“Desidolizado”

Em 2012 fizemos um Processa Eu do Anderson Silva, e, desde então, ele só nos dá alegrias, em especial a alegria de ficar repetindo “não disse?”. Pois é, esta semana ele foi flagrado mais uma vez no doping.

Faz tempo que Anderson Silva não faz boas escolhas na sua vida. Faniquiteiro, bravateiro e arrogante, conseguiu a proeza de “desidolar”, algo raro no Brasil, onde pessoas do porte de Lula fazem todo tipo de cagada e deixam e não deixam de ser ídolo. O brasileiro consegue fazer uma ginástica mental e distorcer qualquer coisa para não admitir que se enganou e que aquele ídolo não merecia sua admiração.

Anderson Silva é, na minha opinião, o caso mais claro de pessoa “desidolada” dos últimos tempos. Se era herói em 2012, cativando uma torcida similar à da seleção brasileira, aos poucos foi fazendo merda por cima de merda, até chegar ao patamar em que está hoje, onde um escândalo de doping rende apenas uma notinha e ninguém se importa.

Em 2013 ele fez uma luta cheia de deboche e arrogância contra Chris Weidman e acabou nocauteado. Ok, brasileiro perdoou. Achou que foi um erro, mas continuou na torcida. Muita gente o defendeu acusando o público de ser interesseiro, afinal, Anderson sempre teve o direito de ser arrogante quando ganhava, mas quando perdia era recriminado por isso.

Ainda em 2013, pediu uma revanche contra Weidman e tivemos aquele lastimável episódio da perninha de quiabo. Em um chute muito do mal dado, Anderson partiu sua perna ao meio de uma forma que dá agonia de ver até hoje. Parecia a ponta de um lápis quebrando. Novamente, o Brasil prendeu a respiração mas apoiou, mesmo quando ele insistiu em voltar, após uma longa recuperação e com uma idade avançada para o mundo dos esportes.

Mais de um ano se passou e ele retornou no que seria sua volta por cima, seu exemplo de superação, em uma luta contra Nick Diaz. Foi uma luta medíocre, mas ele venceu por pontos, segundo decisão dos juízes. Ok, não era aquele impacto esperado, mas era uma vitória. O Brasil comemorou de forma mais tímida. Só que dias depois da luta Anderson enfrentou acusações de doping.

Ele negou. Quando não teve mais jeito, quando estava mais do que provado, ele deu vexame no julgamento dizendo de forma completamente inapropriada e passivo-agressiva que este doping foi causado por estimulantes sexuais. Imediatamente surgiram muitas piadas com o evento em redes sociais.

Por causa deste doping ele ficou suspenso um tempo. Em seu retorno, perdeu em uma luta contra Michael Bisping e fez feio alegando que a luta foi roubada, que os juízes estavam comprados e etc. Mau perdedor. Resolveu que se superaria e aceitou uma luta relâmpago com Daniel Cormier e, obviamente, perdeu.

Estes são apenas alguns dos vexames que ele vem protagonizando. Para fechar com chave de ouro, estava escalado para lutar em um UFC na China, mas foi novamente pego no doping. Reparem que todo mundo cagou baldes. Não rendeu ataques, não rendeu textão defendendo, não rendeu nem ao menos problematização racial. O brasileiro largou de mão Anderson Silva, em um misto de desprezo e impaciência. Ele conseguiu a proeza de, em uma época de carência de ídolos esportivos, ser rejeitado/ignorado.

Entendo que uma pessoa que faz tanta merda merece isso mesmo, e que bom que “desidolizaram” Anderson Silva, o que me chama a atenção é que outros fizeram mil vezes pior e ainda tem defensores, inclusive no mundo dos esportes. O que teria causado a “desidolização” do Spider-Broxa? Talvez o segredo para começar a tentar “desidolizar” babacas resida aí. Algumas teorias me vieram à cabeça e queria a opinião de vocês.

A teoria de que ser broxa faz brasileiro perder o respeito tem seu fundamento. Um país onde se mede o respeito pela sexualidade de fato é capaz de desmerecer uma pessoa que não possa performar sexualmente conforme o esperado (ou bravateado pela maior parte da população). Em um país que não tem nada muito significativo para oferecer em matéria de intelecto, é normal que se meça mérito por testosterona. Todo mundo quer distância de broxa, vai que presumem que a pessoa é broxa também se ela tiver alguma compaixão pelo paumolenga?

Também cheguei a me perguntar se não seria pela onipresente arrogância do rapaz. Muita gente faz merda e depois se desculpa, pose de humilde ou se faz de vítima apelando para algum grupo que a proteja. Brasileiro não lida bem quando as coisas saem desse script. Não que Anderson seja correto, honrado e íntegro, é um babaca como tantos outros que fazem merda e não assumem responsabilidade de cara limpa, ele apenas segue um caminho babaca diferente do que as pessoas estão acostumadas.

Pode ser que falte nele um perfil mais midiático de rede social, onde ele possa cultivar a idolatria desse povo bunda. Não deve ter muita graça idolatrar que não posta foto do que comeu, no espelho do elevador ou ao acordar na cama. Quem não faz da própria vida uma novela de evasão de privacidade a ser seguida pode mesmo acabar sendo penalizado com desinteresse depois de alguns escorregões.

Também pode ser pela sequência de derrotas, afina, para o brasileiro, não importa se é honesto ou desonesto, desde que seja bem sucedido. A partir do momento em que a pessoa passa a ser mal sucedida, um fodido como todos nós, ela ganha status de igual, perdendo assim a condição de ídolo e virando automaticamente piada, algo que eu chamo de Efeito Rubens Barrichello. Algum grau de derrota se tolera, mas uma sequencia de vexames ladeira abaixo não merece plateia, afinal, se é para ver isso, basta olhar para a própria vida.

Fato é que mesmo pertencendo a uma “minoria” (negro de origem pobre) o brasileiro virou as costas para ele sem dó nem piedade e eu estou sem conseguir entender muito bem os motivos. Enfim, é um texto mais de reflexão do que de respostas.

Gostaria da ajuda de vocês para entender por qual motivo Anderson Silva, em um evento raro na sociedade brasileira, foi “desidolizado” por algumas pisadas de bola muito menos graves do que as de um bando de manés que ainda são ídolos. Talvez essa resposta seja um primeiro passo para começar um movimento para “desidolizar” outros panacas.

Para dizer que nem ficou sabendo desse doping, para dizer que nem sabia que Anderson Silva estava vivo ou ainda para dizer que tem mais o que fazer do que pensar nisso: sally@desfavor.com

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Comentários (10)

  • O esporte ainda é (ou deveria ser) mais limpo que outras áreas. E não tem muita escapatória…. O Lula, pego com a boca na botija, diz que não era ele, se prova-se que era, diz que foi pra ajudar o país… No esporte o doping, a trapaça, é quase inescapável. É sentença de trapaceiro. Reincidente então… O Anderson nunca foi o “cara” pela projeção de seu esporte. Era um grande vencedor que virou um produto mediático, maior que o esporte. Ao se revelar um trapaceiro, é renegado pelo esporte e descontinuado como produto de midia. O não se importar demais, o fato de a Globo não ter o convidado para se explicar no Fantástico tem a ver com a exposição natural do MMA, que é esporte de nicho, e com o fato de que o produto de vendas Anderson, já não importa à midia.

  • Innen Wahrheit

    Oi Sally,

    Eu costumo acompanhar os eventos e notícias sobre o UFC (só por diversão mesmo, não faço juízo algum sobre quem é ou não fã, até porque não me considero um), e acho que o que aconteceu com a reputação do Anderson foi simplesmente consequência da falta de “resultados”- cada defesa de título que ele fez era vendida aos brasileiros como a defesa da imagem do país (em outras palavras, vê-lo lutar talvez fosse mais interessante quando “valia alguma coisa”), e quando ele deixou de ser o campeão, as pessoas deixaram de ver potencial nele devido à idade e ao baixo desempenho (sem falar na relevância) das lutas seguintes.

    A impressão que dá é que o fracasso (ou o que parece ser), seja qual for o contexto, é muito mal visto pelo brasileiro médio – e somando-se a isso a dificuldade de manter-se em evidência no UFC sem boas lutas (bater em cachorro morto não rende PPV), a queda do Anderson não foi tão diferente do outros ex-campeões já vivenciaram.

    • Ronaldo amargou um monte de derrotas, inclusive um episódio muito pior do que doping, e todo mundo continua admirando ele. Como explicar?

      • Jogador de futebol que já foi eleito o melhor do mundo algumas vezes e fez o heróico ato de voltar para o Brasil para defender o Curintcha.

        Sério, o Anderson só foi um pouco forçado por aqui porque o Brasil estava meio carente de um herói nacional dos esportes. Agora que o Neymar virou o menino de ouro, voltamos à programação normal.

  • Wellington Alves

    Com exceção do futebol, o brasileiro só torce pra quem ganha. Enquanto Anderson Silva estava despontando como um brasileiro campeão internacional, o povo queria se identificar com ele. Isso acontece em várias outras modalidades. O caso das olimpíadas é o mais emblemático. Ninguém se interessa por vôlei, natação, judô, atletismo e etc, mas quando um brasileiro, a duras penas, juntando moedas de patrocinadores para treinar, consegue se aproximar das finais, o Brasil acompanha de perto e parece até o país do judô, do atletismo… Depois esquece.
    Voltando ao Anderson Silva. Enquanto ele vencia estava tudo ótimo, bastou quebrar a sequência de vitórias para que o povo o criticasse. Como o Anderson não era o único brasileiro ben sucedido nesse esporte, logo os brasileiros trataram de voltar seus olhos para outro que estivesse em melhores condições de trazer a alegria da vitória.
    O brasileiro se fode tanto que vive buscando heróis que possam lhe representar numa vitória, sobretudo internacional. É o fenômeno que o Lobão chama de: gozar com o pau dos outros.

    • Mas como explicar tanta gente defendendo fracassados como Freixo, Preta Gil e outros que fizeram feio em suas profissões?

      • Wellington Alves

        Aí já entra uma questão ideológica. Você acha que a preta Gil faria sucesso se não fosse filha do Gilberto?
        Aliás, esses artistas de MPB vivem numa bolha Que se retroalimenta mas que uma hora vai acabar.

          • Wellington Alves

            Verdade, não faz mesmo. Acho que o termo certo é fama. Eu mesmo não me lembro de ter ouvido alguma música dela até hoje. É sério! Se colocar uma música dela pra eu ouvir, valendo R$1000 se eu falar quem está cantando, não saberei.

            • As ponderações do Wellington são muito pertinentes. Saindo um pouco do tema central da postagem, tirando a citação do Bobão (um dos piores favelados mentais do baixo clero de pseudo-artistas ostracizados tupiniquins), é mais do que certo que MPB é TUDO, menos música: é ideologia equivocada, é esquerdismo de boutique, é engajamento panfletário exercido na comodidade das coberturas do Leblon, é vitimismo, é mediocridade… mas como bundil é um “país” sui generis, tudo isso funciona bem aqui. MPB é o altar inacessível de uma religião de sectários em permanente belicosidade.

              Nesse contexto, é realmente notável a desidolação do Silva. Mas eu creio firmemente na capacidade do BM de fazer merda e não acredito numa desidolação permanente. Esperem e verão ele fazendo sucesso daqui um tempo como rapper marginalizado e revoltado, no melhor estilo D2, Planet Hemp, aqueles caras lá do “lado A, lado B, lado B, lado A”, sasporras aí! (pois até o Frota anda fazendo sucesso como “intelectual” – cof, cof!)

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