O que te compete.

Um dos passatempos preferidos do mercado de trabalho é falar mal dos chefes, e frequentemente não sem razão. Sally e Somir escolhem entre dois extremos problemáticos nessa categoria, e os impopulares tomam sua decisão.

Tema de hoje: o que é pior, um chefe incompetente porém gente boa ou um chefe filho da puta mas muito competente?

SOMIR

Na dúvida, cerque-se de competência na sua vida profissional. Ninguém nasce competente, e frequentemente no Brasil, não somos criados ou incentivados desde a infância para buscar excelência no que fazemos. Então, para conseguir evoluir minimamente bem e ter as ferramentas necessárias para se dar bem no seu trabalho, zonas de conforto geradas por chefes inofensivos e incompetentes são um perigo para a continuidade da sua evolução pessoal.

Óbvio que ninguém aqui está ignorando que o perfeito mesmo é um chefe gente boa e muito eficaz no seu trabalho, mas não temos essa opção disponível aqui. O que tem pra hoje como melhor alternativa é um chefe que sabe muito bem o que fazer no seu trabalho, mas calha de ser um escroto que vai tirar vantagem de você e possivelmente te sacanear se for a melhor escolha para ele. Importante ressaltar que esse chefe não é um maluco que vai te demitir por maldade pura ou mesmo aleatoriamente, até porque não dá pra ser consistentemente competente com esse tipo de mentalidade.

A pessoa muito competente no seu trabalho e sem escrúpulo algum de usar e descartar pessoas no seu caminho costuma ser a imensa maioria nos níveis mais altos da maioria das empresas de sucesso. Não é à toa que alguns estudos indicam que CEOs e presidentes de grandes empresas tendem a exibir várias características de psicopatas. O mercado de trabalho fica tão competitivo e cruel nos níveis mais elevados de gerência que é comum que esse tipo de pessoa renda melhor. Pode ser uma pessoa que sempre foi assim, pode ser uma pessoa que acabou engolida pelo sistema e acabou assim pelos desígnios do mercado, mas não vamos ignorar que ser filho da puta é uma característica desejada a partir de um certo tamanho de empresa de sucesso.

Eu acho que mundo tem que ser assim? Não. Na minha própria jornada, tento me esforçar para não me tornar essa pessoa escrota enquanto vou crescendo na carreira, mas com certeza é um caminho mais complexo do que precisaria ser. É bonitinho dizer que quem é ruim se destrói sozinho, mas na realidade, pode ser um excelente suporte à sua competência efetiva no trabalho. A parte mais complicada de qualquer trabalho gerencial é lidar com pessoas, dosando carinho e escrotice numa linha muito tênue para manter a produtividade e principalmente, a lucratividade do negócio.

Quando eu faço a comparação entre as duas possibilidades definidas para este texto, enxergo mais do que a minha relação pessoal com esse chefe, enxergo a viabilidade da empresa na qual estou trabalhando. É ruim lidar com um chefe filho da puta, mas é pior ainda lidar com um chefe incompetente. Primeiro porque incompetência fere todos os processos da empresa, e mesmo que você seja muito competente por si só, não adianta ser uma viga resistente num prédio que vai ser demolido… incompetência tira dinheiro da empresa e torna tudo ao seu redor muito mais frágil. O único lugar onde um chefe gente boa incompetente pode sobreviver é numa empresa que não depende dele para ganhar dinheiro, vulgo pequenas divisões de grandes multinacionais e no setor público. No resto dos casos, a incompetência fecha portas e torna o emprego de todos ali extremamente inseguros.

De uma certa forma, o filho da puta competente te traz até mais segurança no médio e longo prazo. Porque seu emprego vai estar lá até você causar algum problema para o chefe. Eu que lido com muitas pequenas e médias empresas no meu trabalho percebo como tem muita gente bacana que não consegue segurar o tranco e derruba todos seus funcionários junto. É muito comum até trabalhar em um lugar onde você gosta do seu chefe, mas não tem prospecto ou estabilidade porque ele não consegue fazer a empresa dar dinheiro. Triste, mas real. E é muito mais fácil estar numa empresa que está seguindo em frente e melhorando do que numa em queda. Empresa que lucra tem mais incentivos em segurar seus funcionários.

E mesmo no campo de evolução profissional, se você quer aprender a fazer seu trabalho melhor, tem que lidar com quem já sabe fazer aquilo direito. Por mais motivação que você tenha, somos humanos e aprendemos por exemplos. Um chefe incompetente pode te mostrar o caminho errado para a carreira, mesmo tendo as melhores das intenções. E quando você percebe que a coisa deu errado, gasta um tempo enorme corrigindo o curso. O filho da puta competente vai te manter tensionado, mas no mínimo você vai aprender quais são os caminhos certos naquele ramo.

E vamos voltar ao ponto de que o cidadão ou cidadã pode ser uma pessoa horrível, mas não poderia ser competente se não fosse racional: se você for um bom funcionário e não ameaçar diretamente o bem estar desse chefe, ele ou ela tem muitos incentivos para te manter por perto. Uma pessoa focada em excelência aprende logo que não trabalha sozinha, que precisa de mão de obra útil ao seu redor. Se você estiver se esforçando e entregando o que precisa, o chefe filha da puta pode ser até mais confiável que o gente boa. Até porque o filha da puta tende a não se importar com sua personalidade a não ser que pareça ameaçar a posição dele. Você pode ser escroto se quiser. O chefe gente boa pode te demitir se não achar que você tem o “perfil” da empresa ou se você for escroto com seus colegas (que muitas vezes são uns inúteis com esse tipo de chefe facilitando), o filho da puta só vai ser você for incompetente e tirar dinheiro dele, ou se você estiver focando em roubar a vaga dele.

Por isso, na dúvida, eu repito: escolha a competência. Ela é mais estável no longo prazo.

Para dizer que o seu é um filho da puta incompetente, para dizer que você só quer moleza, ou mesmo para dizer que competência é desnecessária no Brasil da troca de favores: somir@desfavor.com

SALLY

Prefiro um chefe gente boa e incompetente, pois competência eu tenho e faço as coisas funcionarem se for preciso. Considerando que ele seria gente boa, entendo que seria capaz de me escutar e levar as minhas ideias em consideração, permitindo que eu coloque projetos em prática, sem embarreirar minha competência.

Não adianta uma pessoa competente, ou seja, que sabe o que fazer e como fazer, se ela for filha da puta, pois filhos da puta agem em interesse próprio. Sabe o que fazer, sabe como fazer mas não faz por só fazer o que é melhor para ele. Grandes merda. Sem contar que, conviver com filhos da puta é um estresse enorme, um desgaste que faz mal até mesmo para a saúde. Quanto menos filhos da puta eu tiver ao meu redor, melhor.

Já que estamos usando o termo “chefe”, estamos pressupondo que o negócio não é nosso. Uma pessoa incompetente no MEU negócio seria realmente um problema, pois quando o negócio é seu, o risco do investimento é seu também. Mas não é o caso, em uma condição de subordinação, prefiro uma pessoa gente boa, que me dê liberdade criativa, que me escute e que não faça do meu dia a dia um inferno. Se der errado, bem, o dono do negócio (que contratou um chefe incompetente) que pague o prejuízo da porra toda.

O bom funcionário se automotiva. Não preciso de ninguém no meu pé me motivando ou me dizendo o que tenho que fazer. Na verdade, um chefe incompetente deixa uma lacuna muito interessante de preencher: o funcionário competente passa a ser o pilar de sustentação. Fica bem difícil demitir alguém quando ele representa a competência dessa área, certo? Já o chefe filho da puta não apenas se apropria do seu trabalho, como te descarta a partir do momento em que você passa a ser um incômodo ou uma ameaça. E gente filha da puta se sente ameaçada o tempo todo, pois a pessoa que faz coisas escrotas, está sempre na paranoia de que façam com ela também, projeção é uma merda.

Um chefe incompetente tende a dar mais liberdade criativa, pois não sabe nem ao menos fiscalizar ou cobrar. Assim, o bom funcionário pode brilhar, com mais autonomia. O filho da puta tende a tolher bons funcionários, para que eles não o ofusquem. Você consegue trabalhar dentro dos limites de interesse pessoal daquele filho da puta, o que pode ser muito frustrante e desmotivador.

Admito que incompetência pode prejudicar o rendimento de todo um setor ou empresa, mas a outra opção, a filhadaputez, prejudica até sua saúde mental. Portanto, dos males, a incompetência é o menor. Nada vale sua saúde física e mental, nada vale o constante temor e zelo para não ser sacaneado por um filho da puta que não só está ao seu lado, como também tem mais poder que você. Ninguém merece viver nessa constante tensão.

A incompetência é uma deficiência da pessoa, que não consegue se organizar, que não tem capacidade de gestão. Já a filhadaputez é falha de caráter mesmo. Acho mais fácil e agradável lidar com uma deficiência da pessoa do que com falha da caráter. A deficiência você conhece, consegue antever o que fazer para contorna-la, para que ela prejudique o mínimo possível. Talvez a própria pessoa tenha consciência de sua deficiência e fique grata pela ajuda. Já a falha de caráter… bem, nunca se sabe o que esperar de uma pessoa sem caráter, fica difícil se preparar e tenha certeza de que um mau caráter nunca vai jogar no seu time.

No Brasil há um terreno fértil para que filhos da puta tenham cada vez mais poder, basta olhar à sua volta. Psicopatas escrotos e egoístas são vistos como verdadeiros tubarões, bons executivos, focados. Gente assim é recompensada pelo mercado de trabalho, então, nem adianta pensar que um dia perceberão que o filho da puta é filho da puta e ele será punido. Não, provavelmente o filho da puta foi escolhido por ser filho da puta, dono adora contratar alguém para fazer o trabalho sujo. Então, se você está nas mãos de um filho da puta, não tenha esperanças: ele não só não vai cair, como é muito provável que suba e, com isso, impeça você de subir.

O incompetente, por ser incompetente, se subir, leva você junto, afinal, ele precisa de você. Talvez leve até por amor, já que muitas vezes eles nutrem um sentimento de gratidão por quem os ajuda nessa enorme bagunça que é suas vida. Há uma chance de que a pessoa perceba que vocês são uma boa parceria e te queira por perto sem necessariamente ser um interesse escuso. Existe quem consiga perceber na outra pessoa os pontos fortes que complementam seus pontos fracos e faça disso uma parceria duradoura.

Em resumo, você pode compensar a incompetência alheia, suprindo o que falta no seu chefe (pontualidade, organização etc), mas não pode suprir o caráter alheio: se a pessoa não presta, não há nada que você possa fazer e isso irá te atormentar, te infernizar e te sacanear durante toda sua jornada de trabalho.

Para dizer que você prefere mesmo é não ter chefe, para dizer que o pior dos mundos é trabalhar para o pai ou ainda para dizer que pior mesmo é ter que trabalhar: sally@desfavor.com

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Comentários (8)

  • Já tive os dois, e prefiro sem dúvida o incompetente gente boa. Quase morri literalmente nas mãos do FDP, cheguei a ponto de querer me demitir, mas felizmente o ordinário saiu primeiro. Não me importo de cobrir os buracos do atual, fazer a parte dele e até fazer documento pra ele só assinar, porque o ambiente ficou muito mais leve, toda a equipe tem prazer de vir pra empresa, nós temos autonomia pra executar as tarefas, e quer saber, rendemos muito mais hoje do que há um ano atrás.

    • Nada vale uma pessoa desgastante por perto. Filha da puta, grosseira, mal educada… não importa, pessoas tóxicas na convivência não tem qualidades que compensem o estrago que fazem.

  • Olha, eu também prefiro o incompetente e gente boa. Porque querendo ou não, são menos estressantes e não se tem aquela guerra de egos, além de você poder mostar um pouco a mais do que sabe.
    De filho da puta quero distancia enorme! Pior são os puxa-saco desses chefes “filhos da puta”, esses sim na minha concepção são os piores.

  • Com certeza um gente boa. Trabalho com uma fdp e ela só serve para ofuscar os funcionários, que nem gostam quando o dono os elogia na frente desta fdp, pois já sabem que vem perseguição logo após…

    Como vc disse, ela se sente muito ameaçada, acho que muito pelo fato de ser bem velha e saber que não conseguirá nada se sair daqui. Tb faz todo o trabalho sujo.

    Em resumo: Adora fazer intrigas, falar mal do trabalho de todos os funcionários, sem pudor nenhum se apropria das ideias alheias e tenta passar para o dono que só existe uma pessoa competente no escritório: ela.

    • Pior do que um chefe filho da puta só UMA chefe filha da puta. Mulher, quando é insegura, é dez vezes mais patética do que homem.

  • Já tive os 2. Prefiro o gente boa, porque mesmo se for incompetente dá pra ensinar ou limpar as cagadas. O filho da puta pouco importa se for competente, ele tem prazer em arruinar os outros e só vai usar o talento pro mal.

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