Que de políticos vamos mal, vamos muito mal. Mas será que podemos fazer ainda pior? Sally e Somir discutem sobre que tipo de político é mais danoso para a nação. Os impopulares votam (se quiserem).

Tema de hoje: o que é pior no Congresso, as raposas velhas ou evangélicos?

SOMIR

É com dor no coração que eu digo raposas velhas. Eu queria muito votar nos evangélicos, mas está na hora de pensar mais friamente no tema: raposas velhas necessariamente significam pessoas desonestas e desinteressadas em qualquer outra questão que não enriquecimento pessoal, evangélicos é um grupo suficientemente mais heterogêneo do que isso. Espero convencer vocês, porque vai ser dolorido desenvolver o argumento.

Político evangélico, neste contexto, é aquele que foi eleito com base na sua afiliação religiosa. O que eu não acho saudável para um país considerando a média, mas que por si só não é um problema. Veja bem, por mais que eu considere religiosidade um defeito numa pessoa, não acredito que um político eficiente precise ser perfeito. Todos vão ter algum problema, como é inescapável na condição humana. Os problemas do político evangélico passam por sua crença no irracional como grupo, mas são bem mais variáveis quando se pensa no indivíduo. Um deputado crente não precisa ser necessariamente incompetente ou corrupto.

Já a raposa velha vem de fábrica com um defeito estrutural irreconciliável: o vício na subversão do sistema. Depois de tempo suficiente dentro daquele ambiente, são poucos que conseguem se manter íntegros. E o custo dessa integridade costuma ser alto: são pouco ou nada eficientes dentro de uma estrutura corrupta. Pouca adianta ser a voz da razão se todos ao seu redor estão tapando os ouvidos, não? A raposa velha conhece a política brasileira, e independentemente do seu caráter original, já sabe bem demais como as coisas funcionam para sequer ter esperança de mudar alguma coisa. E aí começa o perigoso processo de auto-perdão: “vou fazer essa coisa errada aqui porque eu não tenho escolha”.

O sistema pode ser tão opressivo que a única forma de escapar da corrupção e do fisiologismo é ficar isolado e inutilizado num canto. Algumas raposas velhas foram tão espancadas pela realidade de Brasília que aposto que acham, de coração, que estão fazendo algum bem para a nação com mais do mesmo. E é aqui que talvez os evangélicos levem alguma vantagem: eles são frutos de um outro sistema, torto, mas outro de qualquer forma. Já sabemos que não dá para controlar as raposas velhas de forma alguma, que elas não se acertam numa posição de poder… são como um vírus assassino. Não vivem em conjunto com o organismo que infectam. Raposas velhas querem mais e mais, e mais e mais do mesmo: enriquecimento e poder desalinhados com qualquer ideologia ou mesmo planejamento.

O sistema dos evangélicos parte de um pressuposto moral, e lembremos que “moral” por si só não é uma palavra de significado bom ou ruim, só é sobre uma forma de comportamento padronizada entre um povo. Os evangélicos se elegem com a ilusão dos seus eleitores sobre uma certa moralização da sociedade. O voto evangélico médio é sobre ajudar membros do seu “clube” a conseguir poder e fazer valer suas visões sobre como a sociedade deve ser. Claro que boa parte desses políticos só está lá para fazer dinheiro, mas de uma certa forma eles continuam presos a um resquício ideológico no seu mandato.

Você pode achar o Feliciano um babaca, assim como eu acho, mas ele está lá para fazer uma coisa e está correndo atrás. Eu quero viver num mundo onde pessoas como ele não tenham poder para mexer na minha vida, mas não dá para se ter tudo. Pelo menos tem algo ali sobre como o Estado deve guiar seus cidadãos. E algo é melhor do que nada. Essa parte pode parecer complicada, mas vou dizer do mesmo jeito: temos mais chance de mexer numa moral estabelecida do que criar uma onde ela não existe. As raposas velhas são imprevisíveis nas suas decisões, vão para onde o dinheiro aponta, sem a menor necessidade nem de fazer pose para seus eleitores. É muito difícil discutir sobre os rumos de uma nação sem ninguém no volante.

Então, por incrível que pareça, eu prefiro um país que tenha um compasso moral errado do que nenhum. Eu discordo de quase todas as posições dos evangélicos sobre como a sociedade deve ser guiada, mas pelo menos tem algo para trabalhar ali. Se você consegue movimentar a base deles para aceitar algo, eles vão ter que agir de acordo. Nem por se importar com o que a gentalha quer, mas para se manter viável como figura pública. E nisso eu confio muito mais nos evangélicos do que em qualquer outra religião: eles adaptam sua fé em segundos se for mais vantajoso. Ou vocês acham que Edir Macedo e cia. não sabem se reinventar quando o dinheiro começa a diminuir? Poucas igrejas abriram tanto as pernas nas últimas décadas quanto os evangélicos, na média, é um dos grupos de fiéis mais heterogêneos de qualquer religião. Sempre abre uma igreja nova que aceita quem foi rejeitado em outra.

Sim, as raposas velhas mudam de opinião sempre que é mais lucrativo também, mas baseadas em nada. A opinião de hoje pode ser inversa a de amanhã e voltar no dia seguinte. Não tem base, não tem lógica, eles sequer estão pensando no que dizem… afinal, ninguém está ouvindo. Os evangélicos tem bases para agradar e tem posições para manter. Eu acredito que o ideal seria que nenhum dos dois grupos tivesse muito poder no Congresso, mas já que é para ter um deles, prefiro um grupo que pelo menos tem que fingir que quer alguma coisa para a sociedade.

É, depressivo. Brasil-sil-sil!

Para se dizer chocado com a minha escolha, para dizer que evangélicos são raposas velhas que rezam, ou mesmo para dizer que está na hora de dar uma chance para o candomblé: somir@desfavor.com

SALLY

O que é mais nocivo para o país na bancada do Congresso, as raposas velhas que estão mandando e roubando há décadas ou os novos evangélicos?

Evangélicos são mais nocivos e esta costuma ser uma resposta coringa para as mais diversas perguntas. Não que essas raposas velhas sejam boa coisa, são quase tão ruins quanto, porém eles são apenas desonestos e escrotos, não se metem a controlar o estilo de vida de ninguém, não interferem na crença ou nas escolhas pessoais por estar basicamente cagando solenemente para o povo.

Acho que ninguém aqui tem dúvidas sobre a desonestidade de grandes lideres evangélicos. Eventualmente pode existir um ou outro pregador bem intencionado (que certamente não durará muito e pulará fora assim que perceber como as coisas funcionam), mas os chefões evangélicos são máquinas de extorquir dinheiro de ignorantes. Então, em matéria de combate à corrupção, não creio que exista muita diferença. Raposas velhas roubam, evangélicos roubam.

As raposas velhas tem mais experiência? Sim, mas isso não os faz competentes. Olha as bostas descaradas que ladrões como Sérgio Cabral e Cunha fizeram, na total certeza da impunidade. Olha o Lula mostrando recibo de aluguel de pagamento feito no dia 31 de setembro. Então, francamente, competência ninguém tem. Até para roubar brasileiro é desleixado e faz um trabalho bosta, independente do “tempo de carreira”.

Periga até dos evangélicos se saírem melhor do que as raposas velhas, que já estão desacreditadas e com presunção de corrupção. Faça uma pesquisa na rua e veja o percentual de pessoas que acham que político é tudo ladrão e não merece a sua confiança contra o percentual de pessoas que acha que pastores são todos ladrões e não merecem a sua confiança. Ainda milita, no Brasil, uma presunção a favor de quem tem religião (e contrária a quem não a tem). Então, evangélicos já sairiam na frente por ser “de Deus”.

Em termos práticos, esses putos também tem um bônus que faz toda a diferença: igrejas que não pagam impostos, isso é um baita facilitador para lavar o dinheiro. Quero ver provar que uma fortuna que entra para uma Assembleia de Deus ou uma Universal foi desvio de dinheiro público e não doação. Eles tem a ferramenta ideal e intocável para lavar todo o dinheiro que quiserem. Adivinha se não será muito mais difícil de controlá-los do que é hoje em dia, onde imbecilóides enfiam maços de dólar na cueca, alugam apartamento para guardar dinheiro ou entopem o banco com barras de ouro?

Esses escrotos tem seus fiéis nas mãos, são mestres da manipulação e lavagem cerebral. Podem ser novatos na política, mas em trapacear seres humanos, são doutores. Mesmo sem estar no mundo da política, tomam o dinheiro das pessoas com seu consentimento, imaginem o que não poderiam operar se tivessem como controlar o país. Evangélico quer acreditar, não questiona, não antagoniza. Teriam um poder muito maior do que esses coronéis cafonas que, bem ou mal, de tempos em tempos, tem que lidar com algum grau de putez popular.

Aécios e Lulas da vida tem um propósito muito claro: enriquecer, se dar bem, obter vantagens pessoais. Político de Cristo não quer apenas isso, ele quer converter o país inteiro, impor sua religião e demonizar quem não adere a ela. Então, além do roubo descarado, que acontecerá com qualquer um dos lados, teremos também uma intervenção maior em na esfera privada. Vai ser uma tsunami de Jesus Cristo em tudo quanto é canto, vai ser simplesmente insuportável.

É possível que se esses descompensados conseguirem poder na bancada do Congresso, aprovem coisas aberrantes, que interfiram na sua, na minha, na nossa liberdade pessoal. Quem pode fazer sexo com quem e como, imposição de orações e símbolos religiosos e até criminalização de atos que eles entendem irem contra os ensinamentos de Deus. Confesso que tenho medo de uma inquisição pós-moderna, uma ditadura de Cristo.

Todo radicalismo é ruim e sabemos que evangélicos, ao menos os que chegam ao poder, tendem a ser muito radicais. Você prefere um corrupto de merda mal visto pelo povo ou um corrupto radical para o qual o povo abaixa a orelha?

Pensando no atual cenário, propício a moralismo e resgate aos “bons costumes”, periga até de surgir aquele tipinho hediondo de pessoa que defenda roubalheira praticada por evangélicos com o argumento de que “pelo menos o país está mais moralizado”. Gente que aceita que dinheiro público seja desviado apenas para ver prevalecendo socialmente valores que comunguem com os seus. Seria uma versão moderna do “rouba mas faz”: “rouba mas é do meu time”.

Porra, o país demorou décadas para conseguir começar a punir essas raposas velhas safadas, agora que eles começam a ir para a cadeia, agora que vem a público quais são os esquemas de corrupção que eles usam, vamos trocar por pessoas mais bem preparadas para embolsar dinheiro alheio, com mais lábia e com uma instituição forte e com isenção fiscal para servir de álibi? Não, obrigada. Entre uma merda e uma merda + religião, eu fico com a merda simples.

Se é para ter gente escrota e desonesta no poder, que sejam esses que já estão manjados, queimados e que o povo não respeita mais. Idiotas que ninguém tem medo de confrontar, antagonizar e prender. Incompetentes que deixam rastros de cada merda que fazem, provas tão toscas e descaradas que até a polícia brasileira consegue rastrear. Melhor eles do que charlatães que tem o povão nas mãos, na base do medo e manipulação.

Para dizer que prefere uma bomba no Congresso, para dizer que criminalizarão ateísmo ou ainda para dizer que se sem poder eles já são insuportáveis, não quer nem imaginar como seriam com poder: sally@desfavor.com

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Comentários (17)

  • Tem uma frase que não sei a origem, mas já vi muitas vezes em histórias em quadrinhos: “se tiver que escolher entre dois diabos, é melhor enfrentar aquele que você já conhece”.

    Aos trancos e barrancos o Brasil vem lidando com as raposas velhas desde sempre, o que tinha de pior pra eles causarem já aconteceu. Os políticos evangélicos são novidade, não sabemos ainda quais merdas podem fazer nem aonde pode chegar a ganância e a sede de poder desse grupo.

  • Concordo com a Sally, e sinceramente acho que todas as mulheres deveriam se preocupar bastante com essa onda política-evangélica que vem aumentando… medo!

    Agora…
    “Eu discordo de quase todas as posições dos evangélicos sobre como a sociedade deve ser guiada, mas pelo menos tem algo para trabalhar ali.”
    Curiosa com o que o Somir concorda!

    • Algumas pessoas querem ter razão a qualquer preço, né?

      Vai ver ele vai mudar o nome da coluna LEC (Liga de Extermínio de Crentes) para LAT (Liga Algo para Trabalhar)… hahaha

  • Entre um maluco que rouba tudo e não faz nada e um maluco que rouba tudo e puxa o Brasil pra trás, acho que devemos escolher quem nos faz menos mal né?

  • eleição no brasil é tipo uma roleta russa invertida, com balas em todos os buracos (sei lá como chama) exceto um.

      • Vamos separar o joio do trigo: tem muitas “portas de Igreja” por aí, e a maioria esmagadora não é dos templos superpoderosos com bispos e apóstolos que vendem bênçãos a granel em troca de dinheiro e benefícios (uma espécie de “propina” santa, que vem desde os tempos de pagar promessa).

        Na maior parte das denominações evangélicas, contudo, pastores ganham no máximo dois salários mínimos – isso se não trabalharem somente por casa e comida. Igrejas, via de regra, são pequenas comunidades, instaladas muitas vezes em pontos comerciais minúsculos, nas quais os dízimos e ofertas mal dão para pagar o aluguel do “templo” e uma ou outra despesa da casa.

        Ah… ser pastor, oficialmente, é um trabalho voluntário. Não há vínculo empregatício, e você ganha apenas aquilo que receber da comunidade. Claro, nas Igrejas neo-pentecostais existe comissão pela arrecadação de dízimos – mas muitos desses lugares, convenhamos, não podem ser levados a sério.

        • Ok, mas o que chegam a ser Deputados Federais, que são aqueles objeto deste texto, você acha que são os humildes e honestos ou os grandes filhos da puta corruptos?

          • Hum… dificilmente os corruptos descarados continuarão a ser deputados, embora seja mais fácil eles perderem o mandato por posturas “progressistas” do que por atitudes antiéticas.

            E, em tempo: todo eleitor de safado é tão fdp quanto aquele que o elegeu. Queremos resultados, não coisas “secundárias”, como honestidade.

            • Apenas corruptos descarados fazem o que é necessário para se candidatar e se eleger. Crente honesto morre pobre, nunca alcança poder nem dinheiro.

  • Sempre que leio uma crítica dessas eu penso: qual seria um estereótipo do “bom político”? Um incorruptível ateu, preocupado em criar um Estado laico “à força”? Aquele que não se elegeria por nenhum curral eleitoral? O protótipo do “governante perfeito” dos positivistas?

    Cuidado… Hitler era o governante perfeito, e deu no que deu. Aliás, antes que citem o clichê: o nazismo é a maior das provas de que procurar o governante perfeito é uma droga. Sempre será.

    • Sim, sim, Fábio, é bem isso que a gente quis dizer com o texto. O exato extremo oposto é legal, nunca o meio termo.

  • “Um deputado crente não precisa ser necessariamente incompetente ou corrupto.” será que vale a pena arriscar?

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