Marcha “nazista”.

Muito se falou de uma marcha “nazista” realizada na Virgínia, nos EUA. Quando vemos a notícia apresentada desta forma, dois desfavores enormes acontecem: 1) você é induzido a erro e 2) glorificamos um grupo medíocre que merece morrer na escuridão.

Um breve resumo do que originou a manifestação: na cidade de Charlottesville existe um parque, no centro da cidade, onde há uma estátua de um general chamado Robert E. Lee. Robert ganhou uma estátua por ter lutado pela independência dos Estados Confederados, no sul do país, durante a Guerra Civil americana. Diversos generais com o mesmo feito tem estátuas espalhadas por todos o país. Porém, parece que o fato de Robert ter lutado contra a abolição da escravatura estava causando algum desconforto e foi decidido remover sua estátua.

Membros da chamada “extrema direita” se reuniram e saíram para protestar contra a remoção desta estátua. O protesto foi descrito como “nazista” e pregando “supremacia branca”. Em fotos, é possível ver cartazes com dizerem “Vidas brancas importam”, em uma alusão aos protestos realizados por negros, com cartazes “Vidas negras importam”. Até aí, me desculpem, mas vidas brancas importam sim, assim como negas, azuis, amarelas ou vermelhas. Vidas humanas importam e se negros podem andar com cartazes (e até pichar ruas e monumentos) com a frase “Vidas negras importam”, brancos também podem. Particularmente acho feia essa distinção de raças, mas, no caso, ambos os lados estão sendo antipáticos.

O que a imprensa vendeu foi: “Marcha Nazista”. Você chegou a assistir aos vídeos? Se garimparmos até a fonte primária desta manchete, chegamos à BBC, que, em sua notícia original, diz “um homem que participava do ato chegou a gritar ‘sim, eu sou nazista’ “. Um homem. UM HOMEM. Não custa lembrar que na marcha contra a corrupção aqui no Brasil tinha uma meia dúzia de gatos pingados pedindo loucuras como volta da monarquia ou volta da ditadura militar. Maluco tem sempre, em qualquer lugar. Considerando os vexames que a imprensa vem protagonizando, isso, no mínimo, me deixou de orelha em pé. Mas, ok, não estávamos lá, não podemos saber se nazistas eram maioria ou não. Então, vamos supor que de fato todos os que estavam lá são nazistas, estavam pregando a superioridade da raça branca e estavam propagando a intolerância contra negros, gays, judeus e etc.

Ainda assim, ainda que estejam pregando a coisa mais errada do mundo, as pessoas tem direito a opinião e a manifestar sua opinião, principalmente nos EUA, onde a liberdade de expressão é muito bem assegurada pela lei e um dos pilares do país. Então, não faz sentido, principalmente em um país onde uma associação de pedófilos (NAMBLA) tem permitido um site, querer calar a boca de alguém que você discorda. O desprezo é silencioso, qualquer outro ato deixa de ser desprezo e, por mais que esteja revestido de repúdio, acaba virando marketing e divulgação gratuita nos dias de hoje. Imbecilidade se combate com instrução e informação, não com resistência e agressividade.

Então, por mais que você despreze o mérito da manifestação, ele tem, perante a lei americana, o sagrado direito de estar ali. “Ah, mas eu não concordo”. Pega sua brasilidade nagô e enfia bunda acima, pois esse conceito de “não concordar” com lei só existe aqui, nesta República das Bananas. Lei é lei, é um direito que o Estado conferiu a estas pessoas e no dia em que começarmos a suprimir um direito conferido a todos porque Vossa Majestade Você não concorda, o mundo vai virar uma merda. A manifestação só se tornou ilegal quando se tornou violenta e… adivinha se foram os nazistas que jogaram a primeira pedra?

Um grupo de discordantes tentou fazer uma parede humana, impedindo que os manifestantes cheguem a seu destino. Pra que? Pra queeee? Deixa o coleguinha falar merda, deixa o coleguinha fazer merda, o preço de poder falar o que quer é que todos, inclusive os ignorantes e os filhos da puta, também possam falar o que querem. Se alguém impedisse uma marcha gay ou de negros, o mundo todo cairia de pau. Por qual motivo uma causa é mais válida do que a outra? Certamente não é pela sua opinião ou pela minha. Em uma sociedade democrática, todos tem o direito de se expressar, inclusive os idiotas.

Mas parece que não. Além de tentar impedir, também tomaram atitudes mais enérgicas, como jogar spray de pimenta nos manifestantes. Grupos rivais partiram para o confronto e teve pancadaria com barra de ferro, pedaços de madeira e outros objetos. Se você entende que aquela manifestação é ilegal, chame a polícia. Pegar um spray de pimenta e fazer justiça com as próprias mãos ou uma barra de ferro e ir bater nas pessoas te faz tão errado e intolerante quanto elas.

Um dos organizadores da marcha disse que o objetivo é defender direitos dos brancos e lutar contra a censura, o revisionismo e a favor da liberdade de expressão. Olha, não vejo nada de mais neste discurso, mas, novamente, ainda que fosse algo totalmente reprovável, não se bate palma para maluco dançar, se o sujeito está falando besteira, deixe-o morrer na escuridão em vez de dar fama e notoriedade para suas bobagens.

Agora o mundo todo está falando na “Marcha Nazista”. Começam a surgir versões de que pessoas faziam gestos nazistas, levavam suásticas, gritavam contra gays, negros e judeus. Uma aparição text book de nazismo foi instituída. Sabe qual é o problema de divulgar idiotas? Chamar de outros idiotas, que acabam se unindo à causa. Adivinha se não teve aumento de busca por sites nazistas, adesão a grupos extremistas e outros movimentos neste sentido? Parabéns, apontaram uma seta para onde todos os malucos desajustados e preconceituosos do mundo podem se encontrar e se reunir.

A imprensa noticiou as brigas que ocorreram como “manifestantes nazistas em embate com pessoas que eram contra essa manifestação”. O conceito de ser contra o nazismo eu conheço e pratico, mas… ser contra manifestação por discordar do que ela prega? Isso felizmente ainda me choca. Posso criticar uma manifestação por achar que não seja um meio eficiente, mas existe um mundo de diferença entre ser contra o que grupo prega e ser contra que esse grupo possa falar, reivindicar e se manifestar.

Quando pessoas tentam calar um grupo, passa a impressão de que este grupo tem força: “rápido, vamos silenciá-los, se não este pensamento vai se espalhar”. Pensamento não é vírus, pensamento não se espalha pelo ar. Pessoas instruídas, educadas, esclarecidas, não se tornam nazistas. Pessoas toscas, sem instrução e ignorantes se tornam nazistas ao simples acessar um site, nem precisa de manifestantes. Então, não há relação direta entre uma manifestação (principalmente em uma cidade de 50 mil habitantes) e adesão massiva a nazismo. A menos, é claro, que imbecilóides façam repercutir isso pelo mundo, dando um status de concerto de rock ao evento. Parabéns aos envolvidos.

Então, não tem “lado certo” nessa história. Independente de ser contra nazismo, ser contra que pessoas expressem sua opinião é uma abominação. Pior: uma abominação burra, pois mais do que repelir, acaba promovendo esses babacas e permitindo que mais babacas se juntem e eles.

Depois de dois embates, Virgínia declarou estado de emergência, e isso foi noticiado como “Manifestações nazistas fazem Virginia decretar estado de emergência”. Na verdade, os babacas estavam manifestando na deles, quem foi procurar embate foi o grupo com pensamento contrário, que tentou impedi-los de continuar manifestando e começou a confrontá-los. Só que fica feio demais publicar uma sentença com a palavra “nazista” sem que venha junto uma crítica a este grupo.

A imprensa tentou capitalizar o evento para atender a seus interesses. Se há nazistas fazendo barulho, vamos vinculá-los a tudo que não gostamos e queimar nossos desafetos. Insinuou, por exemplo, que esta marcha estaria, de alguma forma, ligada a Trump. Tudo de ruim acaba vinculado a Trump, ele é a lixeira da imprensa. Mas Trump, esperto que é, não usa intermediários, foi direto a seu Twitter: “Nós todos devemos estar unidos e condenar tudo o que representa o ódio. Não há lugar para esse tipo de violência na América. Vamos continuar unidos”. Não parece sincero, mas é politicamente correto, não se pode negar. Mas sofreu críticas: acharam ruim ele não ter criticado diretamente o grupo nazista.

Não há como argumentar: está instituído que 1) Eram todos nazistas que marchavam pelo nazismo, contra gays, negros e judeus ; 2) Eles foram a causa da violência e 3) Devem ser combatidos e silenciados, caso contrário é sinal de que você concorda com eles. E de fato, muitas pessoas intimidadas por este mecanismo, acabam detonando algo que sequer averiguaram. Pessoas que querem soar boas aos ouvidos de terceiros marretam o que aconteceu batendo sempre nos nazistas. Bater em nazista é sucesso garantido, pois todo mundo os odeia. Difícil mesmo é tentar ver um novo ponto de vista de uma situação delicada como esta.

Não sejam essa pessoa, que afirma com certeza uma coisa que não viu e que tenta silenciar quem ela acha que está errado. Não seja essa pessoa burra que tentando silenciar promove. Mas, acima de tudo, não seja essa pessoa boba que pensa que todos aqueles que se opõe ao nazismo e obstruem sua manifestação são boas pessoas e estão com a razão.

Para me chamar de Hitler, para me chamar de Ritler ou ainda para me chamar de nazista, provando seu analfabetismo funcional: sally@desfavor.com

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25 desfavores sobre “Marcha “nazista”.

Amei o texto, Sally! Muito bom! E vc levantou uma boa questão: Do quanto discutir a liberdade de expressão desta turma chamada de nazista (bem, como vc bem aventou, pode ter sido apenas um, mas apontam como se todos fossem assim, a despeito de exigir coerência dos outros) pode acabar contribuindo para divulgar o que querem combater. E claro, o papel da imprensa, lamentável, espalhando desinformação e arranjando jeitinho pra colocar Trump no meio de qualquer coisa ruim, como se ele já não tivesse do que ser (realmente) criticado. Nem precisaria inventar, mas infelizmente a honestidade é esquecida convenientemente quando se trata de criticar adversários, coisa que os politicamente CUrretos fazem muito bem.

*P.S: Um off topic, que é uma sugestão: Tô com saudade da coluna do processa eu… Eu sugiro um processa eu de Caria Mallas, a diva operística mais midiatizada de todos os temos hehehe ;)

A imprensa dizendo que Trump, JUDEU, está defendendo nazismo… olha, é de fazer cair o cu da bunda.

Vou estudar sobre ela e ver se consigo informações para um Processa Eu!

Muito obrigada, Sally! :) <3

Apois, taí uma coisa que eu não sabia: Trump é judeu! Pois é, as pessoas ficam histéricas e não se preocupam em pesquisar antes de falar, mas como querem causar e lacrar, acabam trocando os pés pelas mãos- e este tipo de comportamento é uma das grandes razões que Trump triunfou, pois muitos estavam cansados desses politicamente corretos lacradores descerebrados que fazem faniquitos e inventam coisas – além de querer apontar o dedo e policiar a vida alheia. Chega uma hora que isso estoura e Trump é justamente este estouro.

Embora a família de Trump tenha ligações com judeus, ele não é judeu. Entretanto, é cristão dos mais tradicionais (embora a própria Igreja o renegue).

Mesmo tentando sempre beber em várias fontes antes de formar minha opinião sobre essas paradas, caí nessa. Talvez por ser um tema que causa tanto nojo, eu acreditei de cara que era verdade, pelo absurdo gigantesco que parecia. Idiotas sempre existiram, o problema é que agora eles tem mais visibilidade e viram imã para outros igualmente idiotas, como vocês sempre falam por aqui.

Muito obrigada por, mais uma vez, me apresentar um outro ponto de vista sobre esse caso.

Talvez sejam de fato todos nazistas. Não sei. Não sabemos nunca. Mas, mesmo que sejam, liberdade de expressão é 100% ou não é liberdade.

Nao consigo entender como Trump pode ser nazista e judeu ao mesmo tempo. Soa meio paradoxal, já que um dos alvos da perseguição nazista são justamente os judeus.

Quanto à essa marcha, ou melhor, à publicidade que foi dada a ela, isto me cheira a estratégia de marketing. Falar em “marcha nazista” vende mais jornais.

Quando um grupo defende abertamente ideologias notoriamente odiosas ele acaba expondo o grau de ignorância de parte da sociedade, como sintomas de uma doença. Imaginem um câncer que se espalha pelo corpo silenciosamente e, quando finalmente ele dá as caras, já é tarde demais para ser combatido: seria melhor se ele tivesse escancarado sua presença desde o início, não? Enfim, impedir uma pessoa de expressar o que ela pensa, por pior que seja, não só abre um precedente perigoso como também não funciona.

Isso: “Se há nazistas fazendo barulho, vamos vinculá-los a tudo que não gostamos e queimar nossos desafetos. ” E a origem da distorção é a BBC? Olha só quem já foi orientada a aproveitar a “tendência” e pra quem ela deu essa declaração: http://www.gazetadopovo.com.br/politica/republica/dilma-pais-pode-ter-um-hitler-se-eleger-o-novo-para-presidente-0c4yz4zpttf1yvw7oeixqsbzr
Essa pessoa sim, é quem devia ser proibida de dar declarações públicas.

Jornalistas, pessoas comuns porém com milhares de seguidores, youtubers, blogueiros, autores, celebridades… enfim, grande fatia dos meios de comunicação e entretenimento estão se dedicando à mesma narrativa cancerígena do esquerdolacre. Choram, gritam, lacram, espalham mentiras e montagens, fazem o diabo pra censurar, pra arruinar a reputação e a vida de qualquer um que não pactue com isso. Daqui a pouco aparece gente se matando (ou sendo morto) por causa de uma acusação errônea de preconceito-ismo.
A demissão daquele cara da Google foi só o começo.

Tá comum hoje pegar um desafeto e, por interesses egoístas, jogar ele aos leões imputando comportamentos socialmente reprováveis…

E é justamente por sempre nos trazer uma visão diferente do que estamos acostumados a ver na mídia e nos fazer pensar fora da caixa que a RID é tão especial!

Sally, achei tua posição muito coerente com o que sempre expõe aqui. É a velha máxima sobre não concordar com o que se diz, mas defender o direito de dizer.

Defender o direito de dizer não se confunde com defender o mérito do que está sendo dito. A menos no Brasil, é claro.

Concordo com os argumentos do texto que as pessoas precisam ter liberdade de expressão (e lidar com as consequências disso) e que teria sido muito mais lindo se todos tivessem ignorado e não houvesse um pingo de menção à manifestação na imprensa.
Por outro lado, também acho ótimo esse movimento contra o que a manifestação supostamente pregava, para mim significa que tem mais gente sensata do que idiota no mundo.
E, por fim, acho um saco esse contra-movimento de direitos dos branco. Sério, que direito de branco está sendo cerceado? Que tal deixar as pessoas que realmente estão sofrendo com preconceito (e não me refiro somente a pessoas negras) lutar pela suas causas sem ser aquele que, quando você diz que tá sem dinheiro, faz questão de jogar na sua cara que já sobreviveu na rua, comeu comida estragada e dormiu num colchão cheio de barata só para se sair por cima?

O problema é que muitos grupos se excedem nessa “luta contra preconceito” e com isso oprimem os demais…

Extremismos sempre existem de um lado ou outro, mas me cansa muito ouvir sobre ditadura gay, racismo reverso, etc.

Sabe o que é o melhor dessa pataquada toda? Ver aqueles que posavam de defensores do “mundo melhor” para todos tirarem suas roupas de bonzinhos e mostrarem sua verdadeira face, a de ditadores em potencial – não do comunismo, mas do progressismo.

Não custa lembrar que as ditaduras são muito eficientes quando se trata de fazer com que um grupo de ideias prospere na sua totalidade. Há ditadura comunista, há ditadura fascista, porque não poderia existir uma “ditadura pogreçista” disfarçada de governo democrático, com eleições em nível local, mas subordinadas a um comando puramente tecnocrático?

Você pode dizer: “ora, mas isso está longe de existir…”. Bom, o TPP, que era parecido com isso, só não foi assinado porque Trump foi eleito a tempo, mas e a União Europeia? Não é muito semelhante a um “governo globalista”, progressista até a medula?

Pode haver qualquer tipo de ditadura, nem ditadura nem nazismo são exclusivamente esquerda ou direita. Mas as pessoas adoram imputar coisaa ruins a seus desafetos

Lógico. Por isso é que dá raiva quando defensores da “direita liberal” ficam martelando que o nazismo é de esquerda, tentando impor uma relação entre liberalismo e democracia.

Ora, o dinheiro não se interessa pelas liberdades individuais, muito pelo contrário. Cidadãos num sistema capitalista devem ser educados a consumir, gastar, trabalhar – e só.

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