Idas e vindas.

+A escritora Clara Averbuck publicou no início da tarde desta terça-feira (29) um vídeo em seu perfil no Facebook sobre a denúncia de estupro que sofreu de um motorista de Uber. No vídeo, ela aparece com o olho roxo e um machucado na testa. A empresa de aplicativo de transporte baniu o motorista dos seus quadros.

Que esse tipo de abuso ainda aconteça é um tremendo desfavor, mas a forma como foi divulgado e as reações ainda garantem um nível a mais: desfavor da semana.

SALLY

Muitos desfavores juntos. Muitos mesmo. A escritora Clara Averbuck, conhecida militante feminista e relativamente influente em redes sociais contou que foi estuprada por um motorista da empresa Uber. Foi um show de horrores como poucas vezes vi online.

A primeira grande bizarrice foi a polarização de opiniões: defensores ferrenhos do discurso de Clara sem qualquer reflexão ou contestação X pessoas duvidando que um estupro tenha acontecido por ela não querer registrar B.O. É mais uma demonstração dessa nefasta dinâmica nós x eles, onde divergência vira motivo de atrito e inimizade. Grupos a favor e contra começaram a se digladiar e até se agredir verbalmente, tirando completamente o foco da questão.

Cada grupo tem sua razão: o fato de uma mulher não querer registrar uma denúncia formal não significa necessariamente que ela esteja mentindo sobre o estupro. Presumir isso é de uma baixeza e mediocridade sem precedentes. Porém, há contradições e desfavores no discurso de Clara. Ela alega ter medo de formalizar uma denúncia pois o agressor sabe onde ela mora, mas, ao mesmo tempo, fez um estardalhaço em rede social que causou a demissão do sujeito e lhe deu mais fama de estuprador do que qualquer processo criminal. Quem tem medo não age assim, né?

Além disso, ela alega que não acredita no sistema, que já viu investigações mal conduzidas e que estupro é o único crime onde a vítima tem que se provar. Por partes: quando a Dona Maria é estuprada pelo vizinho, certamente vai comer o pão que o diabo amassou para ser atendida em uma delegacia e colocar o cara atrás das grades, mas Clara tem visibilidade e uma certa fama. Ela tem voz. Então, ela tem ferramentas para que seu caso não seja negligenciado. Se você é ativista, engajada, se você se diz uma lutadora pelos direitos da mulher e percebe que o sistema não funciona, o que você faz? Deixa pra lá? Deixa por isso mesmo? Deixa um cara desse solto para que possa voltar a fazer isso com outras mulheres? Desculpa, aceito essa decisão se for o caso, mas aí a pessoa que não se diga ativista. Por fim, em qualquer crime é preciso provar a culpa do outro, pois no direito brasileiro, a dúvida milita a favor do réu.

Eu não iria a uma delegacia denunciar um estupro. Eu não gostaria que fique registrado em lugar algum que eu fui estuprada, zelaria ao máximo pela minha privacidade. Porém eu também não iria fazer estardalhaço em rede social. E eu não me digo ativista, tomaria uma decisão egoísta mesmo. Se meu propósito de vida fosse feminismo, se eu levantasse essa bandeira, jamais me omitiria em um caso como esse, por questão de coerência. E é isso que critico: não a decisão em si e sim a coerência do que se diz com o que se faz.

Também é importante esclarece uma coisinha: querer ouvir ambos os lados, conhecido como “contraditório e ampla defesa” não é duvidar da vítima e ter que fazer ela se provar. Alguém deu oportunidade desse homem falar? O fato que eu levante a injustiça desse homem não ser ouvido não me faz de forma alguma estar defendendo ele. Estou defendendo uma sociedade justa onde todos podem falar seu lado de uma história. E o sujeito não está tendo voz, foi decretado que ele é estuprador e ponto final. Bacana ficar acusando do outro lado da tela, mas se abrirmos esse precedente de estipular de forma unilateral que um homem é estuprador, um dia isso pode chegar em você, no seu pai, no seu irmão, no seu filho. Não é o mundo no qual eu quero viver. Antes de formar a minha convicção, eu quero ouvir o que esse homem tem a dizer. E você também deveria, caso contrário não é sua opinião, é lavagem cerebral.

Mais uma coisinha: o relato de uma pessoa muito bêbada vale menos que o relato de uma pessoa sóbria. Se você não quer que suas palavras valham menos, não tem que se entorpecer. Ela relata que o motorista, a pretexto de tentar ajudar, teria enfiado um dedo nela. Conta também que caiu no chão. E aí? Você põe a mão no fogo por relato de uma pessoa que estava vendo a realidade entorpecida? Não estou chamando de mentirosa, estou dizendo “será que a percepção dela foi o que realmente aconteceu?”.

Agora o ponto mais delicado, com 99% de chances de ser mal interpretada. Respirem fundo e se desarmem para ler o que vou dizer.

Nada justifica estupro ou qualquer abuso ou ato contra a vontade da mulher. NADA. Está errado, tem que ser punido sempre. É injusto que uma mulher não possa se vestir como quer, se vulnerabilizar como quer, por medo desse tipo de covardia. Mas… as coisas são como elas são, não como gostaríamos que elas fossem. Toda mulher no Brasil sabe que ao adotar certos comportamentos ela se coloca em um sério risco, por mais injusto e escroto que isso seja. Então, se colocar nestes riscos é se gostar pouco, é se maltratar, é autodestrutivo. Quem se porta assumindo esses riscos, não se preservando, não deveria bater no peito e dizer que agiu bem, principalmente sendo uma formadora de opinião.

Estupro é um evento traumático que gera desdobramentos para toda a vida. Então, por mais injusto que seja que a mulher tenha que tomar certos cuidados e ter certas restrições, é um preço baixo que se paga por não ser estuprada. Estimular meninas, adolescentes ou adultas a peitar essa “ditadura” comportamental à custa do aumento do risco de um estupro é, ao meu ver, um tremendo desfavor social. Na boa? Não vale. Não vale a “liberdade” de voltar bêbada para casa com uma saia curta e uma micro-calcinha como Clara contou que fez. Isso não vale passar por um estupro. Não é assim que se muda uma realidade machista, à custa da sua incolumidade física. Não faça isso, não por moralismo, mas para se poupar de um evento traumático que vai te perseguir para o resto da vida.

Agora a pior parte do que tenho a dizer: o abuso é do ser humano. No momento, culturalmente, o homem tem mais poder do que a mulher e é ele quem abusa. Mas, se um dia isso inverter, se as mulheres se tornarem muito fortes e os homens muito fracos, existirão mulheres abusando de mulheres também, pode ter certeza. Então, não se vulnerabilizar na “selva” que é o mundo lá fora não tem relação apenas com machismo. O abuso infelizmente é da natureza humana e há muitas pessoas ruins no mundo. Nunca sabemos quando vamos cruzar com elas. Então, fodona não é a mulher que “não se rende ao machismo opressor”, se vulnerabiliza e acaba estuprada. Esta mulher é uma coitada, uma vítima. Fodona é a pessoa que tem a inteligência de se poupar do abuso do ser humano, no geral. Quem consegue antever o problema e lidar com ele se preservando, sem ser machucada, espancada ou pegar uma doença.

Segundo relato da própria Clara, este não foi o primeiro estupro que sofreu. Parece que já aconteceu antes. Essa tal liberdade de fazer o que quer vale vários estupros para você? Para mim não. Jamais. Em tempo algum. Clara não tem culpa do que fizeram com ela, mas majorou as chances disso acontecer e ainda vende essa falta de cuidado como algo de que ela não se arrepende. Este, na minha opinião, é o pior desfavor do caso, pois é o menos visível e o menos “falável”. Fatalmente será taxado de machismo e desmerecido.

Claro que é possível que a mais cuidadosa das mulheres seja estuprada mesmo fazendo tudo certo para se preservar, ninguém está livre disso, mas vocês vão concordar comigo que as chances diminuem. Se existe algo que eu possa fazer para reduzir as chances de ser estuprada, bem, eu vou fazer, e que se foda se estou “me rendendo ao machismo opressor bla bla bla”. EU NÃO QUERO SER ESTUPRADA, independente de qualquer discurso, e faço o que estiver ao meu alcance para isso, inclusive negocio parte da minha liberdade. Eu me amo, eu me cuido. Já que esta bosta de Poder Público e Segurança Pública não cuidam de mim, eu tenho que me cuidar sozinha. E acho que os bons exemplos são pessoas que se cuidam, não querendo dizer que quem não se cuida é má pessoa, e sim que eu acho o preço muito alto para se pagar.

Então, deixo aqui meu conselho: só se vulnerabilizem (fiquem bêbados, exponham o corpo ou qualquer outra coisa que possa majorar as chances de estupro) quando estiverem cercados apenas de pessoas de extrema confiança e em um ambiente 200% seguro. Conselho feio, velho, antiquado? Pode ser, mas eu ainda acredito que seja o melhor para você. Tem muita gente ruim no mundo e você nunca sabe quando vai cruzar com um deles. Se proteger disso não é “escravidão” ou “opressão”, é inteligência.

Aceitem de uma vez por todas que vida adulta não é fazer tudo que se quer e se tem vontade e sim agir com responsabilidade e estratégia.

Obs: Que amigas de merda que a Clara tem hein? Nunca deixaria uma amiga minha voltar sozinha de Uber nessas condições.

Para me chamar de machista, para ficar paralisado sem entender que “lado” eu tomei ou ainda para fazer piada de estupro: sally@desfavor.com

SOMIR

Está na hora de falarmos de uma coisa desagradável: o mundo não é nem um pouco ideal. E pessoas podem fazer escolhas que aumentem ou diminuam a probabilidade de lidar com lado ruim da convivência humana. Muito embora eu assine em baixo da ideia que não importa o estado de embriaguez, as roupas ou até mesmo o comportamento da mulher, nada justifica um abuso desses, tem algo de torto aí: mulher não é criança, e teve tempo suficientemente de vida para aprender como as coisas funcionam.

Eu bato nessa tecla há muito tempo: a forma mais venenosa de machismo está na infantilização da mulher. Porque essa passa por baixo dos radares da maioria das pessoas e por vezes oferece zonas de conforto danosas para elas. Não é justo que Clara tenha sofrido com esse abuso do motorista do Uber (se ele aconteceu nesses termos), mas é absurdo esquecermos que ela é uma mulher adulta. Se como a imensa maioria delas não tem força física para evitar que um homem abuse dela, com a imensa maioria delas compartilha de inteligência equiparável com a de um homem adulto.

Ficamos tão chocados quando adultos abusam de crianças (não só sexualmente, mas em basicamente todos os pontos que o feminismo moderno culpa os homens de opressores) porque é um desequilíbrio imenso no elemento mais relevante para uma sociedade civilizada: a capacidade intelectual. Porque os grandes avanços que tornaram possíveis um aumento de qualidade de vida e liberdade das mulheres nos últimos séculos tem tudo a ver com tornar o mundo menos físico e mais intelectual.

Até porque salve uma tecnologia revolucionária, a diferença entre potencial físico entre homens, mulheres e crianças é fato consumado da vida. A única forma de evitar abusos é fazer uma sociedade depender mais do potencial intelectual das pessoas (onde é muito mais fácil equilibrar homens e mulheres – e eu até arrisco dizer que elas já estão passando na frente) do que dos músculos. Crianças ficam numa categoria especial, protegidas até serem capazes de disputar nesse campo com alguma desenvoltura.

Repito aqui: uma mulher adulta não é uma criança. Ela tem cérebro o suficiente para reconhecer a realidade da diferença de potencial físico e usar o sistema que criamos baseado em intelecto para no mínimo mitigar as chances de sofrer com sua desvantagens inata no tamanho do corpo. E agora acaba o amor: não compactuo com um possível abuso do motorista, e ele tem que ser punido caso seja culpado mesmo. Mas, Clara perdeu qualquer simpatia de um defensor de uma sociedade intelectualizada quando soltou o “Foda-se” para o fato de estar caindo de bêbada.

Aí não tem foda-se não. Até porque essa conversa toda parte da premissa que todos temos direito à integridade de nossos corpos quando bem entendermos, agora, chega de tapar o sol com a peneira: entorpecer-se é uma escolha. Abrir mão do elemento equalizador – a capacidade intelectual – em troca de uma sensação agradável é direito de cada um, mas não é uma obrigatoriedade da vida. Homem que enche a cara e se dá mal não recebe muita simpatia, afinal, é adulto. Poderia não ter bebido, e sabia desde o começo qual o resultado de beber. Por que mulher não receberia a mesma presunção de adulto consciente?

Via de regra, eu acho escroto criticar alguém por algo que não escolheu, mas todo o resto é jogo aberto. Clara não escolheu ser abusada, então jamais poderia ser criticada por isso. Mas, todo o resto? Escolheu sim. Não tinha ninguém mandando vestir o que vestiu, beber o que bebeu e agir como agiu. Não é culpar a vítima apontar que algumas sequências de decisões aumentam as chances de algo ruim acontecer. Na verdade, é um mínimo de decência entre adultos relembrar de tempos em tempos que esse mundo é complicado e que temos que saber nos cuidar. Não tem mais mamãe ou papai.

E mais uma vez: mulheres adultas não são crianças. Sou muito favorável a mulheres adultas poderem fazer suas escolhas, acho que homens que abusam de mulheres bêbadas são um fracasso evolutivo (até mesmo porque é uma vergonha precisar disso para encostar numa mulher), mas mesmo assim, não custa relembrar: escolhas tem consequências. E não tem ideologia nesse mundo que passe por cima da realidade. Essa gente que preda mulheres que bebem demais e se vestem de forma reveladora ainda não foi extinta, e sinto muito dizer: elas não mudam, só diminuem em número com o passar dos SÉCULOS. Evolução, mesmo a social, demora.

Então, menos… muito menos… é perfeitamente possível apontar todos os fatores colaboradores gerados pelas escolhas da vítima sem culpá-la pelo ato em si. Ninguém sai de casa pensando “hoje vou ser estuprada”, evidente. Mas quem sai de casa pensando “hoje vou encher a cara até precisar ser carregada pra casa” parece esquecer que a probabilidade de sofrer um abuso aumenta exponencialmente. Falta uma aula na escola explicando exatamente o que álcool faz com o cérebro humano, aparentemente. Se eu tivesse que apontar o verdadeiro desfavor para a sociedade em geral (porque para a moça foi o que ela denunciou) foi o fato daquele “foda-se” passar despercebido, quando ele é justamente o que simboliza a opressão: adultos jamais deveriam dizer “foda-se” para o fato de estarem muito bêbados antes de uma merda acontecer.

Não desejo o mal da pessoa, claro que não. Mas quem escreveu esse “foda-se” foi uma criança que passou pela cabeça dela durante a construção da frase. E é muito escroto fingir que isso não acontece. Mulheres adultas não são crianças. Vamos repetir isso até começar a fazer sentido de verdade nesse mundo?

Para dizer que eu estou fazendo apologia a pensar, para dizer que homem não entende dessas coisas, ou mesmo para dizer que esse leniência deveria valer para os cracudos também: somir@desfavor.com

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Comentários (20)

  • Castração química sim.

    E que continue a redução da maioridade.

    Sobre o caso, embora a culpa nunca seja da vítima, ela tem muito tempo para pensar.

  • “a forma mais venenosa de machismo está na infantilização da mulher”

    Exatamente! 99% das mulheres que vestem a camisa do “meu corpo, minhas regras” acham que o mundo é que nem o quarto cor-de-rosa que elas dormem! Que todo mundo vai ter consideração com elas só porque tem vagina e que podem fazer o que bem entendem! Já dizia o ditado: “O preço da liberdade é a eterna vigilância.”

    Infelizmente desde a mais recatada até a mais piranha das mulheres corre esse risco, principalmente aqui neste lixo de país que prendem um abusador e no dia seguinte soltam pra ele fazer mais merda ainda! Se nem a porra do Estado consegue conter um filho da puta de um estuprador, não é textão e “rechitégue” que vão (por mim essa gente doente ia direto pra vala, cadeia ainda tá muito bom pra esses animais)!

  • Na Criminologia existe o conceito de “vítima colaborativa”, a pessoa que se coloca em posição de perigo e “colabora”, direta ou indiretamente, para o fato que ocorreu. Se você tira um iPhone no meio da Praça da Sé e se posiciona para tirar fotos, pode ter certeza de que as chances de ser furtado ou roubado serão bem maiores do que se este aparelho estivesse bem guardado no seu bolso (ou sua bolsa).

    Clara não é culpada do estupro, mas é evidente que se colocou em situação de perigo. Isso não é machismo, nem feminismo – é a realidade, nua e crua.

    • Mas não pode falar isso em público, pois essas mulheres acham que o mundo não deve ser assim e negam uma realidade que infelizmente existe: “eu deveria poder sair bêbada de saia. Deveria. Mas a realidade é outra. Ignorar a realidade custa caro demais.

  • O relato dela ficou parecendo um conto erótico (não estou afirmando que foi ficcional, mas que o jeito que ela se expressou deu ao relato uma cara de conto erótico, que alguém lê com o objetivo de se excitar).

  • falando de abuso, eu pensei que o DS seria sobre o gozador do ônibus, queria ver o ponto de vista jurídico da Sally

  • delícia ver textos de gente que pensa com equilíbrio! infelizmente estão confundindo inconsequência com liberdade e prudência com opressão, mas quem tenta falar isso é escurraçado… esta é a década do analfabetismo funcional (mesmo entre pessoas com suposta alta escolaridade)

  • Acho que nunca vi um texto tão contraditório do Desfavor. Só para ilustrar o que me deu essa impressão:

    “Via de regra, eu acho escroto criticar alguém por algo que não escolheu, mas todo o resto é jogo aberto. Clara não escolheu ser abusada, então jamais poderia ser criticada por isso.”
    X
    ” Mas, todo o resto? Escolheu sim. Não tinha ninguém mandando vestir o que vestiu, beber o que bebeu e agir como agiu. Não é culpar a vítima apontar que algumas sequências de decisões aumentam as chances de algo ruim acontecer.”

    “É injusto que uma mulher não possa se vestir como quer, se vulnerabilizar como quer, por medo desse tipo de covardia. Mas… as coisas são como elas são, não como gostaríamos que elas fossem.”
    X
    “Clara não tem culpa do que fizeram com ela, mas majorou as chances disso acontecer e ainda vende essa falta de cuidado como algo de que ela não se arrepende. ”

    Minha opinião:
    Nada justifica estupro, nada justifica tocar no corpo alheio, roubar, mexer num fiapo de algodão de outra pessoa, seja homem ou mulher. Eu sei que todo mundo se previne 24 horas por dia para evitar milhões de intempéries e esse discurso de que “se não queria não tivesse feito isso” é muito perigoso. Ele ganha muito destaque e deixa embaixo do tapete situações corriqueiras onde isso nunca se encaixaria tipo, namorado que estupra a namorada, criança estuprada por responsáveis, adolescentes subjugadas psicologicamente por maiores de idade, mulheres voltando para casa do trabalho e sendo atacadas no meio do caminho, etc etc ETC.
    Nada justifica o estupro, até porque SEMPRE vai ter um motivo: ela me olhou diferente, as atitudes dela me mostraram que ela queria, ela rebola, ela usa batom vermelho, ela tava de saia, ela tava sem calcinha, ela tava de decote, ela tava de salto alto, ela é simpática, óbvio que ela quer dar para mim. Isso vai desde a classe baixa até a mais alta. Escrotices acontecem diariamente.
    Essa mulher tava voltando para casa de uber, serviço supostamente seguro onde os motoristas recebem um background check (supostamente). Ela não pediu por isso, nem se ela tivesse voltando a pé. Ela podia estar sem calcinha, sem sutiã, ela não escolheu ser estuprada quando colocou a roupa.
    Volto sempre à máxima, temos que ensinar os meninos a não estuprar e não às meninas a se cobrir.

    • Ok… você mencionou contradição e exemplificou com passagens que não se contradizem. Não é nem má-vontade da minha parte, mas fica difícil trabalhar com você nessa argumentação.

      • Somir ,para mim é contradição sim dizer que nada justifica um estupro e logo em seguida apontar que ela estava de calcinha e microcalcinha e isso foi uma facilitada. Estupro, seja de homem ou mulher, não deve acontecer e pronto.
        Ninguém mandou ela escolher a roupa, mas sério que isso entra até na discussão?

        • Num exemplo alternativo: se uma pessoa sai do banco chacoalhando um maço de notas de 100 reais no meio de uma multidão, isso não justifica que ela seja roubada, certo? Nem num assalto direto nem mesmo num crime “oportunista” de pegar uma daquelas notas, o direito à posse do dinheiro é dessa pessoa. Pessoas civilizadas entendem isso e não vão roubar. Mas aposto que para você é bem mais fácil notar como o fato de chacoalhar o maço de notas em local público contribui para o risco de roubo, certo? Num mundo ideal, ninguém precisaria esconder o dinheiro ou fingir que não o tem para evitar que o que é seu seja roubado. Quando eu digo que essa pessoa deveria pensar na segurança do que é seu porque tem gente que rouba e infelizmente não dá pra confiar, eu pareço estar fazendo apologia ao crime? Dizendo que a pessoa mereceu ser roubada?

          Fiz esse paralelo por um motivo simples: quando algo doloroso e ofensivo a tudo o que consideramos justo como o estupro entra na equação, a premissa fica contaminada pela nossa indignação. O assunto vira muito mais emocional, o suficiente para não parecer análogo ao exemplo do dinheiro. Mas, querendo ou não, ele é. De forma alguma estamos tratando beber ou usar roupas reveladoras como justificativas para o estupro, de forma alguma estamos tratando isso sequer como atenuadores para o crime cometido. Dizer que existem formas de reduzir as chances de ser vítima desse crime é uma constatação sobre a visão torta que muitas pessoas ainda tem. Tem muito homem e mulher que realmente acham que mulheres bêbadas e com roupas pequenas estão se oferecendo a qualquer um. E não dá para “desejar” essas pessoas para fora da nossa sociedade.

          Ainda está chovendo lá fora, adoraria que não estivesse, mas por enquanto, leve um guarda-chuva.

    • mas quando se fala em aumentar a punição pra meter medo em quem pensar em estuprar (e vários homens concordam), muuuitas feministas criticam e fazem discursos pacifistas em prol de caras que não sentiriam o menor remorso de nos estuprar (e até matar em seguida). o cara que gozou na mulher no ônibus aprendeu alguma coisa com punição leve? o Brasil é um país brutalizado e desorganizado, não tem condições de ter uma legislação europeia, baseada em pacifismo e reintegração.
      repetindo o que a Sally disse: as coisas são como elas são, não como gostaríamos que elas fossem.

      • Até parece que esse tipo de abuso é cometido por falta de informação! Todo mundo sabe que é errado, fazem por não se importar.

        • Nossa Sally, é isso mesmo! é como a questão do lixo. Todo mundo aprende na escola, em casa etc, que “NAO PODE JOGAR LIXO NO CHAO”. E o que o serumaninho faz? Não preciso nem dizer né. Faz o errado porque QUER, e não por não ter conhecimento. Ridículo esse argumento de dizer que se deve “ensinar”. Estão apenas ignorando a realidade!

    • Sim, claro que devemos ensinar os meninos a não estuprar. E a não roubar, não mentir, não matar, não passar a perna em alguém pra obter qualquer tipo de vantagem. É assim que vou educar meu(s) filho(s).
      Mas é claro que não vou educar sete bilhões de “cerumanos”. Por isso, ensinarei a minha(s) filha(s) que ela(s) deve(m) se proteger, afinal, nem todo mundo lá fora é igual ao(s) seu(s) irmãozinho(s).
      Qual é a dificuldade em entender que existe gente má nessa terra, gente fora do alcance da conscientização?

    • “temos que ensinar os meninos a não estuprar e não às meninas a se cobrir”

      Essa afirmação não faz sentido. Soa como se TODOS os homens, assim que aprendem a andar, são ensinados a violentar mulheres só por serem homens. Meu pai, meus tios, meus primos e meus amigos não foram ensinados a estuprar ninguém. Aliás, existem mulheres que também estupram e são pedófilas, e aí?

      Uma vez, enquanto eu debatia com uma feminista, ela dizia que “castração química” não adiantava e que porte de arma pra mulher também não porque, nas palavras dela, “ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém”. Ou seja, eu, MULHER, não posso nem ter o direito de me DEFENDER de um estuprador! Isso porque as “empoderadas” dizem que lutam por mim, né?

      E homem não estupra porque é homem, estupra porque é um doente e tem que ser tratado como o lixo humano que é (Coisa que não acontece aqui no Brasil porque sempre tem os cretinos pra defender essa corja, principalmente se o marginal é “dimenó”)!

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