Socializar faz parte da vida, e a vida nem sempre é agradável. Nessa combinação, Sally e Somir discutem o quanto vale a pena tentar mitigar os danos de eventos ruins. Os impopulares comparecem.

Tema de hoje: é válido beber para agüentar um evento social ruim?

SOMIR

Eu provavelmente vou ser voto vencido aqui, o álcool tem o hábito de vencer qualquer controvérsia. Não, não é válido beber para agüentar um evento social mala ou a companhia de gente chata, não é válido porque o álcool não cria nenhum fato novo nessa interação. Eu normalmente exijo mais de vocês do que a média nesse tipo de argumentação, e não vai ser diferente hoje. Tente tirar da sua cabeça a presunção que o álcool te torna mais sociável e tolerante só pela duração deste texto, mas fique tranqüilo, você pode ter tudo de volta assim que acabar de ler. Considere um exercício argumentativo:

O que o álcool faz no seu organismo? Bom, ele basicamente te envenena. O corpo humano não está programado para fazer uso do álcool, então considera a substância um problema a ser resolvido (basicamente, o que se considera um veneno). O seu fígado corre para eliminar tudo o que puder dele, e veneno por veneno, esse ele é bem eficiente para lidar. Precisa beber muito para causar problemas sérios, e não à toa, existe uma linha de defesa no entorpecimento causado pelo álcool: por tirar sua capacidade de pensar corretamente e influenciar negativamente sua coordenação motora, quanto mais se bebe, menos eficiente você se torna para continuar bebendo.

Uma pessoa muito bêbada começa a entrar num campo de imensa aleatoriedade comportamental, o cérebro desesperado por estar com os sistemas falhando por todos os lados. E por mais que você tente traçar uma linha de quão bêbado se está para atender às condições do tema de hoje, há de se concordar que essa linha é extremamente pessoal. Até porque cada corpo tem seu próprio metabolismo. O tanto que eu preciso beber para ficar inebriado e o tanto que a Sally precisa diferem muito, por motivos óbvios. E mesmo assim, não é uma linha muito consistente, porque estou pra conhecer uma pessoa que fica sempre bêbada com a mesma intensidade em qualquer evento.

Não existe um padrão muito confiável de mudança de atitude em relação aos outros com o consumo de álcool, até porque você está tomando uma dose tolerável de veneno que seu corpo é preparado para lidar. Quem está mexendo com sua percepção da realidade e coordenação é basicamente uma última linha de defesa no caso do veneno passar do limite. E é aí que eu vou trazer o argumento mais controverso, o que eu tentei atrasar o máximo possível para que estivéssemos na mesma página: o álcool não mexe na sua personalidade.

Tudo o que você faz bêbado, faz sóbrio. É o contrário que não funciona. O entorpecimento causado pela bebida não gera nenhum fato novo sobre sua personalidade. Se você fez algo bêbado, pode ter certeza que poderia ter feito sóbrio se quisesse. Parece uma obviedade, mas é central ao argumento aqui: a única coisa que uma droga em dose suficiente faz para alterar o comportamento de uma pessoa é eliminar sua personalidade debaixo de uma série de ações aleatórias e caóticas causadas por defeitos em série no funcionamento do cérebro. Quando mais entorpecido, mais é a camada primal de funcionamento do seu cérebro que age.

E, surpresa, surpresa: não somos tão evoluídos assim para que nossos cerebelos não sejam capazes de gerar interações válidas e positivas com outros seres humanos se deixado livre para agir. Desejos básicos e instintos são razoavelmente eficientes na manutenção da sua existência, só não são muito práticos no longo prazo. Enquanto seu cérebro está só um pouco limitado pelos efeitos do álcool, você ainda é você com uma taxa de erro razoável. Quando você passa do seu limite de absorção da substância, você se torna uma massa de decisões aleatórias que não correspondem a nada que seu cérebro evoluído planejou.

Ou seja: quaisquer interações que você tenha com outros seres humanos após o consumo moderado do álcool (e, novamente, varia…) ainda são reguladas exatamente pelos mesmos fatores que regulam seu comportamento sóbrio, a única diferença é que você é capaz de racionalizar suas vontades causadas pelos erros de funcionamento que já começam a acontecer, e se permitir agir mais de acordo com seus instintos sob a desculpa socialmente aceita de estar bêbado. Álcool é tão popular justamente por ser uma máscara para o que já queremos fazer mas não queremos admitir. Por isso que ninguém consegue cortar o consumo da substância na humanidade.

É aceitável inventar uma desculpa para socializar? Não acho. Se você fez bêbado, faria sóbrio. Se você achou interessante bêbado, acharia sóbrio. A única coisa que muda é o fim do auto-julgamento sobre isso. Somos basicamente todos imbecis (e eu digo isso com carinho) lá no fundo. Pense em como sua personalidade é quando você está com pessoas com as quais se sente muito confortável e como é quando você está “alegre” de álcool. Álcool não gera nenhum dos seus comportamentos típicos de confiança e liberdade para admitir o que realmente é, ele só é uma racionalização para esse suposto momento de vulnerabilidade.

E só quando a concentração de álcool no seu sangue alcança níveis além dos da sua capacidade de lidar que você começa a exibir comportamentos que não dizem respeito à sua personalidade habitual, e não é nada criado, é apenas um sistema altamente complexo funcionando errado. Você bêbado é um programa de computador com defeito, mostrando coisas que não fazem sentido e tomando decisões baseadas em cálculos absurdamente errados. E quanto mais se bebe, mais próximo se fica desse ponto.

Beber para agüentar um evento social mala é ir progressivamente fugindo dele, rumo a uma falha completa do funcionamento da sua capacidade cognitiva. Nada contra querer tirar umas férias pontuais do seu cérebro, mas dizer que é aceitável fazer isso por padrão, só para agüentar o mundo? Se você não consegue fazer sóbrio o que faz bêbado, você está se reprimindo. O álcool não coloca nada lá que não esteja. Então, pra que se envenenar por nada? Quer beber? Beba e curta os defeitos progressivos que ele causa na sua percepção, curta o entorpecimento, mas não tente fingir que ele mexe com sua vida, porque no final do dia, é só um veneno que gostamos de tomar. O resto, o resto somos nós, como sempre fomos.

Pronto, pode voltar para o mundo que conhecia antes, se quiser.

Para dizer que não entendeu nada, para dizer que eu estou abusando da tática, ou mesmo para dizer que eu estava muito bêbado quando escrevi: somir@desfavor.com

SALLY

É aceitável beber em eventos odiosos para que eles sejam mais fáceis de tolerar? Sim, as pessoas estão suficientemente insuportáveis para justificar um entorpecente.

Percebam que a pergunta é sobre beber. Não é aceitável ficar bêbado, dar vexame, vomitar ou coisas do tipo. É possível beber e manter a dignidade. O fato do brasileiro médio não saber fazê-lo não quer dizer que não seja possível. Percebam também que estamos perguntando se é aceitável fazer e não se é saudável ser dependente disso para conseguir socializar. Dependência nunca é saudável. Porém, fazê-lo como opção, para tornar menos insuportável um compromisso pontual obrigatório, me parece inofensivo.

Nem sempre podemos deixar de ir a eventos odiosos. Uma série de pressões sociais nos obriga a frequentar ambientes insuportáveis como festas do trabalho, família do cônjuge, aniversário de criança e outros eventos que te fazem sentir vontade de se matar com um Harakiri Baiano. Todos nós temos que pagar contas, comer, pagar aluguel e cultivar um mínimo de relações sociais. Sempre que existe uma mínima chance de escapar destas desgraças, eu me evado sem constrangimento, mas nem sempre dá.

Quando não dá, é um sofrimento que eu passo de cara limpa, e justamente por isso, posso mensurar em sua plenitude e dizer que, sim, eu entendo quem bebe para que isso se torne menos insuportável. Pode ser um ou dois chopinhos, não precisa ser muito, a quantidade não importa. O necessário para que o mundo se torne menos pau no cu sem que a pessoa dê vexame.

Bebendo como gente, não se prejudica ninguém e a situação se torna menos insuportável. Não é uma opção para mim, pois beber também me parece insuportável, eu realmente não gosto da sensação de diminuição da capacidade de percepção e atenção. Mas, para quem acha a sensação agradável, ou seja, 99% das pessoas, dou todo o apoio. Beber como condição sinequa non para socializar é probleminha de cabeça, beber como leve anestésico por, naquele dia, naquela ocasião, não estar com paciência para aquela merda, é compreensível.

Reduzir o sofrimento de algo inevitável sem fazer dano a ninguém sempre me parece válido. As pessoas estão cada vez mais insuportáveis e desinteressantes, então, soca o que precisar para lidar com essa gentalha: Rivotril, Vinho, Chocolate… qualquer coisa que te ajude. É melhor isso do que passar a raiva que eu passo, o desgosto, os sapos entalados na garganta. Se você não encontrar uma válvula de escape para dar vazão ao desgosto, vai acabar escrevendo um blog anônimo diário e, acredite, dá muito trabalho. Melhor beber.

Não custa relembrar que eventos odiosos podem ir muito além de gente pau no cu. Muitos deles tem ambientes pau no cu (lotados, distantes, feios), música pau no cu, estímulos sensoriais pau no cu (gente feia, cigarro e cheiro de Kolene, por exemplo), temperatura pau no cu (evento quente desperta instintos homicidas) e muitos outros fatores pau no cu. Então, mesmo que você tire força do fundinho do seu ânus para encontrar as melhores pessoas no evento de merda e socializar com elas, ainda assim, sairá estressado.

Adoraria uma substância lícita que me desse prazer e entorpeça meus sentidos a ponto de calor, muvuca, barulho e cigarro ficarem menos insuportáveis. Quem não faz uso dela como aliada é um idiota, e, “como aliada” quero dizer para atenuar desconforto e não para gerar ainda mais problemas (saber beber é uma arte para poucos). Bem utilizada, a bebida tem seu mérito. Já pensei o contrário, mas hoje, eu aplaudo quem faz este bom uso, a pessoa sofre menos do que eu quando exposta a uma situação de merda.

Vai ter quem pense que a vida não é tão dura assim para precisar deste recurso: as pessoas mais novas. Permita contar-lhes um segredo: quanto mais velho você fica, mais obrigações pau no cu tem. Depois de uma certa idade, seus amigos parecem mais te odiar do que gostar de você. Te colocam na obrigação de ir na festa de aniversário do filhos, festa de casamento, festa de bodas de whatever, etc.

Tem também os odiosos chás, que consistem em dividir com você a responsabilidade financeira por uma escolha da pessoa: chá de casa nova, chá de bebê, chá de panela, chá de fralda… dá vontade de fazer um Chá de Camisinha, para essas pessoas pararem de procurar. Fora compromissos de trabalho, que bem vou começar a detalhar. Fato: dificilmente alguém te chame para algo divertido depois dos 35 anos, o que talvez tenha contribuído para que eu mude de ideia.

O combo que vem na vida adulta de trabalhar demais + ter pouco tempo livre + viver em privação de sono + já ter ouvido merda demais nesta vida para ter paciência ou esperança, faz necessário uma ajudinha na hora de encarar um evento pau no cu. Só quem teve que trabalhar 12h por dia e depois ir a uma festa de merda, com música de merda, em um lugar de merda, com pessoas de merda quando na verdade tudo que queria era estar na cama sabe do que eu estou falando.

Não é usar bebida para conseguir socializar, vencer timidez ou qualquer outra muleta. É beber para não ser tão impactado por aquela infinidade de estímulos desagradáveis. Se o estupro é inevitável, ao menos passe lubrificante. Chega um ponto da vida em que você está tão de saco cheio de ter que aturar sempre as mesmas coisas insuportáveis que uma ajudinha cai bem.

Para dizer que eu fiz o desfavor de te convencer a começar a beber, para dizer que o segredo é convencer os outros a beber e sair quando eles estiverem alcoolizados e nem lembrarem ou ainda para dizer que é bom ver que um de nós dois evoluiu em sua opinião: sally@desfavor.com

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Comentários (9)

    • Já há um bom tempo que venho desconfiando que o ED/ED não é realmente uma coluna onde vocês expõem suas opiniões, e sim onde treinam a capacidade de convencimento.
      Percebo isso pela enorme frequência em que vejo o tema e me surpreendo ao me dar conta de que cada um expressou exatamente o oposto do esperado, não só por mim, como pelos impopulares.
      Isto posto, creio que vocês, Somir e Sally, muitas vezes defendem pontos de vista contrários aos seus próprios, apenas para aprimorar a capacidade de argumentação.

  • Não vejo nada demais em beber um pouco.
    O problema seria exagerar, engolir uma situação ruim, só para depois descobrir que poderia ter agido de forma diferente.

  • Não só concordo, como BEBO MESMO em ambientes que fui obrigada a ir sem minha vontade. Resguardo meu fígado exatamente para essas situações.

  • Estou 150% com o Somir hoje! E eu não bebo nada, assim como a Sally.
    Mas meu circulo social próximo bebe muito! E já fiz o experimento de beber até alterar meus sentidos, para saber como era.

    E concordo plenamente com o Somir. O alcool não coloca nada lá, só tira os filtros. Tudo é nosso, só fica escondido e preso atrás de filtros e mais filtros.

    “Álcool é tão popular justamente por ser uma máscara para o que já queremos fazer mas não queremos admitir. ” – gênio!
    Tenho uma colega de familia super religiosa que simula estar levemente alcoolizada (um pouco além do “alegre”) pra poder fazer de tudo sob o argumento de que “foi o álcool”. Depois de anos de convivência que percebemos que era simulado, porque como o Somir bem pontuou, ela sempre ficava exatamente no mesmo estado depois de 1 ou 2 copos de cerveja.

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