagar todo o preço de um relacionamento?

Não é um negócio lucrativo lidar com todo o processo de falência de um relacionamento amoroso só por um ou outro conforto pontual. A energia que temos na vida é limitada, inclusive pelo tempo. Não vejo muita função em afundar sua energia e tempo em algo que não vai te fazer realizado no projeto. Porque o projeto do relacionamento é importante, mas não é o único. Nem sempre temos condições de levá-lo em frente como ele merece, e gastar o pouco de disponibilidade que você tem na vida com um que não te acrescenta mais nada me parece enxugar gelo.

Muito melhor estar em outro projeto onde você tem mais capacidade de gerar resultados positivos do que em um fracassado só por causa de uma data comercial. É tanta sangria desatada assim se unir à massa de casais comemorando relacionamentos falidos por causa de um número no calendário? E tem mais: tem gente que não está capaz de ter um relacionamento, algumas talvez pela maior parte da sua vida, outras apenas num momento. Às vezes é melhor não fazer nada do que fazer algo mal-feito que vai te custar mais caro no futuro.

O que eu argumento aqui é a necessidade de saber escolher suas batalhas. Um relacionamento saudável pode fazer maravilhas pela sua vida, um relacionamento medíocre já pode ser valioso, mas um falido? Seria um parasita na sua vida, consumindo tempo e energia que já são muito limitadas, e sem te entregar nada em troca. O relacionamento pelo relacionamento só se importa com a própria manutenção, não com o desenvolvimento das partes dele.

Um relacionamento saudável é melhor que a solidão, e a solidão honesta é melhor que a ilusão de conexão com outra pessoa. Até mesmo se formos pensar num só dia, porque ninguém namora só no dia dos namorados, tem muita encheção de saco e frustração antes e depois dele. O quanto esse dia custou para você?

Para dizer que o melhor é ser rico, para me chamar de encalhado, ou mesmo para dizer que sempre prefere sexo: somir@desfavor.com

SALLY

Leiam bem a proposta de tema, antes de me chamar de hipócrita: o que é menos pior no DIA DOS NAMORADOS, estar sozinho ou estar em um relacionamento falido?

Em todos os outros dias do ano, é melhor estar sozinho do que em um relacionamento falido. Mas, no dia dos namorados, eu acho melhor estar em um relacionamento falido do que estar sozinho.

Um relacionamento falido é uma merda por infinitos motivos, mas se tem um único lado bom, esse lado é ter alguém para te acompanhar em programas que seriam, por excelência, “de casal”. E, no dia 12 de junho, quase todas as pessoas estarão fazendo programas de casal.

Então, sem aprofundar, sem questionamentos psicológicos, sem grandes interpretações: é bacaninha sair, jantar, tomar um vinho e bater um papo no dia dos namorados. Óbvio que ninguém tem que ser demente de se manter em um relacionamento falido o ano todo só para ter isso no dia 12, mas porra, analisando este dia em específico, me parece menos pior ter alguém para fazer um programinha bacana, mesmo que a pessoa não seja assim tão bacana.

E não me venham com essa conversa hippie de pressão social por um feriado comercial. Por favor, vivemos em sociedade, quem for idiotão de lutar contra convenção social ou é adolescente (nem que seja mental) ou é iludido. Dia dos namorados é um dia para celebrar casais, por mais que você tente fugir disso, não vai conseguir a menos que seja meio autista e viva em um mundinho só seu, onde possa se refugiar da realidade. E, francamente, prefiro um jantarzinho com um Mané meio Zé Ruela do que esse grau de desconexão com a realidade.

Um dia dedicado a casais afeta uma pessoa que não tem um par. E quando eu digo “afeta”, não quero dizer que a pessoa vá entrar em depressão e chorar em posição fetal a noite toda. Existem pessoas que não querem relacionamento naquele momento e estão elas de parabéns, relacionamento dá um trabalho do cão. Porém, isso não quer dizer que a data não afete a pessoa.

Imaginemos uma situação ficcional: o dia do verde. Você se mudou para uma cidade onde, uma vez por ano, tem o “dia do verde”, um dia onde toda a população sai às ruas vestida de verde, da cabeça aos pés. É uma data divulgada, comemorada, comentada. É um dia importante para aquela cidade, as pessoas esperam por esse dia, comentam a respeito e marcam eventos para celebrar todos vestidos de verde.

Mesmo que você não queira se vestir de verde, vai ser impactado ao sair na rua e ver que todos mundo está de verde menos você. O que você faz com esse impacto, depende do quão inteiro você é: pode se esconder, chorar ou se deprimir. Pode rir disso, fazer piada ou se valer da situação para observar as pessoas de verde e aprender mais sobre elas. Não importa. Independente da reação, uma data de proporções massivas como essa afeta sim a todos nós.

Além disso, verdade seja dita, o mundo não é um lugar fácil. Ter alguém ao seu lado, na forma de um parceiro em um relacionamento amoroso, torna o mundo menos difícil, mais suportável. Mesmo que a pessoa seja um zero à esquerda em muitas coisas, só o fato de estar fechada com você em uma parceria diária gera um conforto, ainda que seja apenas emocional.

E, no dia dos namorados, se você está sozinho, acaba lembrando disso: a regra é que as pessoas tenham uma parceria para ajuda-las nas dificuldades do dia a dia e você não tem. Por mais essa percepção não te derrube, por mais que não te deprima, dificilmente não dará algum grau de tristeza lembrar que você ainda não encontrou alguém para fechar essa parceria.

É um dia onde os casais se ostentam. Ver pessoas muito realizadas em um campo da vida onde você ainda não está pode gerar um desconforto, por menor que seja. Nesse ponto eu sou radical: não acho que uma pessoa consiga ficar feliz e realizada passando a vida toda sozinha. Acredito que relacionamento torna a vida mais fácil e mais legal. Há fases onde não queremos, mas também há fases onde queremos e não conseguimos.

Estar com alguém no dia dos namorados é estar socialmente adequado, é ter uma sensação de pertinência, é não destoar na multidão. Alguém morre se não tiver namorado? Não. É algo insuportável? Certamente não. Porém, a menos que você se esconda do mundo real, vai ter que bancar estar destoando do resto, o que pode despertar indagações, cobranças e até sentimento de pena. O que quero dizer é que tendo um namorado no dia dos namorados, por mais falida que seja a relação, ao menos as pessoas te deixam em paz.

Não vale a pena ficar em um relacionamento falido NUNCA, porém, o dia dos namorados, em específico, é bem mais fácil se você estiver com alguém. Uma coisa não contradiz a outra. Não estou mandando segurar um relacionamento falido só para que não passem o dia dos namorados sozinhos. Estou dizendo que, em matéria de dia dos namorados, para quem está em um relacionamento, ainda que falido, vai ser menos pior do que para quem está sozinho.

Para fazer uma falsa simetria e perguntar se eu sinto isso no dia das mães, para dizer que as Festas para Solteiros que acontecem no dia 12 são muito melhores que qualquer namorado ou ainda para dizer que tem outras preocupações mais importantes na vida: sally@desfavor.com

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Comentários (18)

  • Falando como uma mulher que não pode arranjar namorado por nada nesse mundo e que está caminhando pra morrer sozinha, óbvio que é melhor um relacionamento podre do que ficar só! Se você é mulher, no caso, visto que é impossível conseguir namorado se você não nascer bela e nem tiver grana pra consertar a feiúra com plástica. Para os homens a regra não vale, pois qualquer homem pode abandonar um relacionamento e conseguir outro no mesmo dia, se quiserem. But I digress….

    O problema não é só passar o dia dos namorados só, mas sim ficar sozinha em geral. Durante pouco tempo, ok, e esse tempo pode variar de mulher pra mulher. Só que após um tempo sem alguém chega a um ponto em que isso faz falta demais e não dá mais pra ser feliz vivendo sem ter uma companhia, uma pessoa que dê a mínima importância pra você.

    O pior de tudo é que ficar sozinha acostuma, e leva embora toda sua auto-estima aos poucos. Nem fico mais triste que o normal durante o dia dos namorados, pois já me sinto tão feia por não poder ter namorado nunca que nem consigo mais achar que mereço ter um. Muito menos que mereço passar um dia 12 feliz e ser feliz em geral no amor. Triste, né?

    Tou aqui só esperando pra nascer de novo bonita e poder ter vida amorosa…. Triste, eu sei, mas essa é a vida pra mulher feia…..

    • Beleza não é tudo. Sei que é quase tudo na sociedade atual, mas não é tudo.

      Quem disse que você não pode arranjar namorado por nada deste mundo?

      Quem disse que só com plástica se melhora?

      Ai, ai ai, pare de falar besteira!!!

  • olha, Sally e Somir….
    primeiro que essa data é só mais uma data inventada pelo comércio, então o resto que se phoda. Não curto dia disso ou daquilo. Não é necessário levar alguém pra jantar e depois pra comer pq todo mundo diz que é nesse dia que tem q fazer isso…
    só ou mal acompanhado,
    só ou bem acompanhado,
    não interessa o dia.
    Interessa é estar feliz! ;)

  • Sally está certa ao falar que causa um certo desconforto mas fico com Somir e a solidão honesta.

    “Amor é só um jeito de cuidarmos de nós mesmos quando não queremos viver sozinhos. ” (trecho de Pretend That You’re Alone – Keane) achei adequado.

  • Só discordo um pouco da argumentação do Somir, especificamente em ” O estado natural humano é o isolamento”. Se a gente for pegar os moralistas do século XVIII – La Rochefoucaud, Montaigne -, ou mesmo a “psicanálise ortodoxa”, daí sim, o homem é associal, a moral e as regras de convivência em sociedade vão contra a natureza humana. Mas de outro lado também está Rousseau e Smith com a ideia de “consideração”. Há um ensaio interessante sobre este tema (se o estado natural humano é o isolamento ou não) em Todorov, vale a pena a leitura.

    Discussões teóricas à parte… Dessa vez estou com o Somir. “Antes só que mal acompanhado” resume bem a coisa. Ora, imagine só, manter um relacionamento falido, ou estar acompanhado com alguém mesmo que seja apenas no dia dos namorados pra “manter as aparências”, pra se adequar a uma norma social? De repente o zé ruela qualquer é um chato, um saco de conviver, de repente posso até levá-lo a um jantar, mas o jantar seria terrível já que a companhia é terrível e a conversa em nada me agrada. Ahh não, não gostaria de passar por esse tipo de coisa. Melhor sozinho mesmo.

  • Também estou com o Somir. Relacionamento falido não vale nem no Dia dos Namorados! Preferível ficar em casa, curtindo um sorvete e Netflix!

    Ter um relacionamento falido só pra sair e jantar fora é olhar todo mundo em volta no maior romantismo (mesmo que falso, simulado, etc etc) e pensar que vc não tem nada disso… To fora!

  • Embora surja o desconforto mencionado pela Sally (e é mais por ter olhares de piedade e aguentar as piadinhas sobre estar “encalhada”), preferível estar sozinha no dia dos namorados do que em um relacionamento falido.

    Acho difícil não perceber que o relacionamento já acabou, estar com a pessoa na referida data é acabar se forçando a coisas que não se quer mais (e não me refiro a sexo).

    Então, entre aguentar o desconforto de destoar da maioria ou se forçar a algo que não quero, prefiro passar o dia dos namorados sozinha.

  • Concordo com o Somir. Quando eu estive num relacionamento falido em um dia dos namorados, a vontade de terminar ficou ainda mais evidente nesse dia tendo em vista a falta de vontade de comemorar o dia com o então namorado.

  • Relacionamento FALIDO em data nehuma! Se fosse só pra me adequar, preferia arrumar uma peguete dia 11 e dispensar dia 13. Afinal: O dia é dos namorados, mas a noite é dos solteiros!!!

    • Exatamente !

      “Dia dos namorados serve pra te lembrar que estar solteiro, não tem preço.”

      “Solteiro: um homem que tem a sorte
      de celebrar as festas de família fora de casa.”
      (Noel Clarasó Serrat)

  • Sozinha!
    Não ligo nem um pouco para sair, muito menos no dia 12, até porque todos os lugares para casal estarão lotados.
    Se planejar programa​ romântico em casa, legal, até prefiro. Mas estar sozinha é tão bom também. Posso ver minhas séries na hora que quiser, comendo oq eu quiser, vestindo a pior roupa possível.
    Nossa, mil vezes sozinha.

  • Hoje eu concordo com Somir. Cheguei a sentir o desconforto que a Sally mencionou, mas no dia 14 de fevereiro, que as pessoas do meu meio acabam comemorando também. Agora estou sozinha e feliz, só lembrei do dia dos namorados por uma amiga ter falado e ri.
    Varia muito de momento sim, mas não consigo me imaginar mais numa relação falida e achar um lado bom na situação.

  • Não desejo relacionamento falido em nenhuma época do ano, e acredito que no Dia dos Namorados, cuja data envolve romantismo, presentes e uma noite especial, atenue-se ainda mais a necessidade do fim. Por hoje, concordo com o Somir.

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