Como destruir o mundo.

Com as tensões crescentes causadas pela Coreia do Norte testando suas armas e as ameaças de retaliação dos EUA e até mesmo dos países próximos, a destruição em grande escala voltou à moda. Mas, qual a tecnologia necessária para fazer um estrago desse tamanho?

Bom, em primeiro lugar, o título do texto é meio enganador. Destruir o mundo é uma expressão forte demais para a humanidade atual, no máximo conseguimos fazer uma limpa considerável na população viva atual, mas destruir tudo mesmo talvez nem com todo arsenal disponível entre as nações militarizadas… o planeta e a vida em si são bem mais resistentes do que os estilos de vida que levamos atualment. Mesmo assim, sobra bastante margem de manobra para quem tiver tecnologia suficiente.

Então, vamos considerar o que é necessário para que você se torne uma ameaça mundial. A coisa mais básica é o potencial destrutivo. Muito embora armas químicas e biológicas possam ser terríveis, elas não tem a capacidade de fazer um grande estrago rápido o suficiente para falharmos em manter a humanidade funcional só por causa delas: por pior que sejam as doenças ou venenos lançados em dada parte do mundo, nada é rápido o suficiente para que uma eventual catástrofe seja causada só pela arma química ou biológica e não por incapacidade das autoridades de lidar com o problema. Quarentenas, evacuações e tratamentos minimamente acessíveis tendem a resolver o problema.

Pensemos no Ebola, por exemplo. O vírus é excelente para contaminar e matar pessoas, mas mesmo países com pouca ou nenhuma infraestrutura conseguiram sobreviver a ele. No mundo moderno, temos a capacidade de projetar capacidade de atendimento para qualquer buraco, e mesmo que milhares pereçam por condições precárias, dificilmente a situação se mantém assim pelo tempo suficiente para ser irreversível. Então, por mais que seja ofensivo até aos padrões militares atacar com armas químicas e biológicas, não vivemos num mundo onde elas podem inviabilizar a continuidade da sociedade humana.

Estamos falando aqui de potencial destrutivo instantâneo, ao qual não existe resposta rápida o suficiente. Então não adianta ir muito mais longe do que nossa melhor pior ideia de todos os tempos: a energia nuclear. O ditador coreano não teria um milésimo da atenção mundial que tem caso não estivesse correndo atrás dessa tecnologia, até porque fora isso, ele só seria um perigo para seu povo e para vizinhos muito próximos, o que historicamente não gera grandes reações no resto das nações.

E o que ele precisa ter em mãos para começar a incomodar grandes potências militares? Capacidade destrutiva e projeção dessa capacidade. Bombas atômicas são espetaculares para isso: usando a energia mais poderosa que temos à disposição com o conhecimento atual, a energia dos átomos, elas podem não só causar explosões que obliteram cidades como ainda torná-las inabitáveis por muitos e muitos anos, acabando com a capacidade de recuperação rápida essencial para a continuidade da sociedade humana.

Bombas atômicas podem funcionar de duas formas usando essa energia do núcleo: através de fissão e de fusão. Fissão nuclear é a primeira geração dessas armas, uma reação de imenso poder que gera energia através da “destruição” de átomos. Alguns elementos químicos como o Urânio e o Plutônio estão tão próximos naturalmente de se desfacelar e liberar a energia que prendem seus núcleos que basta um empurrãozinho para iniciarem um processo catastrófico de liberação de energia e calor. Existe uma energia potencial imensa dentro dos átomos, mas de nada adianta quebrar só um deles: se um átomo entrasse em fissão ao seu lado, vocẽ não perceberia.

O segredo é o efeito em cadeia. Alguns quilos de matéria entrando em fissão geram muito mais energia na explosão que o equivalente em dinamite, por exemplo. Dinamite e outros explosivos tradicionais puxam sua energia da quebra de ligações moleculares, o que com certeza é perigoso, mas nem chega perto de ser a forma mais eficiente de arrancar explosões da matéria. Quando átomos suficientes de urânio-238 (a versão “perfeita” do elemento para o uso da energia, por ser estável o suficiente para existir e instável o suficiente para precisar só de um empurrãozinho para desmontar) começam a entrar em fissão, o potencial explosivo por grama de uma bomba atômica de fissão dá um show em qualquer outra existente.

Quer dizer, menos uma. Justamente a que o regime norte-coreano disse ter testado recentemente: a bomba de fusão, também conhecida como bomba de hidrogênio. Fissão emite muita energia, mas a campeã de transformação de matéria em energia é a fusão nuclear, processo onde dois átomos se fundem para gerar um novo. O processo de fusão é tão poderoso e eficiente que o Universo o chancela através das estrelas. No centro de cada estrela, um reator de fusão para alimentá-la. Quem queima sua pele há bilhões de quilômetros de distância é esse processo.

E a segunda geração das bombas atômicas utiliza-se justamente desse método estelar de causar estragos: com uma bomba de fissão detonando uma bomba de fusão para tornar tudo ainda mais explosivo. Em condições normais de pressão e temperatura, é basicamente impossível começar um processo de fusão nuclear com o que temos à disposição aqui na Terra, tanto que nossas usinas nucleares são baseadas em fissão. A fusão nuclear exige tanta energia para começar que simplesmente não dá pra fazer isso de forma controlada ainda. Só conseguimos usar o processo quando explodimos algo. E mesmo assim, para explodir mais coisas.

Mas calma, não espere que a RID construa a sua tão cedo, porque saber como faz em tese é fácil, ter quem monte e a matéria-prima necessária são outros quinhentos. Poucas pessoas nesse planeta são realmente proficientes nos processos necessários para a construção de uma, e mesmo que você tenha essas pessoas, conseguir o Urânio é bem complicado, pela sua imensa raridade e altíssimo controle. E você não precisa de algumas gramas só, são quantidades absurdas na comparação com a existência do elemento na crosta terrestre. Não à toa, é caríssimo, até porque precisa passar por muitos processos complexos para chegar na forma utilizável.

E mesmo que você consiga montar uma bomba dessas, só vai conseguir se explodir se não conseguir colocá-la no lugar que quiser. Faz uma bomba gigante é razoavelmente simples em comparação com o tipo que realmente assusta o resto do mundo: a que pode ser colocada na ponta de um míssil. As bombas atômicas que foram usadas contra os japoneses na segunda guerra foram basicamente largadas de um avião. Podiam ser enormes e não precisavam fazer quase nada no caminho.

E aí que entram a miniaturização e os mísseis de longo alcance. Mísseis e foguetes sofrem com uma questão complexa: quanto mais peso carregam, mais combustível precisam, quanto mais combustível carregam, mais peso precisam… bombas precisam ser pequenas e leves o suficiente para caber num míssil pra começo de conversa, mas precisam ser ainda mais pequenas e leves para que o míssil não precise ser do tamanho de um foguete. E é mais fácil falar do que fazer: com uma tecnologia tão complexa e uma dependência tão grande de gerar a reação em cadeia perfeita, cada quilo de matéria na bomba aumenta a probabilidade dela explodir direito. Quando você tenta otimizar o processo, corre muito mais risco da parte atômica não funcionar e seu míssil ser apenas uma bomba vagagunda e caríssima.

E boa sorte enfiando tanta coisa num espaço tão pequeno. Mas, vamos lá, por algum motivo você consegue. Chegar longe é bem complicado também. Mísseis intercontinentais não são aviões, até porque aviões seriam muito lentos e alvos fáceis, eles precisam fazer uma manobra complicada para fora do planeta para chegar longe. A Terra, a despeito do que alguns andam falando, é redonda e não tem “linha reta” que resolva uma trajetória dessas. Sem contar que a não ser que você queira arriscar sua bomba caindo milhares de quilômetros longe do alvo, precisa mirar com perfeição e ter vários estágios no seu míssil: pra mitigar um pouco o problema do combustível, mísseis e foguetes são feitos em estágios, liberando partes que já consumiram seu combustível para deixar o resto mais leve.

Se você tiver a tecnologia toda, ainda sim tem que acertar o tiro e torcer para a bomba detonar antes que os sistemas de defesa do inimigo o interceptem. Ou seja: na dúvida, atira no Brasil, que é grande e não vai se defender. Do que eu estava falando mesmo?

Para dizer que ficou animado com o prospecto, para dizer que guerra nuclear perdeu a graça, ou mesmo para dizer que confia na Melhor Coreia: somir@desfavor.com

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7 desfavores sobre “Como destruir o mundo.

Beleza! Estava pensando em ligar para o Kim para me ensinar a fabricar umas bombas nucleares.

Tem gente que gosta de me tirar do sério…

Bom, não vai mais precisar. Obrigado, Somir!

Somir, só uma correção: o urânio bom pra explodir é o 235. O 238 só serve pra perfurar blindagens e para estabilizar reatores (e produzir plutônio 239, que é ainda mais legal).

Interessante, Somir. Muito bom o texto. As notícias falam desse assunto de uma maneira que parece que amanhã mesmo já vai ser um dia do juizo final do Exterminador do Futuro. Só querem deixar as pessoas loucas.

Bastante esclarecedor isso que o Somir explicou sobre armas nucleares, como funcionam, como são feitas e as diferenças entre as de ontem e as de hoje. De alguma coisa eu até já sabia, mas sempre é bom ter mais informação.

Finalmente entendi o porquê das bombas atômicas serem propriedade de um grupo seletíssimo de países.
Desfavor sempre trazendo luz aos Impopulares!
Porém, o que eu não compreendo é: como eles realizam os testes das bombas? (para saber sua potência e tudo)

Detonando-as em uma área deserta ou -o método preferido na atualidade- em um local subterrâneo. Os americanos chegaram a fazer testes subaquáticos, mas podemos dizer que não foi a decisão mais sábia da História.

Acho pouco provável que haja uma guerra enooorme por causa do ditador batata (amarelo e rechonchudo) da Melhor Coreia. Se houver, dificilmente vai atingir o Brasil além da esfera econômica. Lembram das “guerras mundiais” que só aconteceram na Europa? Eis uma vantagem de morar num país irrelevante (e num lugar meio longe de São Paulo, just in case).

Minha preocupação social atual tem um nível mais… doméstico. Além daqueles problemas básicos saúde-educação-esgoto-desigualdade que nunca serão resolvidos, a polarização de pensamento está tomando força. As pessoas parecem mais dedicadas a validar suas narrativas do que refletir, trocar ideias. Veja, eu não falo em se juntar com gente retardada e mau caráter. Apenas evitar gangues ideológicas porque a tendência é que em breve mais e mais vão sair tocando o terror nas ruas, vide o que tem acontecido nos Estados Unidos.

Bem, de certa forma é uma contra reação à esquerda, que foi quem começou essa agressividade, segregação e cultura de safe space a princípio de conversa. Mas agora é melhor tentar amenizar porque se continuar assim, sei lá o que vai ser da gente em uma ou duas décadas.

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