Como sobreviver a um tiroteio.

Muito triste ter que escrever sobre isso, mas a realidade do nosso país o torna necessário: é assalto em shopping com reféns, é tiroteio de polícia e bandido no meio da rua, é tiro em escola. Desfavor Explica: como sobreviver a um tiroteio.

O primeiro grande passo é reconhecer o tiroteio. Ele pode se apresentar de forma bem explícita, onde você vê que há pessoas atirando, ou pode apenas (ao menos inicialmente) dar sinais pelo barulho dos tiros. O barulho de tiro é bem característico: um estampido alto, seco. Quem é carioca certamente sabe reconhecer o barulho de tiro, talvez até de qual arma parte. Para o resto do Brasil, você pode tentar educar seus ouvidos escutando gravações de tiros, mas, na dúvida, se achar o barulho suspeito, trate como se tiroteio fosse. Melhor passar vergonha do que morrer.

O principal dilema de pessoas que se encontram em meio a um tiroteio é: fugir ou se esconder. É uma decisão importante, que deve ser tomada em segundos. Como você não vai ter muito tempo para pensar nisso na hora, absorva agora estas dicas, com sorte elas ficarão armazenadas em algum lugar e serão levadas em conta pelo seu cérebro, mesmo que você não perceba, na hora de decidir.

Especialistas concordam que conseguir reagir nos primeiros cinco segundos depois que a confusão começa é um dos maiores determinantes para se salvar. Então, não se deixe paralisar. Você precisa decidir o que fazer de forma rápida para aumentar suas chances de sobreviver. Mesmo que não tenha certeza do que está acontecendo, comporte-se como se estivesse em uma situação de risco e tome todas as precauções.

É clichê e é quase impossível, mas ajuda muito manter a calma nessas horas. Pensar racionalmente pode fazer a diferença entre a vida e a morte. O grande problema é que você precisa manter a calma mas agir rápido. Seja para se esconder, seja para correr, o quanto antes você agir, melhor. Difícil agir rápido e assertivamente? Sim, com certeza. Mas, confie no seu cérebro. Nesses momentos cruciais de sobrevivência ele acessa, em uma fração de segundos, todas as informações que dispõe sobre o assunto, as cruza e determina o que é melhor. Por isso a importância de colocar bastante input sobre isso para dentro, quanto mais input, mais assertivo será o output. Bem, vamos alimentar seu cérebro?

Primeira coisa: ouviu barulho de tiro, se jogue no chão, antes mesmo de pensar no que vai fazer depois. Reduzir a área do seu corpo que está exposto reduz suas chances de ser atingido. Mesmo que você não veja o atirador, você pode ser atingido, então, deite e procure se proteger. Deitado no chão, avalie a situação o mais rápido que puder e decida o próximo passo.

Estatisticamente, sobrevive mais quem corre para longe do tiroteio, porém, nem sempre pode ser a melhor solução. Avalie estas informações: 1) Você consegue ver o(s) atirador(es)? 2) Os tiros são direcionados a terceiros ou você também é alvo? 3) Existe uma rota de fuga pela qual você possa sair sem passar pela direção dos tiros?

No caso de um atirador perturbado, que invade um lugar para matar quem quer que seja, a fuga é mais difícil, pois se ele te localizar, você vira um alvo. Então, se estamos falando de um atirador sem motivo aparente, só fuja se tiver certeza de que pode sair sem ser visto. Porém no caso de uma troca de tiros entre polícia e bandido, onde não há um propósito específico de te matar e você é apenas dano colateral, basta que você encontre uma rota de fuga que não te coloque na linha de tiro.

Se você achar que identificou de onde vem os tiros e que consegue correr em relativa segurança para longe deles, faça-o de forma a reduzir as chances de se tornar um alvo: corra abaixado, tente ziguezaguear e, se possível, se coloque de lado para a linha de tiro, assim você deixa uma área menor do corpo exposta, reduzindo as chances de ser acertado. Tenha em mente o seguinte: se estiver a até seis metros de distância de onde partem os tiros, as chances de você ser acertado são muito grandes, se estiver a mais de 12 metros de onde partem os tiros, as chances de você conseguir fugir são muito grandes.

Abandone todos os seus pertences ao optar pela fuga, eles só atrasam sua corrida e reduzem sua mobilidade. Que se dane celular, computador ou o bolsa, sua vida vale mais. Parece óbvio, mas nosso primeiro impulso sempre é pegar os pertences. Deixe tudo para trás, permita que seu cérebro foque apenas na sua sobrevivência. Não grite, não chore, não faça barulho, escândalo ou nada que possa te tornar um alvo.

Se estiver com mais pessoas no local, tente correr junto com elas. É bom para todo mundo: você ajuda a salvar pessoas que ficaram paralisadas pelo medo e ao mesmo tempo reduz as chances de que você seja o alvo. Um grupo de pessoas juntas também pode intimidar um atirador e se, por uma infelicidade vocês acabarem em uma situação de confronto direito com o ele, tem mais chances de sobreviver. Porém, se as pessoas não quiserem ir, não se atrase por causa delas. Se julgar que fugir é uma opção, corra!

Se houver alguma forma de se proteger ou se tornar um alvo menos fácil, improvise. É difícil ter essa presença de espírito no calor do momento, por isso separamos algumas dicas e você pode pensar em outras antes de estar na situação de estresse: você pode criar uma cortina de fumaça acionando um extintor de incêndio, estilo “bomba ninja”, que impeça o atirador de mirar em você. Se houver a opção de apagar as luzes, também pode ajudar. Observe onde está a saída e depois apague as luzes e saia. Você pode atirar um objeto para a direção oposta de onde você está, para que ele atraia as atenções para esse lado, enquanto você corre para o outro. É difícil ser criativo diante de tanta pressão, mas se estiver a seu alcance, faça algo que aumente suas chances de fuga sem ser alvejado.

Corra. Corra muito. Seu corpo estará em situação de estresse, portanto, sua capacidade cardiorrespiratória estará aumentada, sua força estará maior, sua visão estará mais aguçada. Não se imponha limites achando que “tal coisa” você não vai conseguir, pois é provável que consiga. Ganhamos superpoderes quando nossa vida está em risco, o corpo dá um upgrade para tentar salvar sua vida, não tenha medo de explorar estes superpoderes. Você está partindo para o tudo ou nada, leve seu corpo ao limite.

Quando conseguir sair da situação de risco, continue alerta. É possível que o atirador saia também e vocês se cruzem novamente. Procure abrigo em um local seguro, preferencialmente um lugar com seguranças, como supermercados, bancos ou quaisquer prédios vigiados. Só saia de lá quando tiver certeza de que tudo acabou.

Agora, pensando em um cenário menos favorável, vamos supor que fugir não foi uma opção. Você está preso em algum lugar onde há um tiroteio. Se for a céu aberto, procure qualquer coisa na qual possa se proteger: um poste, uma caçamba, qualquer coisa que sirva como barricada. Mantenha-se deitado ou abaixado. O ideal é que você não seja visto ou percebido. Não se levante pela curiosidade de ver o que está acontecendo. Se estiver fora da linha de visão do atirador e estiver com seu celular próximo, você pode tentar ligar para a polícia ou para alguém, mas fale baixo, sem chamar a atenção para você. Aproveite e coloque o celular no modo silencioso, mas é no silencioso mesmo, vibração pode ser escutada e te causar problemas.

Espere por uma oportunidade de fuga ou por socorro. Não confronte o atirador, não tente conversar com ele, nem mesmo o olhe nos olhos. Não banque o herói. É uma pessoa que está visivelmente transtornada e não será você a colocar juízo em sua cabeça. Muito ajuda quem pouco atrapalha, fique na sua e espere que quem entende lide com isso.

Caso esteja confinado em algum lugar, busque abrigo em algum recinto cuja porta possa ser trancada. Se possível, coloque obstáculos pesados atrás da porta ou travas mecânicas, assim o atirador terá dificuldade em entrar. Pode ser que este obstáculo o desmotive e ele simplesmente procure outro lugar. Geralmente tiros chama a atenção, então, o atirador sabe que tem pouco tempo para agir até chegar alguém, por isso é provável que não perca tempo tentando arrombar uma porta. Fique longe de janelas ou locais com vidros, se uma bala atingir o vidro e ele se estilhaçar, pode te ferir ou até te matar. O ideal para te proteger são paredes de tijolos.

Além de fazer essa barricada atrás da porta, apague as luzes, assim pode ser que sequer percebam que você está lá dentro. Fique longe da porta, o atirador pode atirar nela para tentar entrar. Se tiver acesso a um telefone, ligue e peça ajuda, informando exatamente onde você está. Além da barreira mecânica na porta para impedir a entrada, tente se esconder em um lugar protegido: atrás da mesa, dentro de armário, onde for possível. Pode ser que o atirador não entre mas atire na sua direção, então, ter um obstáculo/escudo entre você e a porta pode fazer toda a diferença

Se houverem mais pessoas com você, obrigue-as a ficar em silêncio. Se houverem crianças, tape suas bocas se for necessário. Sua melhor chance de sobreviver é se ninguém notar que você está lá. Mesmo que seja um tiroteio entre bandidos, eles podem querer acabar com as testemunhas. Faça o que for preciso para não ser percebido.

Mas, esteja preparado para o pior. Caso encontre qualquer coisa que possa ser usada como uma arma para se defender de um possível confronto corpo a corpo (tesoura, faca ou até mesmo uma pedra) pegue e leve com você para o local onde vai se esconder. Fique camuflado, mas com uma carta na manga.

Se possível, fique deitado de bruços, com os braços encostados no chão (sem proteger a cabeça) dobrados em 90° afastados do corpo, com sua “arma” próxima. Além de proteger seus órgãos vitais, esta posição permite que você alcance rapidamente eventual arma branca que levou com você e também permite que, em um caso extremo, você se finja de morto se o atirador tiver acesso a você. Não é a melhor opção, pois dificilmente uma pessoa nervosa consegue ficar imóvel, e se o atirador perceber que você está vivo, o resultado não será bom, mas vale como último recurso. Há registros de pessoas que se salvaram por se fingir de mortas.

Fique onde está. Por mais que os tiros parem, por mais que se faça um longo silêncio. Você não sabe o que está acontecendo do lado de fora. Só saia quando tiver certeza de que está em segurança, o que geralmente acontece com a presença de policiais na área, exceto no Rio de Janeiro, onde temos mais medo de policiais do que de bandidos. Via de regra, você só vai sair quando alguém avalizado te autorizar a sair em segurança.

Agora vamos ao pior cenário possível. Você vai ficar cara a cara com o atirador. É o pior cenário e deve ser evitado ao máximo, se puder fugir ou se esconder, jamais parta para o confronto, mas, se não tiver outro jeito, você vai ter que lutar contra sua vida (em desvantagem). Seguem alguns conselhos.

Não tente argumentar, conversar, negociar ou pedir pela sua vida, está comprovado que não funciona. Sua melhor chance é lutar. Quanto mais pessoas atacarem o atirador juntas, melhor. Lute com o que puder: atirar um grampeador pode matar uma pessoa. Enfiar um lápis no olho pode matar uma pessoa. Tudo tem que virar uma arma agora. Você está lutando por sua vida, não se deixe paralisar por uma arma de fogo. Estatísticas apontam que a maior parte das pessoas baleadas sobrevive. Se você não lutar, suas chances de morrer são maiores.

Procure atacar pontos fracos, se possível, de surpresa. Se está preso em um recinto e o atirador está forçando a porta, se posicione de uma forma que possa ataca-lo assim que ele entrar. Se houver mais gente com você, tentem armar uma emboscada. Objetos perfurantes devem ser enfiados nos olhos ou pescoço. Objetos contundentes devem ser usado para bater com força na cabeça ou no braço, para tenta-lo fazer largar a arma. Você também pode tentar acertar o atirador no meio das pernas (também dói se for mulher). Caso o confronto seja de luta direta, corpo a corpo, a primeira providência deve ser afastar a arma de você.

No caso de uma arma longa, como um rifle, tente segurar o cano para o lado, desequilibrando o atirador. No caso de pistolas, pegue no cano por cima, para evitar que ele consiga mirar e atirar. Use toda sua força e agilidade, você tem superpoderes nessa hora, lembra? Bata sem medo, se preciso for, mate o agressor, você está agindo em legítima defesa, não será condenado. Aos olhos da lei, o que não pode é o excesso de legítima defesa, ou seja, quando o atirador já estiver contido, imobilizado, sem representar perigo e você continuar a agredi-lo e até mesmo mata-lo. É aí que está a linha que define se você vai ser punido ou não: a agressão era a única forma necessária para salvar sua vida? Se sim, ok. Se não, pode ser considerada excesso de legítima defesa e você pode ser punido. Por isso, ao relatar o fato para a polícia, mostre em sua narrativa que a força empregada era necessária, indispensável e o único meio para salvar a sua vida.

Se tomar a arma do atirador, cuidado, ela pode estar travada ou até ser de brinquedo, então, não confie apenas nela para neutralizar o agressor, pois na hora H você pode ter uma surpresa desagradável. Se entende de armas, dê um tiro como teste para o chão ou para o alto e verifique se funciona e se ainda tem munição. Se não entende, não de garanta nela.

Mesmo que você derrube o atirador, saiba que ele pode acordar ou estar fingindo, então, faça o que for preciso para imobilizá-lo ou incapacita-lo para lutar com você e recuperar a arma: amarre, soterre a criatura com móveis pesados que o imobilizem, tranque-o em algum lugar. Muito cuidado com o excesso de confiança. Não relaxe até que ele seja entregue às autoridades responsáveis.

É isso, espero que: 1) Nada disso seja necessário ou 2) parte do que foi dito aqui se fixe na profundeza da mente de vocês e seja acessado se um dia for necessário.

Para dizer que se o atirador for da PM é possível negociar sim, se oferecer dinheiro, para dizer que ultimamente estas dicas também são úteis em países de primeiro mundo ou ainda para dizer que a melhor dica eu não dei, que é andar armado: sally@desfavor.com

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Comentários (20)

  • Alguns adendos:
    1- caso esteja na rua e a única opção seja abrigar-se próximo a um veículo, só existe uma barreira relativamente eficaz, que é a área do motor; posicione-se atrás dela, pois os tiros atravessam facilmente lataria, vidros e bancos, independente do calibre.
    2- se conseguir se esconder em alguma edificação, procure ficar, se possível, nos cômodos mais interiores, especialmente se estiver no Rio; tiros de fuzil atravessam até três parede, e mesmo alguns calibres de armas custar conseguem atravessar uma.
    3- caso o confronto seja inevitável, e você não possua uma arma de fogo, a distância é sua inimiga; uma vez que tenha se aproximado o iniciado a briga, não se afaste por nada, a menos que tenha tomado a arma, e esteja ciente de que muito provavelmente, sofrerá ferimentos sérios.

  • Engraçado como a gente se engana as vezes em relação à expectativa do texto. Estava esperando mais algo do tipo “primeiros socorros – como sobreviver caso tu leve um tiro”, mas… O texto também é válido!

    • Nem se se haveria muito o que pudesse ser feito numa situação dessas – ainda mais com o tipo de armas de alta potência que se usa no Rio de Janeiro – , mas acho que um texto do tipo “primeiros socorros – como sobreviver caso tu leve um tiro” não seria mesmo má idéia…

      • Verdade, não seria mesmo. Todos nós deveríamos saber socorrer um ferido a bala. Vou fazer um texto estilo “Levei um tiro, e agora?”

  • Sally, me lembrei do cunhado da Ana Hickmann, que está respondendo por homicídio naquele caso do cara que invadiu o quarto dela armado.

    Não teria sido legítima defesa?

    • Mas com certeza foi legítima defensa. O problema é: foi legítima defesa NO BRASIL.

      Não sei muitos detalhes do caso, o que fiquei sabendo é que no depoimento ele teria dito algo que levou a polícia a crer que haviam outras formas de neutralizar o agressor e por isso se cogitou que ele cometeu um excesso.

      Por isso, sempre, SEMPRE contem a história de modo a deixar bem claro que não havia qualquer outra possibilidade além de fazer o que vocês fizeram para se salvar!

  • Obrigada por mais uma vez salvar nossas vidas por tabela!
    Gostaria de sugerir situações de defesa em casos riscos de estupro (considerando hipóteses e locais).

  • Este é mais um daqueles textos do Desfavor Explica que são para ler, guardar e consultar sempre, apesar de o assunto não ser nem um pouco agradável . Aprecio o trabalho da Sally em nos trazer essas informações – que podem, literalmente salvar nossas vidas um dia – e imagino o quanto ela gostaria que não fosse preciso tocar nesse assunto tão horrível. E que triste é saber que algumas das pessoas que vivem naquele inferno que é o Rio de Janeiro com o tempo se acostumem tanto com os infindáveis tiroteios que consigam até “desenvolver o ouvido” a ponto de poderem identificar de qual arma cada disparo sai.

    • Leia e confie. Seu cérebro vai arquivar em algum lugar o que for realmente importante e se um dia for necessário, vai acessar em uma fração de segundos.

  • Como moradora do Rio de Janeiro isso foi muito necessário. Nunca tinha visto uma escalada na violência tão grande como a que sofremos agora e, pior, com um prefeito inapto e ausente!!!!
    Confesso que atualmente tenho muito medo que isso leve a algum tipo de intervenção militar que vai escambar para um caminho irreversível.

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