Coisa de preto.

+William Waack é afastado do Jornal da Globo. Jornalista é acusado de ter feito comentários racistas, fora do ar, durante cobertura das eleições americanas. Waack diz não se lembrar do episódio e pede desculpas.

Ninguém aqui acha bonito o que ele falou, mas tem algo de desproporcional sim nas reações. Desfavor da semana.

SALLY

Olá, vamos falar sobre coerência?

Vazou um vídeo de William Waack, apresentador do Jornal da Globo (agora ex), um dos jornalistas mais famosos do país, com um comentário muito incorreto. O evento aconteceu durante a cobertura das eleições americanas, ou seja, estamos falando de algo ocorrido um ano atrás. Ele claramente não sabia que estava sendo filmado e, ao ver um carro buzinando ostensivamente faz o seguinte comentário: “Isso é coisa de preto”.

Está certo? Não. Está muito errado. Em diversos níveis. Poderia discorrer sobre cada um deles, mas isso todo mundo já está fazendo e nossa proposta é tentar trazer um novo ponto de vista. Como já disse no primeiro parágrafo, quero falar aqui de coerência e não do mérito da questão, que por sinal, ninguém discute: o que ele disse está errado, muito errado. Muito errado mesmo.

A fúria com a qual as pessoas estão atacando Waack faz parecer que o que ele fez é algo abominável em nossa sociedade, logo, algo que, como regra, não é praticado por ninguém, apenas por escrotos sem noção. Se você recrimina com ênfase um estuprador, supõe-se que você não costuma ter como prática estuprar pessoas, certo? Existe um nome para quem condena algo que faz: hipocrisia.

Então eu pergunto: será que todas estas pessoas enfurecidas nunca, em seu ambiente de trabalho, falando informalmente com colegas, quando achavam que não estavam sendo vistas, fizeram um comentário incorreto? Eu faço. Eu faço inclusive abertamente, com microfone ligado, como vocês puderam observar no nosso vídeo sobre o Aniversário Guanabara. Devo ter falado uma dúzia de “Isso é coisa de pobre”. Logo, por coerência, não me sinto avalizada a cacetar furiosamente William Waack.

Quando passa um carro com som alto tocando música ruim eu digo “Isso é coisa de pobre”, ou, quando entra uma criança no restaurante eu bufo e digo “Acabou a minha paz” (pois presumo que filho de brasileiro é mal educado). Da mesma forma, muitas pessoas que eu conheço se referem pejorativamente a grupos como judeus, argentinos, advogados, homens, mulheres e até mesmo ruivos e ainda assim, se acharam no direito de detonar o jornalista. E se você acha que não existe preconceito contra branco, dá uma passadinha aqui antes de argumentar (http://www.desfavor.com/blog/2017/01/racismo-contra-brancos/http://www.desfavor.com/blog/2017/01/racismo-contra-brancos/). Se é errado, é errado para todos, não apenas para um determinado grupo.

Assim fica parecendo que a diferença do brasileiro médio para o jornalista é apenas uma: ele foi pego. Um pacto silencioso com a hipocrisia, onde todos tem que participar, sob pena de serem execrados. Quem é pego, é jogado aos leões, como forma de reforçar a bondade e integridade do grupo: “Olha como eu sou ético e legal: eu recrimino o que William Waack falou!”. Se você precisa pisar na cabeça dos outros para se promover ou se sentir bem, recomendo terapia.

Sobre a proporcionalidade da punição. O discurso que mais se faz ouvir é o de que, além de perder o emprego, ele deveria ser preso, supostamente por crime de racismo. Não vou entrar no mérito da prisão, mas crime de racismo não é, pois segundo a lei, este crime exige um ato, uma restrição, um verbo, como por exemplo impedir que alguém se matricule na escola ou impedir que use o elevador social. Certamente pode ser uma injúria, com qualificadora, algo que não dá cadeia no Brasil. Mas ok, se as pessoas acham que deveria dar cadeia, sagrado direito pensar assim.

Entretanto, quem acha que um comentário de uma frase é passível de prisão, supõe-se, deve acreditar que prisão é a resposta para o cometimento de crimes, certo? No caso de assassinato, no caso de uso de drogas ilícitas, como por exemplo a maconha e outros crimes, a resposta também deve ser prisão. Então, se você deseja enjaular um ser humano em um presídio por uma frase dita entre colegas de trabalho quando ele achou que o mundo não estava vendo, eu parto da premissa que você, quando está entre colegas de trabalho não fala nenhum tipo de merda que desmereça ou ofenda grupo algum e também é a favor de punição exemplar para o cometimento de crimes no geral.

A questão da forma também merece um rápido comentário. Se é aceitável execrar Waack por ter sido gravado, sem seu consentimento, sem sua ciência, sem sua concordância e usar esse material contra ele não apenas para prejudicar sua imagem mas também para fins de punição criminal, por questão de coerência, grampos obtidos com gravações a políticos também podem e devem ser usados para o mesmo fim, ainda que os políticos não soubessem que estavam sendo gravados, certo? Na Terra da Coerência, não importa quem, importa o ato. Na Terra da Hipocrisia, não importa o ato, importa quem o pratica. Muito me admira que quem gritou horrores por “gravações ilegais” contra Lula e Dilma se delicie com este caso.

Para finalizar, atacar com fúria o que um ser humano diz que desmerece algum outro grupo, principalmente um grupo que tem histórico de marginalização e preconceito, significa que você repudia radicalmente este ato, certo? Independente de posicionamento político do agressor ou dos agredidos, você é contra o desrespeito, não importa de quem ele parta, correto?

Logo, por uma questão de coerência, uma pessoa que fala que Pelotas “É polo exportador de viado”, nas mesmíssimas condições, achando que não está sendo filmado, também merece críticas com a mesma ênfase e, por simetria, merece ser destituído do seu local de trabalho, ainda mais quando seu cargo é reger uma nação inteira. Ou não? Waack é de direita declarada, isso não deve interferir na reprovabilidade do seu ato. Mas quando Lula vazou vídeo do Lula dizendo esta belezura de um grupo historicamente marginalizado, não apenas não foi execrado pela opinião pública (todo mundo encarou como “uma brincadeira”) como ainda foi recompensado com a Presidência da República.

O que caralhos está acontecendo com este país? Sempre foi uma Terra de Hipócritas, mas agora está passando de todos os limites! Não há sequer constrangimento ou preocupação em disfarçar a falta de coerência. Lamentável.

Para dizer que isso que fizeram com Waack foi coisa de preto, para dizer que nós somos racistas ou ainda para dizer que brasileiro só é coerente quando isso lhe é cobrado: sally@desfavor.com

SOMIR

Com o importante do caso já dito pela Sally, eu quero levar este argumento um pouco mais longe: não podemos mais deixar o racismo correr solto nesse mundo. Justo. Excelente objetivo e tudo mais… mas como exatamente pretendemos chegar nesse resultado? Até poucas décadas atrás, não havia nenhuma consequência negativa clara para alguém que tornasse público uma visão racista, então a não ser que você já tivesse aprendido o certo em casa ou que convivesse com um número suficiente de pessoas que tinham esse tipo de compreensão do mundo, não havia muita repressão ao comportamento. Isso era e ainda é um problema.

Quanto mais atrasada uma sociedade, maior a possibilidade do comentário racista nunca ser confrontado. E quando finalmente o é, soa como uma “falha na realidade”, algo que confronta a noção de realidade de uma pessoa. Por sermos criaturas baseadas em padrões para o aprendizado, a quebra é desconfortável e tende a ser a ser tratada como uma experiência negativa. E é aqui que tomamos uma decisão complicada: queremos reeducar quem perpetua o racismo ou queremos satisfação imediata?

Satisfação imediata é tão tentadora… tanto que é o método escolhido no mundo de hoje. William Waack é só mais um exemplo. Foi pego dizendo algo errado e virou vidraça imediatamente. A forma de lidar com a situação já se tornou clássica: ofensa coletiva da internet e pedido da cabeça do vilão da vez. A tática de exigir demissão ou afastamento é uma das mais populares atualmente, até porque não depende de lei alguma para exercer uma função vingativa contra a pessoa: a empresa se sente pressionada na sua imagem e nos seus ganhos financeiros futuros e se afasta daquela pessoa.

Para quem se sentiu ofendido (mesmo que por tabela, só para se sentir especial) com a situação, é uma satisfação bem imediata. Pessoa fez algo que ela não gostou, pessoa pagou um preço altíssimo. Perder o emprego é um baque considerável para a maioria das pessoas. É quase como se conseguissem jogar pedras no outro através de uma tela! Toda a diversão do linchamento sem o esforço de capturar o vilão e se locomover até o local. Não era difícil imaginar que evoluiríamos nesse sentido, a tecnologia realmente se especializou em tornar mais cômodos nossos desejos primais. Desde que o mundo é mundo o ser humano se amarra num apedrejamento público.

Mas aí voltamos àquela escolha entre reeducar e satisfação imediata. Jogar pedras pode ser mais divertido, mas gera um grande problema numa sociedade onde, repito, não havia repercussão negativa para o mesmo comportamento até então. O que o apedrejamento faz com o senso de padrão de quem falou algo racista? Pode, pode, pode e de repente destrói sua carreira. Mudanças repentinas de padrão nos deixam desorientados e assustados. Tem que haver um tempo para adicionar aquela informação na cabeça e remontar toda uma realidade com ela.

E como fazer isso no mundo de hoje? Como ter esse tempo? Com tanta gente com pedras nas mãos, a única coisa que vamos conseguir no curto prazo vai ser uma divisão ainda maior entre aqueles que já tem noção do que não se deve mais ser dito em prol de um futuro melhor e aqueles que ainda nem entenderam direito o que mudou. Passamos rapidamente de uma realidade onde todo mundo tinha que ficar se desculpando para uma onde não dá tempo nem mais disso. Não tem adaptação para a pessoa, que tirando casos extremos só está falando uma merda que cresceu ouvindo sem entender as implicações. E sem adaptação, o máximo possível é calar a voz dissidente.

O que soa totalmente errado para aqueles que também tem o costume desses comentários racistas, mas não foram jogados no meio da praça ainda. Cria-se um novo padrão, esse com tempo de fermentar: o de que estão caçando pessoas semelhantes e que ele pode ser a próxima vítima. Sei que pra muita gente isso é um “bem-feito” depois de tantos anos de abusos, mas correção de curso social não se faz com passionalidade, e sim com frieza e método. Estamos entrando numa fase onde o erro não pode ser corrigido, internalizado ou analisado de qualquer forma.

Falou algo errado, falou algo que foi entendido errado, ou alguma minoria resolveu inventar algo errado no que você disse? O tempo das desculpas e das explicações acabou. Vai ter uma turba enfurecida nas portas da sua vida online, e tudo vai depender do tamanho dela. Se você for capaz de segurar o tranco, eles só vão parecer pessoas raivosas e intolerantes. Se você não tiver força para aguentar a tempestade, vai se sentir desproporcionalmente punido. E não são só os ativistas de internet que vão estar vendo isso, outras pessoas vão ficar com medo de cometer um erro e não ter mais volta.

Como estamos reeducando qualquer pessoa assim? Não dá tempo de melhorar, vira pária instantâneo. Esse tipo de reação emocional descontrolada é só mais um dos motivos pelos quais outros malucos do lado oposto estão ganhando força. Quando as pessoas tem medo de algo que não tem sequer tempo de entender, elas se sentem ameaçadas independentemente do que fizerem, e adivinhem só quem oferece uma proteção?

Para dizer que estou monotemático (calhou), para dizer que o tempo de educar já passou, ou mesmo para dizer que não é ok ser racional: somir@desfavor.com

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Comentários (6)

  • Que bom que vcs endereçaram mais esta histeria punitiva hipócrita, Sally e Somir! Um horror tudo isso, o BM hipócrita procurando motivos para parecer bonzinho no lackry e nas causas sociais que ignora no dia a dia. Aqui na Baêa, vejo direto comentários escrotos sobre judeus, portugueses, negros, mulheres e outras classes de pessoas, e ninguém pisca o cu uma vez. Mas basta alguém mais famoso – de preferência, que critique o petê como Waack ousa fazer – ter áudio (ruim) vazado de um ano atrás para começarem o auto de fé virtual por parte dos mesmos que falam coisa muito pior no dia a dia. Uma coisa que sempre observei desde os tempos do finado orkut: O BM é um povo muito imaturo pra debater. Muito mesmo. Idéias contrárias não são aceitas e rechaçadas de forma super grosseira, discordância vira iminizade na maior facilidade (no melhor estilo criancinha com o coleguinha da escola, fica “de mal”). Recentemente descobri que uns contatos me excluíram do foicebook pelo fato de ousar dar minha opinião a respeito do homem nu com crianças no museu -enquanto que eu mesma tenho amigos favoráveis a ela que são pessoas queridas, que estimo muito e não ligo que discordem de mim. Chocante como a imaturidade chega a este ponto, excluir gente boa que acrescenta por causa de políticos e outras pessoas que sequer sabem que existimos. Um povo assim nunca vai evoluir, não enquanto este tipo de comportamento for a norma.

  • William Waack se fudeu pra valer. Até evito passar pelo Facebook quando polêmicas desse tipo acontecem porque ver o povo pagar de bonzinho do tipo “ui, olha só como luto por um mundo melhor pedindo a cabeça dessa pessoa” dá nojo! Eu tenho pena dessa geração mais velha, pois muitos deles ainda acham que estão imunes à histeria dessas militâncias aí!

    Vale lembrar que aquele repugnante do Zé de Abreu, depois de dar uma cuspida em um casal num restaurante, ainda ganhou uns 10 minutos no Faustão pra chorar as lágrimas de crocodilo dele e se “””desculpar”””. Já o Waack, como não é da “panelinha do lacryyy”, ganha só o afastamento e talvez a própria demissão.

    Mas no Brasil reina o “dois pesos, duas medidas”, né?

    • Não tem empresa mais racista e machista que a Globo. Por décadas toleraram todo tipo de racismo e abuso contra mulheres. Agora se dizem indignados e demitem o cara posando de éticos. É revoltante.

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