Ensino religioso.

+Em uma votação apertada, o Supremo Tribunal Federal decidiu, por 6 votos a 5, que professores de ensino religioso promovam as próprias crenças em escolas públicas. O voto de minerva foi o da presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia, a favor do modelo confessional, ou seja, aquele ligado a uma religião específica.

Estado Laico AONDE? Mais uma coisa para gastar os impostos que você paga. Desfavor da semana.

SALLY

Normalmente tentamos não repetir o mesmo tema com um curto intervalo de tempo, pois achamos que fica cansativo para o leitor. Mas esta semana não deu para evitar o assunto, seria mais grave deixar passar em branco do que aborrecê-los com algum grau de repetição.

O STF decidiu que professores/escolas podem pregar suas crenças pessoais aos alunos. Veja bem, não estamos falando de uma simples aula de religião, onde se abordam várias religiões com caráter instrutivo. Isso seria conteúdo, informação: levar ao aluno o que prega cada religião e deixa-lo exercer seu juízo de valor e aderir à que ele mais se identifique, se for o caso. Não, estamos falando do seguinte: foi autorizado que em todas as escolas públicas do país se aplique o chamado ensino religioso confessional, ou seja, doutrinatório. Não é uma mera informação sobre aquela religião, é uma pregação, com direito a orações e outros rituais específicos da religião escolhida, onde se fala apenas desta religião, sem questionamentos.

Escola particular, vá lá. Continuo achando uma atrocidade misturar religião com ensino, cargo, função ou profissão, porém, escola particular é escolha, matricula quem quer, onde quer. Mas escola pública? Não sou radical, não acho que se deva ignorar a existência das religiões, mas esperava que isso fosse passado aos alunos com caráter de informação, conhecimento, cultura. Não. Será pregação, com a bênção do STF, que deveria ser o guardião da Constituição, que por sua vez, prega um Estado Laico.

Não vai de encontro apenas com a Constituição, bate de frente com tudo que vem se pregando sobre inclusão e diversidade. Em um país de maioria católica ou evangélica, qual pluralidade vocês acham que teremos nas escolas? E como vocês acham que praticantes de outras religiões vão se sentir sendo obrigados a lidar com um ambiente de ensino confessional? Basta fazer um rápido exercício mental aqui: como será que pais evangélicos se sentiriam se a única escola em que seus filhos podem estudar pregasse o Candomblé, inclusive realizando os rituais da religião, como por exemplo, o sacrifício de animais?

Impor ensino confessional é violência contra a lei e contra os alunos e suas famílias. É partir da premissa que aquela religião é a correta e deve ser aprendida. E, pior ainda: é gastar dinheiro público (que não está sobrando) para propagar algo que deveria ser decidido apenas de acordo com uma escolha pessoal. Uma religião não pode se apropriar do espaço público e gastar dinheiro público para propagar sua doutrina, é aberrante.

Vocês viram essa decisão repercutir esta semana? Eu vi muito pouco. Preocupante. Enquanto algo gravíssimo está acontecendo, os brasileróide luta por questões pontuais como banheiro unissex ou seu político de estimação. Não adianta nada brigar por inclusão ou ética se deixarem passar esta atrocidade. Qual será o grau de inclusão de uma escola onde professores pregam, aberta e autorizadamente religião evangélica? Primeiro é preciso combater o macro, depois as pessoas pensam nos pequenos ajustes. Mas não… o importante é lacrar em rede social e aderir à causa do momento. Enquanto isso o STF rasga a Constituição e isso passa abaixo do radar.

Mesmo que o aluno se recuse a assistir a esta aula, valores católicos e evangélicos serão passados a todos os outros alunos, que depois tratarão os coleguinhas partindo de premissas como: homossexualidade é doença, deus não gosta e gay vai para o inferno ou não pode usar camisinha, é pecado. Além disso, vocês tem noção de que será uma aula que vai contradizer outras aulas? Certamente não falarão da teoria da evolução, o homem foi criado por Deus e essa coisa de dizer que ele veio do macaco é errado. O Poder Público está dando verbas para que uma aula contradiga aulas de ciências e biologia!

Um Estado Laico é um Estado que se mantém neutro em questões religiosas e não intervém para prejudicar nem propagar uma religião em específico. A partir do momento em que se usa espaço público, recursos públicos e educação pública para levar um ensino confessional, ou seja, doutrinatório, o Estado está sim propagando religião. Não é facultado às escolas terem ensino religioso, TEM QUE TER, o que elas podem escolher é apenas qual religião irão privilegiar.

Um modelo de ensino onde se reforça o que a maioria pensa (ou vocês acham que em um país com mais de 60% de católicos, religiões minoritárias vão predominar?) vai totalmente de encontro à ideia de inclusão, tolerância e diversidade. É escroto, é errado nos mais diversos níveis, sobretudo em um país de gente carente e mal instruída, presas fáceis de qualquer religião: começar a incutir desde cedo em criancinhas “a” religião correta e, no espaço público, coloca-las para rezar e praticar ritos da religião é uma covardia. Crianças não tem discernimento para escolher uma religião, se sofrerem essa lavagem cerebral tão cedo dificilmente terão escolha.

Religiões que desejem propagar suas doutrinas e praticar seus rituais, que o façam em seus templos, com seus sacerdotes. Pais que quiserem que seus filhos participem disso, que os levem até estes templos. Não estamos falando de um mundo ideal, estamos falando de Brasil, onde a Dona Maria, que pesquisou sobre a Terra ser plana no Ei Você, deixa seus 14 filhos na escola o dia inteiro para poder trabalhar. Estamos falando de crianças carentes, cercadas de violência, sem um mínimo aceitável de estímulo intelectual, praticamente um bloquinho em branco onde religiosos podem escrever o que quiserem. Não pense com a sua cabeça ou com a realidade do seu filho.

Isso que estão fazendo com a população se chama covardia. Abrindo as portas para uma doutrinação covarde, uma máquina de gerar religiosos, um verdadeiro show de horrores e as pessoas continuam brigando pelas mesmas merdas desimportantes. E, para fechar, o plus desta decisão lastimável é que a religião com maior índice de casos comprovados de abuso sexual de crianças vai entrar pela porta da frente nas escolas públicas. Isto é Brasil.

Não é sobre não gostar de religião, é sobre não gostar que se imponha uma doutrina a uma criança que ainda não tem maturidade para entender e filtrar esse tipo de informação, usando dinheiro público, em espaço público.

Para insistir nessa ilusão de que por ser facultativo não faz mal algum, para torcer para que escolas trolls ensinem a fazer despachos de macumba ou ainda para dizer que o STF vai ganhar o nosso troféu de Desfavor do Ano: sally@desfavor.com

SOMIR

Sally já explicou muito bem a situação, então eu me sinto mais livre para abrir o argumento com uma pergunta: qual o objetivo do ensino religioso? Porque se ele consome verbas públicas e o tempo dos alunos, ele tem que ter alguma aplicação no desenvolvimento da pessoa. Em tese não mandamos as crianças para a escola só pra elas não encherem o saco em casa o tempo todo. Ou ela ganha algo ali, ou o sistema educacional perde sua lógica.

Você pode argumentar que religiões estão intimamente ligadas com o desenvolvimento da sociedade humana e há muito o que aprender com seu estudo. E teoricamente você estaria correto. Eu mesmo como ateu tenho interesse em religiões pelo ponto de vista histórico, e acredito que um dos problemas desse mundo seja a incapacidade do cidadão médio de sequer entender a religião que diz seguir. Então, ensino religioso poderia reduzir esse vazio e adicionar informações válidas para esses jovens, certo?

Errado. E errado com decisão do STF agora. Liberar os professores para pregar suas religiões na sala de aula (vulgo cristianismo da vertente católica ou evangélica) esvazia essa função do ensino religioso. Estudar uma religião é muito diferente de pregar uma religião, os resultados são totalmente diferentes: enquanto na primeira versão as pessoas recebem informações para tomar decisões futuras, na segunda toda a máquina de convencimento inerente ao aspecto de conversão toma o lugar da informação.

Uma coisa é dizer para uma criança que tal religião sugere que aqueles que não acreditarem nela vão para um lugar chamado inferno, outra é a sugestão – com diferentes graus de violência de acordo com o grau de estudo e desenvolvimento intelectual do professor – de que a criança vai ser punida severamente caso não aceite a fé professada ali. Talvez se os professores de matemática ameaçassem danação eterna caso o aluno não aprenda a fazer equações pudesse ajudar nas notas deles nas provas, mas decidimos que ameaças, mesmo que veladas, não tem lugar num sistema educacional moderno.

Quem acredita em algum deus costuma esquecer essa entrada “traumática” no mundo da fé, muito por terem sido expostos a esse mecanismo de conversão quando muito jovens. A brutalidade tende a ser normalizada com muita facilidade caso todas as pessoas ao seu redor tenham sido violentadas também. Como ateu, eu acho CRIMINOSO dizer para uma criança que ela vai para o inferno caso não siga algumas regras que muitas vezes parecem aleatórias, mas a maioria das pessoas religiosas pensando sobre o mesmo tema vão me achar dramático, afinal, de alguma forma realmente acreditam no conceito de recompensa e punição pós-morte de alguma forma. Se você acredita na fantasia, ela é verdade, não?

O estudo religioso “neutro” já parece bizarro pela desconexão com todas as outras matérias, afinal, as fábulas religiosas pouco ou nada respeitam o conhecimento humano acumulado através do método científico, muitas vezes entrando em choque direto. Não há um padrão de qualidade nas informações fornecidas sequer parecido com matérias sobre linguagem e ciências, por exemplo. Argumento que o cidadão médio já tem muita dificuldade com o pensamento crítico sem ter essa torrente de especulações infundadas enfiadas goela abaixo durante seu desenvolvimento intelectual. Aliás, só para não perder a chance: se você não “polui” o cérebro da pessoa durante a infância e adolescência com essas informações sem comprovação, grandes chances dela não seguir uma religião na vida adulta.

Mas talvez seja justamente o objetivo do ensino religioso: o medo daqueles que detém um poder indevido através da crença coletiva em superstições. A tendência global é da redução da religiosidade de um povo dadas condições mínimas de qualidade de vida. Difícil explorar quem pensa de forma crítica, não? E se o objetivo inicial do ensino religioso era tentar segurar mais pessoas no mundo das trevas intelectuais, deixar as coisas em aberto poderia jogar contra. Religião depende muito de uma cortina de fumaça sobre sua lógica interna para continuar viável. Realmente estudar o que as religiões pregam e como elas influenciam o mundo poderia gerar muito mais ateus do que o previsto. Melhor cortar os fatos e enfiar o dedo na cara de crianças e adolescentes, isso se provou eficiente por milênios!

Pode-se argumentar que é eletivo, mas mesmo assim, está lá. E outro fator que contribui demais para a escolha de uma religião é a pressão social (ou alguém ainda se surpreende que as religiões estejam sempre concentradas geograficamente?), e o simples fato de conviver com outras crianças e adolescentes que já sofreram lavagem cerebral em casa pode pressionar alguém que tinha o potencial de ser livre para cair nessa armadilha. Se fosse um ensino plural que desse opções, vá lá, mas com os professores católicos e evangélicos livres para pregar, é uma armadilha. A pessoa entra confusa ali, recebe atenção e se sente parte de um grupo, finalmente tem uma matéria onde jamais pode ser burra demais para falhar… e criamos mais um cristão no Brasil.

E na sanha de ser “isentão e popular”, o STF, que deveria defender a Constituição, passa esse absurdo sistema de captação de futuros eleitores de candidatos cristãos como se fosse a coisa mais natural. Já passou da hora dos adultos capazes começarem a ajudar os mais jovens desse país. A Idade das Trevas já está durando muito…

Para me chamar de radical (eu posso ficar muito pior que isso), para dizer que cada um pode escolher ser tão burro quanto quiser, ou mesmo para dizer que quando parar de dar dinheiro eles sossegam: somir@desfavor.com

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Comentários (12)

  • Tive uma colega que foi proibida pelos pais de frequentar aulas de religião. Ela foi rotulada e isolada, era a menina estranha da turma. Detalhe: a escola era estadual e nem tinha que oferecer a matéria mas,pros pais, tava ok pq era a religião predominante.

    A lei não teve polêmica pq a maioria dos pais não querem se dar o trabalho de ensinar a religião pros filhos, até isso empurraram pra escola. Apesar de saber que o ensino religioso será feito de qualquer jeito, como quase tudo é feito nas escolas públicas, ainda acho a medida preocupante.

    O mesmo STF que permitiu ensino religioso nas escolas também pode liberar geral o homeschool em nome de jesus pra quem não quiser ensinar a “ciência mundana”, mantendo os filhos crentes separados das outras crianças.

    • Pois é, não se trata apenas de assistir ou não assistir a aula, mas também do ambiente hostil que isso cria. Se você não tem dinheiro para pagar uma escola particular, não consegue deixar seu filho livre de um ambiente doutrinado por determinada religião.

    • Lembrou bem, miss : eu também já achava que já vinham crescendo os anseios por homeschool e que o assunto estava em falta…

      E me incluo em passar à certeza de que isso o STF também libera geral.

  • Que merda, que merda. Pelo visto esse país nunca vai acrescentar nada ao mundo além de praia e prostituição infantil. Pivetinho europeu/norte-americano mexendo com robôs e aplicativos, e adolescentes brazucas mal sabendo resolver uma equação ou escrever uma redação coerente.
    Enquanto isso a Índia está lançando foguetes, países africanos investem em formas alternativas de energia, o Brasil vai ser passado pra trás.

  • Até então acreditava que ter filhos no Brasil era “apenas” crueladade com a criança. Agora, com esse absurdo judicial, está comprovado que ter filhos aqui é filhadaputice mesmo.

    Você acaba de perder o direito de ver filhos livres para acreditar no que quiserem. As escolas viraram fábricas de ovelhas. Governadas por lobos, claro

    • Se você tiver dinheiro para pagar, pode escolher. Se não, é obrigado a sujeitar a criança a estudar em um ambiente doutrinado por uma religião com a qual você pode não concordar. Mesmo que ela não assista às aulas, a maior parte dos seus coleguinhas o fará, e provavelmente irão se determinar conforme essa religião.

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