O incidente do Passo de Dyatlov.

Rússia, 1959. Um grupo de nove esquiadores, estudantes do Instituto Politécnico de Ural, deixa de dar notícias por vários dias após partirem numa expedição pela região montanhosa local. Os administradores do Instituto mandam equipes de busca para a área. Alguns dias depois, finalmente encontram seus corpos num local que agora é conhecido como Passo de Dyatlov. Mas a forma como os encontram gera um dos maiores mistérios não resolvidos até hoje…

Os estudantes da atual Universidade Federal do Ural queriam completar uma trilha para esquiadores considerada uma das mais difíceis do tipo, tentando alcançar e esquiar numa montanha chamada Otorten, dez quilômetros de distância de onde seus corpos foram encontrados. Quase dez dias depois do prazo em que deveriam mandar notícias por telégrafo na cidade no final da rota, nenhum sinal deles. As equipes de busca trabalharam por seis dias até finalmente encontrarem o grupo, aos pés da “Montanha dos Mortos”, nome que já tinha antes do incidente, diga-se de passagem.

Embora trágico por natureza, encontrar pessoas mortas em expedições do tipo por si só não era nada surpreendente, afinal, se ir para o meio do mato já não é muito seguro normalmente, numa área onde o mato é neve as coisas ficam bem mais complexas. A trilha que faziam já tinha sido completada algumas vezes, mas era considerada Categoria III, a mais difícil do gênero. Depois de tantos dias, não havia muita esperança de encontrar sobreviventes mesmo.

Porém, é aqui que as coisas começam a sair do comum. No dia 26 de Fevereiro de 1959 o grupo que os procurava se depara com o acampamento dos estudantes. Abandonado e quase soterrado pela neve. Ali, os primeiros sinais de que algo estava muito estranho: as barracas estavam cortadas, não rasgadas mas cortadas por uma faca, e pela direção das fibras, cortadas de dentro para fora. Haviam pegadas na neve em direção a um bosque próximo. Seguindo-as, as equipes de resgate encontraram os restos de uma fogueira embaixo de um grande pinheiro. E com ela, os dois primeiros corpos.

Esses dois primeiros estavam descalços e usando apenas roupa de baixo. Lembrando que o local costumava ter temperaturas na média dos -30° nessa época do ano. Logo depois, foram encontrados mais três corpos, enterrados pela neve. Os três pareciam estar voltando para o acampamento quando morreram. Os outros quatro corpos foram encontrados mais de dois meses depois, soterrados por mais de quatro metros de neve um pouco mais distantes do acampamento.

O inquérito criado na sequência partiu da presunção mais óbvia de hipotermia como a causa da morte dos esquiadores, pela falta de ferimentos externos que parecesse fatais. Mas foram os quatro corpos encontrados depois que começaram a sugerir algo diferente: três deles apresentavam ferimentos fatais, mas não externos. Um com uma fratura no crânio e dois com fraturas extensas no tórax. Apenas o outro tinha um ferimento mais óbvio: estava com a língua faltando. Além disso, suas roupas tinham níveis elevados de radiação.

Os legistas sugeriram na época que os ferimentos fatais dos três corpos só poderiam ser causados por uma força considerável, mas mesmo assim, a investigação foi fechada com a conclusão de morte por forças desconhecidas. Obviamente que isso nunca saciou a curiosidade das pessoas, mas algumas forças entraram em ação logo em seguida. A fase final das buscas foi organizada pelos militares russos, que fecharam a área pelos três anos seguintes. O local, desolado, fazia parte de uma área de testes deles pelos últimos anos.

E então, o que aconteceu no passo de Dyatlov? Não é um mistério à toa: ninguém conseguiu bater o martelo ainda sobre quais foram os motivos. Mas algumas teorias são mais plausíveis que outras. Vamos primeiro passar pelas mais extraordinárias: alienígenas e uma espécie de abominável homem das neves do folclore russo. Como existem relatos de pessoas vendo orbes luminosos nos céus não muito longe dali, e o fato das roupas de alguns deles estarem radioativas, foi feita a conexão. O problema da teoria dos aliens é que… bom, são aliens. Alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias, e não temos isso disponível. O fato de alguns dos corpos estarem com ferimentos internos compatíveis com um acidente automotivo fez muitos acreditarem que uma espécie de Yeti atacou o grupo. Mesmo assim, pelos mesmos motivos, faz mais sentido explorar outras possibilidades.

Avalanche: a área não é conhecida por avalanches, mas onde há neve, há o risco. Depois de uma avalanche, o grupo se viu preso na barraca, tendo que cortá-la de dentro para fora. Ou mesmo o pânico de uma iminente pode ter gerado o comportamento. As roupas incompatíveis com o frio e até mesmo desconjuntadas como encontradas nos outros podem ser explicadas como o pânico de sair correndo dali logo após acordarem. Os danos aos corpos encontrados mais enterrados na neve seriam causados pelo peso da neve. A língua faltando provavelmente ação de algum predador local.

O problema é que a área não parecia ter sofrido uma avalanche, pelos padrões da neve nos arredores e também porque pela direção em que os corpos foram encontrados, os primeiros deveriam estar numa neve bem mais profunda que os últimos. E foi justamente o contrário. Sem contar que dois dos integrantes da expedição eram esquiadores experientes e dificilmente montariam acampamento no caminho de uma possível avalanche.

Infrassom: A audição humana consegue captar uma faixa dos sons possíveis, e quando a frequência deles fica abaixo dessa faixa, temos os infrassons. É possível que a passagem do ar por montanhas e vales gere sons desse tipo, e poderosos, por sinal. Estudos sugerem que seres humanos podem ficar desorientados se expostos a sons do tipo, mesmo que não consigam registrar a passagem deles pelos seus corpos. Os esquiadores entraram em pânico e saíram desesperados da barraca durante a noite, não conseguindo voltar e morrendo pela hipotermia. Isso só não explica os ferimentos, ou mesmo a radiação.

Desnudamento paradoxal: uma parcela considerável das mortes por hipotermia é atribuída a esse fenômeno. Pessoas com frio extremo começam a ficar desorientadas, algumas sentindo um calor extremo (falso) que as fazem começar a arrancar as roupas. E isso é fatal nesses casos. Quem faz resgate em montanhas é treinado para esperar isso ao encontrar vítimas, o hipotálamo começa a falhar nessas condições extremas e não consegue mais regular a temperatura do corpo. Isso explica o porquê de alguns dos esquiadores estarem só com roupa de baixo e outros estarem com partes da roupa faltando. Mas não explica muito bem os ferimentos e a radiação.

Testes militares: existem relatos dos russos testando “minas de paraquedas” mais ou menos nessa época e local. São bombas que caem de aviões em paraquedas e explodem a poucos metros do chão. O tipo de dano encontrado nos corpos dos esquiadores faz sentido com esse tipo de explosão, muito mais concentrados no interior do que no exterior do corpo. Essa teoria é baseada na ideia de que os corpos foram colocados naquelas posições e que a barraca estava montada de forma estranha para pessoas com a experiência que os estudantes tinham. A radioatividade de algumas das roupas dos corpos também poderia ser explicada por testes militares, embora se fosse uma explosão, a radiação deveria estar espalhada uniformemente, o que não foi o caso.

Os arquivos do caso só foram liberados pelo exército vermelho no final dos anos 80, e mesmo assim, com muitas partes censuradas. Mas esconder dados sobre ações militares era tão padrão para os militares soviéticos ao ponto de não ser surpresa nenhuma tantas partes apagadas.

Ataque de animais ou de tribos locais: nenhuma dessas teorias tem muita força pela ausência de pegadas de qualquer outra coisa que não os esquiadores na área.

Orgia bêbada resultando em briga: o grupo era composto por sete homens e duas mulheres. Tecnicamente, poderia ter saído uma briga durante um momento desses (por isso alguns encontrados com pouca roupa), mas não havia álcool nos pertences dos estudantes, e nenhum humano seria capaz de gerar os ferimentos encontrados nos corpos.

Nenhuma explicação até hoje conseguiu explicar todos os elementos da cena encontrada pela equipe de busca, sendo que a que chega mais perto é a da avalanche. Talvez tenha sido uma mistura de algumas dessas explicações, ou nenhuma delas. Até por isso quem aposta em alienígenas ou abomináveis homens das neves tem alguma desculpa para pensar dessa forma. O incidente do passo de Dyatlov (o local recebeu o nome do líder da excursão, Igor Dyatlov) permanece um dos maiores mistérios forenses da história humana. E agora você também pode formular a sua teoria…

Site com várias fotos e detalhes aqui.

Para dizer que não está dizendo que foram aliens, mas foram aliens; para dizer que o mistério foi não encontrarem vodka, ou mesmo para dizer o que acha que aconteceu: somir@desfavor.com

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5 desfavores sobre “O incidente do Passo de Dyatlov.

” Para dizer que o mistério foi não encontrarem vodka” sim, bem isso. Sinceramente, foi o que mais me surpreendeu, pois RUSSOS, né?
Que loucura. Já conhecia o caso, mas algumas das teorias, não.
Não sei o que pensar, apenas sentir, etc.

Muito intrigante, e eu não sabia desse negócio de desnudamento paradoxal…
*tentando mentalizar uma boca sem língua

Lembro de já ter lido sobre isso, e sempre achei muito estranho que nenhuma teoria consiga abarcar completamente todas as circunstâncias de como eles foram encontrados.

Mas lendo aqui de novo, me parece mais familiar (ou me soa menos estranho) que eles possam ter topado com alguma mina remanescente desses testes militares. Isso explicaria em parte os ferimentos graves (que não fecham com uma mera briga ou ação de predadores) e a radiação. Mas ainda assim não explica totalmente. Muito louca essa história

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