Saudades em série.

Tudo o que é bom acaba, dizem por aí. Sally e Somir nem sempre se contentam com essa sabedoria popular, e sentem falta de algumas séries. Obviamente, séries diferentes. Os impopulares exploram sua saudade.

Tema de hoje: qual série deixou mais saudade?

SOMIR

Breaking Bad. Não que a série que a Sally escolheu seja ruim, muito pelo contrário. Mas sentir saudade de uma série que segue uma fórmula episódica ao invés de um arco maior não é exatamente a mesma coisa. Breaking Bad foi provavelmente uma das primeiras séries nesse formato de arco longo que a maioria de nós nos viciamos (convenhamos que a cultura de séries demorou pra pegar por essas bandas).

Breaking Bad veio numa época onde começaram a reverter um pouco o conceito de herói da trama em séries: o herói falho como tantos outros, mas falho o suficiente para ser ambíguo na torcida gerada nos espectadores. Qualidade de protagonista por qualidade de protagonista, posso até ceder o ponto que o escolhido pela Sally era mais divertido, mas… perto da dualidade “heisenberguiana” de Walter White, tinha a profundidade de um pires.

A série deixa mais saudades porque sabia desenvolver a história com a história em primeiro plano. Outras séries mais formulaicas de “caso da semana” sempre eram obrigadas a colocar o desenvolvimento de personagens em segundo plano, e manter tudo suficientemente aberto para que fosse simples para uma pessoa pegar a série de qualquer episódio e curtir normalmente. Breaking Bad não perdoava: era um emaranhado de tramas e tensões crescentes que se visto separadamente, não tinha um milésimo do impacto que teria sequencialmente. Não dava pra perder o episódio anterior, e muito menos o seguinte.

Não se estava investido apenas no carisma de uma personagem, até porque personagens carismáticas não eram o forte da série, o investimento era na trama, onde o próximo capítulo não poderia ser negligenciado. O “showrunner” da série contou em entrevistas que os roteiristas estavam todos focados em se colocar armadilhas na trama, coisas que dariam um trabalho enorme para explicar e que prendiam a história em bases complexas, num termo da língua inglesa que pode-se traduzir literalmente como “se escrever num canto”. Com essa pressão, a série continuava extremamente tensa, e os espectadores sentiam-se tão amarrados nas premissas e consequências da história como as personagens.

Uma coisa é sentir uma tensão que você sabe que basicamente vai acabar até o fim do episódio, outra completamente diferente é ver o caminho do protagonista num “canto” tão apertado que começa a parecer impossível escapar dele. Quando Walter conseguia alguma solução improvável para os problemas, não era só o resultado da “mágica do protagonista” agindo (como acontecia muito com a escolha da Sally), era uma ação desesperada, perigosa e incomodamente compreensível por quem acompanhava a série.

Porque Breaking Bad tinha muito disso: te tornava cúmplice. Quando você vê uma pessoa se enfiando em buracos cada vez maiores e começa a imaginar o que você faria pra escapar daquilo, é natural sentir alguma empatia. Walter White era inteligente acima da média, mas não tinha superpoderes. E quanto mais ele se afundava, mais uma parte de sua personalidade surgia, aquela que sempre nos deixava na dúvida qual dos dois lados de Walter era o principal. Tenho discussões até hoje com outros fãs da série sobre Heisenberg e Walter.

A série não só era um show de tensão, como também dava um baile na escolhida pela Sally nas personagens secundárias. Tanto que a Netflix soltou uma série contando a história de alguns deles, e já está indo pra terceira temporada! Um advogado pilantra de Breaking Bad – que nem aparece tanto assim nos episódios – já deu uma série excelente. Até porque essas personagens não estavam lá para serem meras escadas para o protagonista, cada um tinha sua história e todas entravam em conflito.

Sem contar o seguinte: essas personagens secundárias despertavam sentimentos, eu passei a série odiando a mulher do Walter, mas no finalzinho, eu não pude evitar de entender melhor o lado dela. Estava lá o tempo todo, mas era tão bem escrito e desenvolvido que nós, os espectadores, contraímos a mesma cegueira do protagonista. Não que tenha só uma interpretação, mas cada pessoa na série tinha algo de compreensível, inclusive os “vilões”, e escrevo entre aspas porque até o próprio protagonista fazia esse papel de tempos em tempos.

Por essa dinâmica entre personagens, pela história baseada em tensão e consequências dos atos, pela mania “perigosa” dos roteiristas de se colocarem em armadilhas o tempo todo, poucas séries geravam tanta antecipação para o próximo episódio como Breaking Bad. Com exceção de Game of Thrones (que já entrou naquele modo LOST de querer ver porque vai acabar), nenhuma outra série consegue fazer isso com o público atualmente. Sim, várias são muito boas e interessantes, mas as que não perdem o fôlego são uma raridade. E Breaking Bad continuou em alta o tempo todo, inclusive ganhando a maior parte de sua popularidade no final. Não era uma série que só funcionava para quem gostava do protagonista, era uma experiência que muita gente precisava viver.

E por mais que eu admita que terminou bem, sem se arrastar demais, a saudade é tanta que o spin-off funcionou pra isso. Better Call Saul é a maior prova que Breaking Bad deixou saudades demais.

Para dizer que está com saudades de temas interessantes, para dizer que tem saudade das mulheres peladas no GoT, ou mesmo para dizer que nunca ouviu falar disso: somir@desfavor.com

SALLY

Inesquecível, apesar dos seus defeitos, apesar das decepções que te causou, apensar até de um término um pouco traumático. Quando há amor, as boas lembranças superam tudo. Qual é o seu seriado inesquecível? O meu é House.

Não digo que seja o meu seriado favorito de todos os tempos, talvez nem seja, mas é aquele de quem eu sinto mais saudade. House foi um seriado médico fora do comum, com uma estrutura e narrativa única. Eu vejo outros bons seriados médicos, como Greys Anatomy, por exemplo, mas nunca ninguém conseguiu preencher o espaço que o Dr. House deixou no meu coração.

Para começo de conversa, o protagonista era um escroto politicamente incorreto, ateu, machista e grosseiro. Não vemos muitos seriados por aí onde o protagonista reúne tantos predicados. É absurdamente desafiador escrever um roteiro onde você tem que fazer o público gostar de um sujeito desses, ainda mais nos dias de hoje.

House não era uma boa pessoa, nem mesmo lá no fundinho. House era um escroto legítimo, e nós gostávamos dele justamente por isso. Até mesmo Dexter, um psicopata que matava gente dia sim, dia também, era melhor pessoa que House: amava o filho, era um bom pai e vira e mexe se sensibilizava e fazia a coisa certa. House não, ele cagava para os pacientes, não se apegava a eles e os tratava declaradamente como inferiores.

House não tinha filhos. Não tinha esposa. House era insubordinado com seus superiores, abusivo com seus funcionários e desrespeitoso com seus pacientes. E nós o amávamos e torcíamos por ele. House é um milagre do mundo dos roteiros. Por anos, torcemos para o mais filho da puta, em detrimento de pessoas “boas” que trabalhavam naquele hospital.

Vale lembrar que era um seriado onde cada episódio tinha começo, meio e fim, ao contrário da maior parte dos seriados atuais, que funcionam como novelinhas, onde se deixa um desfecho intrigante para que a pessoa queira assistir ao próximo episódio. Não, House concluía suas histórias e começava uma narrativa nova no seriado seguinte e, mesmo assim, nós estávamos lá assistindo, foda-se o que ia acontecer, apenas para ver ele sendo escroto, independente de qualquer mistério ou suspense.

House não tinha romance. Eventualmente alguém se envolvia com alguém, mas romance? Não, envolvimento amoroso nunca foi o foco central. Não era um seriado para discutir o clichê do relacionamento homem/mulher. O protagonista passou a maior parte do seriado sozinho (e assim terminou). O roteiro era bom demais, não precisava de traminhas e intrigas de amor e sentimento. É um patamar invejável de habilidade na escrita. O personagem era tão forte, interessante e bem estruturado que ele, sozinho, nos fazia querer ver o seriado. Nunca houve um personagem com a força do Dr. House.

O seriado tratava de temas desagradáveis: doença, internação, morte. E não se preocupava em ter leveza para tratar desses assuntos. E mesmo assim a gente acompanhava. Não era aquela garantia de final feliz que muitos seriados tem, com frequência as coisas davam errado, pacientes morriam e até médicos morriam. Mesmo assim, a gente gostava. Na real? Pouco importava a história da vez, House era um seriado de personagem, a gente ligava a TV para ver o Dr. House sendo escroto, falando o que todos nós temos vontade de falar mas nos censuramos em nome de uma vida em sociedade mais pacífica. House lavava a nossa alma.

A forma machista e pejorativa com que House tratava Cameron, médica da sua equipe que durante muito tempo foi apaixonada por ele, irritaria a mais light das feministas. A forma quase criminosa com que ele cavava diagnósticos (como por exemplo, invadir a casa do paciente à procura de indícios), altamente reprovável, era bem aceita. A premissa dele de desacreditar sempre do paciente (“Everybody lies”) o faria levar diversos processos na vida real.

Mas a gente acompanhava o Dr. House e torcia por ele – não pelo paciente. No fim das contas, eu estava cagando se o paciente iria viver ou morrer, eu só queria que o House tenha razão e sambe na cara da sociedade. Se, para que House saia por cima e tenha razão o paciente tivesse que morrer, eu torcia para o paciente morrer.

Era um seriado extremamente trabalhoso de se escrever. Casos médicos raríssimos fielmente retratados, simulações perfeitas de condições de doenças e hospitais. Atenção aos mais pequenos detalhes. A forma como a história era contada também foi um ponto fora da curva: sem rodeios, sem panos quentes, com pouquíssimas tramas secundárias, sem problematização. Era o Dr. House sendo escroto, esfregando verdades inconvenientes na cara das pessoas e provando como pacientes são estúpidos.

House é uma lição de raciocínio lógico e atenção aos detalhes. Uma espécie de Agatha Christie de doenças. Ao longo do episódio diversas pistas flutuavam no ar de uma forma tão truncada que apenas mentes muito atentas e afiadas conseguiam perceber. House, além de entretenimento, era exercício de lógica e criatividade: tentar adivinhar o que estava acontecendo com o paciente exercitava o cérebro,

Não dá para deixar de citar a atuação impecável de Hugh Laurie, que camuflava perfeitamente seu sotaque inglês falando de forma “americanizada”, que acertou o tom azedo do personagem, que tornou palatável e digno de afeto um grande filho da puta escroto. Não é fácil subverter o que entendemos por um bom médico (atencioso, humano, gentil) e mostrar um bom médico com comportamento arrogante, babaca e agressivo.

Não esqueçamos que House sofria de uma deficiência física, era manco de uma perna, sequela de um problema médico do passado. Mas não havia a menor sombra nem de vitimização nem de exemplo de superação. Nunca foi um seriado panfletário, para exaltar a vitória de um deficiente. House era um escroto filho da puta, isso era muito maior do que sua deficiência. Não havia problematização de sua condição, discussão sobre sentimentos ou limitações. Por sinal, até se brincava com isso: uma vez Wilson chegou a serrar a bengala do House como vingança e ele caiu no chão quando foi andar e todos estávamos autorizados a rir disso. Pois é, era um seriado meio que sem limites. Tem como não amar?

Hoje não temos nada nem parecido com House no ar. E acredito que nem se possa ter, pois geraria uma tsunami de protestos e rejeição. Não dá mais para tratar mulher como House tratava Cameron, desacreditando de sua capacidade profissional por causa dos seus hormônios. Não dá mais para fazer metade das coisas que House fazia ou falava sem causar uma rejeição monstruosa. House foi bom enquanto durou, hoje ele não teria mais espaço e é justamente por isso que eu sinto falta: sei que nunca mais vou encontrar alguém como ele.

Para dizer que eu obviamente esqueci como foi a última temporada, para dizer que o Dr. Cox de Scrubs era pior do que House ou ainda para dizer que não viu House e ter o meu desprezo: sally@desfavor.com

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26 desfavores sobre “Saudades em série.

Não que seja tão bom quanto House, mas acredito que o que mais se “aproxima” de House hoje em dia seja Lucifer. Basicamente o diabo tira umas férias na terra, mas acaba se tornando um detetive por “diversão”, ou seja uma série policial. Assim como esperado, Lucifer é um escroto e tudo mais, mas as pessoas são mais ainda por colocarem a culpa de todas suas cagadas sobre ele, e é isso que faz a série interessante.
Mas é uma comparação injusta, House é muito mais escroto e melhor que o diabo.

Se for pra escolher entre as duas, fico com House e os argumentos da Sally. Breaking Bad nunca me cativou tanto assim não, na real…

Agora, saudade mesmo eu tenho é do Dexter, mesmo com aquele final cagado que fizeram. Mais ainda, saudade mesmo eu tenho é das séries “teens” que – pra quem aqui tá na casa dos 25~30 anos hoje – fizeram parte da adolescência, tipo The O.c, One Three Hill, Smallville e um pouco mais tarde Gossip Girl. Ok, me julguem, são séries fúteis, mas… Eu adorava ficar gritando mais alto que a tv ♫Californiaaaa… here we cooome! Ou mesmo ♫Somebody saaaaaaave meeeee…

“Se ninguém te detesta, se ninguém te odeia, se você não irrita ninguém, tem algo errado com você”. Dr. House

Deixou saudades ❤

Tão incrível quanto o House era o próprio pai de Hugh Laurie, que, além de ter se tornado médico aos 40 anos, foi medalha de bronze no remo na Olimpíada de Londres em 1948. Seu parceiro de medalha se chamava Wilson.

House foi uma baita série. Sempre gostei desse formato, seja de série, seja em filme longa-metragem, onde ao longo da trama as peças vão se encaixando, e vamos resolvendo o mistério junto com os personagens. Mas Breaking Bad…essa série foi breath-taking do começo ao fim. Simplesmente épica.

Ambas deixaram um vácuo que talvez nunca seja preenchido. Duas obras que dificilmente ganhem sucessoras à altura. Mas Breaking Bad é envolvente em um nível que nunca tinha visto antes. Deixou muita saudade

Eu assisti as duas, e gostei das duas.

Por isso, a que deixa mais saudade é House. Breaking Bad é superior a House em TODOS os aspectos colocados pelo Somir… Mas é um grande filme. De muitas e muitas e muitas horas, mas um filme.
Eu não costumo sentir saudade de filmes… A gente sempre acaba achando um outro pra assistir. Como série, House deixou um vazio maior!

Agora, Sally… House passa muito longe da realidade do dia-a-dia de hospitais! Nenhum médico é o clínico, cirurgião, patologista, técnico de ressonância e ainda invasor profissional de casas! hahahaha!

Mas que eles deixou saudades, deixou!

Certamente House passa longe da realidade, nenhum médico que se porte assim consegue emprego, por melhor que seja. House é bem melhor do que a realidade…

Eu também tenho esperança de que voltaremos a ter algo como “House” ou “Breaking Bad” no futuro. Séries de verdade, não novelas disfarçadas de série americana.

Eu acho a cegueira cognitiva da Sally fascinante.

Na exata série em que o protagonista e todas as pessoas reconheciam que ele era um bosta como pessoa justamente por seu machista e escroto. Todos sabiam que Wilson, Cameron e os outros eram pessoas melhores.

O que prendia ao House era o drama, conflito ao redor dele. Como o fato dele se importar sim com todas aquelas pessoas mas considerar uma fraqueza demonstrar.

E a deficiência física dele era uma metáfora para a sua deficiência emocional. Afinal, ele estava “quebrado” por dentro e por isso não conseguia mostrar seus sentimentos.

Ter de explicar isso pra alguém que diz trabalhar com roteiro é… complicado. Conseguir interpretar uma obra e entender que House não era uma série “sem limites”, mas uma que reconhecia os limites e passava por eles em um personagem complicado é requisito pra sua profissão.

Todos os personagens de House eram o estereótipo do que um hospital deveria ser: a diretora corretíssima, a equipe intrépida de médicos, os veteranos sempre prontos a ajudar… tudo certinho, tudo perfeito… tudo falso.

House era o único humano dali, o único com defeitos. Isso, sim, era relevante.

Achei tão viado quanto aqueles tipos que olham para uns rabiscos “modernos” (vulgo arte moderna) e enxergam “A agonia do homem em busca do seu eu interior” ou qualquer viadagem do tipo.

Em minha defesa, achei viadagem o comentário viado do anônimo.
E, sim, eu comentei durante um episódio de Síndrome do Emputecimento Progressivo.
Acontece, às vezes.

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